Romance do Marquez de Mantua e do Imperador Carlos Magno.

(Introducção recolhida pelo Cavalheiro de Oliveira)

Na caça andava perdido
De Mantua o velho Marquez,
E no peito pressentido
O coração traz d'envez;
Mas não sabe o succedido!
Farto já de caminhar
Por tão fragosa montanha,
Cansado assim sem companha,
Sem ter onde repousar
'Nessa terra tão extranha,
Vendo o mato tão cerrado,
Assentou de se apear,
E o seu cavallo deixar,
Porque estava de cansado
Que já não podia andar.{[63]}

Marquez:

Fortunosa caça é esta
Que fortuna me ha mostrado,
Pois que por ser manifesta
Minha pena, e gram cuidado,
Me mostrou esta floresta.
Nunca vi tão forte brenha
Desque me acórdo de mi;
Eu creio, que Margasi
Fez esta serra d'Ardenha,
Estes campos de Methli.
Quero tocar a bosina
Por vêr se alguem me ouvirá;
Mas cuido, que não será,
Porque minha gram mofina
Commigo começou já.
Todavia quero vêr
Se mora alguem n'esta serra,
Que me diga d'esta terra,
Cuja é para saber;
Que quem pergunta não erra.
Por demais é o tanger
Em logar deshabitado,
Onde não ha povoado,
Nem quem possa responder,
Ao que lhe fôr perguntado.
Gram mal é o caminhar
Por tão fragosa montanha,
Cançado assim sem companha,
Nem tendo onde repousar
N'esta terra tão extranha.
Vejo o matto tão cerrado,
Que fiz bem de me apear,
E meu cavallo deixar,
Porque estava tão cançado,
Que já não podia andar.
Agora vejo-me aqui{[64]}
N'esta tão grande espessura,
Que nem eu me vejo a mi,
Nem sei de minha ventura.
Nem menos será cordura,
Repousar n'este logar,
Nem sei d'onde possa achar
Descanço á minha tristura.

Valdevinos:

Oh Virgem minha senhora,
Madre do rei da verdade,
Por vossa gram piedade
Sêde minha intercessora
Em tanta necessidade.
Oh summa Regina pia,
Radiante luz phebêa,
Custodia animæ mea,
Pois está na terra fria
A alma de pezar cheia.
Pois és amparo dos teus,
Consola os desconsolados,
Rainha dos altos céos,
Rogae a meu senhor Deos,
Que perdoe meus peccados.

Marquez:

Não sei quem ouço chorar
E gemer de quando em quando!
Alguem deve aqui estar...
Segundo se está queixando,
Deve ter grande pesar.

Valdevinos:

Domine momento mei,
Lembrae-vos de minha alma,
Pois que sois da gloria Rei
Nascido da flor da palma,
Remedio da nossa Lei.{[65]}

Marquez:

Segundo d'elle se espera,
Aquelle homem anda perdido,
Ou por ventura ferido
De alguma d'estas féras.
Quero vêr este mysterio,
Que a fala me dá ousadia:
Porque dois em companhia
Tem mui grande refrigerio
Para qualquer agonia.

Valdevinos:

Oh minha esposa e senhora,
Já não tereis em poder
Vosso esposo que assim chora,
Pois a morte roubadora
Vos roubou todo o prazer.
Oh vida de meu viver,
Resplandecente narcizo,
Gram pena levo em saber,
Que nunca vos heide ver
Até o Dia de Juizo.
Oh esperança, por quem
Tinha victoria vencida!
Oh minha gloria, meu bem;
Porque não partis tambem,
Pois que sois a minha vida?
Se não fôr vossa vontade
De haver de mim compaixão,
Mandae-me meu coração,
Minha fé e liberdade,
Que está em vossa prisão.
Madre minha muito amada,
Que é do filho que paristes
De quem ereis consolada?
Como se ha tornado nada
Quanta gloria possuistes?
Já me não vereis reinar,{[66]}
Já me não dareis conselho;
Nem eu o posso tomar,
Que quebrado é o espelho,
Em que vos sabeis olhar.
Já nunca me haveis de vêr
Fazer justas e torneios,
Nem vestir nobres arreios,
Nem Cavalleiros vencer,
Nem tomar bandos alheios.
Já não tomareis prazer
Quando me virdes armado,
Já vos não virão dizer
A fama de meu poder,
Nem louvar-me de esforçado.
Oh valentes Cavalleiros,
Reinaldos de Montalvão,
Oh esforçado Roldão,
Oh Marquez Dom Oliveiros,
Dom Ricardo, Dom Dudão,
Dom Gaiferos, Dom Beltrão,
Oh Grão Duque de Milão,
Que é da vossa companhia
Duque Maime de Baviera,
Que é de vosso Valdevinos?
Oh esforçado Guarinos,
Quem comsigo vos tivera!
Meu amigo Montesinhos,
Já nunca mais vos verei;
Dom Alonso de Inglaterra,
Já não acompanharei
O Conde Dirlos na guerra.
Oh esforçado Marquez
De Mantua, teu senhorio,
Já não me poreis arnez,
Nem me vereis outra vez
Gozar vosso poderio.{[67]}
Já não quero vosso estado,
Já não quero ser pessoa,
Nem mandar, nem ter reinado,
Já não quero ter corôa
Nem quero ser venerado.
Oh Carlos Imperador,
Senhor de mui alta sorte,
Como sentireis grão dôr
Sabendo da minha morte,
E quem d'ella é causador!
Bem sei, se for informado
Do caso como passou,
Que serei mui bem vingado,
Ainda que me matou
Vosso filho mui amado.
Oh Principe Dom Carloto,
Quem, sendo tão desigual,
Te moveu a fazer mal
Em um logar tão remoto
A teu amigo leal?
Alto Deos omnipotente,
Juiz direito sem par,
Sobre essa morte innocente
Justiça queiraes mostrar,
Pois morro tão cruelmente.
Oh madre de Deos benigna,
E fonte de piedade,
Arca da santa Trindade,
De donde o Verbo divino
Trouxe sua humanidade.
Oh Santa Dómina mea,
Oh Virgem gratia plena.
Em que a alma se recreia
Dá remedio á minha pena,
Pois que morro em terra alheia.{[68]}

Marquez:

Senhor, porque vos queixaes?
Quem vos tratou de tal sorte?
E quem é o que tal morte
Vos deu, como publicaes,
Que assás é esta má sorte!
Não me negueis a verdade,
Contae-me vosso pezar,
Que vos prometto ajudar
Com toda a força e vontade.

