22 DE OUTUBRO DE 1821.

Senhor Redactor do Correio do Porto.

Por hum lance imprevisto veio ter á minha mão a folha de hum Periodico intitulado = Borbolêta Constitucional = e vem a ser o N.º 131. Fiquei suspenso, e como fóra de mim ao lêr no frontespicio desta Obra, (que deve ser d'algum máo trolha) a Epigraphe em letras maiuscuas = Serão só sepultados vivos os Frades Carmelitas Descalços? = Com esta pasmosa interrogação suspeitei logo que os taes Frades terião comettido algum crime de lesa Magestade Divina, ou lesa Nação; pois só por hum tal attentado se póde merecer hum castigo tão atróz, usado só por vezes entre as Nações barbaras. Que farião, Deos meu, estes bons Padres, dizia eu cá para mim sósinho? Que farião elles? Conheço ha tantos annos a sua bondade, e o seu porte regular, e edificante, mas no estado presente não faltão malvados, e vem tempo, em que as cousas boas tambem degenerão; certamente temos por aqui alguma corcundisse, ou hypocrisia!!! mas reparo que a Epigraphe diz = Serão sepultados vivos? Então, disse eu, o crime he maior, que o de Corcunda, e de hypocrita! Na verdade tremi de frio susto, e assim mesmo botei-me a lêr a malgamação de cousas, de que estava cheia a tal folha da Borbolêta, e confesso que do estado apathico, em que me vi, passei rapidamente ao de frenetico. E não teria eu razão bastante, Senhor Redactor? Hum papel público, que anda pelas mãos de todos, hum Periodico, que vai correndo o mundo, e que se julga apologista da verdade, critico exacto, illustrador da Nação, amante da humanidade, e da sua Patria, não ter nada disto! Quero dizer, ser hum impostor, mentiroso, injuriador maligno dos membros da Nação, sem caridade, e até sem patriotismo!!! Isto he que faz escandecer o «Caco». Li, Senhor Redactor, e reli o tal papel, e desejei ser hum Hercules verdadeiro para descobrir, e pôr ao sól o vasio craneo deste novo «Caco» mais manhoso, que o primeiro, de que falla a fabula. Tive intentos de me fazer Periodiqueiro, não pelo lucro, mas sim para dar ao Público huma desforra sobre a impiedade do tal homem «Borbolêta»: mas lembrei-me que por este meio não conseguia o meu intento. He hum Rifão de Direito, que «as cousas se desfazem pelos mesmos principios, ou causas, a que devem a origem,» e por isso julguei conveniente inserir as minhas reflexões em algumas das Folhas, que se publicão nessa Cidade, e me lembrei da sua, e assim pelo mesmo modo, e meios que se publicou a mentira, chegava a todos a noticia da verdade. Não conheço (nem me ficão desejos disso) o Author da Borbolêta, e por este motivo não atacarei sua pessoa: he verdade que o merecia bem, pois ella ataca huma Corporação inteira, tão respeitavel em Portugal pela sua decidida observancia; e, se em algum lance convinha a pena de talião, era este a meu vêr, o mais decidido; e ainda assim não ficava equibrado o castigo com a grandesa do delicto. A Borbolêta desauthorisa, e enxovalha, e tracta de ridiculo huma Corporação inteira, cheia de homens honrados, sábios, e virtuosos; e a Borbolêta he hum insecto vil, huma metamorphose nojenta, inteiramente inutil ao mundo, e que nada se perde se a lançarem ao fogo, ou a enterrarem viva. Com tudo respeitarei sua pessoa, por dar exercicio á Caridade, e esta virtude pede que assim se tracte, ainda que seja hum inimigo: pretexto faze-lo assim com este lobo disfarçado, ou raposa solapada com mais ronha, que huma cabra velha. Pelos seus escriptos penetro a bondade das suas intenções, e pureza de sentimentos, vejo a boa indole, que o aníma, e até me parece que adivinho de que he composta a sua entidade physica. Nada porém direi, torno a repetir, senão do seu escripto verdadeiramente = Impio = cheio de = Falsidades = Anti-fradesco = Anti-Christão = Darei a conhecer ao Público (este he o assumpto geral) a nenhuma fé, que merece o tal papel, ou, melhor, quanto deve ser abominado pelo seu máo animo, falta de logica, de Charidade, e de Patriotismo, pois tudo isto se acha nelle. «Abque eo, quod intrinsecus latet.»

Sirva-se, Senhor Redactor, de publicar no seu Periodico esta primeira Carta, que servirá como Exordio de Sermão ás quatro proposições indicadas, que tenho de provar pouco a pouco, e, se me não engano, darão ao seu Periodico materia para muito tempo. Não me dirijo ao Author da Borbolêta, não porque lhe tenha medo, pois o tal bicho a ninguem o mete, mas sim porque o não julgo tão despido de amor proprio, (pelo seu escripto parece ter cara d'aço) para ser sincero, e fiel nesta Causa, em que elle he réo, ou parte; e he necessario ter huma alma muito boa, e huma virtude não vulgar, para que hum réo, ou parte deponha contra si, quando tem na mão os monumentos do seu crime, e que póde rasgar a seu salvo sem que alguem o possa presumir. A distancia do lugar, aonde vivo, fará retardar as minhas participações, assim como retardão os papeis, que chegão á minha mão, e os monumentos, que espero dessa Cidade. No estado presente queria ter azas de Borbolêta para voar á sua Officina, e dar-lhe ahi boas torquezadas, mas não me quiz dar o Céo o que liberalisou a este animalejo, e o remedio está na paciencia. Espero que v. m. a terá com este, que he deveras.

Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.{11}

P. S.

Senhor Redactor, depois desta feita, recebo o N. 132 da Borbolêta. Veja, veja lá como, sacudindo as azas, veio a cegar a gente com tanta poeira![[1]] Acuda a isto, Senhor Redactor; por Deus lh'o peço, imprimindo logo esta para bem da humanidade, e até da mesma Borbolêta; pois, se lhe não cortâmos os voadouros da lingua, temo que diga mal até do SS. Sacramento. Sou, como devo,

Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.