(Ao leitor)

Este romance não mira aos applausos da galeria. Tão pouco prima, nem pelo complicado do enredo nem pelo difficil das situações. São capitulos singelos, estes, que acabam de lêr-se, só pela arte inspirados e por amor d'ella concluidos.

E a arte é a verdade.

Por muitos hão de estas paginas ser aborrecidas. Por muitos hão de ellas ser odiadas. Nada importa. A consciencia acima de tudo.

Entendeu o auctor que era sobre tudo descriptivo o romance moderno, profundamente descriptivo, cheio de analyse, critica, de bom-senso e da naturalidade; de pouco dialogo e de muita observação; havendo todo o escrupulo em pôr de parte o devaneio, na dissecação dos homens e das cousas.

Ao ideal d'este livro presidiram, pois, as realidades presentes e passadas. O typo da Viscondessa, atraz esboçado, poderá não agradar a todos, é verdade; mas é, no entanto, um typo real, perfeitamente real. Uma mulher ingenua, simples, caprichosa, sacrifica o seu coração, a sua tranquillidade, o seu amor a um elegante rapaz, filho dos restaurantes, e, como os restaurantes, viciado e corrupto. D'aqui a perdição da heroina e o triumpho do galã.

Outro tanto succede com a figura angelica da aldeã. Victima do confessionario, cahiu, andorinha ferida, a quem roubam o ninho e os filhos; sedenta de prazer, resvalou no abysmo.

Alfredo, se bem que generoso e sympathico, é, todavia, um moço perdido, alucinado pelos vinhos e pelas grandes ceias, incapaz de conceber outros pensamentos que não sejam o da sua indolencia e o do seu bem-estar. Acaba porisso como, naturalmente, devia acabar--nas costas d'Africa.

O contrario quasi se dá com Julio. Trabalhando, vence os escolhos da adversidade; convivendo com o mundo, torna-se como o mundo, calvo na corrupção e no cynismo.

E muito de proposito, pois que não fallo aqui na mãe e na esposa, dediquei este livro ás boas mães e ás boas esposas: ás boas mães, para que sejam esmeradas na educação das filhas, e ás boas esposas, afim de que saibam estimar a virtude, como a primeira e a mais indestructivel de todas as riquezas.

A maternidade é uma fonte de boas acções. Quem sabe se foi este o defeito da Viscondessa e de Cecilia? O santo amor de mãe despertaria incontestavelmente n'estas duas mulheres outros mundos muito diversos que não os da imaginação e os do capricho.

A logica não foi, pois, sacrificada. Antes pelo contrario temos fé em que será ella a gloriosa redemptora d'este enormissimo peccado.

Coimbra,
4 de Fevereiro
da 1874

O Auctor.

FIM.

[INDECE]

Pag.
[Dedicatoria][5]
Cap.I[Um baile][7]
«II[A senhora Viscondessa][13]
«III[Alfredo][25]
«IV[Contrastes][37]
«V[No restaurante][45]
«VI[Sem sahir do mundo][53]
«VII[Entre amigos][59]
«VIII[De passagem][65]
«IX[Pobreza e miseria][71]
«X[Cousas dos homens][79]
«XI[Na taberna][85]
«XII[Perigos e consequencias][91]
«XIII[Continuação][97]
«XIV[Novos mundos][103]
«XV[Primeiros amores][107]
«XVI[Transformações][113]
«XVII[Allucinações][119]
«XVIII[O escudeiro da senhora Viscondessa][125]
«XIX[Falla o coração][133]
«XX[Casa burgueza][139]
«XXI[Considerações][143]
«XXII[Um hospede][149]
«XXIII[Transição][155]
«XXIV[Confidencia][161]
«XXV[Mais confidencias][165]
«XXVI[A Viscondessa][171]
«XXVII[Digressão][170]
«XXVIII[Ainda a Viscondessa][183]
«XXIX[Indecisões][189]
«XXX[Glorias do operario][193]
«XXXI[O que faz o talento][190]
«XXXII[Vestigios e ruinas][203]
«XXXIII[Causas e motivos][209]
«XXXIV[Latet anguis][213]
«XXXV[Critica][219]
«XXXVI[Toldam-se os horisontes][223]
«XXXVII[Uma victima][229]
«XXXVIII[Julio feito barão][233]
«XXXIX[Denuncias e suspeitas][237]
«XL[No hospital][243]
«XLI[Sorrisos e lagrimas][247]
«XLII[Tableau][251]
[Epilogo][253]
[Post-scriptum][255]