IV
Nos primeiros tempos d'ausencia, receberam frequentes cartas repassadas de affecto e saudade, ás vezes com signaes de lagrimas que ennodoavam o papel a ponto de se tornarem inintelligiveis algumas palavras. Porém, passados tres annos, a correspondencia cessou quasi de repente e espalhou-se o boato de que Luiz morrera, sendo depois isto desmentido por outros dizeres, egualmente sem base. N'estas alternativas, de luto e contentamento, passaram-se os dias longos e as noites infinitas, limitando-se os dois paes a reverem-se no seu passado, modesto e feliz, acreditando Miguel na eterna formosura de Luiza e esta no garbo e valentia perpetua de Miguel. Até que um dia chegou esse bom mensageiro, que lhes trouxe os meios para reformarem a moradia e comprarem as terras, e com este facto lhes voltou a esperança, sempre risonha e carinhosa, de que seu filho havia de chegar em breve. Além das palavras de bom agouro, que o desconhecido deante d'elles pronunciara, receberam, logo após, carta de Luiz, em que lhes falava com ternura do possivel regresso e insistia especialmente na velhice tranquilla e abastada que procurava garantir-lhes. Porém, depois d'este promettedor acontecimento, que lhes deu annos de prazer emquanto reedificaram a casa, levantando-lhe um andar, emquanto plantaram videiras e enfeitaram a quinta, com arvores novas e um bello muro em volta; Luiz nunca mais escreveu, estabelecendo-se completo silencio, similhante ao primeiro que parecera de morte definitiva. Fartou-se o padre Clemente Carvalhosa de lhe escrever sentidas cartas, falando de tudo quanto podia haver de mais amoravel e terno no coração: a velhice dos paes, que não poderiam aguentar-se por muitos annos; a commodidade da habitação, que elles tinham arranjado ostentosamente para o receberem; a belleza e transformação dos campos em que elle labutara e brincara quando creança. Até lembrava a recommendação, que Luiz fizera no dia da partida, para não vender a cria da Russa: a esse proposito notificava-lhe que, tanto esse animal como a mãe, haviam morrido de velhos, em grande tranquillidade e ventura; mas que na mesma côrte da residencia havia outra egua descendente da segunda, que era a estampa viva das saudosas extinctas. Nenhuma d'estas amoraveis e longas dissertações teve resposta, o coração de Luiz tinha-se de certo ressequido, pois já não vivia para tão commoventes memorias. Receberia elle as cartas? Não lhe seriam entregues por ter mudado de terra?!... É no que assentavam, afastando sempre a hypothese da morte, como castigo cruel e immerecido. Mas ao fim d'um crescido periodo de annos, sem noticias de nenhuma especie, experimentados por muitos e successivos desenganos, atormentados pelos pensamentos negros que traz a velhice, Miguel disse, um dia, em voz sumida, para não assustar a companheira:
—Talvez elle morresse... talvez....
Quem sabe?! Ha diversas maneiras de morrer. O corpo póde andar, no mundo, aos solavancos e encontrões, e ter desapparecido a vida com a alegria da alma. N'este domingo de março soalheiro, os dois velhos estavam á porta de sua casa, serenos e meditativos, mas conformados; foi o bom cura que lhes veiu incautamente turvar o coração, recordando-lhes o filho morto, ou eternamente desapparecido, o que para elles valia o mesmo. E quando ambos retomavam a tranquillidade em que estavam antes da chegada do sacerdote, ficando mudos, com os pés extendidos ao sol e a cabeça resguardada para que o calor os não adoecesse, sentiram passos no caminho que bordeja a quinta e viram que um estrangeiro se encaminhava para elles. Quem seria? Era um homem andrajoso, qualquer viajante pobre em caminhada para longe. O seu aspecto de miseria commovia... Trazia as botas cambadas, a camisa suja, as calças roidas; n'um saquito enfiado n'um pau, levava ás costas, toda a sua riqueza. Que ar esmorecido e doente! que longa barba mal tratada! como vinha dorido dos pés! Ao approximar-se da cancella, que dava ingresso no quinteiro, parou saudando com o chapeu esburacado. Miguel, com vista mais fraca do que Luiza, perguntou a esta:
—O que é?
O recemchegado é que respondeu em voz de cançado:
—Um pobre viandante que pede uma sede de agua. Dão-m'a senhores?