Valdevinos:

Muito me agasta, amigo,
Certamente teu tardar,
Dize se trazes comtigo,
Quem me haja de confessar?

Marquez:

Eu nao sou quem vós cuidaes;
Nunca comi vosso pão,
Mas vossos gritos e ais
Me trouxeram aonde estaes
Mui movido á compaixão.
Dizei-me vossa agonia,
Que, se remedio tiver,
Eu vos prometto fazer
Com que tenhaes alegria.

Valdevinos:

Meu senhor, muitas mercês
Por vossa bôa vontade!
Bem creio, que ma fareis
Muito mais do que dizeis,
Segundo vossa bondade.
Mas minha dor é mortal,
Meu remedio só é morte,
Porque estou parado tal,
Que nunca homem mortal
Foi tratado de tal sorte.
Tenho, senhor, vinte e duas{[69]}
Feridas todas mortaes,
As entranhas rotas e nuas,
E passo penas tão cruas,
Que não poderão ser mais.
Ha-me morto á traição
O filho do Imperador,
Carloto a gram sem razão;
Mostrando-me todo o amor,
Não o tendo no coração.
Muitas vezes requeria
Minha esposa com maldade,
Mas ella não consentia,
Pelo bem que me queria,
Por sua grande bondade.
Carloto com grão pezar
Como mais traidor, que forte,
Ordenou de me matar,
Cuidando com minha morte
Com ella haver de casar.
Matou-me com gram falsia,
Trazendo cinco comsigo,
Sem eu trazer mais commigo,
Que um pagem por companhia.
A mim chamam Valdevinos,
Sou filho de El-Rei de Dacia,
E primo de El-Rei de Grecia,
E do forte Montesinos
Que é herdeiro de Dalmacia;
Dona Hermelinda formosa
Minha madre natural,
Sibylla minha esposa,
De graças especial,
Mas com primores famosa.
Esta nova contareis
Á triste de minha madre,
Que em Mantua achareis,{[70]}
E ao honrado Marquez
Meu tio, irmão de meu padre.

Marquez:

Oh desastrado viver,
Oh amargosa ventura,
Oh ventura sem prazer,
Prazer cheio de tristura,
Tristura que não tem ser.
Oh desventurada sorte,
Oh sorte sem soffrimento,
Desamparado tormento,
Dôr muito peior que a morte,
Morte de desabrimento!
Oh meu sobrinho, meu bem,
Minha esperança perdida!
Oh gloria que me sustem,
Porque vos partís de quem
Sem vós não terá mais vida?
Oh desventurado velho,
Captivo sem liberdade!
Quem me póde dar conselho,
Pois perdido é o espelho
De minha gram claridade.
Oh minha luz verdadeira,
Trevas do meu coração,
Penas da minha paixão,
Cuidado que me marteira,
Tristeza de tal traição!
Porque não queres falar
A este Marquez coitado,
Que tio sohieis chamar?
Falae-me, sobrinho amado,
Não me façaes rebentar.

Valdevinos:

Meu tormento tão molesto
Me faz não vos conhecer,{[71]}
Nem na fala, nem no gesto;
Nem entendo vosso dizer,
Se não fôr mais manifesto.
Estou tão posto no fim,
Que não sei se sou alguem,
Nem menos conheço a mi;
Pois quem não conhece a si
Mal conhecerá ninguem.

Marquez:

Como não me conheceis
Meu sobrinho Valdevinos?
Eu sou o triste Marquez,
Irmão de El-Rei Dom Salinos,
Que era o pae que vos fez.
Eu sou o Marquez sem sorte,
Que devêra rebentar
Chorando a vossa morte,
Por com vida não ficar
N'este mundo sem de porte.
Oh triste mundo coitado,
Ninguem deve em ti fiar
Pois és desaventurado,
Que o que tens mais exaltado
Mór quéda lhe fazes dar.

Valdevinos:

Perdoae-me, senhor tio,
A minha descortezia,
Que a minha grande agonia
Me pôz em tanto desvio,
Que já vos não conhecia.
Não me queiraes mais chorar,
Deveis de considerar
Que para isso é o mundo;
Que dobraes meu mal profundo,
Para bem é mal passar:
E bem sabeis que nascemos,{[72]}
Para ir a esta jornada,
E que quanto mais vivemos,
Maior offensa fazemos
A quem nos criou de nada.
Assim que necessidade
Não tendes de me chorar,
Pois que Deos me quiz levar
No melhor de minha idade,
Para mais me aproveitar.
Mas o que haveis de fazer,
É por minha alma rogar,
Porque o muito chorar
Á alma não dá prazer,
Mas antes mui grão pesar.
Quero-vos encommendar
Minha esposa e minha madre,
Pois que não tem outro padre,
Que as haja de amparar,
Senão vós, como é verdade.
Mas o que me dá paixão
Em esta triste partida,
É morrer sem confissão,
Mas se parto d'esta vida,
Deos receberá a tenção.

