Romance á morte de El Rei Dom Manoel.
Pranto fazem em Lisboa,
Dia de Santa Luzia,
Por El Rei Dom Manuel,
Que se finou n'esse dia.
Choram Duques, Mestres, Condes,
Cada um quem mais podia;
Os fidalgos e donzellas
Muito tristes em porfia;
Os Iffantes davam gritos,
A Iffanta se carpia;
Seus olhos maravilhosos
Fonte d'agua parecia.
Bem merecem ser escriptas
As lastimas que fazia:
«Paço tão desamparado
Derribado merecia,
Pois a sua fortaleza
Se tornou em terra fria.
Oh minha senhora madre
Rainha Dona Maria,
Quem a vós levou primeiro
Mui grande bem vos queria,
Pois que vos livrou da pena
Que passamos n'este dia.»
E outras magoas, que de tristes
Contar não mais ousaria.
O Principe dava suspiros,
Que a alma se lhe sahia;
Suas lagrimas prudentes,
Como a gran senhor cumpria:{[15]}
De dia sempre velava,
De noite nunca dormia.
A Rainha estrangeira
Já chorar o não podia:
Com rouca voz dolorosa
Estas palavras dizia:
«Oh Reina desamparada!
Qué haré sim compañia,
Pues que en esta triste vida
Sola una vida tenia!
Y pues me la llevó la muerte,
Para qué quiero la mia?
Oh sin ventura casada
Tres años no mas habia,
Quien tan presto fue viuda
Triste para que nascia;
Niña sola en tierra agena,
Huérfana sin alegria!»
Se uma vez acordava
Outras sete esmorecia;
Assi pedia a Deos morte
Como quem pede alegria,
Dizendo: «Llevenme luego,
Que esta tierra ya no es mia:
Por la mar por donde fuere
Algun peligro venia,
Que me matasse á mi sola
Salvando la compañia.»
O bom Rei em seu acordo
Deste mundo se partia:
Sua morte conhecendo
Com muita sabedoria,
Per palavras piedosas
Os sacramentos pedia;
Falando sempre com todos,
Deu sua alma a quem devia.{[16]}
Morto levam o gran Rei
Senhores de gran valia,
Dizendo uns aos outros:
Oh que triste romaria!
Que grande amigo perdemos
E que doce companhia!
Já passada a meia noite,
Tres horas antes do dia
Mettido em um ataúde
O qu'inda ha pouco regía,
O gran senhor do Oriente
Dos seus Paços se partia.
Seiscentas tochas accezas,
Escuras a quem as via;
Triste pranto até Belem
Nem passo não se esquecia.
Em terra fica enterrado,
Porque assi mandado havia,
Conhecendo que era terra
A mundanal senhoria.
Disse que os vãos thezouros
Á morta não pertencia.
Desque ficou enterrado
Cada um se despedia,
Dizendo estes versos tristes
Á gloriosa Maria. Etc.
Obr. t. III, p. 348.