LYRA XV.

Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro;
Fui honrado Pastor da tua Aldêa;
Vestia finas lãns, e tinha sempre
A minha chóça do preciso chêa.
Tirarão-me o casal, e o manso gado,
Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

Para ter, que te dar, he que eu queria
De mór rebanho ainda ser o dono;
Prezava o teu semblante, os teus cabellos
Ainda muito mais que hum grande Throno.
Agora que te offerte já não vejo
Além de hum puro amor, de hum são desejo.

Se o rio levantado me causava
Levando a sementeira prejuiso,
Eu alegre ficava apenas via
Na tua breve boca hum ar de riso.
Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
De ver-te ao menos compassivo o rosto.

Propunha-me dormir no teu regaço
As quentes horas da comprida sésta,
Escrever teus louvores nos olmeiros,
Toucar-te de papoilas na floresta.
Julgou o justo Ceo, que não covinha
Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

Ah, minha bella, se a Fortuna volta,
Se o bem que já perdi alcanço, e provo;
Por essas brancas mãos, por essas faces
Te juro renascer hum homem novo;
Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

Fiadas comprarei as ovelhinhas,
Que pagarei dos poucos do meu ganho;
E dentro em pouco tempo nos veremos
Senhores outra vez de hum bom rebanho.
Para o contagio lhe não dar sobeja
Que as affague Marilia, ou só que as veja.

Se não tivermos lans, e pelles finas,
Podem mui bem cobrir as carnes nossas
As pelles dos cordeiros mal cortidas,
E os pannos feitos com as lans mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

Nós iremos pescar na quente sésta
Com canas, e com cêstos os peixinhos:
Nós iremos caçar nas manhãs frias
Com a vara envisgada os passarinhos;
Para nos divertir faremos quanto
Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos
C'os filhos se os tivermos á fogueira;
Entre as falsas historias, que contares,
Lhes contarás a minha verdadeira:
Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto
Ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua
Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores,
Dizendo huns para os outros: olha os nossos
Exemplos da desgraça, e sãos amores.
Contentes viviremos desta sorte,
Até que chegue a hum dos dois a morte.