CANTIGA
Aqui n'este arvoredo,
Das sombras no segredo,
Oh, vem!
Por estes arredores
O bosque outros melhores
Não tem.
O ruivo sol da tarde
Já nas montanhas arde,
D'além!
A lua alvinitente,
Nas portas do oriente
Lá vem.
A viração fagueira
A rapida carreira
Detem,
E dorme preguiçosa
No calix da mimosa
Cecem.
Ninguem na sombra escura
Verá nossa ventura,
Ninguem!
Sómente os passarinhos
Occultos nos seus ninhos
Nos vêm.
Do bosque entre os verdores
Se occupam só de amores,
Tambem!
E a lua, que desponta,
Jámais segredos conta
De alguem.
Debaixo do arvoredo,
Na gramma do vargedo
Oh, vem,
Á sombra d'este abrigo
Fallar a sós commigo,
Meu bem.
Bernardo Guimarães, Novas Poesias p. 143. Rio de Janeiro, 1876.