LYRA XVII.

Dirceo te deixa, ó bella,
De padecer cançado:
Frio suor já banha
Seu rosto descórado;
O sangue já não gyra pela vêa,
Seus pulsos já não batem;
E a clara luz dos olhos se bacêa:
A lagrima sentida já lhe corre;
Já pára a convulsão, suspira, e morre.

Seu espirito chega
Onde se pune o erro:
Late o cão, e se lhe abrem
Grossos portões de ferro.
Aos severos Juizes se apresenta;
E com sentidas vozes
Toda a sua tragedia representa:
Enche-se de ternura, e novo espanto
O mesmo inexoravel Rhadamantho.

Abre hum pasmado a boca,
E a pedra não despede;
Outro já não se lembra
Da fome, e mais da sede:
Descança o curvo bico, e a garra impia
Negro abutre esfaimado:
Nem a roca medonha a Parca fia,
Até as mesmas Furias inclementes
Deixão cahir das unhas as serpentes.

Já votão os Juizes;
E o Rei Plutão lhe ordena
Deixe o sitio, em que ficão
Almas dignas de pena.
Já sahe do escuro Reino, e da memoria
Lhe passa tudo quanto
Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria.
Só, bem que o gosto as turvas agoas tome,
Inda, Marilia, inda diz teu nome.

Entra já nos Elysios
Campinas venturosas,
Que mansos rios cortão,
Que cobrem sempre as rosas.
Escuta o canto das sonoras aves,
E bebe as agoas puras,
Que o mel, e de que o leite mais suaves.
Aqui, diz elle, espero a minha bella,
Aqui contente viverei com ella.

Aqui… porém aonde
Me leva a dôr activa?
He illusão desta alma.
Jove inda quer que eu viva.
Eu devo sim gosar teus doces laços;
E em paga dos meus males
Devo morrer, Marilia, nos teus braços.
Então eu passarei ao Reino amigo;
E tu irás despois lá ter comigo.