V
Noite escura e triste; noite, cheia de negruras no céu e no coração! Pouco depois de João da Cunha e Maria partirem a gallope para o seu louco destino, entraram com elles pavorosos receios, tremendo um por causa do outro. Durante muito tempo os acompanhou o alarme de vozes em grita, que se produzira na egreja e no adro, e que se fôra estendendo pela aldeia, tal onda de revolta popular. Como fossem subindo a céu amplo sobre o valle, onde a agitação se alastrava, ouviram, até muito longe, esse rumor sinistro, perseguidor e amaldiçoante; mas depois que venceram o primeiro cabeço de monte, era antes um sussurro de mar a bater em rochas escarpadas, isso que lhes chegava aos ouvidos. Mais além, só conheciam a impressão arquejante que lhes ficara vibrando no cerebro perturbado. De vez em quando sonhavam tropel de cavallos que lhes viessem no encalce e paravam attonitos com o ouvido á escuta; conhecido o erro continuavam animados pela doce esperança de viverem no seu amor absoluto, reciproco e vehemente. Maria, apesar de animosa e a tudo resolvida, não deixava de temer a vindicta de seus irmãos, e no escuro da noite mysteriosa murmurou como n'uma prece: «Deus nos proteja! Se nos apanham está tudo acabado!» Ao que o intrepido amante oppoz, com voz decisiva: «Nada receies. O meu corpo será mais difficil de trespassar, que um duro penedo!» Continuavam a rasgar a treva densa, por caminhos perigosos e pouco calcados de gente. João conhecia todos aquelles montes como os campos da sua aldeia; palmilhara-os, durante annos, acompanhado do seu perdigueiro, em todos os carreiros e veredas. Cego que elle se houvera tornado, determinaria a posição dos ribeiros e rochedos e as nodoas das bouças. Por tanto, para se dirigir na selva escura d'esta noite espessa, bastava-lhe o sorrir das estrellas do céu e a ditosa ventura de ter a seu lado aquella a quem amava. Eram favoraveis as circumstancias para não serem encontrados e para chegarem ao ponto ditoso, onde descançariam longe da furia e perversidade humana. Trazia esse quadro na menina dos olhos; era uma casinha alpestre, armada entre fragoas. Porém, como estivesse ainda muito distante e os montes fossem largos, só quando se annunciasse a luz solar poderia definitivamente nortear-se, para chegar em direitura, ao paraiso onde podiam florir os seus amores. Por agora só pensava em distanciar-se de onde estavam os seus temiveis inimigos; queria apenas retirar-se do perigo, livrar a sua felicidade da furia dos irmãos de Maria, que seria cruenta se se viessem a encontrar, n'essa noite, face a face. Armara-se para chegar a todos os extremos d'um combate sanguinoso: preso no arção trazeiro levava duas clavinas carregadas com zagalotes, nos coldres duas magnificas pistolas de cavallaria com balas, no bolso interior um acerado punhal de lamina triangular. Preparara-se para uma rude empresa de morte e amor, venderia muito cara a vida e a fortuna de viver. Mas distancear a hypothese horrenda e desgraçada d'um encontro funesto com qualquer dos que o perseguiriam, era o seu anhelo, o seu unico desejo. Por isso procurava com ancia ganhar distancias, mettia por atalhos perigosos, evitava quanto podia a proximidade de casas e povoados, onde se podesse dar indicio da sua passagem. Nem sempre o pudéra conseguir e n'um logar que atravessaram, o ruido dos cavallos devia ter sido percebido por um grupo de mulheres, que enfornavam a broa da semana. Cresceram os pavores e receios que enegreciam a imaginação de Maria; porém João aquietou-a dizendo-lhe que, aquelle caminho era forçado para muitos logares distantes, uns dos outros. Continuaram silenciosos e cheios d'esperança na negrura cumplice da noite, porém o sussurro dos ribeiros que iam grossos d'aguas, o acordar repentino d'algum animal bravio que fugisse por entre carrascos e tojos, a propria voz do vento que passava nos codeçaes e bouças se transformavam na mente de Maria em signaes de gente amotinada que os perseguia, em prenuncios de embuscadas que seus crueis irmãos tivessem armado contra o seu unico, verdadeiro e sentido amor. A aldeia ficava-lhes de cada vez mais distante, lá em baixo, em fundo valle. Demonstrava-o o passo mais lento das cavalgaduras que era já de fadiga. Tambem agora tinham de caminhar com maior prudencia, pois João confessava-se no limite dos montes seus conhecidos e familiares. Podiam esbarrar com algum ribeiro que os obrigasse a retroceder, por isso procurava sempre os pontos mais altos, onde essa contraria probabilidade diminuia. Ás montanhas succediam outras montanhas, sempre n'um levantamento gigante que parecia ter limite no céu, onde talvez fossem cravar seus dentes de penedias asperas. Só as estrellas os acompanhavam com riso carinhoso e só estas é que davam a luz tenue, que lhes deixava distinguir os asperos carreiros, brancos sobre a terra negra. O ar tambem era mais leve e mais cortante, a modo que a sombra da noite se ia adelgaçando. Ao nascente, para onde levavam voltados os rostos, já viam com antecedencia a promettedora chegada do sol, essa alegria sumptuosa do mundo!... Eram menos inquietas e vibrateis as pestanas argenteas dos astros, que se sentiam cançados da continuada vigilancia durante a longa noite. Visto não terem podido combater victoriosamente a treva densa, deixavam essa encantadora tarefa ao seu glorioso avô, que traria a brilhante poeira de oiro fino, para enfeitar as cristas das montanhas, enchendo de luz a profundeza dos valles e os recessos das penedias. Maria anciosa por encontrar o limite no seu caminhar perguntou:
—Estamos ainda muito longe?
