BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA
X
D. THOMAZ DE MELLO
O CONDE DE S. LUIZ
ROMANCE ORIGINAL
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA
Empreza da Historia de Portugal
Sociedade editora
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LIVRARIA MODERNA R. Augusta 95 |
TYPOGRAPHIA 45, R. Ivens, 47 |
1903
I
Era no anno de 18*** N'um palacete proximo á Calçada de Santo André, vivia, em companhia de seu filho e de duas creadas, D. Marianna de Mendonça, filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fôra em tempos de pouco saudosa memoria alcaide-mór da cidade de * * *
Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de Athayde, entregára a sua filha dezeseis mil cruzados em dinheiro, afóra joias e outros objectos de valor, pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo a Alvaro de Mendonça seu primo co-irmão, moço serio e de bom porte, e, além d'isso, possuidor de riquezas quasi eguaes ás que o alcaide-mór lhe legava.
Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, D. Marianna, por ultimo, não teve mais remedio senão acceder aos seus desejos.
Tres mezes depois, com grande alegria de todos os parentes, recebeu se com Alvaro de Mendonça na freguezia dos Anjos.
O pobre velho parecia apenas aguardar a realização d'este ultimo desejo para volver a alma ao Creador, entre as lagrimas da filha e dos amigos que o estremeciam. Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna ficava sem pae.
Manuel Pires de Athayde não se havia enganado na escolha; Alvaro de Mendonça era o exemplo dos maridos. A sua proverbial honestidade tornava-o estimado em todos os logares onde apparecia, acompanhado quasi sempre pela esposa, digna e respeitada como elle.
Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes proporcionar todas as venturas, concedeu-lhes a maior que póde dar aos que deveras se amam sobre a terra, e que medem o mundo todo, pelo curto espaço do seu domicilio: um filho.
Manuel—tal foi o nome do recemnascido—de dia para dia se tornava mais robusto. Era um gosto vel os á tarde por sobre os canteiros do seu pequeno jardim, correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual dos dois alegraria mais a creancinha.
Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte annos, Alvaro trinta e quatro.
Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que lhes faltava para serem felizes?
Pelo espaço de doze annos, trabalhando mais do que as forças lh'o permittiam, afim de melhorar o futuro da creança, correu a vida de Alvaro de Mendonça, sem que uma só vez podesse D. Marianna deixar de levantar as mãos aos céus, para agradecer á Providencia o esposo que lhe havia concedido.
Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em quando o iris da sua felicidade; eram os continuos receios que um velho primo lhes infundia, sobre a precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus amores patriarchaes.
«Não puchem pelo rapazola se o não querem ver no cemiterio, dizia-lhes elle muitas vezes. Um talento como este deve ser muito poupado. Se meu pae não me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, talvez lhes não estivesse agora dando este conselho. Eu fui o mesmo que o Manuelito; aprendi a grammatica portugueza de fio a pavio em menos de um mez. Não percebia bem o que dizia, é verdade, mas sabia tudo de cór, que era até um gosto ouvirem-me. Sabem o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do mestre, que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio para que não estudasse mais. É certo que estou hoje sem saber coisa alguma, porquanto a grammatica esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude, que é o principal.»
A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexões, Manuel continuou a frequentar a aula, onde era querido por todos os professores e condiscipulos. Estes, longe de lhes causar inveja o seu inquestionavel merecimento, todos á uma se ufanavam em lh'o proclamar.
Aos quinze annos já tinha feito os exames de philosophia e latinidade.
Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro de Mendonça, coroada pelos louros de seu filho, a Providencia, como se já estivesse fatigada de lhe sorrir, fez com que o anjo da morte, descendo lentamente sobre o seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.
D. Marianna de Mendonça, ainda que dotada de intelligencia clara e reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella experiencia do mundo impossivel de conseguir a qualquer senhora que, como ella, tivesse vivido apenas entregue aos cuidados de sua casa.
Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito fazia a infeliz viuva em administrar a sua casa de portas a dentro, e bem assim seguir a educação de Manuel, que de mez a mez fazia mais rapidos progressos, continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, apezar de todos os prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, que se não cançava de lembrar á viuva o absurdo da sua insistencia em que o pequeno continuasse no collegio.
Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva, distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, o que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias.
Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade, chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o commendador não passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praça publica; isto tudo, já se vê, proferido em voz baixa, depois de com elle terem gasto os joelhos das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça de commendadores que hoje invade a capital começava a manifestar-se com toda a força do seu prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e todos em sua presença disputavam entre si, qual deveria ser o seu primeiro thuribulario.
Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa esphera, de quem tinha duas filhas, porém que se não atrevia a apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco distinctas.
A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porém o faustuoso luxo com que se tractava levava a suppôr que enormes rendimentos havia herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam estremecer de inveja qualquer puritano.
Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se queixava amargamente de um certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse conveniente entregar a administração da casa ao commendador, se elle porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a tal respeito.
A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de Araujo tinha geral procuração para arrendar, subrogar, ou alienar qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto para elle como se fosse seu proprio filho.
Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condições da procuração. Uma fazenda que Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fôra de um excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava, porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo as suas observações agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo, assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica.
Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer terreno, por mais dolosa que fosse a venda?
O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo deveria exceder dez por cento.
Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom negocio que vinha de fazer, attendendo não só á grande differença do rendimento, como tambem a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta conservando uma só arvore.
Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna tivesse a mais pequena razão de se arrepender da plena confiança que tinha depositado no seu administrador.
Por este tempo, Manuel, que havia saído do collegio, chegou se a sua mãe, dizendo-lhe que desejava partir para o Rio de Janeiro, afim de se dedicar á vida commercial, para que se sentia com decidida vocação.
Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, a pobre mãe ponderou-lhe a pouca necessidade de buscar em terra estranha o que já possuia na sua patria: a riqueza.
Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns trinta contos de réis, graças á herança que Alvaro de Mendonça havia recebido por morte de sua tia, e ás economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.
—Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua mãe, poderás dedicar-te ao commercio, mas aqui em Lisboa. É verdade que não tens um unico parente que te proteja, mas, graças a Deus, temos meios. Partires, e deixares-me, filho, acho que será uma grande loucura, ajuntou ella, arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. Em todo o caso, farás o que te aprouver. Não quero que um dia me lances em rosto que o muito amor que te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.
N'essa noite, quando appareceu o commendador, D. Marianna manifestou-lhe os desejos de Manuel.
—Que vá, respondeu elle rapidamente. Seu filho é activo, audaz, intelligente e emprehendedor. Póde um dia, se Deus o ajudar, vir a ser um grande homem. Não tenho filhos, acrescentou, porém se um dia os tiver, nunca os hei de contrariar nas suas resoluções, se ellas forem justas como as de Manuel.
—Mas que precisão tem elle de expôr a sua saude n'um clima tão perigoso? Trinta contos ou perto d'elles que possuimos não será o sufficiente para se viver em qualquer parte do mundo?
-Porém se seu filho é ambicioso, e capricha em adquirir um capital pelo seu trabalho, é justo que sua mãe lhe impeça a sua determinação? Faça o que quizer, mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus ha de guial-o, porque Manuel é bom, honesto, moral e, sobre todas estas coisas, muito trabalhador.
—E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? dez contos, quinze, vinte... que lhe parece?
—Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente o commendador. Entregar contos de réis a um rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se perder! Nem por sombras! Quaes contos de réis! Com seis moedas desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna para cima de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria rir! A passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendação que para ahi lhe entregarei, são mais do que o sufficiente.
—Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um rapaz de juizo, honesto e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe pertence? Não é elle o meu unico herdeiro?
—Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo quanto possue, faça-o; está no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mãos. Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o. Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto é apenas o seu bem estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em seu proveito, é senhora das suas acções, póde fazel-o, que desde este momento me considero desligado de todos os meus encargos.
Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle homem que, segundo a opinião de todas as pessoas que frequentavam a sua casa, havia sido um anjo salvador.
Dois annos depois da sua administração, os vinte contos de réis, que rendiam á viuva cem mil réis por mez, haviam subido a um rendimento de um conto e seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera a esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razão teria ella para o arguir de mau administrador?
Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse cegamente a quanto elle lhe impunha.
No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim de saber o que se havia passado entre ella e o commendador.
—Sinto deveras que me queiras abandonar, porém se essa é a tua vontade, vae, e que as minhas orações, acompanhando-te sempre, te possam salvar de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada em que o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has quanto necessitas.
—Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. commendador, mas supponho que não farão grande differença nos capitaes que devemos possuir quatro ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é muito avultada, contentar me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no olhar turvo e entristecido de D. Marianna.
No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o que passára com Manuel.
Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu serenamente em que seria uma grande loucura entregar a seu filho uma quantia superior a essa de que tinham falado na vespera, repetindo porém, que estava no seu direito de fazer o que lhe aprouvesse.
Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem um momento na vida, em que uma circumstancia, ou um milagre providencial lhes dardeja um raio de valor.
A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou o commendador, foram sufficientes para que elle comprehendesse que todos os esforços seriam inuteis. D. Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a quantia que elle lhe havia, senão pedido, pelo menos indicado.
Não havia remedio! Era forçoso entregar esse dinheiro no momento em que lhe fosse exigido, para que se não realisassem certos boatos que lhe tinham chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as suas gentilezas seriam desmascaradas!
—Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, depois de alguns instantes de reflexão. Que quantia quer?
—Quatro a cinco contos de réis. Como tudo o que possuo é em dinheiro, não haverá duvida em os receber por estes oito dias.
—Oito dias! replicou o commendador, simulando grande tranquillidade de animo, hoje mesmo se vossa excellencia quizer; não tenho mais trabalho do que tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para um grande armario de ferro.
—Posso portanto ficar tranquilla?
—Póde, mas lembre-se, minha senhora, que vae fazer a desgraça de seu filho. Conheço o Rio de Janeiro, e sei o que póde succeder a um rapaz da edade de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.
—Será o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo se.
Quem, momentos depois, commettesse a indiscrição de o espreitar, no pequeno gabinete do escriptorio, conheceria immediatamente pela sua perturbação, que os trinta contos de réis em que consistia a fortuna d'aquella familia não estavam tão seguros quanto ella os julgava.
Oito dias depois, quando tudo estava preparado para a viagem de Manuel, sua mãe dirigiu-se a casa do commendador, afim de receber os cinco contos de réis, e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo ainda em que tão grande quantia seria prejudicial a um moço inexperiente como seu filho.
—Já disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, respondeu D. Marianna, sentando-se tranquilamente a seu lado.
—Visto não haver meio algum de a convencer, queira vossa excellencia ter a bondade de me passar um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se serena e fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario de ferro, tirou de dentro d'elle um pequeno cofre e collocou-o sobre a secretaria de que D. Marianna se tinha approximado para passar o recibo. O commendador, depois de contar os maços de notas de dez moedas, poz junto de D. Marianna os que prefaziam a quantia exigida.
N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.
—Se não fosse a profunda sympathia que vossa excellencia sempre tem sabido inspirar-me, creia que de hoje em deante, deixaria de lhe administrar os seus bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e sete contos de réis que alli tenho n'aquelle cofre; digo que os mandasse buscar, porque grande parte d'esse dinheiro está em ouro e em prata, com que vossa excellencia não poderia. Não o faço, porque além de todas as outras circumstancias, affeiçoei-me ao Manuel, mais do que se elle fosse meu proprio filho, como já uma vez lh'o disse.
Se algumas desconfianças começassem a agitar o espirito da viuva, todas se desvaneceriam em presença d'esta scena. Havia uma dupla intenção nas palavras do commendador: a primeira inspirar á viuva profunda confiança no deposito dos seus capitaes; a segunda, evitar ainda a entrega dos cinco contos de réis. A primeira saiu-lhe bem, a segunda não foi tão favoravel.
—Então quando é a saida da galera? perguntou elle a D. Marianna.
—Ámanhã, ás duas horas da tarde.
—Não me comprometto a ir ao bota-fóra; ser-me-ia penoso acompanhal-o ao começo da estrada da sua infelicidade.
—Será o que Deus quizer, respondeu tristemente a pobre mãe, pegando nos maços de notas e mettendo-os dentro do seu sacco de veludo.
Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, entrava D. Marianna para uma sege, e seguia caminho de casa.
No dia seguinte, ás duas horas da tarde, desprendendo se dos braços de sua mãe, entrava Manuel de Mendonça na galera Boa Ventura, e ao cair da tarde perdia de vista o que ha de mais caro na vida: mãe e patria.
«Acautele-se do commendador» foram as ultimas palavras que Manuel dissera a sua mãe.
Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta de seu filho, em que lhe participava que tinha chegado depois de uma feliz viagem, e que esperava em pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma casa commercial.
Assim passaram mais oito mezes.
As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de Araujo continuavam a ser-lhe entregues com a mesma religiosa pontualidade, o que fazia com que todas as pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do commendador começassem a proclamal-o homem de evidente credito.
Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel escrevia a sua mãe eram cada vez mais consoladoras. N'algumas, mandava-lhe dizer que os seus maiores desejos seriam tel-a a seu lado.
Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe pedir encarecidamente que retirasse quanto antes os capitaes que tinha na mão do commendador, porque lhe tinham dado as peiores informações a seu respeito, sendo a primeira não se chamar Felix Justino de Araujo, mas simplesmente Domingos de Andrade.
Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou um advogado, que fôra muito amigo de seu defunto marido, e communicou-lhe os seus receios.
N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa do commendador. Este, ao vel-a, comprehendeu immediatamente do que se tractava.
—Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, venho prevenir vossa excellencia de que desejo levantar da sua mão os capitaes que honestamente me tem administrado. Se não fosse o desejo de ir ver meu filho, continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada administração do sr. commendador.
—E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe poderei entregar esse dinheiro? Não m'o confiou para negociar, afim de que tivesse maiores lucros do que estando na sua mão? Na vespera de seu filho partir para o Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco contos de réis, que me exigiu, não me promptifiquei a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa excellencia não comprehende a possibilidade de que esse dinheiro esteja empregado em qualquer negocio, e de que n'esse caso me seja difficil devolver-lh'o de um momento para o outro? Felizmente não succede assim, pelo que dou graças a Deus! Quanto o estimo! Vossa excellencia, por qualquer circumstancia, deseja retirar das minhas mãos os seus capitaes, e não tem o sufficiente valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo resentimento, e levantando um pouco a voz, eu, que tenho a coragem das minhas acções, escudado pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro aqui, alto e bom som, que sou eu que exijo, que vossa excellencia retire d'aqui os seus fundos, e quanto antes.
Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, a sua voz era tão firme, tão altivo e tão seguro o seu olhar, que D. Marianna chegou a convencer-se de que era uma ingratidão o que vinha de fazer.
—Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento, que não chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de réis, vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios para fazer as minhas transacções? Escusado será dizer que não. Para que o fiz? Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta lição me sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna, rogo a vossa excellencia que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da manhã, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mão. Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me daria.
—Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna, olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua opinião.
—Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do commendador.
—Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem á porta da rua.
—Um homem honesto, ferido pela ingratidão que acaba de receber, respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle, faça vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua casa.
No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em casa de D. Marianna de Mendonça.
Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao escriptorio do commendador.
Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.
—Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido.
—Que é um homem ferido pela ingratidão, e que anda a tratar de levantar dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente.
Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. O physionomista que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de Mendonça.
D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha apparecido.
—Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás cinco horas da tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia alvar.
Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! accudiu um individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva.
O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio. Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como D. Marianna de Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos.
Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, entrava para a casa dos doidos no hospital de S. José.
II
Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena casa da Rua do Meio, freguezia de Nossa Senhora da Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre de obras, em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis annos, chamada Martha. A excentricidade de caracter do operario, fazia com que todos os visinhos o detestassem. Para elle, não havia domingos nem dias santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. A sua janella encontrava-se sempre fechada.
O cultivo do microscopico jardim era a unica distracção que n'esses dias se permittia. Alli entre sua mulher e sua filha, Jeronymo mondava o pequeno canteiro de hortaliça, que duas horas depois tinha de fazer as delicias da refeição domingueira. No armario da cozinha, esperava desde a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava á sua meza, sobria sempre, porém honradamente disfructada com o suor do rosto.
Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, Balbina, a esposa, assentada na cadeira de costura, largava apenas a agulha para agradecer a Deus o marido que a Providencia lhe havia destinado.
Martha, a preguiçosa Martha como Jeronymo n'esses dias lhe chamava, escondia os ferros de engommar, para seguir seu pae, sorrindo-se e gracejando a cada passo que elle dava pelo jardim.
Toda a visinhança da rua do Meio se mordia de despeito ao contemplar a beatifica tranquillidade d'aquella pobre mas venturosa familia; até uma sobrinha do sr. regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior que era impossivel que toda aquella gente não tivesse grande peccado na consciencia, attendendo á constante reclusão em que vivia. O sacerdote, que conhecia o invejoso caracter da menina Gertrudes, passou de leve sobre o caso, e contentou-se apenas em responder-lhe que era tal a confiança que depositava na virtude d'aquella familia, que não teria duvida alguma, embora se sacrificasse a pôr fóra de casa a velha ama, a admittir Martha a viver em sua companhia, entregando-lhe nas mãos as chaves da dispensa, e tudo quanto possuia de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta, contentando se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando por ventura alguma das amigas lhe falava a seu respeito.
Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre velhinha, que se tornava um mysterio para toda a visinhança, passando apenas despercebida da familia do operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. A apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo revelava summa pobresa, porém nunca a sua mão se estendeu a pedir o obulo da caridade.
A velha costumava sair todas as manhãs a fazer as compras. Um dia a porta conservou-se fechada, e a tia Marianna, segundo lhe chamavam, não apparecia. Ou por curiosidade, ou por interesse, não faltou quem lhe batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas uns gemidos. O regedor chamou dois cabos de policia e mandou immediatamente arrombar a porta. Encontraram-n'a exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido com a febre amarella; foi esse um dos primeiros casos que se dera na freguezia da Lapa. Atterrados, não houve quem quizesse approximar se da enferma. Não tardou muito que o facto transpirasse por toda a visinhança. No momento em que o regedor, dois metros affastado da porta, dava as suas ordens para que fossem buscar a maca afim de conduzirem a velha ao hospital da rua do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e atravessou a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.
—Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da Conceição.
—Levar esta gotta de caldo á visinha, respondeu Martha ao previdente regedor.
—Não consinto similhante loucura! disse elle; a velha foi atacada pela febre amarella, e vae immediatamente para o hospital.
—O que vocemecê não me póde impedir, é que eu pratique uma obra de caridade; e demais, veja se está no seu direito de mandar para o hospital uma pessoa que se póde curar em sua casa.
—Essa mulher não se póde tratar em sua casa, não tem familia.
—E quem lhe disse ao sr. que não tem quem a trate? acudiu Martha, afastando o regedor e dirigindo se para o interior da casa da tia Marianna. Ora essa! ajuntou ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem oppôr-se?! Creio que não. Com sua licença, sr. regedor; e entrando animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a desgraçada, extorcendo-se em dolorosas agonias, cravava os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado sobre uma commoda.
Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontravam, olhavam-se mutuamente sem proferir uma só palavra.
—Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, depois de alguns instantes de reflexão. Se ella fosse minha filha ou coisa que me pertencesse, por certo que não havia de lá entrar. Eu cá é que não tomo nada, acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.
Instantes depois, saía Martha de casa da velha.
—Mandem chamar immediatamente um medico, disse ella voltando-se para o regedor. Póde ser que ainda lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma pobre mulher, bem vê que não a devemos deixar morrer ao desamparo. E dizendo estas palavras, tornou a entrar para dentro da casa da tia Marianna.
—Vá á botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando se para o cabo geral, e que venham immediatamente; porquanto, esta mulher pelo facto de ser pobre, não devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou elle, secundando as palavras de Martha, e repetindo-as como se fossem suas proprias.
O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos circumstantes, e resmungando subiu a rua do Meio, dirigindo-se aonde a auctoridade o havia mandado.
Não tardou muito que á porta da tia Marianna se ajuntasse um circulo de curiosos. As visinhas a quem o terror da cruel epidemia havia infiltrado nos animos o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia do regedor, em annuir aos desejos da filha do mestre de obras. Revestindo-se emfim de todo o seu poder, o sr. Venancio da Conceição convenceu o auditorio, repetindo-lhe pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna ser uma pobre, não a deviam deixar morrer ao desamparo.
N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.
—A sua filha está doida de todo! diziam uns.
-Já tres vezes que vamos avisar a sr.ª Balbina para que a retire d'aquella casa e ainda não houve meios, acudiu uma ajuntadeira de calçado, que nem por isso gozava de muitos bons creditos na visinhança.
—Que loucura! que loucura! dizia a capellista.
—Parece que está a zombar da cholera do Senhor! acudiu respeitosamente a tia Monica, beata que vivia de resas por conta das fidalgas de Buenos Ayres, quando os seus affazeres não lhe permitiam conversar com o Todo Poderoso por conta propria.
—Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma a salvará, respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, lendo-se-lhe, apezar de tudo, um certo receio pela vida da criança que estremecia.
—Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, que saira n'este momento de casa. O mesmo pensei eu quando Martha me foi pedir uma gotta de caldo; entregando-lh'o, entreguei a a Deus.
