II

Havia muitas pessoas na freguezia que se lembravam da partida do filho do Miguel. Era um rapasinho carinhoso, serviçal e bem comportado. Delgado de corpo, tez morena, sorriso sempre conformado, fazia gosto vel-o ajudar á missa; porque procedia com grande promptidão e esmero. No caracter era a mãe, sempre boa e humilde; no desembaraço o pae, sempre agil e resolvido. De quatorze annos não havia, por ali, outro para mandar á villa n'uma pressa de chamar o medico ou buscar um remedio. Quer fosse de dia ou de noite, quer os caminhos estivessem cheios de neve ou de lama, o Luiz nunca se escusava, nunca procurou uma desculpa. Nem o medo do lobo, nem o das trovoadas o impedia de ser prestimoso. Miguel todo se ufanava com este brio do rapaz, e com a atmosphera de sympathia de que o via cercado. E quanto a estudo? Isso dizia o mestre que nenhum lhe levava a melhor nos desafios á taboada, e na doutrina. Até era uma pena não ser possivel ordenal-o em Braga, para um dia vir ali dizer uma missa nova, e verem-no do pulpito lançar a voz da religião. Porém, o Luiz, ainda que o podesse conseguir com esmolas, lá para essa vida de padre não o chamava a inclinação e toda a sua idéa era embarcar, para tirar seus paes da pobreza em que viviam e da labuta constante em que se amofinavam. Apesar do Brazil ser a commum ambição da gente d'aquella provincia, isto não tinha prognostico favoravel das pessoas que lhe conheciam o genio perdulario, o gosto que fazia, já em creança, em dar tudo que possuisse. Um pedaço de pão e presigo com que lhe pagassem qualquer serviço prestado, logo o repartia com os rapazes da sua egualha, ou com algum pobre que encontrasse, ou mesmo com qualquer cão esfomeado que estivesse a olhar para elle quando comia. E não era porque em casa lhe sobrasse, pois Miguel, n'esse tempo, tinha mais tres filhos vivos e era elle só a trabalhar, moirejando nas terras que são ingratas para compensar o esforço rude do homem, que só tem a sua enxada para as servir. Estava na indole de Luiz dar tudo, repartir com quem quer que fosse. O coração não lhe soffria o possuir coisa de que os outros não compartilhassem. Os unicos motivos de zanga de sua mãe para com elle, vinham de conhecer que lhe roubava pão para os pobres que passavam, quando ella não tinha bastante para si.

—Tu és tolo, rapaz!—reprehendia-o. Vês que esta fornada me não chega até á outra, e tiras-me a brôa da masseira! Olha que ainda podes andar como esses mandriões de pedintes, que só tem por seu mal, não se quererem achegar ao trabalho.

Luiz ficava triste, por, a santa creatura que era sua mãe, não comprehender o intimo goso que elle sentia em fazer bem. Amargurava-o esta idéa, pois não admittia maior consolação do que a de dar, mesmo aos que não tivessem necessidade. O rosto de agradecimento que os beneficiados faziam ao receber, era o premio unico a que aspirava. Mas havia mais alguma coisa n'este animo dadivoso: era o pouco geito de possuir em proprio, o que quer que fosse. Angustiava-o a preoccupação de guardar. Viver sempre na abstracção, na inconsciencia do que valem as coisas materiaes, era a caracteristica do seu coração. O prestar serviços sem idéa de interesse ou recompensa completava-lhe a indole bondosa. Sua mãe estava sempre a prégar-lhe:

—Nunca hasde juntar coisa que se veja. Como é que tu queres ir para o negocio com esse genio?

E porque assim o entendiam todos na freguezia e os proprios paes, é que muito os maravilhou o receberem, na pobre casita onde os dois velhos moravam e viviam sós, a visita d'um amigo de Luiz, que lhes trazia uma ordem para receberem no Porto uma grande somma de dinheiro—uma somma, para elles tamanha, que os lançava repentinamente na opulencia. Porém, Luiza, ao apparecimento d'esse senhor todo aceiado, já homem grisalho e enegrecido na pelle da face pelas soalheiras dos sertões brazilicos, não se importou nada com a riqueza que elle annunciava e tomando-o como o precursor de seu filho, logo inquiriu:

—E o senhor conhece-o, o meu Luiz? Está um homem assim alto como é o pae? E quando é que o temos a consoar com a gente?

