Romance do Desenganado

Sobre as aguas vagarosas
Que o Tejo já traz cansadas
De abrandar duros penedos,
E de romper serras altas:
Perto d'onde o mar oceano
Lhe offerece livre entrada,
Dando ás crystallinas ondas
Livres e douradas praias:
Leva o pescador sereno
Com rôtas redes a barca,
Tam perseguida dos ventos
Quanto de amar sustentada;
E por que o leva forçado
Sua virtude contraria,
Desterrado do seu Lena,
E de sua amada patria,
Já o vento o favorece
E o mar lhe mostra bonança,
Porque para a desventura
A ventura nunca falta.
E ao som que os duros remos
Fazem dividindo as aguas,
Derramando-as de seus olhos,
Vae dizendo estas palavras:{[59]}
«Fermosas aguas do Tejo,
Do mundo tão celebradas,
Morada de tantas nymphas,
E inveja de outras tantas;
Este corpo que amparaes,
Que persegue a sorte ingrata,
Dae-lhe vós a sepultura,
Que é corpo que vae sem alma.
Mil annos vivi sem tel-a,
Por poder de uma esperança
Enganada da ventura,
Que tam facilmente engana.
Causa foi da minha morte
Lisêa, e melhor se acclara
Que, pois tanto amei Lisêa,
Eu fui de meu mal a causa,
O espirito com que vivo
É de um tormento que mata,
Que os males aonde ha firmeza
Nem com a vida se acabam.
Junto então do rio Lis
Meu rebanho apacentava,
Fiz-me pescador do Lena
Provei a sorte em mudanças.
Só no mal achei firmeza,
Sei do bem quam cedo passa,
E sei que a quem muda a vida
Se muda mas não se acaba.
Sei que vive um corpo morto
Por milagre de esperanças,
E que o mal ainda sustenta
Quando as esperanças faltam.
Se em vós móra piedade
'Nessas humidas entranhas,
Dae fim a meus tristes dias,
E a vosso nome esta fama:{[60]}
—Contra o poder da ventura
Empregada em um sujeito,
De um fogo de amor perfeito
Aguas foram sepultura.»

Romances, 2.ª parte, p. 722.