I

As cabras e as ovelhas, iam a meia encosta, todas n'um carreiro, como formigas. Tinha sido longa a noite d'abstinencia no curral e pelo caminho, ás furtadellas, aboccavam as hervagens avulsas, ruminando-as sofregamente. O Rabicho, sempre adiante, como explorador. Vivo e esperto, n'um relance conheceu a impaciencia da Tonia, por não andar mais depressa. «Lá p'ra riba, cão!»—gritára-lhe a pastora, e logo elle subiu a um penedo, deixando passar todo o rebanho, que depois impelliu para a frente, com duas boas torquezadas de seus dentes. Os animaes correram á porfia, vencendo-se uns aos outros. A rapariga ficou distanciada, a fiar a sua lã, cuja tarefa, para um dia, levava na abada junta com o presigo. E para não auctorisar novas investidas do rafeiro berregou-lhe de novo: «Tó, dianho! tens muito dente!...»

N'esse dia, encaminhava-se ella para o Guidon. Perto de lá, na bouça de João-Paz, deixára escondida a tigela das sopas de leite. No caminho encontraria o Chico, pastor seu amado, e ambos juntos e unidos iriam espreguiçar-se por baixo das fragas ou no interior dos frescos giestaes. O Guidon, quando o maio é soalheiro e formoso, tem as melhores pastagens dos arredores. O tojo, nos sitios onde se fez queimada, borbulha, tenro e verde, como herva nos lameiros. Os gomos d'urze parecem microscopicos pampanos. O rosmaninho, o trevo, o rico e nutriente feno desabrocham em aromas e enfeitam a serra. Leite filho d'estas plantas silvestres, delicadas e cheirosas, é o mais gostoso e substancial. Por isso, ao pasto das terras baixas e frias, que não sobeja da boiada, n'esta épocha de lavradas, é preferido o dos pincaros, alegres e soberbos. Coisas da bruta experiencia, que os seculos teem garantido.

Chegado o rabanho ao sitio onde na vespera o lobo roubára um timido cordeiro, a ovelha-mãe, na expressão de saudade, balou dolorosamente. Ao longe respondeu-lhe a voz tremula d'outra ovelha, como se fôra um echo. A pastora logo correu ao alto para alcançar mais com a vista. Imaginára estar p'r'áli aquelle a quem se votara. Ia ser um dia festival, ao encontrarem-se na suprema mudez da serra, protegidos do calor á sombra dos piornos, contemplando-se n'um vago absoluto. Em taes momentos accelera-se a imaginação; os ouvidos inattentos ensurdecem; a mente fica-se n'um pasmo; o mundo figura-se um lago tranquillo e morto; o azul do céo, onde se perde a vista, é d'um ferrete insondavel; o coração bate forte e rapido, como um bom potro, galopando solto na campina!...

Porém, o que veria a Tonia de suspeito e desagradavel?! A expressão do seu rosto suave e louco, carregou-se de sombras; o gesto foi de arremesso e contrariedade; os olhos faiscaram de subita colera!...

Ah!... Em vez do Chico, appareceu-lhe o outro, o Russo, um grande e forte, de cabellos vermelhos e physionomia diabolica. Coruscava-lhe a vista inquieta, pequeninas sardas picavam-lhe a pelle, a cabeça era uma tormenta de fogo!

Quão differente o seu namorado, rapaz franzino, d'aspecto juvenil, rosto comprido á Nazareno, cabellos negros e mal cuidados, formando sobre a fronte um tufo revolto d'anneis. D'aquelle todo sahia a expressão que a enlevava; da expressão desdenhosa ou indifferente a superioridade com que a submettera; das palavras simples, a musica dos seus ouvidos e da sua alma inteira. Como era bello e encantador de costas sobre os penedos, a contemplar o céo n'um sonho de poeta! Como era amoroso e vago, quando tocava na flauta, coisas que não aprendera com viv'alma!

O Russo decerto lhe queria com mais gana, com mais aquella, bem lá do fundo. Ao enxergal-a, desabrochando com a aurora no alto do monte, como subita e incomparavel flôr, todo se alvoroçou. Nos olhos e em todo o rosto mostrou um pasmo tonto, um riso sem valor, como aconteceria ao cego, cuja retina morta sentisse inesperadamente a gloriosa illuminação do sol. Correu para a abraçar no primeiro impulso; mas logo estacou contemplou-a a distancia. Ella, no alto onde se quedara, de roca á cinta, o lenço claro apanhando-lhe os cabellos, o recorte da sua figura desenhando-se no ar, era a pastora das lendas, calma e prophetica. O Russo percebendo o animo hostil com que a Tonia o recebia, accendeu-se-lhe n'alma a raiva e o ciume:

—Querias ir só com o outro? Não, que não!...

—Bem se me dá...—retorquiu desdenhosa. Tempo perdido, meu rico!

