LYRA IX.
A estas horas
Eu procurava
Os meus Amores;
Tinhão-me inveja
Os mais Pastores.
A porta abria,
Inda esfregando
Os olhos bellos,
Sem flor, nem fitta
Nos seus cabellos:
Ah! que assim mesmo
Sem compostura,
He mais formosa,
Que a estrella d'alva;
Que a fresca rosa.
Mal eu a via,
Hum ar mais leve,
(Que doce effeito!)
Já respirava
Meu terno peito.
Do cerco apenas
Soltava o gado,
Eu lhe amimava
Aquella ovelha
Que mais amava.
Dava-lhe sempre
No rio, e fonte,
No prado, e selva,
Agua mais clara,
Mais branda relva.
No cóllo a punha,
Então brincando
A mim a unia;
Mil coizas ternas
Aqui dizia.
Marilia vendo
Que eu só com ella
He que fallava;
Ria-se a furto,
E disfarçava.
Desta maneira
Nos castos peitos,
De dia, em dia
A nossa chamma
Mais se accendia.
Ah! quantas vezes
No chão sentado,
Eu lhe lavrava
As finas rócas,
Em que fiava?
Da mesma sorte
Que á sua amada,
Que está no ninho,
Fronteiro canta
O passarinho.
Na quente sésta,
Della defronte,
Eu me entretinha
Movendo o ferro
Da sanfoninha.
Ella por dar-me
De ouvir o gosto,
Mais se chegava:
Então vaidoso
Assim cantava:
Não ha Pastora,
Que chegar possa
Á minha bella;
Nem quem me iguale
Tambem na estrella:
Se Amor concede
Que eu me recline
No branco peito,
Eu não invejo
De Jove o leito:
Ornão seu peito
As sãs virtudes,
Que nos namorão;
No seu semblante
As Graças morão.
Assim vivia:
Hoje em suspiros
O canto mudo:
Assim, Marilia,
Se acaba tudo.