LYRA III.
Tu não verás, Marilia, cem captivos
Tirarem o cascalho, e a rica terra,
Ou dos cercos dos rios caudelosos,
Ou da minada Serra.
Não verás separar ao habil negro
Do pezado esmeril a grossa arêa;
E já brilharem os granetes de ouro,
No fundo da batêa.
Não verás derrubar os virgens matos,
Queimar as capoeiras inda novas,
Servir de adubo á terra a fertil cinza,
Lançar os grãos nas cóvas.
Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
Da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa meza
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-has folhear os grandes livros,
E decidir os pleitos.
Em quanto revolver os meus Consultos,
Tu me farás gostosa companhia
Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
Os Cantos da Poesia.
Lerás em alta Voz a imagem bella;
Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
Gostoso tornarei a lêr de novo
O cansado processo.
Se encontrares louvada huma belleza,
Marilia, não lhe envejes a ventura,
Que tens quem leve á mais remota idade
A tua formosura.