EPOPÊA DA LUSONIA
«Um grande Mar glacial cobriu a Europa, a partir do pólo até ao Ural, estendendo-se pelos territorios hoje occupados por nações, que levantaram dolmens e construiram muralhas e cidades com os blocos erraticos arrastados pelas neves, que deslisavam das altas montanhas.
«As neves eternas, descendo dos montes da Europa occidental, foram espalhando em uma marcha lenta, que durou seculos, essas morenas, que bordam as margens dos lagos, as costas do Oceano atlantico, onde se desaggregaram das geleiras. Todos os grandes valles foram atulhados de gelos, trasbordando sobre as planicies. Dos montes da Europa central se estenderam esses enormes geleiros, alastrando-se, destruindo as especies vegetaes, e repellindo diante de si os animaes gigantescos, que se refugiavam nas cavernas ou procuravam outros climas. Nas clareiras, não cobertas pelos gelos, conseguiram viver alguns animaes e pequenos grupos humanos, em uma lucta com a intemperie da natureza; apparecem estações humanas nas Gallias, Britania, Italia e Germania, e n'essas zonas exundadas é que se foram creando as raças da Europa, que se iam constituindo em Nações poderosas, com as suas linguas diversas, seus costumes, religiões e sociedades differentes: taes os Hyperboreos, formados pelos Proto-Scythas, Scythas, Sarmatas, Parthas, Germanos, Gaulezes e Bretãos. Elles conheceram a grande Constellação austral da Ursa, e iniciaram os trabalhos da Agricultura e da Navegação.
«As Estrellas da Grande Ursa, em numero de sete, assim como os bois que pucham os carros pesados chamados Teriones, foram designadas Septemtriones. O homem representou no céo os actos da sua vida terrestre: o Sol fecundante da estação estival foi representado como o Touro, ou o Deus Thor das gentes germanicas, e o mugido do trovão Tarana, como do touro que berra. E a navegação, que se fazia de uns para outros lagos, era tambem completada transportando os Teriones as barcas em carros de um ponto para outro. Chamaram por essa fórma dupla de Navegação a esse povo aventureiro os Gansos, ou Liguses, os patos dos lagos. Foi assim que se fez conhecida no mundo a forte raça de Navegadores, os Liguses, ou Ligures, que constituiram Ligas ou Hansas maritimas, protectoras das suas remotissimas viagens, transportando pelo Atlantico e através da Europa os blocos de Ambar amarello, e o estanho das ilhas Cassitérides.
«Esses Povos da região septemtrional da Europa, que se chama a Scandinavia, viveram longo tempo ás bordas do mar, e foram conhecidos pelo nome dos Homens da Agua, que em suas linguas se exprimia pelas palavras Soma-lassed, Sabme-lassed. Pela orla occidental da Europa esse Povo veiu descendo para o sul, e occupou as regiões de Hibernia, da Britania, e na Hispania esse Povo fundou o grande estado da Lusonia ou terras de Lez, que se denominaram Anda-Lezia, Cale-lezia e Lusitania.
«Pela sua audacia aventurando-se na exploração do Mar tenebroso, as outras raças chamaram-lhes os Atlantes, de Atl, o nome da agua; e nas suas rascas ou barcas de duas prôas, ajudadas a remos, a que chamaram Kamares, estenderam as suas expedições pelas Ilhas perdidas no meio do Atlantico, desceram ao longo da costa occidental da Africa, foram tocar em um continente ou Mundo novo da Aymerica, penetraram o Mediterraneo até ao Egypto, e subindo o Golpho persico, chegaram até á Chaldêa, e á India.
«Esses Povos ribeirinhos, ou de Lez, e propriamente maritimos ou Atlanticos, levaram os conhecimentos da Astronomia, fixados no seu Zodiaco, ou Symbolismo zoomorpho das Constellações observadas no Anno sideral, até esses Povos da America, do Egypto, da Chaldêa e da India. Foi por isso que o Symbolo do Touro é adorado no Egypto com o nome de Ser-Apis, e na fórma Shor, o Bezerro de ouro, na Palestina; com o nome de Tauro o designaram os Chaldeos, os Syrios, e os Gregos. Por esse Symbolo da Constellação do Touro é que a Civilisação da raça iniciadora dos Ligures se denominou Turana; todos esses Povos do Oriente adoptaram o Zodiaco occidental, sem notarem que pela evolução millenaria dos Equinocios, o Signo do Touro deixou de coincidir com o comêço do Anno estival.
«Contra a Raça ligurica veiu do Oriente a pressão de outros Povos. As gentes do Iran, adorando o Fogo espiritual representado em Mithra, reagiram contra a representação do Fogo terrestre ou o Touro, morto por Mithra, ou contra o Turan. Na Europa, os Povos dos Celtas, e dos Iberos, dos Jonios e dos Phenicios, dos Carthaginezes e dos Romanos, foram gradativamente atacando a raça dos Ligures, e pelas invasões por terra, e pela pirataria nos mares, quasi que apagaram o nome e a Civilisação dos Ligures na Europa! Os Iberos, que atravessaram da Africa quando a Europa ainda estava ligada a ella por um isthmo, repelliram-na da vertente occidental dos Pyrenneos, em que se tinha apoiado na Edade glaciaria, cujas geleiras estacaram ante essa cordilheira; os Celtas louros e corpulentos atacaram-a nas Gallias trans-e-cisalpinas; os Phenicios apoderaram-se dos Periplos das suas navegações atlanticas pela pirataria; e os Jonios roubaram-lhe os seus Poemas em que celebravam as temerosas Aventuras do Mar. As luctas guerreiras, e o imperio das Civilisações militares fizeram esquecer a civilisação agricola e as Navegações dos Povos liguricos. Entre o Occidente e o Oriente deu-se uma separação, e esqueceram-se de que eram solidarios na História.
«Uma tréva immensa caíu sobre o mundo depois da Éra glaciaria; a força bruta prevaleceu sobre a Sciencia, a Guerra de devastação e de conquista sobre o trabalho pacifico da Agricultura. A Missão civilisadora dos Ligures, iniciada na America, no Egypto, na Chaldêa, na India, ficará interrompida para sempre?
«Diante da extensão e perstigio dos Imperios militares, parece que a acção da força bruta é definitiva. Mas, a Rasão e a Paz hãode triumphar um dia; o Occidente tem de reatar a sua antiga solidariedade com o Oriente. É essa a missão e o futuro glorioso da Lusonia.
«Este ramo, certo, o mais tenaz do tronco decepado da luctadora raça dos Ligures, resistindo na Hispania contra os Iberos, contra os Celtas, Persas, Phenicios, Carthaginezes e Romanos, hade um dia através de todas as crises reorganisar-se outra vez como Nação, e o seu poder derivará do regresso á primitiva capacidade da raça: Recomeçará as grandes Navegações do Atlantico; hade reoccupar pelas suas colonias laboriosas a America; fundará um vasto Imperio na India; dominará na Africa; e primeiro que nenhum outro povo circumdará a Terra, affirmando outra vez a supremacia pacifica como destino da Civilisação occidental. Sustentar a autonomia da Lusitania é impellil-a para a realisação d'este incomparavel destino,—alargando pela actividade pacifica a antiga Liga hanseatica n'uma Confederação das Gentes, na solidariedade humana.»
Dentro da Caverna do Cachão da Rapa ia escurecendo; estava já terminada a leitura ou exposição do Poema. Viriatho, cheio de esperança no futuro da Lusitania, exclamou:
—Este ideal dá vida e energia a uma nacionalidade! Torna-a imperecivel. Agora já posso morrer; e fosse esta Caverna, deposito de uma tradição sagrada, a minha ignorada sepultura.
—Para que te deixas assaltar por presentimentos de morte? Eu ainda não te desvendei todos os conhecimentos contidos n'esses Bastões dos Poetas, ou Sagitas, que se arrojam ao ár, e conforme cáem voltadas para o Oriente ou para o Occidente, assim nos dão os Pre-Sagios venturosos ou aziagos. Ha um conhecimento de incomparavel sagacidade: revela-o a seta, que equilibrada sobre um ponto, trémula, oscilante, indica a linha do Norte a Sul; mais poderosa do que aquellas que guardam as Sagas das Tradições dos Navegadores liguricos, ella os guiou seguros—por Mares nunca de antes navegados!—Pela posse d'essa Vara chamada a Seta de Ouro, realisará a Lusonia o seu alto destino.
E á medida que ambos se afastavam da Caverna, disse Viriatho, ao perder de vista o penhasco das inscripções mysteriosas:
—Agora comprehendo eu o verso da saudação: «A Pedra sagrada da esperança do povo.»
[XLVI]
A cerimonia do casamento de Viriatho com Lisia estava determinada para dia certo. O cabecilha era esperado na Torre redonda de Achale, e já sobre o lar ardia o fogo sagrado que representa a santidade da familia apoiada n'esses mysterios cultuaes da memoria dos Antepassados. Lisia entretinha o fogo, quando chegou Viriatho; o guerreiro aproximou-se de Idevor, e disse com uma dominadora serenidade:
—Agora, que já temos uma patria livre, tambem quero render culto aos meus Antepassados, e venho rogar-vos por isso, para que Lisia, vossa filha adoptiva, me acompanhe n'este acto comendo commigo do mesmo pão diante do mesmo fogo.
Idevor ergueu-se d'onde estava assentado, aproximou-se da Pedra focal, e chamando para junto de si todas as pessoas que habitavam na Torre Redonda, proferiu a fórmula sagrada:
—Eu vos entrego, oh mancebo, a minha filha Lisia, trocando este lar paterno pelo que ides inaugurar com amor e esperança.
E pegando em Lisia pela mão, conduziu-a para Viriatho, como desligando-a da religião domestica, e entregando-lh'a para que a iniciasse em um novo culto da familia a que de ora em diante pertencia. Os dois esposos olharam-se com ternura; os canticos das donzellas que acompanhavam Lisia resoavam com a magestade de um sacramento, e n'aquelle dia entre festas, banquete e recitação de poemas, passou-se a primeira parte do cerimonial consuetudinario do casamento.
No dia seguinte era a partida da esposa para a terra de seu marido; sahiram da Torre Redonda os tres Companheiros de Viriatho, e a luzida cavalgada que tinha de conduzir a noiva pôz-se a caminho. Lisia, vestida de branco e com a lunula de ouro na cabeça, coberta com um véo, ia em um carro todo enramalhetado, ladeado pelos cavalleiros da Trimarkisia. E adiante caminhava um arauto levando um facho accêso, que como symbolo nupcial dava á cavalgada o prestigio do sentido religioso. Em todo o percurso ou pompa, modulavam-se hymnos consagrados; e de toda a parte vinham ao encontro da cavalgada homens e mulheres, que atiravam com flôres para o carro da noiva e lhe derramavam trigo pela cabeça, augurando felicidades.
