Romance pastoril.

Deixou de ir Leonor á fonte,
Por ver damas estrangeiras,
Não para vir invejosa,
Mas para matar de inveja.
Mais que a vêr foi a ser vista,
Que como novas estrellas,
Não ha olhos que os seus levem,
Alma que a sua não seja.
De vinte e quatro alfinetes,
Como dizem, foi a festa,
Que muito que pique a muitos
Quem tanto alfinete leva?
Saia de palmilha azul,
Que tudo são palmas n'ella,
Que é bem que vista do céo
O mór milagre da terra.
Gibão de cannequim fino
Que desconfiado confessa:
Aqui jaz em neve um fogo
Que o meu branco em branco deixa.
Beatilha, melhor que ouro
Encobre um par de madeixas,
Alcaide de liberdades
Que só soltando condemna.{[61]}
Fita verde que entre raios
Com perigos lisongeia,
Inda que negue esperança
Quando só mortes promette.
O desprezo dos cathurnos
De umas sapatas vermelhas,
Purpura de unido aljofar,
Nacar de animadas perolas,
Tantas perfeições airosas
Em naturaes extranhezas,
Tanto computo artificio
No descuido de ser bella;
Aquelles olhos rasgados,
Em que amor faz por mór guerra,
Cada sobrancelha um arco,
Cada pestana uma setta.
Aquelle engraçado riso,
Que por crystaes de Veneza,
Com gloria brinda as vontades,
Sêde mortal que deleita.
Em casa de um mercador
Na rua nova á janella,
Sem si Leonor estava
Formosa ouvindo estas queixas:

Quebrou Leonor
O pote na fonte,
E deitou-lhe os testinhos tão longe?

Sem seu bem mais suspirado
D'onde estava d'este modo
A si o descuido todo,
E a seu mal todo o cuidado.
O peito tinha abrazado
Tendo nos olhos a fonte,{[62]}

E deitou-lhe os testinhos
Mana, tão longe.

Diria quem a assim visse
Que eram pedras que atirava,
Porque tanto quanto amava
Tanto tinha de doudice.
E para que mais sentisse
Seu sentido está na fonte,

E deitou-lhe os testinhos,
Mana, tão longe.