A velha disse com expressão de carinho:
—Entre, faz favor?... Quanta agua quizer!...
Não mostrou medo, nem repellencia, nem suspeitas d'aquelle homem roto, que podia ser um ladrão assassino. Foi ella mesma que veiu levantar a caravelha da cancella, para que elle entrasse, pois que o via sem forças para tão pouco... Conhecia-se que estava enfraquecido pela fome e pela longa jornada. Quem seria este misero de aspecto tão soffredor? Algum d'esses infelizes que vivem afastados durante muitos annos de todas as affeições e carinhos, e voltam ao seu lar depois de longa e dolorosa penitencia. O recem-vindo sentou-se n'uma tosca pedra que estava perto de Miguel, pousando ao lado o pobre saquito, que era a sua riqueza. O penoso suspiro que do peito lhe sahiu ao descançar, condensava, de certo, uma vida aspera de soffrimento e exprimia talvez o desejo d'um periodo de socego, ainda que fosse na sepultura. Quando Luiza veiu de dentro de casa, com a malga, branca de jaspe, cheia d'agua limpida e fresca, elle tomou-a nas duas mãos, emborcou-a com satisfação, tendo no fim de beber um respirar de saciedade. Os seus olhos amortecidos pela desgraça, tiveram brilho carinhoso e contente ao restituir a malga. Agradeceu este favor com um sentimento que lhe veiu do fundo d'alma:
—Deus-lh'o pague!—disse.
Conservou-se silencioso durante muito tempo, a cabeça curvada para o peito, como um vagabundo que na alma procurasse o seu destino. Os dois velhos contemplavam-no compadecidos: nos seus corações amoraveis e bons apparecera um sentimento de infinda piedade. Não tinham elles tambem um filho, que assim andava perdido no mundo, vagueando por longes terras? O bem que elles, a este desconhecido, podessem fazer, outrem, no ponto distante onde estivesse Luiz, o retribuiria, soccorrendo-o se elle necessitasse. Com o instincto dos que são captivos do infortunio alheio, advinhavam que junto d'elles estava um infeliz precocemente avelhentado. Não procuravam, com perguntas desnecessarias, perturbar-lhe a paz que elle parecia ter encontrado sentando-se n'aquella pedra, a olhar meditativamente o chão do quinteiro. Adivinhavam-lhe, pelo aspecto, soffrimento que na sua vida obscura e modesta, elles nunca tinham sentido. Por esse mundo fóra, as desgraças engrossam, ás vezes, tão rapidamente, como o ribeiro que passa no fundo da aldeia, quando recebe as torrentes pluviaes, vindas a roncar pelas encostas e pelos caminhos. Que significaria o silencio dolorido d'este desgraçado, que nos restos do seu vestuario deixava perceber signaes de que no mundo tinha sido alguma coisa mais do que aquillo que ora apparentava?!...
O viandante levantou lentamente a cabeça. Primeiro fixou a vista agradecida, amoravel e sem reservas nos que lhe tinham morto a sêde. Apesar da estranheza d'aquelle semblante, não causou aos dois velhos impressão, de que fosse o de algum doido que andasse desgarrado pelos caminhos da aldeia. O seu olhar era absorto, mas tranquillo e bondoso. Ainda que estranho ali, não lhes causava receio, nem pavor. Ao contrario: do imo da sua sensibilidade subia-lhes, a favor do misero, um formoso grito de benevolencia e compaixão. Aquella testa sulcada pela desventura, o rosto macerado pela desgraça, dizia alguma coisa de pacifico e sublime, como a luz sahindo de entre nuvens caliginosas no meio de rude tempestade. Os dois septuagenarios reconheciam que a apparição de tal infortunio estava tomando sympathico logar na sua pacifica existencia... «Este desconhecido —pensavam—ainda que em qualquer tempo de sua vida, tenha sido mau e perverso, agora só parece ser desventurado!» Isto originara-lhes no seio a mesma piedade que sentiriam se áquella casa se viesse recolher um lobo ferido, ou mesmo, se um abutre lhes cahisse exanime junto da capoeira de que fôra o flagello. Esses animaes, tantas vezes escorraçados com alaridos de colera, teriam elles animo de os acabar, quando os reconhecessem indefezos e supplicantes nas vascas da morte?! Não: o findar da vida merece sempre compaixão; a desgraça redime de todas as culpas perante os corações bons e sensiveis.