(Vem o Ermitão e o Pagem)

Ermitão:

A paz de Deos sempiterno
Seja comvosco irmão,
Lembrae-vos da sua paixão
Que, por nos livrar do inferno,
Padeceu quanto a varão.

Valdevinos:

Com cousa mais não folgára
De que vêl-o aqui chegado,{[73]}
Padre de Deos enviado,
Que se um pouco mais tardara,
Não me achára n'esté estado.

Pagem:

Oh que desastrada sorte
Meu senhor Dones Ogeiro!
Olhae vosso escudo forte
Olhae, senhor, vosso herdeiro,
Em que extremo o pôz a morte.
Oh desditoso caminho,
Caça de tanto pezar,
Que cuidando de caçar,
A morte a vosso sobrinho
Viestes, senhor, buscar.

Ermitão:

A gram pressa que trazia,
Não me deu, senhor, logar,
De conhecer, nem falar
A vossa gram senhoria.
N'este erro se ha culpa,
Peço-lhe d'elle perdão,
Ainda que a discrição
Sua me dará desculpa.

Marquez:

Rogae a Deos Padre honrado,
Que me queira dar paciencia,
Que o perdão é escusado,
Porque vossa diligencia
Vos não deixa ser culpado.

Ermitão:

O filho de Deos enviado
Vos mande consolação!
E pois que aqui sou chegado
Quero ouvir de confissão
Este ferido e angustiado.
Coisa é mui natural{[74]}
A morte a toda a pessoa,
A todo o mundo em geral,
Pois que a nenhum perdôa,
Não a tenhamos por mais.
Porque o peccado de Adão,
Foi tão fero e de tal sorte,
Que não só por perdição.
Mas Deos, que é salvação,
Quiz tambem receber morte.
E por tanto, filho meu,
Não se deve de espantar,
Da morte que Deos lhe deu,
Pois que em provimento seu,
Lh'a deu o para salvar.
Lembre-lhe sua paixão:
Veja este mundo coitado,
E não o engode o malvado,
Que não dá por galardão
Senão tristeza e cuidado.
Em quanto, filho, tem vida,
Chame a Madre do Deos,
Aquella que foi nascida,
Sem peccado concebida,
E coroada nos céos.
Esta foi santificada,
E visitada dos Anjos;
E em corpo e alma levada
Á gloria, onde exaltada
Lá está sobre os archanjos.
Assim, que ao Redemptor,
E a esta Virgem sem par
Se hade, filho, encommendar,
Depois que os santos fôr
Sua vontade chamar.
As mãos levante aos céos,
Faça confissão geral,{[75]}
Confessando-se a Deos,
E á Virgem celestial,
E a todos os santos seus.

Marquez:

Oh bonancia aborrecida,
Oh desastrada fortuna!
De prazeres gram tribuna!
Porque não desamparaes
A quem sois tam importuna?
Tristeza, desconfiança,
Porque não desesperaes
A quem não tem confiança?
Contae-me, pagem Burlor,
O caso como passou,
Quem foi aquelle traidor
Que matou vosso senhor,
Ou porque causa o matou.

Pagem:

Seria mui mal contado
Se a sua gram Senhoria
Não contasse o que é passado.
Eu sei certo que faria,
O que não é esperado
Contra quem me deu estado,
E ha feito tantas mercês,
Que nunca meu pae me fez,
Que é meu senhor amado,
E mais vós, senhor Marquez.
Estando pois em Paris,
O filho do Imperador,
Mandou chamar meu senhor
Nos paços da Imperatriz;
Falaram muitos a sabor,
O que falaram não sei,
Senão que logo n'essa hora
Sem fazerem mais demora,{[76]}
Com quatro detraz de si
Foram da cidade fóra,
Armados secretamente,
Segundo depois ouvi.
Partimos todos d'aí.
E Dom Carloto presente,
Tambem armado outrosi.
E tanto que aqui chegaram,
N'este valle de pezar
Todos juntos se apearam,
E fizeram-me ficar
Com os cavallos que deixaram.
E logo todos entraram
Em este esquivo logar,
Onde meu senhor mataram;
E depois de o matar,
Nos cavallos se tornaram;
Como eu os vi tornar,
Sentindo muito tal dôr,
Temendo de lhe falar,
Não usei de perguntar
Onde estava meu senhor.
Vendo-os assim caminhar,
Porque nenhum me falava,
Quiz a meu senhor buscar,
Porque o coração me dava
Sobresaltos de pezar.
Não o podia topar,
Porque a grande espessura
E a noite medrosa, escura
Me fazia não o achar:
Do que tinha gram tristura.
Buscando-o com gram paixão,
N'aquelle logar remoto
O achei d'esta feição.
Disse como á traição{[77]}
O matára Dom Carloto.
Perguntei porque rasão?
Triste, cheio de agonias,
Disse-me com afflicção:
«Vae-me buscar confissão,
Já se acabaram meus dias.»
Como taes novas ouvi,
Com grande tribulação
E pezar de vêl-o assi,
Me parti logo d'aqui
A buscar esse Ermitão.
Isto é, senhor, o que sei
D'este caso desastrado,
Quanto me ha perguntado,
Outra cousa não direi
Mais do que lhe hei contado.

Marquez:

Quando sua magestade
Justiça me não fizer
Com toda a rigoridade,
Á força de meu poder
Cumprirei minha vontade.

Ermitão:

Já, senhor, se ha confessado,
E fez actos de christão;
Morre com tal contricção,
Que eu estou maravilhado
De sua gram discrição.
Muito não pode tardar,
Segundo n'elle senti:
Acabei de lhe falar,
Porque lhe quero resar
Os psalmos de el-rei David.

