II

Os doze annos de Margarida, coincidindo com o domingo de Paschoela, em que se celebrava o orago da capella da casa, foram festejados com demasiada pompa. Quem primeiro lembrou o ajustado d'essas duas datas foi Antonia, e D. Claudina assignalou a importancia do facto, por serem os doze annos a edade que marca a transicção da inconsciencia infantil, para a responsabilidade de quem já repara na sombra. Talvez ambas tivessem o pensamento reservado de pedir a collaboração da santa, com o fim de conseguirem qualquer mudança favoravel no caracter irrascivel da creança!... Tem-se visto milagres d'estes e maiores; nunca se deve desesperar da possibilidade da intervenção do poder divino nos destinos humanos. Posta a questão de assim conseguirem para a alma de Margarida uma correlação de belleza com a do seu rosto, que era, em certos instantes, d'uma belleza seraphica, não se pouparam os paes a larguesas. Formaram plano grandioso: haveria missa a tres padres, com Gloria e Credo cantados por côro escolhido; haveria sermão de circumstancia pregado por qualquer padre de nomeada, que viesse de Braga, onde os ha bons; haveria fogo preso e musica de vespera; romaria e procissão com anjinhos no dia. Isto pelo que toca ao divino: no que diz respeito ao profano, grande jantar com numerosos convivas, uma especie de baile no domingo á noite, que se realisaria na grande sala de ordinario destinada a estendal e armazem das fructas, batatas e feijão, que se guardavam para todo o anno.

Quanto mais se martellava n'isto, mais se estendia e melhorava a primitiva idéa. João da Costa assentou em que, para celebrar condignamente a juncção da festa da padroeira da sua capella com os doze annos de sua filha, devia attrahir muito povo de perto e de longe e por tanto encommendou ao Zé Osti, o mais afamado fogueteiro do Alto Minho (onde se conhecem dos primeiros) um fogo preso chibante! Sabia elle muito bem que sendo conhecido este promenor, não ficariam em casa senão os muribundos; porque até os cegos e paralyticos haviam de concorrer.

Não se enganara: era de vêr como dos campos em lavrada, se levantavam alaridos de alegria no dia em que atravessaram as aldeias visinhas o proprio filho do Zé Osti, capitaneando uma duzia de mulheres, que á cabeça transportavam as diversas figuras e o abundante fogo do ar. Tambem João da Costa se não esqueceu de mandal-os esperar pela musica que tinha contractada, e que á frente vinha annunciando o caso com o estrondo dos seus metaes, tocando grandiosa marcha. A galhardia dos trombones, figles e cornetins, lardeados pelos alegres clarinetes e flautas soprados com alma e coração, e tudo esfuziado por um soberbo requinta que fôra musico do tres de Vianna, formavam um tal conjuncto alegre e ostentoso, adeante dos bombos e pratos, que era de deixar bois, charrua e arado, para vir ao caminho gozar, admirar e applaudir! Tudo merecia a imaginação copiosa e deslumbradora do afamado fogueteiro! As formosas moçoilas que abandonavam, por momentos, as sacholas e vinham acompanhadas dos namorados ver as ricas peças, bem o demonstravam exclamando:

«Olha a chieira d'aquella macaca de chapeu de flôres! Veremos se terá a mesma, quando lhe rebentarem as bombas por baixo da saia de balão.»

«Olha o barbeiro a amolar as navalhas! No sabbado á noite é que as hade amolar depressa!...»

«Olha o janota de chapeu alto, que grande charuto leva na bocca! Aquillo é que hade esguichar fogo, quando lh'o accenderem.»

«E o painel de Santa Margarida cheio de lagrimas de côres á roda! É obra apilarada! Não vêdes gentes, como se parece com a morgadinha?!...»

Do fogo do ar é que se presumiam coisas de espavento, pelo que se vira na passada romaria da Agonia. Então deitaram-se foguetes com cabeças maiores do que as de gente, e houve por momentos receio de que pudessem estremecer e toldar os vinhos que ainda estavam envasilhados, ou aluir qualquer penedo mal seguro! Todos tinham tamanho respeito aos monstros, que o Zé Osti, não encontrando nas localidades homem bastante corajoso para lhes chegar a murraca, nas occasiões se fazia acompanhar por um especial, que tinha o craneo por forma duro e resistente, que não haveria receio de que lhe rebentasse o sangue pelos ouvidos, ou se lhe voltasse a mioleira, se por acaso um dos foguetes não subisse e lhe estalasse aos pés.

Era um sugeito atarracado e musculoso, que para exercer o mister tinha de arroxar o craneo com tres lenços em volta. No intuito de prevenir desgraças esses foguetes gigantes, deitavam-se sempre longe do ponto da romaria, e para agora haviam escolhido o conjuncto especial de penedos chamados o Castello, com o fim de que o estrondo não encommodasse.


