Romance da briga de um cego e um corcovado
De um Cego e de um Corcovado
Hoje o desafio escrevo;
N'um vou á cega lagarta,
N'outro vou com grande peso.
N'uma palestra se acharam
Os dois a um mesmo tempo,
Um carregado de espaldas,
Outro de colera cego.
Vinha o Corcovado armado
De bacias de barbeiro,
Uma trazia nas costas,
Outra trazia no peito.
Com vir nas conchas metido
Parece vinha com medo,
Pois nas conchas com alongo
Um cágado estava feito.
No Cego vejo a razão,
No Corcovado a não vejo,
Porque é um homem que nunca
Teve avesso nem direito.
Esgrimiu o Cego um pau
E andou com elle tão déstro,
Que em dois angulos obtusos
As pancadas deu correndo.
Descarregou de pancadas
No Corcovado um chuveiro,
Porque os chuveiros nos montes
Dão as pancadas mais cedo.
Dar o Cego a bateria{[155]}
No Corcovado era certo,
Porque duas eminencias
Tinha por onde batel-o.
Sem haver pé de pessoa
Que a briga estivesse vendo,
Foi o Cego dar com um pau
Em dois vultos não pequenos.
Tropeçou o Cego n'elles,
Que é o tropeçar de cegos;
E deu de cego pancadas
Em dois mui grandes torpeços.
Pôr no Corcovado o pau
Não foi n'este Cego o erro;
Que em casas que tem corcovas
Pôr-lhe pontões é acerto.
Dando na Casa dos Bicos
Eram golpes tão horrendos,
Que lá no Cunhal das Bolas
Soando estavam seus eccos.
Sempre um cego ha mister guia,
Mas eu n'este Cego vejo
Que não ha mister guiado
Pois tanger sabe um camello.
Como os cegos tangem bem,
Este tangeu tão avesso,
Que nas costas de um laúde
Deu bordoadas aos centos.
N'um mesmo tempo brigou,
E acclamou o vencimento,
Pois sempre na briga esteve
Os atabales tangendo.
O Cego teve a victoria
Mas o Corcovado, é certo,
Que nos despojos levou
Os dous alforges bem cheios.{[156]}