Valdevinos:

Não tomeis, tio, pezar,
Que me parto de vos ver{[78]}
Para nunca mais tornar;
Pois Deos me manda chamar
E não posso mais fazer.
Torno-vos a encommendar
Minha esposa e minha mãe,
Que as queiraes consolar,
E ambas as amparar,
Pois que não tem outro pae.

Oração de Valdevinos:

Em as tuas mãos, Senhor,
Encommendo meu espirito;
Pois que és Salvador meu,
Meu Deos, e meu Redemptor,
Não me falte favor teu;
Pois, Senhor, me redemiste,
Como Deos, que és de verdade,
Senhor de toda a piedade,
Lembra-te d'esta alma triste
Cheia de toda a maldade.
Salve, Senhora benigna,
Madre de misericordia,
Paz de nossa gram discordia,
Dos peccadores mesinha;
Vida doce e concordia,
Spes nostra, a ti invocamos,
Salva-nos da escura treva.
A ti, Senhora, chamamos
Desterrados filhos de Eva;
A ti, Virgem, suspiramos
A ti gemendo e chorando
Em aqueste lagrimoso
Valle sem nenhum repouso,
Sempre Virgem, a ti chamamos,
Que és nosso prazer e gôso.{[79]}
Ora pois, nossa advogada,
Amparo da christandade,
Volve os olhos de piedade
A mim, Virgem consagrada,
Pois que és nossa liberdade.
Dá-me, Senhora, virtude
Contra todos meus imigos,
Pois que és a nossa saúde,
Eu te rogo, que me ajudes
Nos temores e perigos;
Roga tu por mim, Senhora,
Oh santa madre de Deos,
A quem minha alma adora,
Pois és rainha dos céos,
E dos anjos superiora.

(Aqui expira Valdevinos)

Marquez:

Oh triste velho coitado!
Oh cãs cheias de tristura!
Oh doloroso cuidado!
Oh cuidado sem ventura,
Sem ventura desterrado!
Quebrem-se minhas entranhas
Rompa-se meu coração
Com minha tribulação.
Chorem todas as campanhas
Minha grande perdição;
Escura-se o sol com dó,
Caiam estrellas do céo,
As trevas de Faraó
Venham já sobre mim só,
Pois minha luz se perdeu
Na luz de mui claro dia;
Claridade, sem clareza,
Minha doce companhia,{[80]}
Onde está vossa alegria,
Que me deixa tal tristeza?
Oh velhice desastrada,
Sem gloria e sem prazer,
Para que me deixaes ser,
Pois que sendo, não sou nada,
Nem desejo de viver?
Porque não vens, padecer,
Porque não vindes, tormentos?
Para que são soffrimentos,
A quem os não quer já ter,
Nem busca contentamentos?
Para que quero rasão
Para que quero prudencia,
Nem saber, nem discrição?
Para que é paciencia,
Pois perdi consolação?

Pagem:

Oh meu senhor muito amado,
Porque vos tornastes pó!
Porque me deixastes só
Em este mundo coitado
Com tanta tristeza e dó?
Leváreis-me em companhia,
Pois sempre vos tive, vivo.
Oh minha grande alegria,
Porque me deixaes captivo,
Mettido em tanta agonia?
Meu senhor, minha alegria
Dizei, porque nos deixaes
Com tanta pena notoria!
Lembrae-vos, tende memoria,
De quantos desamparaes.
Oh sem ventura Burlor!
De quem serás amparado,
De quem terás o favor{[81]}
Que tinhas do teu senhor,
Pois que já te ha faltado?

Ermitão:

Não tomeis, filho, pezar
Pois claramente sabeis,
Que pelo muito chorar
Não cobraes o que perdeis.
Deveis, filho, de cuidar,
Que nossa vida é um vento
Tão ligeiro de passar,
Que passa em um momento
Por nós, assim como o ár.
Quem viu o senhor Infante,
Tão pouco ha, fazer guerra,
E ser n'ella tão possante,
E agora em um instante,
Ser tornado escura terra,
Diria com gram rasão
Que este mundo coitado
Não dá outro galardão,
Senão tristeza e paixão,
Como a vós outros foi dado.
Olhae, el-rei Salomão
O galardão que lhe deu:
A Amão, e Absalão,
E ao valente Sansão,
E ao forte Macabeu.
Em a Sacra Escriptura
Muitos mais podia achar,
Se os quizesse contar;
Mas vossa grande cordura
Suprirá donde faltar,
E pois que não tem já cura
O mal feito e o passado,
Cesse a vossa tristura,
E demos á sepultura{[82]}
Este corpo já finado.
Levemol-o onde convém
Para que seja enterrado;
E pode bem ser guardado
N'aquella ermida que vêem,
Até ser embalsamado.

(Aqui levam a Valdevinos á Ermida, e entra o Imperador e conde Ganalão)

Imperador:

Certo, Conde Ganalão,
Muito gram perda perdemos,
Pêza-me no coração,
Porque na côrte não temos
Reinaldos de Montalvão,
Nem o Conde Dom Roldão,
Nem o Marquez Oliveiros,
Nem o Duque de Milão,
Mem o Infante Gaifeiros,
Nem o forte Meredião.

Ganalão:

Muito alto Imperador,
Muito estou maravilhado
Porque mostraes tal favor
A quem vos ha deshonrado
Com tanta ira e rigor,
Que, chamando-se Almansor,
Com o seu rosto mudado
Aquelle falso traidor
Com mui grande deshonor,
Quiz deshonrar vosso estado:
Porque, senhor, não sentís,
Que este malvado ladrão
Vos prendeu de sua mão
Tomando-vos a París
Com muito grande traição?
Pondo-vos em Montalvão{[83]}
Apesar de vosso imperio,
Onde com gram vituperio
Estivestes em prisão,
Sem ter nenhum refregerio?

