I
A par das grandes descobertas scientificas do nosso seculo, que pela via inductiva conduziram á demonstração integral dos phenomenos cosmicos pelo movimento etherodynamico; e bem assim da vasta synthese de todos estes factos verificaveis, que pela via deductiva levaram a estabelecer a Philosophia positiva, a par d'estas profundas transformações da consciencia moderna, a Poesia ainda tem um destino ligado ás necessidades sociaes. Nem todas as sugestões que provocam a aspiração individual podem ser satisfeitas pela demonstração scientifica, nem todos os problemas que emergem da actividade cerebral podem ser resolvidos pela deducção philosophica. E comtudo o espirito humano propõe-se sempre as mesmas questões, mas já hoje se não satisfaz com as soluções theologicas, nem com as hypotheses metaphysicas. Os velhos mythos theologicos são hoje estudados comparativamente, e a sciencia deriva d'elles as vastas concepções poeticas dos cantos hymnicos, da degeneração epica, dos contos populares, e do rito cultural que levou ao drama hierático; por seu lado a Metaphysica ao tornar-se incompativel com o progresso das sciencias, dissolve-se em uma exhuberante poesia, como as concepções de Schelhing, de Hegel ou de Schopenauer, que inconscientemente se encontram em intimas analogias com as phantasmagorias das escholas brahmânicas e buddhicas. Em vez de ter pertenções a systema de synthese deductiva, a aspiração metaphysica só deixará de ser uma manifestação doente tornando-se francamente Poesia. Só assim realisará um grande destino, o servir de expressão ás mil aspirações indefinidas da nossa individualidade social. Algumas composições de M.ᵐᵉ Ackermann abrem esta nova phase da idealisação. Assim como a poesia antiga servia para perpetuar e dar sentido ás vetustas tradições das raças, a poesia moderna sem despresar a tradição, é o orgão mais apto para manifestar as aspirações da consciencia moderna. N'este uso está implicito o seu fim revolucionario.
Na poesia portugueza, como temos largamente provado pelos nossos trabalhos historicos, o escriptor esteve quasi sempre separado do povo; raramente se soube inspirar da sua tradição, e por isso a aspiração e o caracter nacional não foram servidos por uma litteratura bem distincta entre as outras litteraturas romanicas. Em compensação, a nacionalidade portugueza atrophiada pelo cesarismo e pelo catholicismo, e, por esta causa, não tendo no mundo moderno uma existencia accentuada pelos progressos scientificos e industriaes, serviu-se sempre da poesia como um meio de protesto, como o grito da sua aspiração revolucionaria. No seculo XIII achamos a dura sirvente contra os Alcaides que atraiçoaram D. Sancho II, para servirem as pertenções do clero a favor de D. Affonso III[1]. No seculo XV, achamos a satyra vehemente de Luiz de Azevedo contra os traidores que provocaram e consummaram o assassinato do Infante D. Pedro em Alfarrobeira[2]. No seculo XVI o vigor nacional é atrophiado pelo regimen do favoritismo do paço, que corrompe a aristocracia com as capitanias da India e Brazil; a poesia protestou contra os validos devassos, como se vê n'essas quadras ou trovas da Maria Pinheira, attribuidas a Damião de Goes, contra o Conde da Castanheira[3], e Manuel Machado de Azevedo n'outras quadras bem sentenciosas avisa seu cunhado Sá de Miranda contra a prepotencia dos Carneiros e Carvalhos, que dispunham arbitrariamente de todos os poderes. A satyra vehemente, acerba e allusiva inspira as melhores quintilhas e tercetos de Sá de Miranda; e Camões, nos Disparates da India, e sobretudo nos Luziadas, verbera uma aristocracia enfatuada e estupida, e o abuso da auctoridade clerical que invade a esphera civil em o Concilio de Trento, que se apodera da instrucção publica do paiz, que funda os terriveis tribunaes da intolerancia nos Indices Expurgatorios e nas fogueiras dos Autos de Fé, que isola Portugal da communicação scientifica da Europa a pretexto de combater a entrada dos principios da Reforma, e que por ultimo nos entrega aos castelhanos de Philippe II.
Tudo isto teria existido sem protesto, se não fossem os versos de Gil Vicente, nas suas farças; as quadras anonymas conservadas como curiosidade pelos genealogistas; algumas estancias de Camões na grande epopêa, e, o que mais assombra, alguns epigrammas populares, que se transmittiram na tradição[4].
Quando no seculo XVII a lingua portugueza deixava de ser usada nos livros, foi a comedia popular que manteve a sua cultura, e se inspirou das campanhas da restauração nacional, como vemos nas comedias de Pedro Salgado. Diante da mudez imposta pelo Santo Officio, a poesia teve ainda a audacia do protesto no poemeto Os ratos da Inquisição, de António Serrão de Castro[5].
