II
Simulou-se na Maceira o caso da partida de João para a companhia do tio que tinha no Brazil, tudo com o apparato do estylo: enxoval, despedidas, choros, a sahida do rapaz acompanhado de seus irmãos, e até um telegramma do Porto, que participava o embarque. Fez-se a representação com a maior verosimilhança. O namorado desappareceu da aldeia e falava-se d'elle com saudade e sympathia. Os do Corcovado, acreditando só metade do que viam, principiaram logo a dispor as coisas para o enlace de Maria com D. Bento.
O Manoel, que era o de mais tino, sahiu uma noite a cavallo levando comsigo dois creados só até ao limite da aldeia: ia tractar com o morgado d'Osma de coisas de escriptura e dote; informal-o do que havia e do que seu pae com todos elles tinha accordado. Assentes as bases do contracto com o noivo, que não offereceu difficuldades, pois toda a sua ambição era obter a mocidade de Maria para caldear com a sua velhice, logo se despacharam os dois mais novos, Vicente e José, para irem a Braga tractar secretamente dos papeis do casamento. No entretanto, dentro do Corcovado não se dormia descançado: havia armas promptas, e esculcas de noite no velho casarão. Conheciam bem os da Maceira: sabiam-nos ousados, valentes e até loucos d'audacia. Ainda que João houvesse partido (do que não tinham absoluta certeza), ficavam os outros que eram capazes de armarem uma batalha campal, para garantirem ao irmão ausente, uma desaffronta e uma vingança estrondosa. Dispunham os seus meios de resistencia para se defenderem, ainda que preferiam que tudo se passasse com normalidade e socego. Esconderam, pois, entre si e D. Bento o plano urdido, simularam vida tranquilla e ordinaria, simularam mesmo a crença no descuido dos da Maceira, na partida de João, e já em Braga corria velozmente o processo ecclesiastico com todas as licenças necessarias para em vinte e quatro horas, logo que taes licenças chegassem, se realisarem as nupcias.
Em Braga era tambem onde estava João da Cunha, á espera de aviso dos irmãos, para regressar á aldeia na opportunidade conveniente, e aqui foi avisado por um amigo, de que os papeis andavam em segredo, nas mãos do senhor Arcebispo. Logo comprehendeu tudo e na manhã seguinte, depois de andar duas noites a cavallo, chegou á Maceira, onde entrou tanto a occultas, que só os irmãos e o pae d'isto tiveram conhecimento, pois elle tomara a precaução de despedir o arreeiro com a cavalgadura fora do logar, que atravessou a pé, não seguindo veredas nem caminhos, mas atravessando campos e saltando muros. O que logo ficou assente entre todos foi que Maria não casaria com D. Bento d'Osma, ainda que fosse necessario matarem e morrerem.
A pobre menina, vigiada e guardada, como se sentia, não pôde, durante esses dias crueis, mandar nenhum enviado ao Corcovado. Vivia em grande amargura e afflicção por suspeitar coisas tenebrosas do que em volta d'ella se tramava. O seu amor e a exaltação do seu espirito eram tamanhos, que pensou em suicidar-se, antes que ceder a quaesquer conselhos ou pressão de pae e irmãos, para preferir outro homem a João. Porém era alma juvenil e crente, não podia comprehender que a Providencia divina, e Maria Santissima, de quem sempre fôra tão devota, podessem concordar em tal iniquidade. Ora não querendo Deus e não o consentindo a Virgem, nada podiam os homens—pensava ella.
Os papeis chegaram de Braga ao mesmo tempo que vestidos e enfeites para o dia solemne das bodas, que podiam realisar-se d'um para o outro momento. D'isto foi avisado D. Bento d'Osma, por uma carta, emquanto Maria era chamada á presença de seu pae e irmãos, que sisudos e graves como juizes a sentencear, lhe disseram a resolução em que tinham assente. O pae rematou o longo arrazoado dizendo:
—De modo que tu vaes ser senhora d'uma das maiores casas da provincia e mulher d'um dos maiores fidalgos conhecidos.
—Mas se eu não gosto d'elle, que é um velho e antes quero João da Cunha, apezar de pobre!...
—Tolices dos desoito annos—commentou sarcasticamente o velho. Com esse não te dava eu consentimento, nem com um bacamarte cheio de zagalotes assente no meu peito.
—Pois com outro não caso—disse resoluta e sem lagrimas.
—Isso veremos—disse Manoel, o mais velho dos irmãos. Ainda que tenhamos de te levar para a egreja atada de pés e mãos, has de ir.
—Não será preciso...—acrescentou o Thomaz, pronunciando as palavras com ironia feroz. Irá muito bem a cavallo e nós veremos.
—Carrascos!—pronunciou Maria, cahindo redondamente no chão, rigida como um cadaver.
A este tempo os da Maceira já estavam conhecedores do resolvido matrimonio de Maria com D. Bento d'Osma. Essa informação trouxera-a de Braga o proprio namorado. Mostravam-se, porém, naturaes no trato e despreoccupados do que se passava; mas entre si assentaram o raptar Maria antes do casamento, no proprio acto nupcial, ou até dos braços de D. Bento, se não pudesse ser d'outro modo. Quem os conhecesse bem, sabia que tentariam o supremo golpe, atravez de difficuldades, que outros pudessem julgar invenciveis. Entregar Maria intacta ao irmão era o supremo desejo de Gonçalo, Antonio e Thomé. Porém, vencer, á valentona, todos os obstaculos que os do Corcovado teriam accumulado em volta da desejada rapariga, para que não fosse tocada por mãos impuras, é que não poderiam... Necessario era, pois, servirem se do engenho, primeiro que da força; e tiveram artes de fazer chegar ás mãos da fraca creatura, as palavras animadoras d'uma carta que João lhe escreveu, em que explicava o proposito em que estava. Esse papel foi levado á casa do Corcovado por um pedinte de classica barba longa, curvado e de voz lamentosa quando pedia. Abeirou-se da porta da cosinha, e como fosse desconhecido e significasse vir de longe (talvez de romagem a S. Thiago de Compostella, pois trazia conchas cosidas nos andrajos) as creadas interessaram-se por elle e attenderam-n'o. Vinha esfomeado e friorento; pedia o caldo da esmola e o agasalho do palheiro; como soubesse contar historias e ler a signa, entreteve os creados e ficou por ali coisa de tres dias. Os proprios irmãos de Maria gostaram do pobre e escutaram-lhe os casos; o velho José Pereira, ouvindo-lhe dizer que fôra soldado no tempo dos francezes, que acompanhara o general inglez pela Hespanha dentro, conversou com elle e mandou dar-lhe uma tigella de vinho. Maria, a quem o misero, lendo nas linhas da mão aberta predestinou alegre e risonho futuro, sorriu-lhe no meio das suas amarguras. Foi n'este acto que o pedinte lhe introduziu na manga do vestido a carta de João da Cunha, o que tanto alvoroçou a pobre menina, que só por um milagre de energia não cahiu com um desmaio. Assim ficou ella instruida do plano concertado pelo seu namorado.