Imperador:

Verdade é isso, cunhado,
Porém deveis de saber
Que em Reinaldos me prender
Eu mesmo sou o culpado:
Isto bem o podeis crêr.
Se então me quiz offender
Não é muita maravilha,
Pois já me quiz guarnecer
Matando el-rei Carmeser,
Que me trouxe a sua filha.

Ganalão:

Vossa real magestade
Dirá tudo o que quizer,
Mas eu espero a Beltrão...
Que se conheça a maldade,
De quem se hade conhecer.

(Aqui se vae Ganalão: e vem dois Embaixadores mandados pelo Marquez de Mantua, chamados Dom Beltrão e Duque Amão: e virão vestidos de dó)

Beltrão:

Gram Cezar Octaviano,
Magno, augusto, forte rei,
Grande imperador romano
Amparo da nossa lei,
Poderosa magestade,
Senhor de toda a Magança,
Da Gascunha e da França,
Gram patrão da christande,
Esteio da segurança!
Pois sois senhor dos senhores,
Imperador dos christãos;{[84]}
Somos vossos servidores,
Amigos leaes e sãos.

Imperador:

Eu me espanto, Dom Beltrão,
De vos vêr d'aquella sorte,
E a vós forte Duque Amão,
Não é esta disposição
E trajo da nossa Côrte.

Duque:

Muito mais será espantado
De nossa triste embaixada,
E do caso desastrado,
O qual lhe será contado,
Se seguro nos é dado.

Imperador:

Bem o podeis explicar
Sem ter medo, nem temor.
Para que he assegurar?
Pois sabeis que o embaixador
Tem licença de falar.

Duque:

Quiz senhor, nossa mofina
Que o infante Valdevinos,
Primo do forte Guarinos,
Filho da linda Hermelinda
E do grande rei Salinos,
Fosse morto á traição
Na floresta sem ventura.
A tão grande desventura
Haverá quem não procure
De vingar tal perdição?

Imperador:

É certa tam gram maldade,
Que o sobrinho do Marquez
É morto, como dizeis?{[85]}

Duque:

Pela maior falsidade,
Que nunca ninguem tal fez.

Imperador:

Este caso é desastrado:
Saibamos como passou,
E quem tão mau feito obrou;
Que, o que tal senhor matou,
Merece bem castigado.

Duque:

Saiba vossa magestade
Que dez dias pôde haver
Que o Marquez foi á cidade
De Mantua com gram vontade
Á caça, que sóe fazer.
Andando assim a caçar,
Da companhia perdido
Foi por ventura topar
Com seu sobrinho ferido,
Quasi a ponto de expirar.
Bem póde considerar
O gram pezar que teria
De se vêr sem companhia,
E morrer em tal logar
A coisa que mais queria.
Perguntando a rasão,
Sendo d'ella mui ignoto,
Disse com grande paixão,
Que o matára a traição
Vosso filho Dom Carloto.
A causa que o moveu
Dar morte tão dolorosa
A tão grande amigo seu,
Não foi outra, senhor meu,
Salvo tomar-lhe a esposa.
Matou-o á falsa fé,
Indo muito bem armado.{[86]}
Com quatro homens de pé.
Quem mata tão sem porque
Merece bem castigado.
O marquez Danes Ogeiro
Lhe manda pedir, senhor,
Justiça mui por inteiro:
Que ainda que perca herdeiro,
Elle perde successor.

Dom Beltrão:

Não deve deixar passar
Tão gram mal sem o prover,
Porque deve de cuidar,
Se seu filho nos matar,
Quem nos deve defender?
E mais lhe faço saber,
Porque esteja aparelhado,
Se justiça não fizer,
Que o Marquez tem jurado
De por armas a fazer.
O mui valente e temido
Reinaldos de Montalvão
Entre todos escolhido,
Está bem apercebido
Como geral capitão.
Dom Chrisão e Aguilante
Com o forte Dom Guarinos,
E o valente Montesinos
Primo do morto Infante,
Primo de el-rei Dom Salinos,
E o mui grande Rei Jaião,
De Dom Reinaldos cunhado,
E o esforçado Dudão,
E o gram Duque de Milão,
E Dom Richarte esforçado,
O Marquez Dom Oliveiros,
E o famoso Durandarte,{[87]}
E o infante Dom Gaifeiros,
E o mui forte Ricardo,
E outros fortes cavalleiros,
Todos tem boa vontade
De ajudar ao Marquez
Em essa necessidade;
Porque foi gram crueldade
A que vosso filho fez.
Evitae, senhor, tal damno?
Pois que sois juiz sem par,
Não vos mostreis inhumano,
Acordae-vos de Trajano,
Em a justiça guardar.
Assim que, alto, esclarecido,
Poderoso sem egual,
O que fez tão grande mal,
Bem merece ser punido
Por seu mandado imperial.
E pois, senhor, é proposta
A causa, porque viemos,
E sabeis o que queremos,
Mandae-nos dar a resposta,
Com que ao Marquez tornemos.

Imperador:

Oh poderoso senhor,
Que grande é o vosso mysterio:
Pois para meu vituperio
Me deste tal successor,
Que deshonrasse este Imperio?
Se o que dizeis é verdade,
Como creio que será,
Nunca rei na christandade,
Fez tão grande crueldade,
Como por mim se verá.
Por minha corôa juro
De cumprir e de mandar{[88]}
Tudo que digo e procuro.
Ao Marquez podeis dizer,
Que elle póde vir seguro,
E todos quantos tiver,
Venham de guerra ou de paz,
Assim como elle quizer.
E pois que justiça quer,
Com ella muito me praz.