Ao aproximar-se de Viseu, tres raparigas robustas e esbeltas, trajando vestidos garridos, com suas arrecadas de ouro, vieram collocar-se diante do carro de Lisia, e foram seguindo-a cantando-lhe uma Canção de marcha nupcial. Pelas suas vozes, como excellentes cantadeiras, bem conhecidas, espalhavam alegria em volta de si; eram Caenia, Aponia e Nilliata, de que Viriatho se recordou com jubilo. Fôra ao subir da serra dos Herminios que ellas lhe fallaram de Lisia, e é com o mesmo encanto que agora entôam a
Marcha nupcial
Bem vindo o par ditoso
Para a nova morada!
Do amor o laço forte
Não o desata a morte.
Pelo braço do esposo
Lá vem a bem casada!
Laço que a união celebra,
Nem mesmo a morte o quebra.
Como ao tronco ramoso
A vide entrelaçada,
Que outro laço mais ata?
O filho que os retrata.
Que encontre infindo goso
N'esta união consagrada
O par, que vem sorrindo;
Par ditoso, bem vindo!
Estava a terminar o trajecto festivo, e começava a terceira parte da cerimonia do casamento, em que a entrada da esposa em casa do marido se fazia por um rapto, pelo qual este, sem que ella tocasse com os pés no limiar da porta, a introduzia junto do lar, no novo culto domestico pela sua auctoridade de chefe da familia, que assim a iniciava por sua vontade. Era ahi que devia ser partido o pão entre ambos, diante do fogo do lar, bebendo n'essa communhão para a vida e para a morte, unificando as almas por um sacramento indissoluvel. Passou-se rapidamente este acto, porque era immensa a multidão de gente de todas as terras da Lusitania que esperavam os noivos na Cava de Viriatho aonde se formára um esplendoroso arraial, em que se expozeram todas as riquezas naturaes e industriaes da terra.
Alli se encontravam os Chefes das Contrebias, acompanhados dos seus ambactes, com os presentes offerecidos aos noivos.
Conheciam-se logo entre a multidão jubilosa os principaes chefes dos Castros e Citanias da Serra da Estrella; e diziam os curiosos:
—Olha o chefe do Cabêço do Crasto de Torvosello! E o do Crasto de Tintinalho? O do castello de Reigoso!
—Não faltou o Chefe do Cabêço de Escarrigo; nem o de Videmonte; o de Verdolhas, e de Tabeiró.
A gente de Traz os Montes tambem reconhecia os seus chefes:
—Lá está o de Castro de Avelãs. Olha o de Formil! Mais o de Fervença.
—Tambem o de Castro Samil! E o de Lambeiro branco! o de Soutello.
—Mais o de Rabal; e o de Alfaião.
A gente do Alemtejo mostrava certo orgulho ao apontar para os seus chefes da Orca, de Castro Verde, da Colla, de Castris.
Do norte, da região callaica, viam-se os chefes das Citanias, como os das de Briteiros, Tintinolho e Sabroso; o chefe da Corôa de Amonde; e o do Môrro de Affife; o do Castrello de Neiva; o de Monte Ferroso; de Laúndo, Guifães, da Roboreda. Era uma homenagem unanime de sympathia, de reconhecimento a Viriatho pelo exito da violenta campanha de libertação da patria commum.
Com as festas que por toda a Lusitania e Celtiberia se fizeram ao conhecer-se o texto do Tratado de Paz, e ao regressarem a seus lares os homens que ha tantos annos andavam na guerra da independencia, coincidiu tambem a noticia de que em breves dias seria celebrado o casamento de Viriatho com Lisia, a virgem semnothêa, aquella que sempre vaticinára a liberdade da Lusitania.
Assim, cada uma das terras que contribuira com tantos sacrificios para coadjuvar Viriatho no castigo da infamissima e sanguinaria perfidia de Galba, resolveu mandar uma deputação para a representar nas festas nupciaes do valente Caudilho. Essas deputações eram formadas de moços e raparigas, vestidos com os trajos das suas provincias os mais vistosos e caracteristicos, que iriam fazer os cortejos do esposo e da noiva, e alegral-os com as suas dansas e cantares, durante os dias das bodas e tornabodas; iam tambem os homens bons ou antigos com os presentes de bois e novilhos, de vinho, cereaes, fructas e sequilhos, para que a nova familia se iniciasse pela abundancia; e as mulheres, as mães, que fiavam no lar, offertaram tambem as suas grandes têas de panno de linho e bragal, meadas de linha alvissima e fina, boiões de mel, e aves sem conto. Era uma homenagem com o sentido de uma contribuição nacional espontanea áquelle que soubera unir as populações dispersas no mesmo sentimento de uma Patria livre.
Para a cidade de Vacca, fundada pelos Turdulos, que está proxima das fortes muralhas da Cava aonde Viriatho no anno DCVIII derrotára o Consul Nigidio, é que se dirigiram todas as deputações para as festas do casamento do Caudilho. Alli, n'aquella cidade, junto do rio Vaccua, costumava Viriatho recolher-se temporariamente das fadigas da guerra; era alli que tencionava viver tranquillamente o resto de seus dias no remanso do lar com a adorada esposa, Lisia, que tanto o fortificára pelo ascendente moral e confiança no futuro da Lusitania.
Da cidade de Vacca partiu o cortejo dos moços á frente de Viriatho, que iam ao encontro da noiva, que vinha da Ilha sagrada de Achale, acompanhada por seu pae Idevor e pelo grupo das donzellas de todas as cidades lusitanas lá reunidas para essa marcha. Por onde Lisia passava punham-lhe arcos de flôres e verdura; tapetavam-lhe a estrada com ramos e plantas aromaticas de alecrim e verbena, e arrojavam-lhe punhados de trigo, cantando seguidilhas de felicitação e augurando venturas.
Quando o cortejo chegou á margem do Vaccua, os grupos interrogaram-se mutuamente, e depois de simuladas as perguntas e respostas, em que Lisia era concedida como esposa a Viriatho, o guerreiro passou o rio com presteza, e como por encanto lançando o braço em volta da cinta de Lisia, levantou-a do chão para cima do seu cavallo branco, partiu á desfilada fazendo o acto cerimonioso do rapto. Todos os mancebos foram apoz elle, mas quando chegaram á cidade de Vacca já encontraram Viriatho e Lisia juntos no balcão de pedra que dava entrada para a casa que fôra construida para habitação dos noivos.
Diante do terreiro da casa, coberto por uma extensa ramada, cheia de dourados cachos de uvas, começaram os cantos e dansas; e depois da chegada de Idevor, os noivos desceram para vir ao encontro do velho endre, a quem beijaram a dextra, que alli diante de todos consagrou aquelle consorcio unindo-lhes as mãos. Então, de braço dado, os dois esposos dirigiram-se á Cava enorme, dentro de cujas muralhas estavam expostos como em uma Feira franca todos os gados, cereaes, tecidos, objectos de trem domestico e mais delicados presentes, que as populações lusitanas offertavam a Viriatho como seu libertador. A vista d'essa assombrosa homenagem manifestava o quanto Viriatho era querido, e bem explicava a confiança com que á sua bravura tinham ligado os seus destinos aquellas terras, que elle conseguira libertar.
Viriatho e Lisia foram percorrendo a Cava, em que estavam expostos todos os presentes, que representavam as riquezas das regiões lusitanas. Reconhecia-se a região do Norte, entre Douro, Minho e Beira Alta, pela abundancia dos seus milhos, pelo centeio da primavera e do verão, pelas excellentes castanhas. A região montanhosa da Beira Baixa e Traz-os-Montes, pelos seus nedios bois, carneiros e cabras das boas pastagens das encostas e valles; e pelo seu trigo molle e centeio. A região central da Extremadura até ao Tejo, mandava das suas extensas e ferteis landes os trigos molares e rijos, castanhas deliciosas, azeite cordovil e vinhos generosos. A região do sul, Alemtejo e Algarve, appresentava o trigo de inverno, os figos sêccos, tamaras, alfarrobas e castanhas piladas, e porcos de uma creação afamada.
Viriatho, lembrado dos annos da campanha libertadora, não pôde olhar para os cavallos em que vieram os chefes das Contrebias, sem confessar quanto devia ás suas qualidades de resistencia excepcional. E conversando com os chefes que o rodeavam, iam uns e outros notando:
—Este typo galleziano, de cavallos pouco corpulentos, e resistentes ao trabalho, é commum ao Minho, ás Asturias, Vasconia e Navarra.
—E estes mais corpulentos, com grande aptidão para o trabalho de carga e de tiro, fórmam uma variedade castelhana, que se encontra ahi pelo Minho, Traz-os-Montes e Beira.
—Cá para mim, o typo da minha paixão é o betico-lusitano! Estes cavallos das provincias do sul, são elegantes de fórmas e de postura. É olhar para essa raça de Alter, das Lesirias do Tejo e do Alemtejo; incomparaveis.
Em homenagem a ter Viriatho sido na sua mocidade pastor e chefe da Mésta, grandes manadas de bois vieram á feira apparatosa, na representação de cada provincia. Viriatho foi passando vagarosamente diante das manadas, interrogando com enthusiasmo, e caracterisando com os chefes das Contrebias as differentes raças.
—Estes bois vermelhos, amarellos e fulvos, isto é que é proprio para trabalho! as vaccas são extremamente leiteiras. Quem não reconhece n'este gado o Minho e a Galliza?
—Tambem pertence a esta raça galleziana, o barroso, lá do Gerez.
—Estes são da raça Maroneza, robustos, ligeiros, firmes no passo. São ahi das regiões visinhas do Durio.
—Aqui agora os da raça mirandeza; é a que se acha mais espalhada, por Traz-os-Montes, grande parte da Beira e da Extremadura. Tambem por aqui se vêem as suas variedades, a braganceza, a mirandeza ribeirinha, a extremenha. Isto sim, que é raça para trabalho violento!
—É por isso que se tem propagado tanto.
E proseguindo n'este passeio pela Cava, Viriatho e os chefes das Contrebias foram notando os bois de Arouca, excellentes, soffredores, de Lamego, Caramulo, predominando entre o Durio e o Vaccua. E elogiaram a raça ribatejana, brava para campo e corridas; a alemtejana e a algarvia, docil, sobria, côr de castanho claro, e propria para trabalho e engorda.
E na grandiosa feira em que se representava o genio de cada provincia, viam-se tambem as raças ovinas, a bordaleira, que predomina do Minho até ao Tagus; os merinos, de Campo Maior e Marvão, Moncorvo, Mirandella e Villa Flôr; e as estambrinas. Estavam alli as cabras da Serra da Estrella, do mais bello pêlo longo, e as de pêlo raro, todas muito leiteiras. E os porcos Bisare, do Minho, Traz-os-Montes e Beira; com os do Alemtejo, Extremadura, Algarve e margens do Tejo, chamados Romanice.
Via-se alli representada a alfaia agricola, que estabelecia uma transição para os productos industriaes. Era um encanto examinar a perfeição dos arados, cangas, carros, engaços, sacholas, cêlhas, concas, crivos. Destacavam-se mais adiante as louças de barro, de argilas ocreas. Nos trabalhos textis, as linhas ou fios de cozer em meadas alvissimas e novellos; rendas, cortinados, adamascados; as lãs de Portalegre e da Guarda em cobertores; as estamenhas, cintas, pannos, de trabalho domestico do Algarve: os bureis e baêtas listradas, da Covilhã e de Viseu.