—Andaremos, com dia, talvez uma hora.
—E a gente que nos encontrar?...
—Só pastores e ovelhas poderemos encontrar.
—Santo Deus! Esses pastores não nos denunciarão?
—Os teus irmãos não nos fazem, decerto, para este lado, e daremos informações erradas a quem falarmos.
—Em todo o caso fujamos sempre...—rematou inquieta.
Seguiam, já n'uma penumbra fofa, o carreiro aberto, ao longo da espinha d'um monte amplo, pelos pés senhoris das ovelhas e cabras que ali passavam diariamente. Um bufo, que levantou o seu vôo pesado, de entre um massiço de penedos, gerou subito alarme no peito de Maria, denunciado n'um grito de susto, que o seu amado acalmou com a explicação prompta do facto. A luz do sol, ainda distante, provocava este e ainda outros signaes de renascimento da vida terrestre. Já a massa espessa das montanhas se definia em formas comprehensiveis á vista: agigantavam-se os penedos com aspecto de homens associados em conversa; as arvores, dispersas nos terrenos aridos, recortavam-se no céu que se ia acinzentando; as aguas da chuva que se tinham accumulado em covas naturaes, eram espelhentas. Com taes prenuncios de dia entrava nos corações amantes, a fé e a esperança na felicidade do amor. Tão de breu fôra essa noite, que só agora sentiam a posse completa das proprias individualidades, até então amalgamadas com a espessura da treva.
A proxima chegada do sol aclarando o firmamento, que parecia de vidro fosco, apagava gradualmente todos os luzeiros pendurados pelo ar. Formara-se um nimbo lacteo sobre o horisonte. Pipillavam as timidas calhandras erguendo-se do seu leito, entre carquejas, com as pennas irriçadas pelo frio, o que lhes avultava o tamanho. Das bouças já sahiam gaios, grasnando como patos selvagens; levantavam-se melros cortando o crepusculo com o seu vôo rectilineo e silvo agudo; surgiam pêgas a palrar como velhas dementes. Era a gloria da luz e da vida que renascia e animava a solemne mudez das montanhas crespas. Um ligeiro sorrir dos labios de Maria denunciou que o coração se lhe descomprimia, que a sua alma ingenua e pura, aceitava de boamente os perigos do dia, em troca da escuridade protectora da noite. Não assim João da Cunha, receioso dos males que podiam agora nascer. Se os do Corcovado houvessem acertado na perseguição, se os visse apparecer na volta d'um monte ou do meio d'um matagal, seria tamanha a desgraça, que só a morte a podia definir. Correria o seu sangue e o sangue dos de Maria. Todo o que se vertesse havia de ser em desproveito da sua ventura, que não mais poderia brotar. Mas com um movimento energico de cabeça afastou para longe ideias tetricas; de novo no amplo e corajoso peito entrou a esperança risonha e cariciosa. As montanhas eram largas, os caminhos muitos e intrincados, só um grande infortunio o levaria ao encontro dos seus algozes. Consumidos os dias de gozo, doces como o mel, que viessem as perseguições e os flagellos crueis, pois o encontrariam resoluto e altivo, como era natural do seu animo levantado e temerario.
