I

Era noite; o som do sino corrido ecoára pela Judiaria; emmudeceu como se as passadas lentas de um convidado de pedra troassem no meio das risadas de um festim. A alegria e o ruido do trabalho suspenderam-se; os mesteiraes e homens de officio fecharam as portas; os christãos, odiando a raça maldita, separaram-se, deixando-a ao medo da noite. Então na pequena casa do judeu accende-se a luz do lar; cansado de receber insultos durante o dia, de vêr em roda de si a vileza e a traição, a lei e o fanatismo a ameaçal-o, esquece por um instante os planos da sua industria, os recursos com que produz o ouro e os capitaes com que hade comprar a sua segurança, e entra no fóco mais intimo da familia. Entra prostrado;{182} banha-lhe o suor as faces, traz o desgosto pintado na fronte encanecida, vem afadigado das longas migrações, amedrontado pelos terrores das grandes crises do estado; ao asylar-se no remanso da casa, entra como o errante do deserto em um oásis desconhecido; o semblante tranquillo da esposa lembra-lhe o typo de Esther, da Sulamite, de Débora, da Sibylla palestiniana, e abraça-a com a sofreguidão com que umas fauces resequidas se dessedentam em uma nascente viva. Vêm depois os filhos, debruçam-se-lhe dos hombros, prendem-se-lhe ás pernas, enlaçam-se em volta do corpo, e n'essa hora o judeu sente-se outra vez forte para todas as luctas, para todos os opprobrios, para todos os vexames, com alma para affrontar a miseria e o queimadero. Falla das tradições de Israel, da sua migração através dos seculos, da terra promettida, e do Messias, não o idolo papal que se impõe pela fogueira, mas a boa nova da egualdade e da liberdade humana.