Mas o que mais attrahia a attenção de Lisia eram os trajos lusitanos, que davam ao arraial um fulgor pittoresco, de côres e talhos: a Capa de honra, de Miranda; o Gabinardo de Nisa; a Capinha de Barroso e Sobreira; a Castreja de Laboreiro; a Jangadeira de Anha; a Camponeza de Perre, Areosa, Meadella e Ovar; a Ceifeira alemtejana, maiata, poveira; era um espectaculo commovente.
Grupos de mulheres vieram acercar-se de Lisia e offertaram-lhe com alegria presentes especiaes: a roca de freixo ruge-ruge cheia de ornatos; aventaes de Vianna; lenços bordados, segundo o costume, pelas noivas de ao pé do rio Vaccua; rendas de malheiro, de Aveiro, Setubal e Lagos, e rendas de bilro de Vianna, Villa do Conde, Peniche e Setubal.
As mulheres mais abastadas tambem lhe offertaram peças de ouro e prata feitas pelos lavrantes de Gondomar e Fanzeres; eram argolas de beira lisa, arrecadas, botões de amoras, brincos fusiformes, laças, corações de filigrana de ouro.
Foi alli dentro da Cava que se armaram as mezas para o festim nupcial; alli estavam as pipas do vinho palhete, e as fructas com abundancia. A variedade dos trajos e as physionomias dos individuos que representavam a nação desde os Gallaicos até aos Cuneos, davam uma impressão viva e sympathica de um forte povo que tinha uma feição propria, e que queria viver livre. As dansas eram continuadas, simulando combates, e saltos espantosos. Homens e mulheres fórmam bandos, em frente uns dos outros, alternando os versos da Canção, e um Côro dos homens antigos que as presenceavam é que ia repetindo o refrem, em que soava o nome de Viriatho.
Foi á meza do banquete, que Viriatho se ergueu, junto de Lisia, e tirando do seu pescôço a Viria ou Collar de ouro do commando, que até áquelle dia trouxera, o collocou no pescoço da formosa esposa, abdicando alli deante de todos do poder militar que lhe tinha sido confiado, e confinando-se na vida pacifica do lar. D'alli em diante o symbolo da guerra ficava uma joia, adorno da graça feminina; e a arma tornar-se-ia utensilio de trabalho.
O banquete correu animado e sempre cordato, dentro das muralhas da Cava, que era n'aquelle momento um arraial pacifico, nunca visto. Á medida que os grupos se iam levantando da meza, na planura vasta da Cava desenvolviam-se os jogos guerreiros, a vapulação, os saltos, os sarilhos, as luctas athleticas, e ouviam-se brados acclamatorios:
—Viva a Callaecia!
—Viva a Vettonia!
—Vivam os Carpetanos!
—Vivam os Oretanos!
—Viva a Beturia!
—Viva a Cynesia!
N'aquelle momento Viriatho ergueu-se com uma taça de vinho rubro na mão, e unificando todos aquelles gritos, que representavam o espirito separatista das differentes terras, proferiu com a voz timbrada e sonora acostumada ao commando:
—Viva a Lusitania!
A vibração d'aquella voz e d'aquelle nome produziu um delirio indescriptivel; e d'entre aquelles gritos sinceros e fervorosos, provocados por um intimo sentimento de Patria, destacou-se uma outra, distincta e magestosa:
—Viva a Lusitania! e com ella Viriatho, symbolo da sua independencia.
As festas do casamento duraram outo dias, e n'esse decurso nunca deixaram de chegar novas mensagens, e carinhosos presentes que se foram accumulando na Cava. No meio d'aquella multidão alegre levantou-se um rumor enthusiastico, vendo apparecer um formoso touro ladeado por cinco campinos; seguia lento e magestoso, levando enfiadas nas pontas, brancas regueifas de trigo, e em volta do pescoço grinaldas das mais rescendentes flôres. Era o costume dos povos da Extremadura, nas suas festas da entrada da primavera, que votavam a Viriatho esta sua manifestação cultual. Por onde o touro passava, uns lançavam-lhe flôres, outros batiam-lhe no lombo lustroso palmadas de affecto, e a multidão seguia atraz para presenciar a entrega d'aquella expressiva offerta a Viriatho. Os chefes das Contrebias, que assistiam á apparatosa cerimonia, approximaram-se de Idevor, insistindo com empenho:
—Explicae-nos o sentido religioso da Festa do Touro. Porque é que encontramos por todo o territorio hispanico Touros de pedra, como esses de Guisande? Que sentido historico terá a lenda do combate de Mithra com o Touro atravessado pela sua espada, como se vê insculpido em tantas rochas e monumentos?
Idevor accedeu promptamente ao empenho:
—«Um povo, que habita na latitude em que o maior dia do anno é o dobro do menor dia do inverno, desenvolveu-se e enriqueceu na paz dos trabalhos da Agricultura. Para elle o Sol representava-se-lhe á mente como o Touro celeste: e no começo do Anno solar, na efflorescencia estival, symbolisou essa Constellação pelo signo do Touro, a força geradora, a potencia fecundante. Esse symbolo zodiacal do Touro, conservou este nome entre todos os povos civilisados, como expressão de um conhecimento astronomico; e foi tambem objecto de adoração. O nome de Thor, o deus dos povos da Germania e da Scandinavia, designa o Touro, tornado a propria imagem do deus. Os Cimbros e Teutonios, que invadiram a Italia, juravam sobre o boi sagrado, que traziam comsigo. Thor, o chefe de todos os deuses scandinavos, é representado com um sceptro com cabeça de boi. Muitos nomes de povos e de logares foram tomados d'este symbolo do Touro, como o monte Tauros, o Darana, ou Atlas, os Tourisci e Taurini, e a região da Taurida. A Civilisação d'este povo occidental foi propagada ao Oriente, e chamaram-lhe Turan, pela representação do Touro, occupando o primeiro logar entre os quatro Signos do Zodiaco, na casa em que marcam no Céo as Estações solsticiaes e equinociaes.
«Contra esta civilisação do Occidente, que divinisára o Fogo material do Sol, no Touro, combateu o Iran, symbolisando no joven Cavalleiro cercado de raios luminosos, Mithra, o Fogo vivente e espiritual. A lucta do Iran e de Turan foi representada em um combate de Mithra atravessando com a sua espada o Touro; era o antagonismo e o triumpho da civilisação militar sobre a civilisação agricola, sacrificada diante das invasões da força armada, da rapina organisada. A vinda dos Persas à Hespanha foi uma consequencia d'essa lucta; Mithra tambem aqui venceu o Touro, que representava as forças impetuosas da Natureza.
«Mas, apesar d'esse triumpho, podemos exaltar o Touro na sua morte, como no velho hymno:==Do seu corpo nascem as plantas salutares que cobrem a terra de verdura; do seu sangue vem o vinho, que produz a bebida sagrada dos Mysterios, e dos seus tutanos o trigo que dá o alvo pão; do seu espermen derramado provieram todos os animaes uteis.==O Touro será vencido pela Espada, mas esse triumpho só ficará effectivo quando os vencedores por seu turno cultivarem a terra, levantarem cidades, abrirem estradas e coadjuvarem pelo commercio a confraternidade dos Povos. Então a Espada desapparecerá, para que a Cornucopia, esse emblema da Força do Touro, seja o symbolo da Abundancia e da riqueza inesgotavel, restabelecendo no mundo a supremacia do Occidente.»
Mal acabára Idevor de esboçar o poema que se recíta em Hierna, do Touro ou Tarvos, defendido pelas arvores cortadas para não ser agarrado, quando se ouviram estrondosas gargalhadas a pouca distancia. Era um desafio de bebedores:
«Ganhava a palma o que bebesse de um só folego um grande cangirão de vinho.»
Só um vencera, sendo por isso acclamado com a gargalhada estrondosa. Viriatho olhou, e reconheceu Bovecio.
—Bovecio! que eu vi hydropico, e que está agora são como um pêro, e faz d'estas valentias!
Acenando-lhe com amisade, Bovecio veiu respeitoso, e murmurou submisso:
—Bebi na fonte de Ouguella. A vós, senhor, devo eu a saude e a vida. Por vós a sacrificarei com orgulho.
[XLVII]
Estavam as festas do casamento no auge do fervor, quando se aproximou de Viriatho Tantalo, que chegára repentinamente, e lhe communicava:
—Emquanto Quinto Pompeu Rufo está dirigindo o ataque contra os Numantinos, Quinto Servilio Cepio destacou-se do exercito romano, e descendo com algumas Legiões para a região Occidental da Hespanha, rompendo hostilidades, quebranta assim o Tratado de Paz ratificado pelo Senado! Acompanha-o Decio Junio Bruto, o que quer dizer, que é uma campanha em fórma.
Viriatho encarou Tantalo com assombro, por vêr que a infamia de Cepio era tão clamorosa como a carnificina feita por Galba, e apenas proferiu a phrase:
—Ainda tenho a minha espada!
E aproximando-se de Lisia, tomou-lhe as mãos com anciedade:
—Vou partir. Sou informado n'este momento que o Consul Quinto Servilio Cepio opéra com um exercito entre a Oretania e a Carpetania! Tenho de ir sustar de prompto a este perigo, e impedir a deslealdade do Consul.
E aproveitando aquellas ultimas horas da festa do seu noivado, chamou os Mil Soldurios que o acompanharam sempre durante os dez annos de campanha contra os romanos, para que passassem palavra a todos os que alli estavam, representantes da Vettonia, da Carpetania, da Oretania, da Callaecia, da Beturia, da Cynesia, para que partissem para as suas terras, que referissem a infamissima deslealdade de Cepio, e que tivessem promptos para a primeira chamada os Terços e Companhias com que faria frente ao Consul indigno que assim rasgava um Tratado solemne.
E depois de ter beijado a face de Lisia, n'uma despedida muda mas melancholicamente expressiva, seguiu em marcha com os Mil Soldurios, avançando em direcção aos Vettões para formar o seu primeiro nucleo de resistencia.
Corriam a trote largo, quando ao passarem por um rio, em que os cavallos foram dessedentar-se, uma pobre lavadeira que estava ahi á beira d'agua, fitou Viriatho com um olhar compassivo:
—Como uma festa tão alegre do feliz casamento se interrompeu, sem ninguem tal cuidar!
Os Soldurios não fizeram reparo do que dizia a pobre mulher, que lavava á beira do rio; continuou murmurando:
—Elle não morrerá em batalha, isso é bem certo! Lisia ficará sempre noiva.
Em breve os cavalleiros se afastaram da margem e precipitaram a carreira, seguindo Viriatho na frente, com a impaciencia de ir defrontar-se com o perigo. E a obscura mulher, continuando a lavar á beira do rio, fallando comsigo, sem ser ouvida por ninguem, dizia na sua credulidade:
—Na minha choupanasinha eu tinha dependurada a Boliana, para me revelar a sorte de Viriatho. Emquanto Viriatho andou dez annos a fio nas guerras contra os Romanos, a Boliana estava sempre verde. Só de hontem para hoje é que reparei que a Boliana emmurchecia. Estou a vêr o seu destino; mas a Espada de Viriatho é invencivel! e Viriatho não morrerá em batalha! São a favor d'elle os agouros... só a Boliana é que está emmurchecendo.
