LYRA XXIII.
Não praguejes, Marilia, não praguejes
A justiceira mão que lança os ferros:
Não traz de balde a vingadora espada;
Deve punir os erros.
Virtudes de Juiz, virtudes de homem
As mãos se derão, e em seu peito morão.
Mandão prender ao Réo austera a boca,
Porém seus olhos chorão.
Se á innocencia denigre a vil calumnia
Que culpa aquelle tem que applica a penna.
Não he o Julgador, he o processo,
E a lei quem nos condemna.
Só no Averno os Juizes não recebem
Accusação, nem prova de outro humano;
Aqui todos confessão suas culpas,
Não póde haver engano.
Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
Huma o fogo chega, outra as serpes move;
Todos maldizem sim a sua estrella,
Nenhum accusa a Jove.
Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
Bem que a prizão me dá que eu não mereço.
Qual eu sou, minha bella, não me trata,
Trata-me qual pareço.
Quem suspira, Marilia, quando pune
Ao vassallo que julga delinquente;
Que gosto não terá podendo dar-lhe
As honras de innocente?