—Que lh'achas tu? Um lesma, um gomitado. Cá, sou um home. Elle...

A Tonia espertou-se:

—Mal comparado! Tu és um diabo, um porco bravo. Estafermo! Elle é lindo como um anjo do céo!

A furia do Russo cresceu:

—Sou capaz de o esborrachar na unha, como um piolho, demonios me nunca levem!

Tinha lagrimas de raiva, ao pronunciar a jura. Era paixão antiga e abrazadora. Desde os quinze annos, ainda aquelle corpo de rapariga era como um castanheiro novo, já elle a via constantemente na transparencia dos luares outonaes. As moles graniticas, penduradas eternamente dos pincaros, e resequidas pelo sol d'um infindavel agosto, não teriam mais firmeza, nem mais calor do que elle. O ciume era no seu corpo um moer lento e occulto, tal o fogo que mina a urze escondida na terra para a transformar em carvão. Condemnado por aquella repulsa constante, sentia-se desprezivel e desejava morte, em que soffresse muito. Comtudo não podia despegar a propria vida d'aquelle sonho malaventurado. Em presença da Tonia, a natureza ruiva e colerica aloirava-se-lhe n'uns cambiantes meigos e suaves. O mais tenro anho das suas ovelhas, não tinha para quem o aleitava tanto carinho e agradecimento, como elle mostrava áquella rapariga, n'uma submissão de coisa bruta. Comtanto que o amasse, se a sua vontade d'ella fôra vêl-o apodrecer no fundo d'uma córga, para ser alimento das aguias e corvos, ir-se-hia lá deitar voluntariamente e nunca mais comeria! A preferencia pelo outro é que o humilhava na sua consciencia de homem forte e magnifico. Quedava-se a scismar de noite no que teria de superior, esse engelhado, tão magro e pequeno como uma lavandisca. O corpo não, que o seu era grande como uma torre e devia inspirar sentimento de força. A paixão que lhe refervia lá dentro, longe de ser mollanqueirona, mostrava-se vehemente e feroz, tal a das lobas a defenderem os filhos. Aquella rapariga airosa, divina imagem de qualquer santa, voz musical como a dos passaros, tranquillo olhar como o da lua, aniquilava-o com a sua nervosa malquerença. Até ahi, nada a pudera abrandar: nem lagrimas soluçadas de bruços sobre os penedos; nem supplicas mais ferventes do que orações; nem juras e promessas inabalaveis como o céo. Diante das vontades e caprichos da pastora, era humilde e cego. Quantas vezes lhe ficára com a rez, para a deixar correr monte, talvez á procura do outro?! Quantas vezes lh'a fôra buscar ao curral e lh'a apascentara durante dias, para que ella fosse ás romarias, com os ranchos que passavam?! Até sacrificava o seu rebanho, pois dirigia o da Tonia para as melhores pastagens. Se tinha leite novo, logo lh'o offerecia como um presente; se encontrava tortulhos assava-lh'os e ella comia-os: para que não bebesse agua dos ribeiros, onde ha porcarias e animaes mortos, ia-lh'a buscar longe, trazendo-a na sua tigela, escrupulosamente lavada, como para uma rainha. Quando a Tonia acceitava de boa cara estes serviços, já o Russo se entendia muito bem pago. As recusas ou o mau modo, é que eram fundos golpes no seu torvo coração.

Vivia uma vida negra e de sobresaltos continuos. Passavam-lhe incendios diante dos olhos e a sua imaginação ficava a trabalhar em desassocego. A fatidica Pedra-suspensa (essa antiga ameaça!) parecia-lhe, ás vezes, que se ia desprender lá do alto, rolar pelos montes e destruir o mundo inteiro! Oh! visão amedrontadora de todas as existencias!... Só para a afastar, quantas vezes elle consentira o Chico deitado ao lado da Tonia! A moça fiava a lã da tarefa, cantava ou escutava-o enlevada. O magricellas, o ninguem, de papo para o ar, não tratava da rez. E o desprezado é que fazia o serviço de todos, guiando caridosamente as cabras e as ovelhas para a sombra das ramadas nos grandes calores, e á bebida antes de as recolher. Viviam assim pelos montes, perdidos entre tojaes e piornos, dormindo no verão debaixo das lapas e dos azevinhos. Havendo satisfação reciproca, tambem gostava de ouvir o tocador de flauta, que sabia muitas modas tiradas da sua cabeça. Era feliz nos momentos em que morava longe o ciume, isso a que não sabendo dar o nome, lhe queimava o peito, como tição ardente. Esquecia o desamor da Tonia n'essas horas gastas em somno tranquillo. A vida era visão suspensa dos ramos dos carvalhos, ou fluctuava brandamente como as folhas outonaes ao sabor d'um murmuro vento. Não havia quisilias, só desejo de felicidade, socego e gozo, em ventura calypsiaca. Raramente, porém, se passavam dias assim completos de ventura!...