Ia a perder de vista a cavalgada, e lançando-lhe um olhar demorado, murmurou a pobre mulher antes de continuar no seu trabalho:
—Estão-me a lembrar agora aquellas palavras da Canção do noivado! Fallavam de morte, no meio de tanta alegria; não fui eu só que o notei, quando cantaram:
Laço que a união celebra,
Nem mesmo a morte o quebra.
O povo tem a intuição das cousas; na sua inconsciencia apparece por vezes como vidente.
[XLVIII]
Cepio, por cumulo de sua perfidia, sabendo que o exercito de Viriatho fôra licenceado e que os Terços e Companhias tinham regressado ás suas terras e provincias, levou o descaro affrontoso a talar o solo da Lusitania para se encontrar com Viriatho desarmado.
No seu caminho, Viriatho topou com multidões de gente foragida das cidades invadidas, saqueadas e incendiadas por Quinto Servilio Cepio. Vendo-o passar, em grandes alaridos pediam soccorro, que acudisse a tamanha calamidade; por que o Consul Cepio já estava alli perto, e forçára, com medonhos suplicios, alguns aldeões a declararem o caminho que Viriatho seguira, contando agarrar o general lusitano.
Viriatho, encobrindo a surpreza da noticia, e diante do perigo, resolveu o plano a oppôr-lhe: retirar-se para o paiz dos Vettões, aonde tinha gente firme e da maxima confiança. Era-lhe facil ahi um levantamento em massa. E para não perder tempo, mandou emissarios aos Gallaicos, para acudirem ao attentado inqualificavel com a maior presteza, porque desde o crime de Servio Sulpicio Galba, não se vira perfidia mais clamorosa como esta agora de Quinto Servilio Cepio.
No emtanto, o Consul procurava com o seu exercito Viriatho, e sabendo que elle está próximo da Carpetania, com homens recrutados pelo caminho, mal armados, com foices roçadoiras, machados, chuços e mangoaes, entende que é essa a melhor occasião de atacar o caudilho lusitano e libertar o dominio de Roma na Hespanha d'esse libertador patriota. Diante de um exercito assim consideravel como o de Cepio, Viriatho, com um tino pratico imcomparavel, reconheceu que seria rematada loucura acceitar batalha em condições de tamanha desegualdade. E tirando da propria difficuldade do momento os recursos para uma inesperada defeza, descobriu no terreno aonde todo o exercito se perderia um ponto de que soube aproveitar-se para a salvação. Recuando para um valle profundo, para o qual dava entrada uma garganta estreita, por alli fez passar a pouca tropa de que dispunha, embaraçando com os seus Mil Soldurios, que o exercito romano se aproximasse e o envolvesse. Durante esta passagem para o valle amplo, os Cavalleiros simulavam movimentos como quem se preparava para uma batalha campal; e os Romanos suspeitando que Viriatho os attrahira para alli, porque teria no valle um consideravel exercito sobre que se apoiava, fizeram alta, temerosos da cilada, porque viam através da estreita garganta estendidos ao longo do valle negrejarem os vultos dos Terços lusitanos.
Viriatho prolongou esta situação espectante, para dar tempo a pôr fóra de perigo as pequenas forças do seu commando. Conseguido isso com a maior felicidade, Viriatho, a um signal dado, dispersou-se com os seus Soldurios com uma rapidez inacreditavel, desapparecendo por entre os anfractuosidades do terreno com surpreza dos romanos, que debalde tentaram irem no encalço d'elles em perseguição. Cepio, desesperado por aquelle acto heroico de Viriatho, que assim lhe patenteava a sua superioridade militar, avançou pelo territorio dos Vettões, queimando-lhes as ceáras, derrubando os casaes isolados e pondo a saque as povoações, passando á espada todos os que encontrava armados, dando caça ás guerrilhas que procuravam juntar-se a Viriatho.
[XLIX]
A malvadez com que o Consul Cepio procedia contra as povoações inermes, chegando a mandar expôr nas praças pregados em cruzes os lusitanos que lembravam o Tratado da Paz violada, fez reflectir Viriatho, forçando-o a um acto de coragem e dignidade. Participou aos seus companheiros:
—Aos estragos que Cepio está praticando, não sendo possivel oppôr-lhe já uma força armada, que ainda leva seu tempo a reunir, cumpre oppôr-se-lhe n'este momento a força moral.
—A força moral? Objectou Minouro.—Em que consiste n'este transe a força moral?
—Quero lembrar a Quinto Servilio Cepio, que temos um Tratado de Paz assignado por seu irmão Serviliano, e ratificado pelo Senado e pelo Povo. Que pela nossa parte ainda o não infringimos, e que acreditamos na fidelidade de Roma no cumprimento das leis que ella a si se decreta. Que tres dos meus mais leaes Companheiros vão d'aqui ao acampamento de Cepio mostrar-lhe o Tratado de Paz, e declarar-lhe que á magestade d'elle entregamos a nossa defeza.
E voltando-se para Ditálcon, Andaca e Minouro, que o contemplavam silenciosos, disse-lhes com voz firme:
—A vós, como os meus maiores e mais leaes amigos, encarrego de irem ao arraial de Quinto Servilio Cepio appresentar-lhe a respeitosa homenagem dos Lusitanos; e em seguida ás declarações de confiança no Tratado de Paz ratificado pelo Senado, mostrae-lhe esse diploma authentico, trocado entre Roma e a Lusitania.
E entregou as laminas de cobre em que estava gravado o Tratado a Ditálcon, o mais velho dos tres Companheiros, que partiram rapidos para o acampamento romano, levando ramos de oliveira apanhados pelo caminho, por servirem de parlamentarios que pediam paz, ou que iam com intenções pacificas. Os tres companheiros iam conversando:
—Viriatho, com certeza, não sabe quem é Cepio, um dos maiores devassos de Roma? E é com um sujeito d'estes que Viriatho se fia em força moral!
—O Consul não perde esta occasião; e bem tolo será se a não aproveitar para vingar seu irmão Serviliano, forçado por Viriatho a assignar esta Paz.
—São passadas perdidas, estas; por que Cepio sabe que não temos gente, e carrega sobre nós a valer. Oh, se carrega! Nem fôra elle tão estupido como general para cobrir a sua inepcia com este lance.
—Póde ser que as passadas não sejam perdidas! Porque Cepio é homem para entrar em negocio...
—Em negocio?
—Ha ás vezes combinações imprevistas, que dão novo rumo aos acontecimentos.
—E esta occasião é asada para isso.
—O ponto está em sabel-a approveitar habilmente.
O dialogo entrecruzava-se, quando Ditálcon, Andaca e Minouro chegaram ao acampamento romano. As vedetas e guardas avançadas avisaram de prompto; Cepio mandou alguns Cavalleiros para acompanharem até á sua barraca os parlamentarios enviados por Viriatho, imaginando que vinham annunciar-lhe a rendição do Caudilho lusitano, ou em peior hypothese, que Viriatho achando esta hostilidade incompativel com a dignidade militar, lhe mandava o desafio provocando-o para um combate singular, em campo aberto. Porém Cepio afastando da mente esta conjectura que não lisongeava a sua covardia, reflectiu tacitamente:
—Se me apresentarem um tal doésto, recusarei dizendo: Que deixo esses combates singulares aos gladiadores da arena, pagos para espectaculo do povo, sempre ávido de divertimentos.
E mandando entrar á sua presença os tres parlamentarios, divisou-lhes uma expressão de quem antes de fallar já se entendia.
[L]
Na ideia em que Cepio os achava, mostrou aos tres parlamentarios um sorriso de affabilidade, e um trato verdadeiramente urbano:
—Direis a que vindes.
—Envia-nos Viriatho.—Assim começou Ditálcon, o mais velho e auctorisado dos companheiros.
—Ouvirei attentamente.
—Envia-nos Viriatho a dizer-vos, que tendo recebido da grande e generosa Roma o titulo extremamente honorifico de Amigo, é-lhe moralmente impossivel, sem pécha de traição, o pegar em armas contra a poderosa Republica. Isto pelo seu lado, dando como prova os factos de estar dissolvido o Exercito lusitano, e ter deposto as armas confinando-se na vida civil pelo seu recente casamento. Quanto a vós, vendo como viestes talando a Lusitania, queimando cidades pacificas, e ainda agora atacaes violentamente os Vettões e Gallaicos, lembra que existe o Tratado assignado por vosso irmão e ratificado pelo Senado e pelo Povo romano, no qual está garantida a paz e tranquillidade da Lusitania. Pedia pois...
Cepio, mal podendo encobrir a colera:
—Não posso ouvir fallar n'esse Tratado assignado por meu irmão, sem que o sangue se me revolva. Perco a cabeça. Ha certas occasiões em que a honra nos prejudica para uma completa e perfeita vingança. Esta é uma das taes.
—Mas, senhor, aqui trazemos o proprio Tratado authentico, para vêres...
Cepio tomou nas mãos o Tratado, olhando-o com desdem, e disse para os tres com um sorriso acanalhado:
—Quando eu acompanhei á Hespanha o Consul Quinto Pompeu Rufo, que está combatendo diante de Numancia, não foi para vir tomar os bellos áres da Lusitania! Esse Tratado nada vale para mim.
—Violaes então a auctoridade da grande e generosa Roma!?
—Quem vos auctorisa a tão monstruosa suspeita?—redarguiu Cepio.
—A letra...
—Qual letra, ou qual careta! volveu Cepio com o seu ár pulha, que combinava de vez em quando com a philaucia de Consul romano. E com ár insolente e confiado continuou, affectando segredo de importancia:
—Os Tratados só têm a força que lhes dão as Espadas. Bem vejo que Viriatho não está bem munido n'este momento, porque me manda lembrar o Tratado. Mas o Tratado... o Tratado já não existe. Quereis saber? Aqui á puridade, e só para nós...
Os tres parlamentarios aproximaram-se de Cepio, sentindo-se lisonjeados pela confidencia que iria fazer-lhes:
—O Senado convenceu-se da indignidade de meu irmão, assignando esse Tratado. Consegui eu mesmo isso; e o Senado concedeu-me secretamente a faculdade de hostilisar Viriatho, mas sómente hostilisal-o...
Minouro fitava o Consul com o maximo interesse; Ditálcon parecia abatido, e Andaca meditava. O Consul, olhando para elles, e pondo-lhes as mãos pelos hombros, continuava:
—Meus amigos! Tenho aqui cartas de Roma dizendo-me, que vem pelo caminho o decreto do Senado mandando continuar a guerra da Lusitania. Quereis vêl-as?
—Basta-nos a vossa palavra! disseram os tres.
—Nem podia deixar de ser assim,—proseguiu Cepio com enfatuado desdem.—Accusarão os vindouros Roma de desleal nos seus Tratados, mas nunca de um governo estupido! Pois era lá possivel que sustentassemos uma guerra desesperada em Numancia, que pertence á primitiva unidade lusitana, e que estivessemos de mãos atadas na parte occidental da Hespanha pelo pacto imposto por um cabecilha, que para nós os romanos nunca deixou de ser o Dux latronum!
