LYRA XXXI.
Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía,
Quanto de meu gosava
N'um só funesto dia.
Honras de maioral, manada grossa,
Fertil, extensa herdade,
Bem reparada chóça.
Metteo-me nesta infame sepultura,
Que he sepulcro sem honras,
Breve masmorra, escura.
Aqui, ó minha Amada, nem consigo,
Venha outro desgraçado
Sentir tambem comigo.
Mas se esta companhia não mereço;
Os Deoses me dão outra,
Inda de mais apreço.
Não he, não, illusão o que te digo;
Tu mesma me acompanhas;
Peno, mas he comtigo.
Não vejo as tuas faces graciosas,
Os teus soltos cabellos,
As tuas mãos mimosas.
Se eu as visse, infeliz me não dissera,
Bem que subira ao Porto,
Bem que na Cruz pendêra.
Não ouço as tuas vozes magoadas,
Com ardentes suspiros
Ás vezes mal formadas.
Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas;
Huma por hum beijo,
E choro então sobre ellas.
Tu me dizes que siga o meu destino;
Que o teu amor na ausencia
Será leal, e fino.
De novo a carta ao coração aperto,
De novo a molha o pranto
Que de ternura verto.
Ah! leve muito embora o duro Fado;
A tudo quanto tenho
Com meu suor ganhado.
Eu juro, que do roubo nem me queixe,
Com tanto, ó minha cara,
Que este só bem me deixe.
Que males voluntarios não subírão,
Os que te amão, sómente
Porque menos te ouvírão?
Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga;
Que eu tenho aquella gloria,
Que a mil felizes nega.