Á chegada da musica e do fogo, a creadagem de João da Costa, logo appareceu no largo da entrada a distribuir copos de vinho, por toda aquella gente que vinha suada. Foi um despejar como nunca se vira: «e vivam os senhores fidalgos, por muitos annos e bons», «e viva a senhora morgadinha que ha de arranjar um namorado de truz!». Em quanto houve mollete nos cestos foi estacinhar e beber; achando-se já fartos, recomeçou a musica com tanta furia, que até parecia que se estava no dia da festa. O fogueteiro para mostrar a sua fazenda descarregou-a ali mesmo no quinteiro, pondo as figuras em correntesa, para que todos as vissem e admirassem. Havia realmente progresso e modernice quer nas attitudes, quer no vestuario, pois tudo era mais humano e natural. Os corpos com outros geitos e menos rigidos; nas roupas, os papeis semelhavam fazendas—de seda pareciam as saias e os corpetes, de casemira as calças e casacas. Até era pena que tão bellas coisas fossem destinadas a rasgões violentos de bombas e a arderem no meio da alacridade do povo! Tudo tinha, porém, o fim de augmentar a magnificencia da festa em honra de Santa Margarida e dos formosos doze annos da sua afilhada. João da Costa desceu com alguns amigos a apreciar de perto tanta maravilha e perfeição e com um gesto orgulhoso de cabeça, indicando um monte especial de foguetes perguntou:

—São os taes?

—Sim, senhor—respondeu o Osti.

—Parecem cabeças de toiro! Subirão?

—Como perdises que encastellem, verá! Iriam ao ceu se fosse preciso.

Eram as faladas maravilhas, timbre e gloria do famoso artista. Os creados da casa, com as canecas vasias na mão pasmavam deante d'ellas, considerando absortos, que alma damnada teriam dentro, para com o estrondo ao rebentar, metterem medo a quem estivesse mesmo a grande distancia.

Como fosse dia de sexta feira a musica retirou-se depois do beberete, para voltar na noite seguinte, que era a do arraial. Antes havia a ultimar os trabalhos de ornamentação da capella e escolher bem o sitio do fogo preso, para que fosse gosado por toda a gente. Porém com o fim de não haver descontinuidade no enthusiasmo pela apregoada festa, chegaram n'este dia pela volta das onze da manhã os tres zabumbas, as seis caixas e a respectiva gaita de folles, que João da Costa encommendara, e entraram na freguezia d'um modo ovante, tocando com verdadeira imponencia, para despertar a alegria nos corações. Atravessando o povoado em passo lento, solemne e compassado enchiam os ares com o estrondo magnifico dos seus instrumentos, e logo se dirigiram á casa de habitação dos festeiros para os saudar. Então ali é que foi o bom e o bonito, depois de despejarem mais de um cantaro de vinho sobre uma boa duzia de postas de bacalhau e brôa!... Como ficassem alegres e satisfeitos, quizeram mostrar melhor a sua gratidão e artes; por isso se proposeram a exhibir todos os segredos dos seus instrumentos. Bombos a um lado, caixas ao outro e gaita no centro, começou o grande apparato! Os zabumbas formavam um fundo de quadro de paisagem colossal e montanhosa; os seis tambores pareciam alegres comadres a chasquear e a ralhar; o da gaita de folles pavoneava-se desvanecido com ella nos braços, encostada ao hombro como um tropheu!... Veio a familia e vieram os convidados á janella; o rapazio gaudiáva dando cabriolas. N'um certo momento dois dos caixas, que andavam sempre em rixa, separaram-se dos companheiros para repenicarem com todo o primor, dobrando o rufo com elegancia e mestria. Era um florear de baquetas em tom cadenciado e tremulo sobre a pelle distendida das fallecidas cabras. Mostravam prestesa, pulso rijo e flexibilidade de musculos. Havia em tudo aquillo enthusiasmo e coração de valentes, o que se tirava da energia facial com que se combatiam, procurando reciprocamente cançar-se. No mais vivo da sequestra, um dos de zabumba, que tambem presumia de sua fama, saltou para o meio do terreiro e principiou muitas variações, saltando e pulando com mil requebros. Era homem agil e physionomia viva de olhos bugalhudos. Com a baqueta da mão direita feria o instrumento em todas as posições imaginaveis: por cima da cabeça, com elle horisontal á ilharga, suspenso nas costas, deitando-se no chão com elle sobre o ventre! Os companheiros seguiam-lhe a destresa de athlecta, com sorriso sceptico e molle, tirando dos seus bombos sons mais baços.

O gaiteiro vendo applaudidos por todos os assistentes aquellas galhardias, não lhe consentiu o animo ficar em obscuridade. Era homem baixo e grosso, physionomia ossea, mas esperta. Filho d'outro de Compostella, herdara de seu pae o instrumento e a prenda de o tocar com distincção. Afastando-se dos zabumbas e caixas triviaes, principiou a rabear entre os tres que já se exhibiam com apparato e luxo de ademanes. Quiz tambem chamar sobre si a attenção dos festeiros. Com o ventre do instrumento impando, requebrava-se em passo cadenciado e dolente de dança gallega: tirava; ora sons plangentes e maguados como gemidos tristes; ora um psalmear monotono e roufenho, que ondulava no ar como o vôo pesado d'um ganço; ora guinchos agudos como estylêtes ou espinhos que entrassem nos ouvidos. Saracoteava-se com o instrumento ao collo, mechendo os dedos n'uma especie de canudo de flauta e soprando-lhe no ventre por um bico de cegonha.

Os bombos a falar grosso, as caixas a rufar certo, o gaiteiro a tocar variado, tudo n'uma paisagem primaveril de folhas tenras, um bom e carinhoso sol de primavera a aquecer, era deveras divertido e excentrico! Uma atmosphera empregnada dos aromas de mil plantas, tornava esta sexta feira de Paschoela risonha e feliz, o que bem se reconhecia dos semblantes de toda essa gente, pois tinha alma para o sentir.