—Com que, Roma decreta que se continue a Guerra da Lusitania? inquiriu com assombro Ditálcon.
—Como acabaes de o ouvir.
—A nossa missão parece terminada,—disse Ditálcon, quebrantado o animo.
—Não a considereis terminada,—interrompeu Cepio, tornando a approximar de si os tres emissarios.—Alguma cousa bem combinada se poderá fazer ainda, e depende da vossa intelligencia. Quereis a paz da Lusitania?
—Queremos! accudiram os tres.
—A Paz da Lusitania, mas não a Paz de Viriatho! disse o Consul com orgulho. D'essa tratemos aqui, partindo do ponto que Viriatho é o unico embaraço d'ella, e que emquanto elle viver nunca Roma considerará a Paz da Lusitania senão como uma affrontosa derrota.
—Mas Viriatho é querido do Povo, que o acompanha cegamente.
—É por isso que Viriatho é um perturbador. A sua obra é uma loucura! Quer fazer uma Lusitania restaurada pela unificação de elementos de raças ha tantos seculos extinctas, imaginando Lusonios, com quem nada têm as gerações actuaes.
Ditálcon acenou com a cabeça, em signal de adhesão áquella ideia. E o Consul, vendo que estava sendo comprehendido, voltou-se para Minouro:
—Nós não podemos andar aqui em balanços ao grado dos sonhos de Viriatho; quer fazer uma Patria Lusitana, com um individualismo e autonomia propria, quando entre Lusitanos e Iberos não existem fronteiras separativas, nem de montanhas, nem de rios. É tempo de acabar com estas utopias, tornando a Hespanha uma Iberia unida para acceitar a civilisação de Roma e continuar no occidente a sua obra dominadora.
Minouro regosijava-se com aquellas vistas do Consul, que eram tambem as suas. E Cepio, voltando-se para Andaca, e já com ár determinado a quasi imperativo:
—Para attingir este grande ideal da civilisação romana, do direito, da administração, da ordem publica, é de força que renegueis a Patria lusitana.
E como Cepio notava que os tres estavam entre si de accordo, disse para elles:
—Roma carece das capacidades e energias dos homens de Hespanha. Eu vol-o garanto, Roma encarregou-me de vos conferir o titulo de Cidadãos romanos, e as honras do Patriciado, com accesso aos altos cargos da Republica, e uma somma correspondente de sestercios, se...
Os tres entreolharam-se, e querendo penetrar nas intenções de Cepio, comprehenderam-se todos. Minouro interrompeu a suspensão silenciosa do Consul:
—Effectivamente, Viriatho está-se tornando um embaraço.
—Quando se chega a certo gráo de popularidade, em dados homens torna-se isso um perigo.
—Um acto decisivo vale por annos de lucta.
O Consul volveu então com frieza:
—Mantenho as propostas em nome da Republica romana: Impõe-se n'este momento a necessidade da morte de Viriatho. Roma dá-vos o titulo de Cidadãos romanos...
—Qual de nós ha-de...
—Dá-vos as honras do Patriciado.
—A morte de Viriatho impõe-se...
—Dá-vos o accesso aos altos cargos da Republica, e uma somma de sestercios.
—Tiremos á sorte quem hade matar Viriatho.
O Consul estendeu o seu capacete, lançando dentro d'elle tres pequenos seixos, sobre um dos quaes escrevera==Morte==. Cada um dos tres tirou a sua pedra. A Minouro caiu aquella em que estava inscripto: ==Morte.==
[LI]
Era noite velha, quando Ditálcon, Andaca e Minouro regressaram ao acampamento de Viriatho. Demoraram-se mais tempo do que o Cabecilha imaginára, revolvendo por vezes na mente que fortes motivos ou rasões politicas se debatiam na barraca do general romano, para lá se deterem. De vez em quando occorria-lhe a conjectura de que Cepio, não reconhecendo a inviolabilidade dos seus parlamentarios, os teria mandado passar pelas armas, ou pelo menos os guardava como prisioneiros, como refens para lhe impôr condições de rendição. N'esta prolongada preoccupação de espirito, e sob a pressão dos inesperados acontecimentos, que só poderiam ser contrabalançados pela energia e pela astucia, Viriatho cahiu em um somno profundo, como aquelle em que se fica immerso antes de caminhar para a morte. Embora profundo, o somno era agitado, como em homem costumado a estar álerta mesmo quando descansava; e n'essa agitação, debatia-se Viriatho com um pezadello, um sonho, que sem differença e por fatalidade coincidia com o que estava prestes a acontecer. Na agitação d'aquelle somno dormido sobre a terra recalcada poucas horas antes pelos cavallos, Viriatho sentia os passos dos seus tres Companheiros, que se aproximavam silenciosamente da barraca em que estava dormindo; um d'elles, Minouro, afastou o panno e entrou escondendo de traz das costas um punhal de dois gumes. N'aquella anciedade cataleptica, Viriatho quiz erguer-se, gritar, mas era impossivel qualquer movimento; em seguida entrou Ditálcon, e Andaca ficou quasi da parte de fóra, mas era ainda visto claramente. Sob o terror do sonho que o opprimia, Viriatho viu Minouro curvar-se sobre elle, e erguendo ao ár o braço com o punhal descarregar o golpe...
N'esse momento de extrema angustia acorda, e entre a illusão e a realidade, sentiu um golpe vibrado fortemente no pescoço; antes que o sangue lhe embaraçasse a voz, Viriatho, abrindo os olhos attonitos, pôde proferir as palavras:
—O meu maior amigo? Minouro...
Os borbotões de sangue que lhe encheram internamente o peito e respingaram pelos pannos da barraca, não deixaram que podesse mais exprimir-se, e ficou exanime, arquejando, até ao ultimo alento, passando assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriatho, pela sua lealdade, não ousaria acreditar, para a realidade tragica e affrontosa, que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitania.
A morte de Viriatho fez-se com rapidez e segurança; os tres Companheiros da Trimarkisia sahiram da barraca sem ruido, e simulando ordens recebidas de Viriatho montaram nos seus cavallos e partiram á desfilada para o arraial romano. Cepio estava dormindo; um Cavalleiro foi acordal-o, e dizer-lhe:
—Morreu Viriatho!
Quinto Servilio Cepio, voltando-se sobre o lado direito para continuar o somno, deu ordem ao Cavalleiro:
—Que esses entes abjectos esperem lá fora, até que seja dia.
[LII]
Viriatho era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua presença era como um toque de alvorada. N'aquelle dia, que despontava luminoso e sereno, não apparecera; como faltavam tambem os seus tres Companheiros, facilmente imaginaram os Mil Soldurios que iria reconhecer algum fôjo ou desfiladeiro para organisar uma emboscada contra o exercito consideravel de Cepio. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a barraca do Caudilho conservava-se fechada. Occorreu a ideia de verificar se estaria cahido por doença; o que estava mais perto levantou resoluto o panno da barraca, e viu o vulto de Viriatho estendido em cima da relva, sobre póstas de sangue coalhado; e recuando com espanto:
—Está morto Viriatho! Apunhalado, apunhalado!
Aquelle brado sôou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o ár ambiente; o trovão foi o rumor propagado entre os Soldurios e por entre os Terços e Companhias, que formavam agora o pequeno exercito de Viriatho.
—Apunhalado Viriatho! Morto Viriatho!
Para a barraca do general correram todos aterrados. Não compareceram Ditálcon, Andaca e Minouro; eram os unicos que faltavam. Sem esforço reconheceram que esses, a quem Viriatho considerava como os seus maiores amigos, é que o tinham apunhalado traiçoeiramente, covardemente, emquanto elle dormia!
Corriam lagrimas de desespero pelas faces dos velhos camaradas de Viriatho n'esta campanha de dez annos pela independencia da terra lusitana.
A barraca foi desmantelada, e ficou patente aos olhos de todos o corpo inanime de Viriatho estendido como se tivesse passado instantaneamente do somno da vida para o da morte; via-se-lhe o golpe profundo do pescoço dado por mão certeira, a que teria succumbido rapidadamente e quasi sem agonia. Sobre o sangue derramado em cima de que jazia, e a seu lado, estava estendida a espada, que o acompanhava sempre, espada invencivel, á qual attribuiam poderes maravilhosos. Vendo a espada, e não se atrevendo nenhum dos Soldurios a tomal-a na mão, diziam entre si:
—Agora comprehendemos as vozes que corriam: Viriatho não morreu em batalha; assim lhe estava vaticinado.
—Mas o oraculo, que lhe parecia favoravel, deixára no vago a hypothese atroz, de morrer apunhalado á traição pelos seus melhores amigos!
—Antes vencido e morto na refrega, no sacrificio voluntario da vida por uma ideia, do que esta sorte miseranda.
E por todo o exercito, em grupos, que se formavam em tamanha desolação, levantavam-se alaridos, prantos de terror e de magoa; bem reconheciam que aquelle desastre era a perdição de todos, e que sem o chefe prestigioso achavam-se á mercê do Consul romano, e para muitos annos abafada a resistencia da Lusitania. Na angustia em que todos se viam, a pouca distancia do exercito de Quinto Servilio Cepio, o desespero da situação causava uma apathia, uma obnubilação para planear a defeza urgente.
N'este momento, afastando os grupos que cercavam o corpo de Viriatho, chegou Tantalo, um dos bravos em que mais confiava o Caudilho, e collocando-lhe a espada entre as mãos, cruzada sobre o peito, exclamou:
—Morreu o teu corpo, mas permanece imperecivel o teu ideal. Esta Espada transmittirá o esforço, truncado pela traição, áquelle que cedo ou tarde servir a aspiração de uma Lusitania livre.
E voltando-se para o exercito, que parecia reanimado por estas palavras:
—O que temos a fazer agora, e primeiro que tudo, é prestar a Viriatho as honras do funeral.
Emquanto se davam as ordens para realizarem de prompto, com a maior solemnidade, a lugubre cerimonia, no arraial dos romanos levantavam-se cantos de acclamação triumphal, que eccoavam de quebrada em quebrada:
—Acabou a Guerra da Lusitania. Morreu Viriatho! Morreu Viriatho.
[LIII]
No arraial de Quinto Servilio Cepio a inesperada noticia da morte de Viriatho propagou-se com uma rapidez inaudita; perguntavam entre si os Legionarios:
—Quem seria o valentão que se atreveu a ir atacar pessoalmente aquelle colosso?
—Morreu em duello Viriatho!?
—Só por traição...
—Quem foi o romano astucioso?
—Quem teve essa gloria?
—Não ha gloria em matar á traição.
—Não foi nenhum romano; fôram lusitanos, e amigos de Viriatho.
—Custa a crêr.
—Elles estão ahi junto da barraca de Cepio para receberem o premio promettido.
—Então, foi Cepio que os comprou? que os aliciou para a traição?
—Sim! Nada podendo pelas armas, alcançou pela astucia o que nunca poderam conseguir Vetilio, Plancio, Nigidio, Fabio, Quinccio e Serviliano. É velho o ditado, mas sempre verdadeiro: Quem não póde, trapacêa.
