MARILIA DE DIRCEO.
POR T.A.G.
SEGUNDA PARTE.
LISBOA: 1824.
Na Typ. de J.F.M. de Campos.
MARILIA DE DIRCEO
LYRA I.
Já não cínjo de loiro a minha testa,
Nem sonoras Canções o Deos me inspira:
Ah! que nem me resta
Huma já quebrada,
Mal sonora Lyra!
Mas neste mesmo estado em que me vejo,
Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te:
Cumpro o seu desejo;
E ao que resta supra
A paixão, e a arte.
A fumaça, Marilia, da candêa,
Que a molhada parede ou çuja, ou pinta;
Bem que tosca, e fêa,
Agora me póde
Ministrar a tinta.
Aos mais preparos o discurso apronta:
Elle me diz, que faça no pé de huma
Má laranja ponta,
E delle me sirva
Em lugar de pluma.
Perder as uteis horas não, não devo
Verás, Marilia, huma idéa nova:
Sim, eu já te escrevo,
Do que esta alma dita
Quanto amor approva.
Quem vive no regaço da ventura,
Nada obra em te adorar, que assombro faça:
Mostra mais ternura
Quem te estima, e morre
Nas mãos da desgraça.
Nesta cruel masmorra tenebrosa
Ainda vendo estou teus olhos bellos,
A testa formosa,
Os dentes nevados,
Os negros cabellos.
Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
A chusma dos Cupidos, que pendentes
Dessa bôcca linda,
Nos ares espalhão
Suspiros ardentes.
Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
Responderei—no peito—que huns Amores
De casto desejo
Aqui te pintárão,
E são bons Pintores.
Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora
Teu Retrato fizerão, e tão forte,
Que entendo, que agora
Só póde apagallo
O pulso da Morte.
Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!
Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.
Ah! dá-lhes hum beijo,
E diz-me que valem
Mais que letras de oiro.