—Pois olhe, sr.ª Balbina, disse a capellista, fosse ella minha filha, não lh'o consentia.
—Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.ª Margarida, e Deus fez-me assim; mas deixemo nos de mais dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se poderá fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou n'esse recinto mortuario, por onde momentos antes sua filha havia desapparecido.
—Avé Maria, cheia de graça, o senhor é comvosco, benta sois vós, dizia a beata. Forte impostora! accrescentou ella; aquillo não é senão para se fazer valer na visinhança.
III
Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever, appareceu o medico.
—É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.
—Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.
O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando n'esse momento a má estrella, que o conduzira áquella posição, com as faces lividas de susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.
Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção nos joelhos, Martha, a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.
Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.
Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor analysar a vista da moribunda.
—Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de suppôr que não a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.
Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou de applicar lhe os que o seu estado exigia.
—Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para Jeronymo.
—Não, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta desgraçada; e se não fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o hospital.
—Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver, retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.
—Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou Martha, approximando se do leito.
—Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e, despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.
Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de palhinha, completamente estragadas nos assentos.
Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder, nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no que podesse os incommodos da enferma.
—Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, ao ver os lençoes alvos como a neve, que a mulher do operario levava no braço. Estar estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! Não era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.ª Balbina, uma pobre de Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital. Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?
—Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; e demais, cada qual que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam Martha e seu marido.
A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente para a filha do operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de suprema angustia.
Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe livrassem sua pobre filha.
Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada. As horriveis dôres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco, e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.
Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos indagar o estado da sua doença.
Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma estava livre de perigo.
IV
Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, a tia Marianna, envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa.
Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua organização de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas immediações.
Todos viam na sua convalescença, começando pela beata, um favor da Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedicação da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre.
Almas vis e denegridas que não comprehendeis o bem, como poderieis soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos corações não existe mais do que a inveja e a podridão!
Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o coração, que se entrega aos deleites da caridade.
A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela pobresa, no tympano do avarento.
Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé, salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as costas para não ouvirem os elogios que a velha do coração lhe prodigalizava.
Desde esse momento, a pouca affeição que todos consagravam á familia de Jeronymo, tornára-se em decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e acabando na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma se importava a não ser dos seus arranjos domesticos.
Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando, acompanhada por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu lenço estava mal engommado, ámanhã porque o seu capote de panno azul já começava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua mãe, por tudo quanto havia, que não a obrigasse a ir á missa das onze.
—Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr. Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. Não tardará muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns ganchosinhos que me devem render um par de moedas, verás então como lhes hei de fazer estalar a castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom cordão de seis moedas ao pescoço.
—Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.
—Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas suas visinhas.
—Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de fome.
—De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que punhamos no leito.
—Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos frio...
—Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe calcular o calor.
—Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.
—Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que, apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher.
—O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna, quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.
N'este momento bateram apressadamente ao postigo.
—Que teremos? disse Balbina.
Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu immediatamente a porta.
Era a tia Monica.
—Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lançando sobre nós a sua divina benção, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre a peccadora e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto todas as visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse milagroso frasquinho com que tornou á vida a tia Marianna.
N'este momento a viuva acabava de assignar... ([pag. 15])
—Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha ouvira as exclamações da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. Vão chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente. Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira, maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.ª Monica. Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! Nem que me pezassem a ouro, ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a primeira a cortar na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E não foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela minha parte, não consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha filha.
—Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores, resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia produzido, incutia certos receios no animo da corretora de orações.
—Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de alguns momentos de profunda reflexão.
—Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.
—Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude, e depois descançarmos o corpo para o trabalho de ámanhã.
Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta curta, mas eloquente oração:
Bom Jesus, todo Poderoso,
Filho da Virgem Maria,
Soccorrei-nos esta noite
E ámanhã por todo o dia.
Se na terra não coubermos,
Levae-nos Senhor aos céos,
Rogae por nós peccadores,
Virgem Santa, Mãe de Deus.
V
Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um abastado capitalista por nome Tristão de Almeida, segundo rezava o seu passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.
Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma para o visconde de Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a casa bancaria de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada n'esta capital, não só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo facto de já ter fallido tres vezes.
O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram gostosamente o seu recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caça era rara de mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto escasseia.
Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para succulenta refeição, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caçada.
Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, Tristão de Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar, quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.
Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por zote, Tristão ia cercando de lisongeiras esperanças o filão d'essa inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na sua aurifera individualidade.
Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. Constava porém que uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior intelligencia. Não tardou uma semana que esse homem, ou para melhor dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.
Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo para tirar em baixo relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no Brazil com o unico fim de matar o tempo.
Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu preterito.
«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle, passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus fins. Graças a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fôra Domingos de Andrade.
«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus caprichos. Não que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal. Está decidido, quero um titulo. Começarei por ser apresentado em casa de alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgraça a centenares de familias, enlucta-lhes as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a adquirir, Tristão de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.»
N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão mandou que abrissem, e entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.
—Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se da varanda e dirigindo-se para o salão.
O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter quarenta quando muito.
Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus fôra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta terra, onde se não envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete annos, graças á temperatura do seu clima.
Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna geração se curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.
Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade as mil aventuras que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror da banca portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na caixa do mesmo theatro fôra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia. Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!
Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para melhor falar com o marido da viscondessa.
Como se vê, era um homem completo.
Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma multidão de mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do visconde.
Extravagante mais por indole do que por ostentação, o fidalgo deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoções que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era o verdadeiro sybarita da estroinice.
Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não tardou muito que a visse desbaratada em custosas viagens.
Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio de quem era herdeiro forçado, porém a pertinaz saude do velho fazia com que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida, onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu no começo da sua jornada.
Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinião das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de Coruche.
As privações porque este passára foram completamente esquecidas desde que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem mão de meios pouco brandos para adquirirem, senão a totalidade do devido, pelo menos o capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura, reanimou-se então com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas se recordava d'elles.
A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo do apogeu da sua riqueza.
D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa alguma era dado descortinar.
Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situação era mais difficil, não tinha parente algum para quem apellar.
Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos. Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma industria.
Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio, anuia finalmente, não sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava colocando-os no rol de seus intimos.
Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.
Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia, nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de desconsideração.
Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade, ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior exactidão desta veridica historia, foi apresentado.
—Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no theatro, meu caro amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha muito tempo que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como sempre, cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, não póde calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente não se tem espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é que foi uma epidemia, meu amigo.
—Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, ajuntou elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.
—N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo não está para brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento sentisse a mais leve indisposição, começava por me tractar como estando realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude. Prefiro-a a tudo, até á riqueza.
—Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristão de Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.
—Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo. Muitos rapazes que por ahi conheço possuem, como eu, saude e dinheiro. Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vão com elle por essas ruas da capital armando á compaixão das suas Lesbias. Eu sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu não tenho coisa alguma que me entristeça, para que demonio hei de dizer mal do mundo que tantos deleites me faz experimentar?
—Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos, ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristão de Almeida, que já começava a impacientar-se, como o leitor, do estirado dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.
—Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. É a primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante, continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinião? Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.
—Nada, não se trata d'isso.
—Então, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das carruagens, ou dos cavallos?
—Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. Isso ficará para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de misericordia;—fazer bem aos desgraçados.
—Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço a ajudal-o em tudo quanto me seja possivel.
—Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o sophá. Minha esposa, que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a idéa?
—Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.ª condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais assiduas obreiras do grande monumento da caridade. Não ha asylo para que não seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece sobre todas as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.
—Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristão de Almeida, não me associo á opinião de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e creio que será muito mais razoavel.
—Sim?...
—É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel flagello tiver abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a idéa que teve minha mulher.
—Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.
—Approva?
—Applaudo.
—E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena obra de caridade?
—Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.
—Poderemos hoje mesmo começar os nossos trabalhos? perguntou Tristão de Almeida, acceitando o charuto que lhe fôra offerecido.
—Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.
—Vamos então procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de suppôr que nos possam ajudar em muito.
—Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o a Tristão de Almeida.
Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a carruagem saia o portão e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo, deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraçado.
Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para o hotel de Bragança.
Tristão de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por excepção, o doutor não tardou meia hora!... Das feridas que o atropellado recebera na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não havia tornado a si.
Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as suas, parecia com profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsações. Seria calculo ou verdadeira caridade? Sabia o Deus!
Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.
É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha alguma congestão, disse o doutor tomando o pulso do enfermo.
Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristão de Almeida e o visconde levaram em braços o ferido e deitaram-n'o sobre um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.
—Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde com falsa ingenuidade.
—Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido causa de similhante desgraça, respondeu-lhe Tristão. Agora, sr. visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a cabeceira do ferido.
—Será uma grande alma, pensava o visconde.
—Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão.
Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.