E n'estas conversas entre os Legionarios, a curiosidade aguçava-se estimulando alguns d'elles para irem vêr como eram as caras dos tres miseraveis que tinham, ao serviço de Cepio, assassinado o general que Roma tanto temia. Os Legionarios que passavam e encaravam com Ditálcon, Andaca e Minouro, iam dizendo entre dentes:
—Ia jurar que aquelles homens não são lusitanos!
—Viste aquelle mais alto, e mais velho? Se não é um africano branco, berber, mesmo ao pintar!
—E o outro? o loiro, parece celta.
—O da cara redonda é que se assemelha mais ao typo luso; mas assim roliço, e puchando para a gordura... é com certeza ibero.
Afastaram-se á pressa, por que o Consul Quinto Servilio Cepio apparecera á porta da sua barraca de campanha; alguns ouviram o som confuso das palavras trocadas entre elle e os tres traidores, palavras atropeladas, e d'entre as phrases destacando-se as que Cepio proferiu com accentuado e esmagador desdem:
—Roma não tem por costume dar premio a soldados que estrangulam o seu general.
As trombetas abafaram o resto da phrase, tocando á formatura das Legiões e á parada geral do exercito. Emquanto esteve o exercito consular em fórma, Cepio conferenciou com os Centurios, estabelecendo o plano a seguir depois da morte de Viriatho:
«Primeiramente intimar ao exercito lusitano a rendição peremptoria e incondicional; agora privado de chefe, é de todo impossivel a resistencia.
«Depois d'isto, que Decio Junio Bruto avance com uma parte do exercito romano e penetre na região da Vettonia e vá ao encontro dos Callaicos, que tratam de prestar soccorro ao exercito, conforme o pedido que lhes fizera o Caudilho.
[LIV]
Os Cavalleiros romanos, que chegaram com a intimação affrontosa de Cepio ao arraial lusitano, podéram vêr e contaram as cerimonias grandiosas que se praticaram no Funeral de Viriatho. D'entre os Mil Soldurios que sempre o acompanharam, uns encarregaram-se de vestil-o magnificentissimamente com as mais ricas e festivas roupas que trajava em tempo de gala, quando animava os jogos celebrando as derrotas romanas. Amarraram-lhe os cabellos na testa, como se fôsse para entrar em combate, pondo-lhe na cabeça a triplice cimeira e o capacete de couro; pendente do pescoço o pequeno escudo concavo, preso por corrêas, e em uma das mãos um punhal largo ou faca de matto, estendida a seu lado uma lança de ponta de bronze e gancho para não deixar fugir a prêza. Outros Soldurios acarretaram para cima de um alto penhasco que estava na corôa da montanha, grandes mólhos de rama de pinheiro, de faias e carvalhos, formando alli uma estupenda pyra, sobre a qual, com veneração, fôram processionalmente collocar o corpo rigido de Viriatho. Parecia um soberbo throno a pyra; e logo que cada um dos Mil Soldurios foi junto do cadaver dar-lhe o derradeiro adeus, dividiram-se em grupos de duzentos, e póstos em frente uns dos outros, como quem vae entrar em combate, esperando que fôsse lançado fogo á enorme pyra. A chamma começou a atear-se, e assim que ella irrompeu intensa, principiaram as dansas guerreiras em volta da pyra, em fórma agonistica, batendo os escudos, floreando as lanças, brandindo as espadas e entrecruzando-se vertiginosamente, como se esse tripudio sanctificasse mais o acto lugubre, continuando ininterruptamente, incansavelmente, até que a ultima labarêda, tendo combusto o corpo de Viriatho, se apagasse por não ter mais que queimar.
E emquanto aquellas turmas de duzentos cavalleiros dansavam em volta da pyra, dois outros grupos conservavam-se balançando-se como a accentuar o rythmo de um Canto, em que celebravam as virtudes e o heroismo de Viriatho. O que esse Côro generoso e heroico vociferava, chegou na voz dos tempos a penetrar na historia:
[ENDECHA FUNERAL]
PRIMEIRA TURMA:
De obscura estirpe nascido,
Fôra em criança pastor:
Certo prenuncio e augurio
Que um dia, por seu valor,
Intelligencia e denodo,
Guiaria o Povo todo.
SEGUNDA TURMA:
Nos transes mais arriscados,
A astucia e penetração
Dos seus planos de batalha,
Descobria a salvação!
Vimol-o em Tribula, quando
Teve a Viria do commando.
PRIMEIRA TURMA:
Por trazer o Collar de oiro
Não deixou de ser affavel!
Dava a todos egualdade,
Contra Roma era implacavel!
Nas Legiões consulares,
Mandava ao Orco aos milhares.
SEGUNDA TURMA:
Roma offereceu-lhe um dia
Da Lusitania a Realeza!
Simples, modesto no trato,
Sceptro e purpura despreza,
Fazer livre a Patria sonha;
Por ella a morte é risonha.
Este grupo de Soldurios unindo-se, começaram uma carreira vertiginosa em volta da pyra; e os que até áquelle momento andavam em volteio ballucinante pararam subito, cantando por sua vez, divididos em duas filas:
PRIMEIRA TURMA:
Dominou pelas victorias!
Mas nunca sua vontade
Altiva se exerceu fóra
Da Justiça e da Equidade.
Sempre as prêzas repartia;
Nada para si queria.
SEGUNDA TURMA:
Valente, audaz, destemido,
No seu viver era sóbrio!
Commodidades e luxo
Tinha-os por vil opprobrio.
Para a liberdade attreito,
Tinha o duro chão por leito.
PRIMEIRA TURMA:
Triumphava nos perigos
Pela astucia e pela audacia!
Cansou Roma, a Paz lhe impondo
Pela instante contumacia.
Manietou os tyrannos
Na campanha de dez annos.
SEGUNDA TURMA:
N'esses dez annos de lucta,
Á sua voz tudo corre;
Uniu-nos pela vontade
Que a Patria lusa soccorre,
A nossa Patria ditosa,
Que, firme, libertar ousa!
AS QUATRO TURMAS:
E Roma, sempre vencida,
Só achou o assassinato,
Pela perfidia affrontosa
Para vencer Viriatho!
Vergonha á Cidade eterna,
Que pela traição governa.
O Canto do soberbo Côro acabou pela estranha Vociferação, condemnando a traição execranda de Roma contra Viriatho emquanto dormia. Areytos e Tripudios funerarios acabaram simultaneamente; e emquanto se abriu uma vastissima cova para arrojar as cinzas de Viriatho, procedeu-se ao sacrificio das victimas consagradas aos manes do general insubstituivel. Cortaram as dextras dos prisioneiros romanos, que eram quasi todos iberos e levantinos, e foram mortos muitos cavallos. Dedicados amigos de Viriatho combinaram entre si o suicidio religioso, para o acompanharem além da morte, sendo alli enterrados sobre as cinzas d'aquelle com quem contavam encontrar-se em um melhor mundo. Subitamente apresentou-se á beira da cova Bovecio, e exclamou com voz firme:
—Ao bom conselho de Viriatho devi o voltar á vida, de uma doença mortal. É de meu dever acompanhal-o na morte.
E vibrando em si proprio uma punhalada, cahiu borbotando sangue na larga cova aberta. Muitos dos Soldurios de Viriatho, levados pela mesma vertigem, proclamaram o suicidio religioso. Então Andergus, o espadeiro de Toletum, propoz:
—Que se suicidem tantos amigos e companheiros de Viriatho, quantos os annos que duraram os seus combates contra Roma.
Avançaram para ao pé de Andergus os Maioraes da Mésta, Edovius, Togotes, Uvarna, Suttunus, Semesca, e alguns chefes de Contrebias, taes como Aernus e Candiedo; e começaram entre si um duello desvairado, jogando-se golpes de morte, cada qual procurando não ser o ultimo sobrevivente. Andergus foi o primeiro a cahir por terra. Mas a cerimonia inaudita teve de ser interrompida por um successo impressionante: dois Cavalleiros romanos, em nome do general Quinto Servilio Cepio, apresentaram-se intimando a rendição do exercito lusitano.
—Nunca!—bradaram os primeiros que ouviram a intimação affrontosa.
—Não se pactúa com um general que julga chegar á victoria pela traição.
E os que iam suicidar-se pela confraternidade heroica, decidiram:
—Morramos, sim, mas em lucta desesperada contra o infame Consul.
E n'aquelle momento, lançando a ultima pá de terra sobre a sepultura de Viriatho:
—Para a frente! Tantalo, Tantalo seja o nosso general, para continuar a campanha.
[LV]
Depois que Tantalo tomou o commando do pequeno exercito lusitano, alli mesmo em conselho armado assenta o plano a seguir para evitar o combate com Cepio:
—Temos dois recursos: ou debandar o exercito, indo cada um de nós recolher-se a Numancia, e coadjuvarmos Salóndico, que resiste com valentia a Quinto Pompeu Rufo; ou seguirmos em marcha sobre Sagunto, que está em poder dos Romanos, é verdade, mas cujas cercanias acham-se povoadas por Turdetanos.
—Para Sagunto! Para Sagunto.
A marcha fez-se com precipitação, de modo que Cepio, vendo que os Lusitanos não se rendiam, e dando ordem para o ataque immediato, encontrou o campo abandonado. Mandou circular em todas as direcções para descobrir o caminho que os lusitanos seguiam; e facilmente lhes seguiu o encalso, alcançando-os proximo das vertentes de Palancia e do Turia.
Tantalo não pôde evitar o combate; reconhecia que era impossivel a victoria, mas a derrota certa havia de custar muito sangue aos romanos. E voltando-se para os Soldurios, que no funeral de Viriatho se ajuntaram dois a dois para luctarem em duello até cahirem mortos para acompanharem ao outro mundo o seu chefe, exclamou:
—Agora é que vale a pena morrer. Continuamos ainda a glorificação de Viriatho.
O arranque com que os Lusitanos receberam o ataque do exercito de Cepio foi de molde, que o Consul, seguro da victoria, julgou melhor, ainda assim, não se aventurar ás contingencias do momento; e antes de dar o golpe decisivo, e dispostas todas as forças para o desfecho tremendo em que seriam passados á espada, mandou dizer a Tantalo:
—Posso offerecer-vos a Deditio. Quero ser generoso com os bravos que não temem a morte.
Tantalo explicou aos seus companheiros o que era a Deditio concedida pelo general romano:
—Se nos entregarmos como Dedititios, ficamos subditos de Roma, e como taes ninguem nos poderá reduzir á condição de escravos vendendo-nos nos mercados como bestas de carga. Como Dedititios tem de nos ser dado um territorio para habitarmos como Colonos.
A ideia de nunca serem escravos mais do que tudo sorriu áquelles cansados lusitanos; e então Tantalo mandou entregar a sua espada a Cepio como signal da rendição.
Cepio desejava apagar a mancha indelevel da deslealdade com que rasgou o tratado de Paz, e procurando attenuar o odio da perfidia com que fez assassinar Viriatho, deu aos trôços da gente que formava o exercito lusitano o territorio extenso e fertil do valle banhado pelo Turia, para o colonisarem pacificamente.
