ANHELOS

Que immenso vacuo n'este peito sinto!

Que arfar eterno de revolto mar!

Que fogo ardente, que já mais extincto

Sómente afrouxa para mais queimar?

Ai! esta sêde que meu peito rala,

Talvez a apague mundanal prazer:

Ali ao menos poderei fartal-a,

Ou n'um lethargo sem paixões viver.

Mas d'essa taça já pensei... não quero!

Quero deleites que inda não sentí...

A lucta, os riscos d'um combate féro!

Talvez encantos acharei alli.

A lucta, os riscos, em acção travadas

Guerreiras hostes disputando o chão;

O sangue em jorros, o tinir d'espadas,

O fumo e o fogo de voraz canhão!

Ali os gosos de um feroz delirio

Á luz das armas sentirei em mim,

Ou n'uma d'ellas o funéreo cirio

Que á paz dos mortos me conduza emfim.

Mas não, não quero sobre a terra escrava

A vós tyrannos immolar o irmão...

O mar, o mar, que em sua furia brava

Ninguem domina com servil grilhão!

O mar, o mar! sobre escarcéus revoltos

Em fragil lenho fluctuar me apraz

Ao som das vagas e dos ventos soltos,

E das centelhas ao clarão fugaz.

Alli sorrindo da feroz tormenta,

E dos abysmos que me abrir aos pés,

Dentro d'esta alma de prazer sedenta

Sublime goso sentirei talvez.

Mas o mar livre tem um leito ainda

Que os meus anélos poderá suster...

O espaço! o espaço! na amplidão infinda

Talvez que possa o coração encher.

O espaço, o espaço! qual ligeiro vento

Irei lançar-me n'esse mar sem fim,

E a longos tragos aspirar o alento,

Sentir a vida que desejo em mim...

Ora aguia altiva, desprezando o sólo,

O rei dos astros buscarei então,

Ora entre as neves do gelado pólo

Voarei nas azas do veloz tufão.

Mas solitario, sem cessar errante,

De que valêra na amplidão correr?...

A gloria, a gloria, que em painel brilhante

Me offerece a imagem d'um maior prazer!

A gloria, a gloria, mil trophéus ganhados,

Mil verdes palmas e laureis tambem;

Triumphos, c'rôas e sonoros brados

Da turba: É elle!—repetindo alem...

Então em sonhos d'uma vida infinda

Verei a chamma d'immortal pharol,

Que em meu sepulchro resplandeça ainda,

Bem como a lua quando é morto o sol.

Mas não, que a inveja com a voz mentida,

A luz em sombras poderá tornar...

O amor, o amor, que redobrando a vida,

A vida n'outrem me fará gosar!

O amor, o amor, celestial perfume

Que a mão dos anjos sobre nós verteu,

Doce mysterio que n'um só resume

Dous pensamentos aspirando ao céo!

O amor, o amor, não mentiroso incenso

Que em frios labios só no mundo achei,

Mas immutavel, mas sublime e immenso

Qual em meus sonhos juvenís sonhei...

O amor! só elle poderá n'esta alma

Risonhas crenças outra vez gerar,

De minha sêde mitigar a calma,

E inda fazer-me reviver e amar.

A. A. Soares de Passos, Poesias, pag. 43.