Subiam, subiam ainda na encosta d'um monte, que tinha outros mais altos para os lados do céu. Os já andados escorriam lá para o fundo, em successão de valles, n'um dos quaes assentava a risonha aldeia d'onde haviam partido. Ao vencerem um alto cabeço deram de frente com o olho redondo do sol, que os fitava impavido e dominador.
—Ainda é muito longe?—perguntou Maria.
—Mais uma legua para andar.
Desciam na vertente d'além: n'esse alvorecer encontraram a primeira pastagem de boa relva, mosqueada de malmequeres, goivos e junquilhos nascidos no sopé d'uma penedia d'onde brotava agua, e o primeiro rebanho guardado por um pequeno pastor. Era um rapaz franzino e sujo: ao ver aquella formosa senhora, vestida de claro e com flores na cabeça como qualquer santa, acompanhada por tão garboso cavalleiro, logo se levantou da lage onde estava sentado, conservando-se com o grosso barrete na mão, até que elles chegassem.
—Bom dia rapaz—saudou João da Cunha.
—Bô dia—respondeu em voz rouquenha. Agora não ha romaria: eh! voncês p'ra onde vão?
—Levar uma promessa á Senhora Apparecida—respondeu João.
—Tão linda como a Senhora Apparecida é essa senhora. É sua?
—É minha, é Joaquim. Chamas-te Joaquim?
—Não senhor, sou Zé.
—Pois toma lá este dinheiro e dá-o á tua mãe para te mercar uma camisa. Se por aqui vierem uns senhores a cavallo diz-lhes que não viste passar ninguem.
—Se voncê quer, digo. Hei de rezar por vós, que não ides bem p'ra Senhora Apparecida, mas p'ro Senhor Bô-Home.
—É que vamos primeiro ao Senhor Bom-Homem e depois á Senhora Apparecida—explicou.
—Antão, havendes de tornar para traz.
—Pois tornamos.
—Isso é falar. Deus os acompanhe.
Ficaram receiosos d'este encontro, como já o vinham das mulheres que enfornavam o pão. O convivio humano era-lhes n'este momento antipathico. Da intelligencia alheia, só perigos lhes poderiam advir. Maria levava o rosto palido e fatigado; desejava chegar breve ao ponto da terra, onde pudesse repousar e esconder-se. O seu amado comprehendeu-lhe este secreto pensamento tão legitimo e natural. Chegados a um sitio d'onde se lhes desdobrava aos olhos um largo ondeado de montanhas, João apontou a brancura d'uma ermida, que se destacava sobre a mancha negra d'uma matta e disse:
—Acolá, vês?
—É uma capella!
—Para além da capella está a casa.
—Quanto tempo?
—Pouco tempo.
Metteram por uma esplanada coberta de penedias em cujas anfractuosidades podiam esconder a sua marcha. A luz do sol já enchia os montes e até os valles cobertos pelo nevoeiro matinal. O ar rescendia a aromas, que se levantavam da terra, das flores e hervas alpestres. Passavam no céu, azul palido, aves de grande corpulencia, abutres e aguias, que pousavam nos pincaros mais levantados. Os negros corvos crocitavam perto, subindo do chão para os penhascos. Apparecia aqui um coelho que rebolava pela terra arenosa; rompia adeante um par de perdizes, já acasaladas no começo d'amores; erguia-se uma lebre, veloz na carreira, corveteando de orelha guicha. Maria, certa do limite da sua jornada, mostrava rosto mais desanuveado; todo o seu desejo e ambição era, n'este momento, esconder-se como timida corsa no denso matagal, que fazia mysteriosa negrura, juncto da alva capella que João lhe apontara. Não tardou muito que aportassem ao carinhoso abrigo. Bem mereciam este repouso, depois de tão longas horas atormentadas pelo esforço corporeo e pelas preocupações do espirito. As horas, muitas ou poucas, que ali permanecessem, ignorados e tranquillos, enchel-os-hiam de amor ardente, para entorpecerem a sensibilidade, emquanto não vinha o desenlace da arrojada aventura.
—Ninguem nos supporá aqui, meu amor—suspirou João ao saltar do seu cavallo.
—E de quem é esta casa?—perguntou Maria ao cahir-lhe nos braços, para descer da egua.
—D'um amigo de longe, que só vem aqui, de anno a anno, fazer as suas caçadas.
Depois de recolher as cavalgaduras, entraram na modesta cabana, coberta de colmo. Logo fecharam a porta sobre os seus corpos cançados. João ao apertar Maria nos braços nervosos exclamou desvairado.
—Até que emfim! Podem agora vir todos os tormentos da terra!...