IV

O pavor produsido pelo estrondo de bombas e morteiros a rebentarem dentro da adega grandemente illuminada, foi cruel e estupefaciente! Reconheceu-se o que tinha succedido; mas o que se não comprehendera logo, era como o caso se poderia ter passado, visto a chave andar no bolso do fogueteiro. Só espiritos malignos seriam capazes de ali ter penetrado; pois só elles podiam conceber a execução de tamanha catastrophe! Como as aguas das montanhas, quando collidem para um valle, correu toda a gente para o perigo. N'um momento foi aberto o largo portão, que semelhava a bocca de enorme forno, com o seu ventre em chammas! O creado mais resoluto atirou-se ao meio do incendio, subiu celere ao lagar e, de pé na borda, disse em voz tremenda:

—Jesus!... A menina a arder!...

O seu arrojo, que fôra temeridade, tornou-se loucura: sem attender a risco, abre caminho por entre linguas de lume e estrondo de bombas, e tomando o debil corpo da creança, como quem abraça um feixe de lavaredas, sae com ella para o exterior, por entre gente apavorada. Logo acudiram com mantas e cobertores, conseguindo apagar as chammas dos vestidos de Margarida e do homem que a salvara. Porém a desgraçada creança, sem accordo, parecia morta! Levaram-n'a para casa no meio das afflicções de todos, especialmente dos desditosos paes e logo a despiram com rapidez para se apreciar a extensão do mal. O debil e formoso corpo estava intacto, menos nas partes desprotegidas pelo vestuario. A face então!? Essa pequenina meniatura de face, que dois beijos poderiam cobrir, agora vermelha, empolada e disforme perdera a brancura nativa e a graciosidade de linhas, que a faziam comparar ao rosto das santas! Todos os delicados relevos de feições tinham desapparecido nivellados em massa confusa e pastosa, sem expressão humana. No que se transformava belleza tão delicada, d'uma correcção tão perfeita e harmonica!... Crestados os cabellos longos e finos, e os bem desenhados supracilios, e as formosas pestanas, que sombreavam as pupillas; avolumado pelas empolas o delgado e airoso pescoço... desapparecera toda a graça da viva cabeça de Margarida. Isso que fôra encantador, prendendo a vista da pessoa menos attenta, era massa informe e sem espiritualidade. Onde estava o riso gracioso de seus labios tantas vezes cheios de brisas de carinho, quantas de nuvens caliginosas de desejos?! Onde a expressão turbulenta e dominante das narinas, exprimindo apetites rebeldes, mas innocentes?! E as orelhas pequeninas, da transparencia da porcellana com veios escuros nas curvas complicadas, onde estavam?! E o breve mento, tão breve e gracioso como o da Venus de Millo?!... Tudo se desfizera e se confundira!... Essa interessante physionomia que era jubilo, que era rebeldia de sangue em fervura, que era signal de alvedrios intensos gerados no limpo coração e logo subidos aos labios e aos olhos... Os olhos!... É verdade, os olhos de pupillas inquietas, os olhos de iris escura, mas indefinida com laivos de ceu e de mar profundos, que tinham lampejos á noite, mysterio ao entardecer, alegria na alvorada, carinho á luz brilhantissima do dia... que era feito d'elles?! Jaziam sepultados sob a grossura das palpebras inflamadas. Teriam vista ao menos?... Ninguem o sabia. A mãe de Margarida, sem accordo, como morta sobre a cama; o pae, homem forte e vigoroso, diluia-se em pranto junto da filha adorada. Os dois medicos que tinham corrido ao toque d'essa grande desventura, davam consolações vagas, esperanças infundadas. O lindo rosto de Margarida poderia voltar ao que fôra, a ser outra vez pequenino e engraçado...—diziam. Ainda n'elle se havia de gosar a vista da mesma espiritual belleza, que enchera de ventura o coração dos paes infelizes. Tinham-se visto curas completas mais extraordinarias do que esta, verdadeiros milagres no entender do povo. Os casos feios é que melhor assignalam as victorias da sciencia. Não era já circumstancia favoravel, que a vida tivesse sido poupada em perigo tão violento? O gentil corpo da creança estava quasi intacto na pureza das suas linhas, na elegancia do seu porte, na brancura da sua pelle, quando o natural teria sido ficar reduzido a um negro carvão. Só o rosto fora principalmente prejudicado... Certo é que no rosto reside toda a formosura. O de Margarida era tudo que havia de mais immaterial: a bocca pequenina e vermelha, tinha a graça; os olhos meigos e turbulentos, a inquietação infantil; na sombra das pestanas e no desenho dos supracilios, estava o inigma do pensamento; na pelle rosea, a mocidade; no arrojo do nariz a constante revolta; na curva serena do mento a tenacidade... Se isto viesse a faltar, ou se se transmudasse a rara combinação, que valeria o conjuncto, ainda que fôra dez vezes mais perfeito do que o da estatua grega?!... Porem como a esperança é o riso da natureza humana, e o natural e o proprio dos que soffrem dores fundas, já os angustiados paes principiavam a escutar com bastante conformidade as palavras de quem os consolava. Os medicos, primeiro que tudo, pediram liberdade juncto da pequena enferma, para largamente applicarem os meios que a profissão lhes aconselhava. Certificaram desde o começo que Margarida não morreria, e tocados de piedade por aquelle incomparavel infortunio, ousaram affirmar que haviam de restituir á creança, a saude e a belleza. A longa falta de conhecimento em que após o accidente se conservara algum tempo Margarida, attribuiam-n'o a estado epileptico, despertado pelo assombro de scena tão extraordinaria, como teria sido a de se ver repentinamente cercada de chammas e de estoiros infernaes. Devia ter sido horrendo para uma creança de doze annos, que dentro de si só devia ter fontes de sonhos aureos e aspirações celestes.