III

Quem sabe se é o amor que a transporta assim para as solidões, como a pomba que vae esconder-se na rocha alcantilada? O amor que esmalta a vida de harmonias e encantos, que acorda as virações para levarem longe o pollen fecundante, que abre o calyce das flores para as abelhas tocarem os nectarios deliciosos, que une o gemido do regato trepido com o ruido, brando que adormece, do canavial que orna as margens sinuosas? O amor é um amplexo, a identificação; como poderia divorcial-a com a vida, mudar a sua alegria em uma tristeza que é como o presentimento do sepulchro? Aquelle segredo incommunicavel opprime, aterra como a sphinge propondo o enigma.

Ella cada vez andava mais desfallecida, pendia de cansaço, offegava; mas procurava illudir os disvelos da familia com um vigor que não tinha, como succede ao naufrago quasi a afferrar a terra, de que a ressaca da onda o afasta, e que hesita se deve luctar mais tempo, se deixar-se engulir nas voragens do oceano. Gravitaria ella em volta de um mundo em que procurasse absorver-se, e{5} a vida da terra, de cá, fosse como o refluxo que a impellia para longe? Pobre flôr, que se debruça nas bordas da sepultura, será uma illusão quanto a sua alma ingenua sente? Serão uma mentira todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca, lubrica, que a chama para vir doidejar ali n'um volteio feérico, febril, esconder-lhe-ha o lodo de um charco estagnado que a ha de engulir para sempre?

Tenho medo de vêl-a assim, com os olhos fitos no horisonte, n'essa morbidez do extasis; a vertigem póde sacudil-a, e precipitar-se, como a borboleta prateada e indiscreta. A sua alma eleva-se para o céo; porque vôa tão cedo para cima a nevoa da madrugada, de uma alvura nitente? A andorinha quando parte, vôa na aza da rajada hybernal que a arrebata.

Mas o mundo acariciou-a sempre; porque se esconde pois e foge d'elle? Será a reminiscencia viva do foco de luz d'onde saiu, que lhe inspira tamanha anciedade, e lhe abre n'alma uma saudade vivissima, que mata? Ás vezes está tranquilla, immovel, como quem escuta a toada de um concerto mavioso que embala e com que se adormece. Oh, quem ousará despertal-a? Seria perturbar a crystalisação de uma gota de orvalho que se transforma em perola. Outras vezes tem o olhar pavido, firme, de quem contempla e pasma ante uma visão immensa e augusta. Que apparição risonha virá fallar-lhe? Eros, na solidão remota da noite? Será o desejo de vêl-o, o desalento{6} do impossivel, que a fazem reconcentrar assim n'essa dôr? Uma lagrima era a gota do oleo aromatico da alampada escondida; em vez de fazel-o desapparecer, envolto na nuvem branca e etherea, a lagrima trazel-o-hia como um grande astro que attrae após si myriades de planetas.