(Entra Dom Carloto)

D. Carloto:

Bem sei, que com gram paixão
Está vossa magestade
Pela falsa informação
Que de mim, contra rasão,
Deram com gram falsidade.
Porque um filho de tal home,
E tão grande geração,
Não deve sujar seu nome
Em caso tal de traição.
Por vida de minha madre,
Que se tão grande deshonror
Não castigar com rigor
Que me será cruel padre,
Não direito julgador.

Imperador:

Não vos queiraes desculpar;
Pois que tendes tanta culpa,
Que se o mundo vos desculpa,
Eu não heide desculpar.
E por tanto mando logo,
Que estejaes posto a recado,
Até ser determinado
Por conselho de meu povo
Se sois livre ou condemnado.
Mando que sejaes levado{[89]}
Á minha gram fortaleza,
E que lá sejaes guardado
De cem homens do estado
Até saber a certeza.

D. Carloto:

E como, senhor, não quer
Vossa real magestade
Saber primeiro a verdade,
Senão mandar-me prender
Por tão grande falsidade?

Imperador:

Não vos quero mais ouvir,
Levem-no logo á prisão,
Onde eu o mando ir;
Porque tam grande traição
Não é para consentir.
Vós outros podeis tornar,
E contar-lhe o passado
A quem vos cá quiz mandar;
Que o seguro que lhe hei dado
Eu o torno a affirmar.

(Aqui vem a Imperatriz)

Imperatriz:

Eu muito me maravilho
De vossa grande bondade;
Que sem rasão, nem verdade
Trataes assim vosso filho
Com tão grande crueldade.
Olhe vossa magestade
Que é herdeiro principal,
E que toda a christandade
Lh'o hade ter muito a mal.

Imperador:

A mim, senhora, convém
Ser contra toda a traição,{[90]}
E se vosso filho a tem,
Castigal-o-hei muito bem;
E essa é a minha tenção.
E mais eu vos certifico,
Que com direito e rigor
Heide castigar o iniquo,
Ora seja pobre, ou rico,
Ora servo, ou gram senhor.

Imperatriz:

Como quer vossa grandeza
Infamar o nosso estado
Sem causa, com tal crueza?

Imperador:

Quem me cá mandou recado
Não foi senão com certeza.

Imperatriz:

Por tal recado, senhor,
Quereis tratar de tal sorte
Vosso filho e successor,
Que depois de vossa morte
Hade ser imperador?

Imperador:

Em eu o mandar prender
Não cuideis que o maltrato;
Mas se elle o merecer,
Eu espero de fazer
A justiça de Torquato;
Porque pae tão poderoso,
Sendo de tantos caudilho
Se não fôr tão rigoroso,
Nem elle será bom filho,
Nem será rei justiçoso.
Que agora, mal peccado!
Nenhum rei, nem julgador
Faz justiça do maior;
Mas antes é desprezado{[91]}
O pequeno com rigor.
Todo o mundo é affeição;
Julgam com rara remissa
O nobre que, sem rasão
Alguma, tem opinião
De lhe tocar a justiça...
Que conta posso eu dar
Ao Senhor dos altos céos,
Se a meu filho não julgar
Como outro qualquer dos meus?
Assim que escusado é
Buscar este intercessor;
Porque Deos de Nazareth
Não me fez tão gram senhor
Para minha alma perder.

Imperatriz:

Ai triste de mim coitada!
Para que quero viver,
Pois que sempre heide ser
Do meu filho tão penada,
Como uma triste mulher?
Pois tão triste heide ser
Por meu filho muito amado,
Nunca tomarei prazer,
Senão tristeza e cuidado.

Imperador:

Não façaes tantos extremos,
Pois dizeis que tem desculpa,
Que antes que sentença démos,
Primeiro todos veremos
Se tem culpa ou não tem culpa.
Mostrae maior soffrimento,
Que o caso é desastrado,
E i-vos a vosso aposento,
Que elle não será culpado.{[92]}

(Aqui se vae a Imperatriz, e vem a mãe, e esposa de Valdevinos)

Mãe:

Oh coração lastimado,
Mais triste que a noite escura!
Oh dolorosa tristura,
Cuidado desesperado,
E fortunosa ventura!
Oh vida da minha vida,
Alma d'este corpo meu!
Oh desditosa perdida,
Oh sem ventura nascida,
A mais que nunca nasceu!
Oh filho meu muito amado,
Minha doce companhia,
Meu prazer, minha alegria,
Minha tristeza e cuidado,
Minha sab'rosa lembrança,
Que serei eu sem vos vêr?
Filho de minha alegria,
Oh meu descanço e prazer,
Porque me deixaes viver,
Vida com tanta agonia?
Adonde vos acharei,
Consôlo de meu pezar?
Onde vos irei buscar,
Pois que perdido vos hei
Para jámais vos cobrar!
Filho d'esta alma mesquinha,
Dos meus olhos claridade,
Onde estás, minha mesinha?
Filho de minha saudade,
Meu prazer e vida minha?

Esposa:

Que é de vós meu coração,
Que é da minha liberdade,
Espelho da christandade,{[93]}
Quem vos matou sem razão
Com tão grande crueldade?
Quem vos apartou de mim,
Meu querido e meu esposo?
Oh meu prazer saudoso,
Porque me deixaes assim
Com cuidado mui penoso?
Oh minha triste saudade,
Oh meu esposo e senhor,
Minha alegria e vontade,
Escudo da christandade,
Dos tristes consolador!
Que farei pobre coitada,
Mais que nenhuma nascida?
Miseravel, angustiada,
Para que quero ter vida,
Pois minha alma é apartada?
Oh fortuna variavel,
Triste, cruel, matadora,
De prazeres roubadora,
Inimiga perduravel,
Mata-me se queres agora.

