LYRA III.

Succede, Marilia bella,
Á medonha noite o dia:
A estação chuvosa e fria,
Á quente secca estação.
Muda-se a sorte dos tempos;
Só a rainha sorte não?

Os troncos, nas Primaveras,
Brotão em flores viçosos;
Nos Invernos escabrosos
Largão as folhas no chão.
Muda-se a sorte dos troncos;
Só a minha sorte não?

Aos brutos, Marilia, cortão
Armadas redes os passos;
Rompem depois os seus laços,
Fogem da dura prisão.
Muda-se a sorte dos brutos;
Só a minha sorte não?

Nenhum dos homens conserva
Alegre sempre o seu rosto;
Depois das penas vem gosto,
Depois do gosto afflicção.
Muda-se a sorte dos homens;
Só a minha sorte não?

Aos altos Deoses movêrão
Soberbos Gigantes guerra;
No mais tempo o Ceo, e a Terra
Lhes tributa adoração.
Muda-se a sorte dos Deoses;
Só a minha sorte não?

Hade, Marilia, mudar-se
Do destino a inclemencia:
Tenho por mim a innocencia,
Tenho por mim a razão.
Muda-se a sorte de tudo;
Só a minha sorte não?

O tempo, ó bella, que gasta
Os troncos, pedras, e o cobre,
O véo rompe, com que encobre
Á verdade a vil traição.
Muda-se a sorte de tudo;
Só a minha sorte não?

Qual eu sou verá o mundo,
Mais me dará do que eu tinha,
Tornarei a ver-te minha.
Que feliz consolação!
Não ha de tudo mudar-se,
Só a minha sorte não.