A todas as perguntas o mensageiro respondeu de maneira a arrancar-lhe lagrimas de contentamento. Miguel que, chamado, viera offegante da labuta dos campos, perguntou, primeiro que tudo, em voz meia reprehensiva, mas cheia de coração:

—E elle não tem idéa de vêr a gente antes que nos levem para a cova? A riqueza estimamol-a muito; mas antes queremos a companhia.

O amigo de Luiz enterneceu-se com esta insistencia e consolou os paes fazendo-lhes graciosamente promessas para que não estava auctorisado. O dinheiro enviado era o melhor signal de que o filho os visitaria em breve—disse. Trazia tambem recommendação de lhes lembrar que transformassem a casa de moradia para o receberem condignamente, e de que empregassem o restante na compra de algumas terras, que lhes garantissem uma mediania repousada e sem cuidados.

—Isso—confessou Miguel—até vem a calhar, porque andam em bocca de venda estes bens aqui em redor.

Para designar a grandeza das terras estendeu pela encosta que descia brandamente até ao ribeiro, um olhar commovido, acompanhado d'um gesto de opulencia. Fôra esta a ambição de toda a sua vida. Muitas vezes, só com Luiza, quando junto da lareira comiam o magro caldo da ceia, elle reprimia o prazer que o filho lhes daria se enviasse dinheiro para comprarem aquelles campos, que toda a vida haviam cultivado como caseiros. Era o seu suor d'elles accumulado sobre a terra, que os fazia fructificar e lh'os tornava queridos, como uma parte viva e nobre da propria existencia. Possuir a bella quinta que em volta do seu pequeno eido se estendia, abrir a agua das poças com a arrogancia de proprietario, levantar as videiras com a certeza de que eram seus aquelles braços flexiveis, e ao enterrar a enxada na terra negra e humosa sentir a convicção de que remexia no que ninguem lhe podia disputar, de que preparava o solo para resultados que não partilharia com outrem, era o maior goso que a boa fortuna podia trazer a Miguel. E tamanha commoção os dois manifestaram, na sua mudez, deante do hospede, quando designaram com o olhar essas terras, que o recemchegado perguntou:

—São estes os bens que vocemecês trazem de casa?

—Sim, senhor, aquelles mesmos em que Luiz trabalhou comnosco, indo á soga dos bois, quando lavravamos. Elle falou-lhe n'isto?

A um signal affirmativo, os consortes, choraram copiosamente. Até parecia mal ver um homem sadio e forte, como era então Miguel, limpar os olhos á grosseira estopa das mangas da sua camisa e soluçar com a cara escondida. Porém aquelle contentamento era mais forte do que elle; em coração humano não presumia outro egual. Para se desculpar, perante o amigo de Luiz, ia dizendo por entre lagrimas:

—O senhor não pode comprehender o que isto é. Se soubesse o que me vae cá por dentro... Estou capaz de estoirar de alegria.

O feliz mensageiro sentia-se transitoriamente envolvido na mesma atmosphera de felicidade que respiravam os dois casados. Ligando-os a si n'um só abraço disse:

—O que desejo é que por muitos e largos annos gosem o que tanto amam, e que isto seja na companhia de seu filho, que estou certo se não demorará muito.

Depois combinou com elles a maneira de receberem o dinheiro que estava no Porto, á ordem de Miguel. Para lhes facilitar a empresa já tinha tractado da transferencia da quantia para a villa proxima, onde da mão de negociante honrado podiam recebel-a toda d'uma vez, ou parcelada, conforme melhor conviesse. N'esse mesmo dia, Miguel acompanhou o amigo de seu filho para pessoalmente ajustarem com o tal negociante o recebimento em questão.