Hermelinda:

Se vossa gram magestade
Não dér castigo direito
A quem tanto mal ha feito,
Nem sustentar a verdade,
Não será juiz perfeito.
Não olhe vossa grandeza
Sua madre dolorosa,
Nem sua tanta tristeza;
Mas olhe tão gram princeza
Como esta sua esposa.

Imperador:

Faz-me tanto entristecer
Este tão gram vituperio,{[94]}
Que mais quizera perder
Juntamente meu Imperio,
Que tal meu filho fazer.
Mas se tal verdade é
Como já sou informado,
Que tal castigo lhe dê,
Que seja bem castigado.

Sybila:

Seja justiça guardada
A esta orpha sem marido,
Viuva desamparada,
Tão triste e desconsolada
Mais que quantas têm nascido.
Olhae, senhor, tão gram mal,
Como vosso filho ha feito,
E não queiraes ter respeito
Ao amor paternal,
Pois que não é por direito.

Imperador:

Senhora, não duvideis
Que eu farei o que hei jurado,
Se é verdade o que dizeis,
Porque cumpre meu estado
De fazer o que quereis:
Que mais quero ter commigo
Fama de rigoridade,
Que deixar de ter castigo
Quem commetteu tal maldade.
Para que é ser caudilho
De tanto povo e tão grado,
E Imperador chamado,
Se não julgasse meu filho
Como qualquer estragado?
Não cuidem duques, nem reis,
Que por meu herdeiro ser,
Que por isso hade viver;{[95]}
Que aquelle, que fez as Leis,
É obrigado a as manter.
Assim que, por bem querer,
Amizade nem respeito
Como agora sóem fazer,
Não hei de negar direito,
A quem direito tiver.
E bem vos podeis tornar,
Fazei certo o que dissestes,
E não tomeis tal pesar,
Porque o bem que perdestes,
Não o cobraes com chorar.

Hermelinda:

Senhor, nós outras nos pomos
Em mãos de vossa grandeza:
Olhae bem, senhor, quem somos,
E de que linhagem fomos,
Pois Deos nos deu tal nobreza.

Sybila:

Olhae os serviços dinos,
Que tanto tempo vos fez
Meu esposo Valdevinos;
Tambem seu tio Marquez,
E como foram continos.

(Aqui se vae Hermelinda e Sybila, e virá Reinaldos com uma carta, que tomaram a um Pagem de Dom Carloto)

Reinaldos:

O summo rei dos senhores,
Que morreu crucificado
Em poder dos pharizeus,
Accrescente vosso estado,
E vos livre dos traidores.

Imperador:

Mui valente e esforçado,
Reinaldos de Montalvão,{[96]}
Vós sejaes tambem chegado,
Como a sombra no verão.
Muito estou maravilhado,
Invencivel e mui forte,
De ver-vos assim armado,
Sabendo que em minha côrte,
Nunca fostes mal tratado.

Reinaldos:

Senhor, não seja espantado
De vêr-me assim d'esta sorte,
Porque com todo o cuidado,
Ganalão vosso cunhado
Sempre me procura a morte.
Bem sabeis que sem rasão
Com vontade mui malina,
Fez matar com gram traição,
A Tiranes, e Erocina,
E ao feito Salião,
E a mim já quiz matar
Muitas vezes com maldade;
E para mais me danar,
Fez á sua magestade,
Mil vezes me desterrar.
O grande mal que me quer
De todo o mundo é sabido,
E por isso quiz trazer
Armas para offender,
Antes que ser offendido.
Mas deixando isto assim
Guardado p'ra seu logar
Onde se hade vingar,
Vos quero, senhor, contar:
Notorio a todo o christão
É o pesar lastimeiro
Do Marquez Danes Ogeiro,
Que tem com justa rasão{[97]}
Pela morte do herdeiro.
N'esta nobre côrte estão
Muitos mui nobres senhores,
Que sabem que Dom Beltrão
E o nobre Duque Amão
Foram seus embaixadores:
Tambem este é sabedor
Das respostas que lhe déstes,
E mais de como prendestes
Vosso filho successor.
Do qual está mui contente
De tel-o posto em prisão,
E tem mui grande rasão,
Porque na carta presente
Á qual fez da sua mão,
Confessa toda a traição,
E um pagem a levava
Para o Conde Dom Roldão,
Que na cidade de Boava
Faz a sua habitação.
E como não ha falsia,
Que se possa esconder,
Tinha o Marquez espia,
Porque queria saber
O que Dom Roldão faria.
Esse pagem embuçado,
Sem suspeita, sem revez
Ia mui determinado,
Onde logo foi tomado,
E levado ao Marquez.
Lendo a carta Dom Guarinos,
N'ella contava a tenção,
Porque o matára á traição.
Isto é, senhor, a verdade,
O que vos manda dizer:
Se o que digo é falsidade,{[98]}
(Que por isso a quiz trazer,)
A letra é bom conhecer,
Que é este o seu sinal.
Pois, quem fez tão grande mal,
Bem merece padecer
Morte justa corporal.

Imperador:

Se tal a carta disser,
Não se ha mister mais provar,
Nem mais certeza fazer,
Senão logo executar
A pena que merecer.
E por tanto sem deter,
Lea-se publicamente
Ante esta nobre gente;
Porque todos possam ver
Vossa verdade evidente.

Carta de Dom Carloto a Dom Roldão.

