Romance que vem na Ecloga 5.ª ao qual se chamou Cuidado e Desejo.
Ao longo de uma ribeira,
Que vae polo pé da serra,
Onde me a mi fez a guerra
Muito tempo o grande amor,
Me levou a minha dôr;
Já era tarde do dia,{[28]}
E a agua d'ella corria
Por antre um alto arvoredo,
Onde ás vezes ia quedo
O rio, e ás vezes não.Entrada era do verão,
Quando começam as aves,
Com seus cantares suaves
Fazer tudo gracioso;
Ao rugido saudoso
Das aguas cantavam ellas;
Todalas minhas queréllas
Se me pozeram diante;
Ali morrer quizera ante,
Que ver por onde passei;
Mas eu que digo? passei!
Antes inda heide passar
Em quanto hi houver pezar,
Que sempre o hi hade haver.As aguas, que do correr
Não cessavam um momento,
Me trouxeram ao pensamento,
Que assim eram minhas magoas,
D'onde sempre correm aguas
Por estes olhos mesquinhos,
Que têm abertos caminhos,
Pelo meio do meu rosto.
E já não tenho outro gosto
Na grande desdita minha.
O que eu cuidava que tinha
Foi-se-me assim não sei como,
D'onde eu certa crença tomo,
Que pera me leixar veiu.{[29]}
Mas tendo-me assim alheio,
De mim o que ali cuidava,
Da banda d'onde a agoa estava,
Vi um homem todo caã
Que lhe dava pelo cham,
A barba e o cabello.
Ficando eu pasmado d'ello,
Olhando elle para mim,
Falou-me, e disse-me assim:
«Tambem vae esta agoa ao Tejo.»N'isto olhei, vi meu Desejo
Estar detraz triste e só,
Todo cuberto de dó,
Chorando, sem dizer nada,
A cara em sangue lavada,
Na bocca pósta uma mão,
Como que a grande paixão
Sua fala lhe tolhia.
E o velho que tudo via,
Vendo-me tambem chorar,
Começou assi a falar:
«Eu mesmo sou teu Cuidado,
Que n'outra terra criado,
N'esta primeiro nasci.
E ess'outro que está aqui
É o teu Desejo triste,
Que má hora o tu viste,
Pois nunca te esquecerá!
A terra e mar passará
Traspassando a magoa a ti.»Quando lhe eu aquisto ouvi,
Soltei suspiros ao choro;
Ali claramente o fôro
Meus olhos tristes pagaram{[30]}
De um bem só qu'elles olharam,
Que outro nunca mais tiveram,
Nem o tive; nem m'o deram:
Nem o esperei sómente.
De só ver fui tão contente,
Que pera mais esperar
Nunca me deram lugar.
E n'aquisto, triste estando,
Com os olhos tristes olhando
D'aquellas bandas d'álem,
Olhei, e não vi ninguem.
Dei então a caminhar
Rio abaixo, até chegar
Acerca de Monte-Mór.
Com meus males derredor,
Da banda do meio dia,
Ali minha Phantasia,
D'antre uns medrosos penedos,
Onde aves que fazem medos
De noite os dias vão ter,
Me saíu a receber
Com uma mulher polo braço,
Que, ao parecer, de cansaço
Não podia ter-se em si,
Dizendo:—Vês, triste, aqui
A triste Lembrança tua.—
Minha vista então na sua
Puz; d'ella todo me enchi:
A primeira cousa que vi,
E a derradeira tambem,
Que no mundo vão e vem!
Seus olhos verdes rasgados,
De lagrimas carregados,
Logo em vendo-os, pareciam
Que de lagrimas enchiam
Contino as suas faces,{[31]}
Que eram, gram tempo, paces
Antre mim e meus cuidados.
Louros cabellos ondados
Que um negro manto cobria:
Na tristeza parecia
Que lhe convinha morrer.
Os seus olhos de me ver,
Como furtados, tirou,
Depois em cheio me olhou.
Seus alvos peitos rasgando,
Em voz alta se aqueixando,
Disse assim mui só sentida:
—Pois que mór dôr, ha na vida,
Pera que houve ahi morrer?—
Calou-se sem mais dizer,
E de mi gemidos dando,
Fui-me pera ella chorando
Pera a haver de consolar...N'isto pôz-se o sol ao mar,
E fez-se noite escura,
E disse mal á ventura,
E á vida, que não morri...
E muito longe d'ali,
Ouvi de um alto outeiro
Chamar: Bernardim Ribeiro
E dizer:—Olha onde estás.—
Olhei de ante, e de trás
E vi tudo escuridão,
Cerrei meus olhos então,
E nunca mais os abri,
Que depois que os perdi
Nunca vi tão grande bem,
Porém inda mal, porém!
Obras. p. 351 ed. de 1852.{[32]}