Passados dois annos, Decio Junio Bruto, denominado por antonomasia o Callaico, por ter derrotado os quarenta mil gallegos que vinham em auxilio de Viriatho, confirmou os privilegios d'aquelles dediticios, e á cidade que haviam fundado e já se tornava florescente deu o nome de Valencia, consagrando o heroismo dos destemidos lusitanos.
[LVI]
Estavam acabadas as guerras de Viriatho, mas não estava pacificada a Hespanha lusitana. Decio Junio Bruto tinha transposto o rio Lima, e entrado na Galliza victorioso, refugiando-se a pobre gente nas cavernas do Monte Medulio. Dentro em Numancia, o chefe celtibero Salóndico resiste tenazmente contra os generaes romanos; elle tinha a valentia de Viriatho, mas faltava-lhe a astucia e promptidão em inventar uma cilada. Roma não o temia tanto, embora diante d'elle combatessem successivamente Marco Pompilio Lenas, Caio Hostilio Mancino, Marco Emilio Lepido, Lucio Furio Philo, Quinto Calpurnio Pisão, até Cornelio Scipião Emiliano.
Pela indomavel bravura com que Salóndico sustentou Numancia, chegou a correr entre o povo a voz mysteriosa, que era em suas mãos que estava a Espada de Viriatho, a invencivel espada. Verdadeiramente quem sabe aonde está occulta essa espada, que synthetisa a energia para a independencia da Lusitania? Sabe-o Tantalo, que a salvou de perder-se com generoso intuito, na rendição junto do Turia.
Passaram-se esses terriveis acontecimentos, que deixarão inolvidavel o anno de DCXIV; Lisia, sómente ignorava no seu retiro em Vacca a sorte da campanha, e nem suspeitava a morte de seu esposo. Mas a demora de Viriatho, a falta de novas, o silencio de todos em volta d'ella, o ár de ternura com que illudiam as perguntas que fazia aos que passavam, lançaram Lisia em uma melancholia deprimente. E ouvindo cantar uma rapariga gaditana debaixo do seu miradouro, notou que insistentemente lhe chamava:
—Sempre noiva! a Sempre noiva.
E quando Lisia disse para seu pae, o velho druida Idevor:
—O coração adivinha-me, que Viriatho está morto!
O velho respondeu com firmeza:
—Viriatho não podia morrer em batalha! Se não apparece, é porque anda lá por esses montes da Celtiberia, ou talvez pelo sul da Lusitania, ou Cynesia, organisando a resistencia. Não desesperemos!
Lisia, cansada de incerteza, teceu uma corôa de Verbena, a erva da segunda vista, e collocou-a na cabeça. Desde esse instante lhe occorreu o pensamento de consultar os oraculos para saber a verdade completamente, ainda que lhe causasse a maior dôr. E o oraculo mais sacrosanto e irreparavel nas suas revelações era o das Pedras baloiçantes, os Loghans, visitados na região dos Cynesios, junto dos quaes nunca ninguem se atrevia a ficar durante a noite.
Lisia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuarios de condição livre, partiu com seu pae até á Ilha sagrada de Achale, aonde se recolheu o velho druida, e ella continuou a jornada com impaciencia, para ouvir a sentença definitiva dos Loghans, na região procurada por tantos crentes. Não tinha descanso emquanto não soubesse a verdade, mas verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existencia:
—Viriatho está vivo? Viriatho estará morto?
E seguindo em temerosa jornada por desertos infestados por lobos, e por cidades occupadas por subditos de Roma, Lisia caminhava incolume, como no somnambulismo da concentração de uma saudade inconsolavel.
[LVII]
Contam-se maravilhas d'essa região dos Cynetas, na qual se ouve, segundo dizem, o esturgir dos raios ardentes do Sol quando se afunda nas aguas do Oceano, ao fim do dia. E tambem relatam viajantes audaciosos, que esses blocos de ambar amarello, de impagavel belleza, que o mar arroja ás praias, são a solidificação d'esses raios solares bruscamente mergulhados nas aguas. Mas entre tantas maravilhas, a que mais deslumbrava os espiritos é a dos Loghans, os penedos baloiçantes, que revelam o desconhecido a quem se aproxima d'elles e os interroga.
Logo que Lisia chegou ao paiz dos Cynetas, mandou que os seus ambactes esperassem no povoado, dirigindo-se ella sósinha para os dois grandes fraguedos sobrepóstos, que estavam no caminho do Promontorio Sacro, e se avistavam de longe, como dois nimbos opacos e caliginosos no horisonte. Aquelle aspecto infundiu-lhe um terror momentaneo; mas avançando sempre chegou ao pé dos dois gigantescos penhascos, para os quaes se subia por saliencias, como imperfeitos degráos formados pela erosão atmospherica. Um d'esses penhascos, e o maior, estava assente no solo, cercado de matagaes e dos pedregulhos que o tempo ia destacando d'elle, conforme o fendiam os raios, a agua gelada nas suas cavidades, e as raizes de mirrados arbustos. O outro penhasco apoiava-se sobre este, e apesar de ser um megalitho espantoso, podia-se notar que fôra separado por uma clivagem natural, e que tendo-se as juntas da estratificação corroido de fóra para dentro, ficou um ponto que escapando ao phenomeno da erosão, é aquelle em que oscilla levemente o Loghan ou calháo enorme.
Lisia, subira para o coruto do monolitho, que permanecia immovel; sentou-se cansada, n'aquella solidão e amplidão immensa, contemplando o már ao longe, e vendo o sol sumir-se no occaso. Depois enegreceu o ár, as sombras da noite cobriram tudo em volta, e Lisia, comprehendendo a situação da vida sem aquelle que tanto amava, ergueu-se resolutamente, procurou o vertice do penhasco baloiçante, e interrogou:
—Está vivo Viriatho?
A rocha ficou immovel. Lisia quiz ainda repetir a pergunta, mas entrando em um desespero de presentimento, inquiriu:
—Está morto Viriatho?
A rocha oscillou levemente para o lado esquerdo da posição em que se encontrava Lisia. Ella, como se vibrasse em si um ultimo golpe, renovou a pergunta, repetindo-se a mesma oscillação sinistra. Lisia ficou n'uma immobilidade attonita, n'um lethargo inconsciente, como se tivesse cahido d'aquella enorme altura, e alli jazeu a noite longa, insensivel ás rajadas frias, prostrada em terra, debruços, como esmagada pela impressão abrupta. A luz do sol é que a despertou; tinha voltado à vida, não a do seu dourado sonho, que alli acabára, mas a do soffrimento que não póde prolongar-se.
[LVIII]
No desmoronamento total da sua felicidade, Lisia lembrou-se de seu pae, o velho druida; queria communicar-lhe a revelação tremenda, chorar com elle a morte de Viriatho. Quando chegou á Ilha sagrada de Achale, aquelle refugio quasi celeste pareceu-lhe um desterro, e a Torre redonda consagrada ao Deus innominato appareceu-lhe como uma prisão erguida sobre o mar. Idevor, logo que viu a barca de couro dirigir-se para a Ilha, veiu receber Lisia com o côro das nove Donzellas, que volviam a acompanhal-a a ella, a—sempre noiva.
Lisia conheceu a intenção; e abraçando o pae, em uma d'aquellas angustias para que não ha lagrimas, proferiu apenas:
—Está morto Viriatho! Disse-o o Rochedo baloiçante.
—Tambem o sei!—devolveu o velho druida, encostando a cabeça da filha sobre o peito.
—Quem vos trouxe a noticia?
—Veiu aqui Tantalo, o companheiro de Viriatho n'esses dez annos de campanha gloriosa contra os Romanos; veiu entregar-me a Espada de Viriatho, que conseguiu salvar...
—A Espada invencivel?
—A Espada sempre invencivel.
—Mas, Viriatho não morreu em batalha... Viriatho foi atraiçoado!... Foi atraiçoado com certeza!
O velho druida, sustendo-a n'aquella hallucinação clarividente, disse para Lisia:
—Atraiçoaram-no os seus tres melhores amigos, Ditálcon, Andaca e Minouro! Comprou-os o Consul Quinto Servilio Cepio, o mais inhabil dos generaes romanos; só assim teve a ignobil victoria.
—E a independencia da Lusitania, d'esta desditosa Patria nossa amada?
—Completamente perdida!—respondeu o druida desalentado.
—Perdida, mas não para sempre,—proferiu Lisia, com um accento de vivacidade e esperança.—Quero vêr a Espada de Viriatho! é o que me resta do Esposo com quem estive sempre espiritualmente unida.
E pae e filha encaminharam-se para o subterraneo da Torre redonda, em que se guardava o thesouro da Lusitania. Lisia reconheceu a Espada:
—É esta, a mesma que eu lhe cingi no ultimo dia da festa do nosso noivado, dizendo-lhe com um beijo:—Regressa vencedor! Viriatho cahiu apunhalado quando dormia: não foi vencido em batalha, não. Não regressou mais ao seu lar, aos braços da esposa que o esperava anciosa; veiu aqui ter a sua Espada, que eu contemplo, que eu beijo...
E como se estivesse em um delirio suave, ao levar a Espada aos labios, o brilho da lamina de aço reflectiu-se nos olhos grandes e rasos de lagrimas, e operou-se no seu espirito uma miragem do futuro, como se conta na velha lenda dos Espelhos de Salvação. E n'um arrebatamento prophetico e assombrada, continuou fitando a lamina fulgente, exclamando:
—«Desvenda-se-me o futuro. Eu vejo, eu vejo... Vão passados sete annos. Numancia ainda resiste corajosamente ao cêrco de Cornelio Scipião Emiliano; e que loucura a do destemido Salóndico! quiz fazer uma sortida ao acampamento romano, e lá ficou morto. Agora é que Numancia, sem chefe, tambem está perdida. Numancia não se rende; os Romanos entram na cidade e ficam assombrados diante do suicidio heroico da população. Morreram livres.
E passando a mão delicada pela lamina da Espada, para restituir-lhe o brilho empanado pela respiração offegante, tornou a contemplar o quadro do futuro:
—«Não bastou a traição de Cepio, nem a queda de Numancia para assegurar o dominio de Roma na Hespanha. É aqui na Lusitania que Sertorio vem encontrar o espirito de revolta para resistir contra as facções que o exilaram de Roma. É com o valor dos Lusitanos de que se rodêa, e que sonham com a sua independencia, que Sertorio derrota os generaes que Roma contra elle envia. Mas, ai! Empunhará a sua mão a Espada de Viriatho, que lhe foi confiada... e tal como Viriatho, cae tambem assassinado por um seu companheiro!...
Depois de um grande silencio, como se contemplasse acontecimentos incomprehendidos, como são esses da queda do Imperio romano, das invasões dos Barbaros do norte, das luctas contra os povos da Africa, Lisia, passando a mão pelos olhos ennublados, contemplou novamente a lamina scintilante:
«A Espada de Viriatho, longo tempo sepultada n'esta ruina immensa, está outra vez descoberta; eil-a brandida por um braço vigoroso e joven. Uma era nova se me ostenta! vêjo novos Symbolos, novos trajos; outra vez desencadeamento de raças de encontro umas ás outras! N'esta lucta dos dois Symbolos, a Cruz e o Crescente, eu vêjo a Espada de Viriatho nas mãos do joven Cavalleiro sustentando a independencia d'este territorio que vae do rio Minio ao Durio! É um pequeno trato da antiga Lusitania, mas que importa! é o fóco d'onde irradiará o impulso para se reconstituir a obliterada nacionalidade.