«Caudilho de gram poder,
Capitão da christandade,
Esta vos quiz escrever,
Para vos fazer saber
Minha gram necessidade.
Porque o verdadeiro amigo,
Hade ser no coração,
Assim como fiel irmão
E não hade temer p'rigo,
Por salvar quem tem rasão.
Porque sabereis, senhor,
Que me sinto mui culpado,
Como quem foi matador;
E temo ser condemnado
De meu padre Imperador.
Eu confesso que pequei,{[99]}
Pois com vontade damnosa
A Valdevinos matei.
Amor me fez com que errei,
E o primor de sua esposa.
O Imperador, meu padre
Me mandou prezo guardar,
E nunca quiz attentar
Os rogos da minha madre.
A ninguem quer escutar,
E o Marquez tem jurado
De não vestir, nem calçar,
Nem entrar em povoado,
Até me vêr justiçar.
Tendo por accusadores,
Reinaldos de Montalvão,
E seu padre o Duque Amão,
E muitos grandes senhores:
O Gram Duque de Milão
Com o forte Montesinos,
Que é primo de Valdevinos.
Assim que todos me são
Accusadores continos.
Pois tantos contra mim são,
Eu vos rogo como amigo,
Que vós queiraes ser commigo;
Porque tendo Dom Roldão,
Não temo nenhum perigo.»

Imperador:

Antes que algum mal cresça,
Façamos o que devemos:
Pois o sinal conhecemos,
E pois vemos que confessa,
De mais prova não curemos,
Nem vós façaes mais detença:
E pois já tendes licença,{[100]}
Podeis dizer ao Marquez
Que venha ouvir a sentença.

(Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a Imperatriz vestida de dó)

Imperador:

Senhora, já não dirão
Que fui eu mal informado,
Nem que o prendo sem rasão,
Pois por sua confissão,
Vosso filho é condemnado.
Vêdes a carta presente,
Que foi feita da sua mão,
Para o Conde Dom Roldão;
A qual muito largamente,
Declara toda a traição.

Imperatriz:

Eu muito me maravilho
Do que, senhor, me ha contado;
Pois que elle ha confessado,
Melhor é morrer o filho
Que deshonrar o estado.
Mas a dôr do coração
Sempre me hade ficar...
Peço-lhe com affeição,
Que lhe busque salvação,
E que o queira escutar.

Imperador:

Melhor é que o successor
Padeça morte sentida,
Que ficar o pae traidor,
Que será trocar honor
Pela deshonra nascida.
Tambem eu padeço dôr,
Tambem eu sinto paixão,
Tambem eu lhe tenho amor,{[101]}
Mas antes quero rasão,
Que amisade sem favor.

Imperatriz:

Pois que não póde escapar,
Eu não consinto, nem quero,
Que vós o hajaes de julgar,
Porque vos podem chamar
Muito mais peior que Nero.

Imperador:

Não vivaes em tal engano,
Que tambem foram caudilhos
O gram Torcato, o Trajano,
E quizeram com gram dano
Ambos justiçar seus filhos.
Pois que menos farei eu
Tendo tão grande estado?
Quem é com rasão culpado
Em maior caso que o seu?
E por tanto eu vos rogo
Que não tomeis tal pesar,
Porque com vos enojar
Dá-se gram tristeza ao povo.

Imperatriz:

Eu cumprirei seu mandado,
Porque vejo que é rasão;
Mas sempre meu coração
Terá tristeza e cuidado
E grande tribulação.

(Aqui se vae a Imperatriz, e vem o Marquez de Mantua vestido de dó)

Marquez:

Bem parece, alto senhor,
Que vos fez Deos sem segundo,
E de todos superior,
Dos maiores o melhor,
Rei e monarcha do mundo.{[102]}
Porque vós, senhor, sois tal,
Que com rasão e verdade
Sustentaes a christandade
Em justiça universal,
A qual para salvação
Vos é muito necessaria,
Porque convem ao christão
Que use mais de rasão,
Que da affeição voluntaria:
Como faz vossa grandeza
Com seu filho successor
Assim que digo, senhor,
Que estima mais a nobreza
Que amisade, nem favor.

Imperador:

Não curemos de falar
Em cousa tão conhecida;
Porque n'esta breve vida
Havemos de procurar
Pela eterna e comprida.
Para sentir gram pesar,
Vós tendes rasão infinda,
E tambem de vos vingar,
Pois foi justa vossa vinda.
Bem vimos vossa embaixada,
E a causa d'ella proposta
Foi de nós mui bem olhada,
E não menos foi mandada
Mui convencivel reposta:
E vimos vossa tenção,
E soubemos vosso voto,
E vemos tendes rasão,
Pela grande informação
Do principe Dom Carloto.
E vimos a confissão
De Dom Carloto tambem,{[103]}
E soubemos a traição
Como na carta contém,
Que mandava a Dom Roldão.
De tudo certificado,
Eu condemno a Dom Carloto
Tudo o que hei mandado.

(Vem um Pagem da Imperatriz)

Pagem:

A Imperatriz, senhor,
Está tão amortecida
De grande paixão e dôr,
Que não tem pulso nem côr,
Nem nenhum sinal de vida.
Nenhum remedio lhe vemos;
Está n'esse padecer,
Sem lhe podermos valer:
E segundo n'ella cremos
Mui pouco hade viver.

Imperador:

Eu muito me maravilho
De sua gram discrição;
Mais sinto sua paixão,
Que a morte de meu filho...
Não te quero mais dizer,
Quero-a ir consolar,
Pois tanto lhe faz mister.
Não sei porque é enojar,
Por se justiça fazer.

(Aqui se vae o Imperador, e virá Reinaldos com o Algoz, o qual traz a cabeça de Dom Carloto)

Reinaldos:

Já agora, senhor Marquez,
Vos podeis chamar vingado,
Porque assás é castigado{[104]}
O que tanto mal vos fez,
Pois que morreu degolado.
Fazei por vos alegrar,
Dae graças ao redemptor,
Pois assim vos quiz vingar,
Sem nenhum de nós p'rigar,
E com mais vosso valor.

Folha volante de 1665.