ADORAÇÃO
Vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par!
Contemplei-o de longe, mudo e quedo,
Como quem volta d'aspero degredo
E vê, ao ár subindo,
O fumo do seu lar!
Vi esse olhar tocante,
D'um fluido sem igual!
Suave, como lampada sagrada,
Bemvindo, como a luz da madrugada,
Que rompe ao navegante
Depois do temporal.
Vi esse corpo d'ave
Que parece que vae
Levado, como o sol ou como a lua,
Sem encontrar belleza egual á sua,
Magestoso e suave,
Que surprehende e attrae!
Attrae, e não me atrevo
A contemplal-o bem;
Porque espalha o teu rosto uma luz santa,
Uma luz que me prende e que me encanta,
N'aquelle santo enlevo
D'um filho em sua mãe!
Temo, apenas presinto
A tua apparição!
E se me aproximasse mais, bastava
Pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor, que eu sinto,
É uma adoração!
Que azas previdentes
Do anjo tutelar
Te abriguem sempre á sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar!
João de Deus, Folhas soltas, p. 31. Porto, 1876.