A CIGARRA E A FORMIGA

Como a cigarra o seu gosto

É levar a temporada

De junho, julho e agosto

N'uma cantiga pegada,

De inverno tambem se cóme,

E então rapa frio e fome...

Um inverno a infeliz

Chega-se á formiga, e diz:

—Venho pedir-lhe o favor

De me emprestar mantimento,

Matar-me a necessidade!

E, em chegando a novidade,

Faço até um juramento,

Pago-lhe, seja o que fôr!

«Mas, (pergunta-lhe a formiga,)

O que fez durante o estio?

—Eu, cantar ao desafio.

«Ah! cantar? Pois minha amiga,

Quem leva o estio a cantar

Leva o inverno a dançar.

João de Deus, Folhas soltas p. 66.