LYRA XIII.
Ves, Marilia, hum cordeiro
De flores enramado,
Como alegre caminha
A ser sacrificado?
O Povo para o Templo já concorre:
A Pyra sacro-santa já se accende:
O Ministro o fere, elle bala, e morre.
Vês agora o novilho,
A quem segura o laço:
No chão as mãos especa:
Nem quer mover hum passo:
Não conhece que sahe de hum máo terreno;
Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,
O conduz a viver n'um campo ameno.
Ignora o bruto, como
Lhe dispomos a sorte:
Hum vai forçado á vida,
Vai outro alegre á morte,
Nós temos, minha bella, igual demencia:
Não sabemos os fins, com que nos move
A sábia, occulta Mão da Providencia.
De Jacob ao bom filho
Os máos matar quizerão:
De conselho mudárão,
Como escravo o vendêrão:
José não corre a ser hum servo afflito:
Vai subindo os degráos, por onde chega
A ser hum quasi Rei no grande Egypto.
Quem sabe se o Destino
Hoje, ó bella, me prende,
Só porque nisto de outros
Mais damnos me defende?
Póde inda raiar hum claro dia.
Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro;
E beijo a santa mão, que assim me guia.