«Por quarenta annos a Espada de Viriatho é brandida pelo corajoso Cavalleiro, que vae estendendo o territorio lusitano ao Monda; já chega a Scalabis; conquista a bella cidade que está no lez do Tagus. Não virá longe o dia, em que esse territorio alcance as fronteiras do Anas, e se complete com a região dos Cynesios.
«A Lusitania revive, e ergue-se altaneira diante da Iberia, que procura absorvel-a na sua unificação. A Iberia serve-se do meio ardiloso de uma herança real, e recorre á invasão. Por entre a Ala dos valentes Namorados vêjo a Espada de Viriatho empunhada por um novo Caudilho! D'onde viria para a sua mão essa Espada? Eu vejo: entrega-lh'a o armeiro de Scalabis, que a desenterrou do chão em que se transforma o ferro no aço mais puro!»
Então Lisia, voltando a lamina refulgente, contemplou com mais assombro:
—«A Lusitania livre, depois de reconstituida no seu solo, reata a tradição dos antigos navegadores liguricos, e lança-se á descoberta das Ilhas do Mar Tenebroso, e tocando os dois continentes, vae fundar um novo Imperio lá aonde o sol se alevanta! É ainda a Espada de Viriatho na mão firme do seu Capitão terribil, que cimenta esse Imperio em bases inabalaveis, em que se mantem por seculos! Para que prescrutar tanto o futuro? A Lusitania revive...»
Lisia entregou a Espada de Viriatho ao velho druida para a guardar no thezouro secreto da Ilha de Achale; e cansada da visão presciente caíu em um somno cataleptico, em que ficou por muitas e muitas horas extactica, inerte, semi-morta, insensivel. A dôr inconsolavel divinisava-a; tinha na face uma expressão sobrehumana.
[LIX]
Lisia recobrou os sentidos, como se um golpe subito a ferisse; levou a mão ao peito, e ergueu-se respirando com anciedade, olhando em volta de si para descobrir que pezo enorme era o que a comprimia e abafava mortalmente! Sempre a terrivel realidade, a perda irreparavel, a desolação sem esperança. Lembrava-se do funeral de Viriatho, da fogueira da gigantesca pyra, e da ventura inexprimivel de acompanhar o Esposo confundindo-se com elle na mesma chamma, identificando o seu espirito no mesmo ár ambiente, eternisando-se na energia restituida ao universo!
E pensando n'esta voluptuosidade da morte, acarinhou-a a ideia do suicidio, notando quanto mais felizes fôram aquelles Companheiros de Viriatho que tinham jurado a confraternidade para a vida e para a morte; esses em um duello desvairado bateram-se sobre a sua sepultura até cahirem exangues e ficarem alli enterrados conjunctamente, em um sacrificio de amor, sob o mesmo solo! E ella, como esposa de Viriatho, embora sempre noiva, poderia continuar a viver? Lisia considerava a vida como uma degradação, um vegetar da animalidade sem motivo. Queria arrojar de si esta carga, tornada incomportavel pelo tedio da propria existencia.
Começára a estação hibernal; noites caliginosas e longas tornavam-lhe as insomnias hallucinantes. Grandes tempestades passando por sobre a Torre redonda da Ilha de Achale consolavam-a nos seus rugidos de colera e desespero. Ondas alterosas e alvissimas arrojavam-se d'encontro ás rochas sobre que estava assente o vetusto monumento.
Lisia começou a passar pela lembrança todos os lances do seu primeiro e santo amor: como Viriatho lhe tomou as mãos no alto da Torre redonda, como lhe poz o cinto de ouro, como lhe entregou no dia do consorcio a Viria do commando; como a beijou suavemente, e o abalo subito em que as festas do casamento fôram interrompidas pelas palavras:—Cepio rasgou o tratado de Paz com a Lusitania!—e a brusca despedida de Viriatho para nunca mais!...
Ao chegar a este ponto, a imaginação de Lisia obscurecia-se, cahia em deliquio, em um goso de dôr destructiva. Arrancando-se a essa deliciosa angustia, reflectiu:
—O noivado ficou interrompido. E porque não hade ser finalisado? A noiva deve acompanhar o esposo; é pela morte que eu tenho de chegar á vida infinda com Viriatho; tanta delonga estupida, que parece irresolução covarde...
E logo que foi noite cerrada, desceu ao thezouro da Ilha sagrada, e mesmo na escuridão, e com o tino de quem sonha acordado, tomou a faixa de ouro com que Viriatho a cingira, apanhou tambem a Viria que o esposo lhe lançára ao pescôço, e subindo apressadamente a escadaria, foi galgando sempre até chegar ao ultimo andar da Torre redonda. A escuridão era espessissima, cortada a intervallos pela luz fulva e instantanea dos coriscos. Lisia sentia um goso inexprimivel n'esta harmonia entre a tempestade exterior e a agitação convulsiva da sua existencia moral. Cingiu com recolhimento e lentidão o Cinto de ouro; envolveu o pescôço eburneo e esculptural com a Viria, aquella mesma com que Viriatho, fazendo-a sua esposa, se entregára á vontade d'ella, e—para sempre.
E olhando para aquellas joias, que tanto lhe diziam, no momento em que um relampago se reflectiu n'ellas, ainda murmurou:
—Assim eu estava, quando elle partiu para sempre; assim mesmo vou ao seu encontro.
Caminhou resolutamente para o parapeito da Torre redonda, no baixo da qual marulhavam as ondas arrebentadas nas restingas, deixando na escuridão tetrica a claridade de uma extensa phosphorecencia; e sobre esse sudario nitido da ardentia, precipitou-se com toda a sua insondavel amargura a formosa semnothêa, sepultada nas aguas revôltas, que na piedade immanente na natureza fizeram que o seu corpo não fôsse profanado e nunca mais fôsse visto.
[LX]
Idevor não tardou a dar pela falta da filha; recompoz de prompto a scena do seu desapparecimento, e longamente fitou o mar, para vêr se descobria fluctuando o corpo d'aquella que ainda o prendia á vida. Não podia conter-se no ambito estreito da Ilha sagrada de Achale; e escondendo todos os signaes com que se podesse descobrir o thezouro da Lusitana, abandonou a Torre redonda, já perturbado da rasão, dementado, exclamando:
—Ella vaticinou que a Lusitania renasceria! Aonde? Aonde? Aonde? N'esse territorio que começa nas margens do Minio até ao Durio. É ahi, é ahi que eu quero encher-me de esperanças. Ahi, na Terra portucalense, ficará sepultada a Espada Gaizus, o talisman de Viriatho.
Depois da morte de Viriatho deu-se funda depressão no espirito das tribus lusitanas, por effeito de um phenomeno astronomico inopinado: appareceu no céo um cometa, ao qual pela fórma da sua cauda o povo chamava a Espada flammejante, movendo-se em sentido retrogrado ou oppôsto ao movimento das estrellas! Na crença popular ligavam o seu apparecimento com a terrivel calamidade da morte de Viriatho, e perguntavam a Idevor se a Espada flammejante não seria por ventura a espada Gaizus. O velho endre respondeu:
—Em breve deixará de vêr-se esse signal no céo; mas em um periodo de setenta a setenta e seis annos será o seu reapparecimento. Então a Lusitania luctará de novo e com vantagem pela sua independencia...
De certo Idevor fixava o periodo da reapparição do cometa retrogrado já conhecido por algumas observações uranographicas dos velhos annaes da raça navegadora; a revivescencia politica era apenas uma aspiração, uma esperança que ficava germinando nas almas.
O pobre velho seguia pelos caminhos com os longos cabellos brancos revôltos pelo vento e pela chuva, com os pés já ensanguentados, para as margens do Minio, longe, muito longe. Os que o viam passar, diziam com piedade:
—Anda como doido o velho endre.
E correndo agitado pelos caminhos e matagaes, parecia que ia em procura de alguem, pela anciedade com que prescrutava em redor de si, ou fitava o horisonte distante. E aos que o interrogavam, na carreira ininterrupta e errante, respondia á pressa:
—Ando á procura da Cerva branca. É ainda a minha esperança; porque a Cerva branca hade um dia dar que fazer aos Romanos.
E o desgraçado velho seguia incansavel ao vento, á chuva, desgrenhado, absorto no anciado delirio de encontrar a Cerva branca.
Entretanto Cepio contava com a glorificação do Triumpho na sua proxima chegada a Roma por ter acabado habilidosamente com as guerras de Viriatho. Aquelle que tinha derrotado os exercitos consulares durante dez annos successivos, não morreu em combate, mas passou do somno para a morte. Este transito não fôra previsto pelo Oraculo, e d'isso se gloriava Cepio. Pensando em levar cativos lusitanos para lhe cercarem o Carro triumphal, mandou agarrar o velho druida; quiz vêl-o pessoalmente. A figura do ancião era imponente, pelas barbas esqualidas, pelo olhar hallucinado, pela cabeça olympica; mas Cepio conheceu logo que Idevor estava louco, pela preoccupação com que fallava:
—Ando á procura da Cerva branca. A Lusitania surgirá rediviva, lá do Minio até ao Durio, só depois de apparecer a Cerva branca.
O vencedor romano não pôde obter do velho outras palavras; e mandando-o embora com desdenhosa indifferença, disse para os que o rodeavam:
—Elle está dementado: crê no renascimento da Lusitania! Um doido assim iria deslustrar-me o Triumpho.
O velho encarou o Consul, como a amaldiçoal-o:
—O Senado aproveitará a infamia, mas hade renegar-te; e serás encarcerado! soffrerás o exilio! e as tuas filhas... serão arrastadas ao prostibulo!
Cepio fez que não percebera o funesto agouro e correu com o velho.
E riram-se alvarmente da esperança no apparecimento da Cerva branca. Ninguem comprehendia o sentido do estranho vaticinio; mas d'ahi a setenta annos, Sertorio, que estava exilado e prófugo na Africa, em consequencia das proscripções de Sylla, era chamado pelos Lusitanos, que o fortificaram na lucta com o seu odio inextinguivel e com a sua immorredoura esperança. As Guerras civis tinham sido previstas por Catão, no discurso contra Galba, no senado, no anno de DCIII, como consequencia da diminuição das attribuições dos Censores. Sertorio foi a primeira victima; sabia o que era a perda de uma patria.
A Cerva branca que lhe offereceram os Lusitanos quando o chamaram da Lybia, seguia-o por toda a parte, coroada de flores, sem temor da soldadesca; mostrava-a como um dom de Hertha, consultava-a como oraculo, derrotando todas as legiões romanas, pelo prestigio tradicional da Cerva branca sobre a multidão que o acclamára por chefe. Como Viriatho, vencia todos os Consules, sendo como Viriatho tambem morto pela traição.
FIM