No seculo XVIII, pode-se affirmar com rigor, foi a poesia o orgão de propagação das ideias dos encyclopedistas em Portugal; o proprio Marquez de Pombal protegia tacitamente a dispersão das cópias do Hyssope de Diniz. José Anastacio da Cunha na Oração universal eleva-se ao lyrismo pantheista de Goëthe, sendo preso e sentenciado pelo Santo Officio. Bocage é preso pelo Intendente Manique, e dá-se por base da perseguição a epistola Pavorosa illusão da eternidade, que exerceu uma acção menos profunda do que a Voz da Razão, ainda hoje estimulo secreto que leva a classe burgueza a fazer o processo critico da sua consciencia. Cabe a Bocage a gloria d'este serviço[6].
Nas luctas pela liberdade constitucional, os antigos Outeiros poeticos tornaram-se politicos, como o da Sala dos Capellos em 1820, e nas recitas theatraes era a poesia, ainda bastante arcádica, que agitava com uma linguagem nova a alma moderna. Separada da tradição, pelo esquecimento e obliteração systematica do passado, a poesia portugueza vale muito por estes gritos revolucionarios que a tornam uma verdade na vida nacional. Ainda hoje o lyrismo da mocidade acorda mais o senso commum, produz mais movimento na opinião, do que todos os cursos scientificos com juramento previo da conceição, e da inviolabilidade real.
As duas influencias predominantes do fim do seculo XVIII na poesia portugueza, o filintismo e o elmanismo, prolongaram-se até ao primeiro quartel do seculo XIX; Garrett (Jonio Duriense) admirava Filinto Elysio, e ao estudo da estructura riquissima e sempre nova dos seus versos deveu esse segredo de belleza do verso solto do poema Camões. Castilho admirava Bocage, e elle mesmo árcade romano (Mémnide Egynense) calcava a sua metrificação sobre as tautologias elmanistas. Se não fosse a emigração forçada dos partidarios do regimen constitucional em 1824 e 1829, a litteratura portugueza não saía d'este sulco; Garrett emigrou, e por isso comprehendeu o romantismo, Castilho esteve refugiado na abbadia de S. Mamede da Castanheira do Vouga, e por isso esterelisou-se muitos annos em traducções latinas, que a ninguem aproveitam. Garrett inspirou-se da tradição antiga e da aspiração moderna da nacionalidade, Castilho entrincheirou-se na erudição dos classicos da côrte de Augusto, e quiz submetter a este criterio a mocidade que despontava. D'aqui resulta mais tarde o rompimento individualista e indisciplinado da chamada Eschola de Coimbra (1865.)
Só muito tarde é que Almeida Garrett conseguiu descobrir uma das formas mais eloquentes do lyrismo moderno, nas Folhas cahidas; as composições em grande parte insulsas das Fabulas, do João Minimo, das Flores sem fructo, accusam o grande esforço d'esse genio para quebrar os moldes arcádicos em que sentira desde criança. Bastou para tanto uma simples aproximação da realidade; nos ultimos annos, Garrett achou-se envolvido em uma paixão censuravel, e a expressão de todas as suas emoções, a descripção delicada das situações imprevistas em que se achava, as confidencias, as vacillações da sua passividade, os favores concedidos de surpreza, as recordações e por fim a indifferença da parte da que era tão frivola como as outras da sua recente aristocracia, tal é o quadro deslumbrante e fascinador das Folhas cahidas. Este livro appareceu tarde, e por isso não exerceu uma influencia saudavel; Pato, Gomes de Amorim, E. Vidal e alguns outros bem quizeram pulsar essa corda, mas faltava-lhes, não diremos talento, mas verdade.
Castilho não conseguiu accentuar a sua tendencia lyrica; dominado ainda pela Modinha do seculo XVIII, como na Joven Lilia, incapaz de conhecer a belleza d'esses idylios modernos, como o seu de Pedro gaiteiro, elevando-se á expressão artificiosa do Canto do Jau, lançou-se outra vez no mundo classico e poz-se a traduzir do grego através do francez um supposto Anacreonte. Todos se imaginavam poetas, e n'esta doce illusão só Herculano se salvou com a Harpa do Crente, porque antes dos vinte cinco annos tinha lido alguma cousa de Klopstock e de Schiller. Tudo o mais estava anachronico, como Sarmento, Costa e Silva, Cabral de Mello, Fernandes Leitão e Campello. A poesia lyrica só podia renascer entre uma geração de rapazes; e onde encontral-a compacta, crente, enthusiasta? Em Coimbra o espirito revolucionario precedeu, pela imitação das tragedias philosophicas de Voltaire, o pensamento dos homens de 1820. Coimbra continuou sempre a ser o fóco do espirito novo, e em contradição com a rotina cathedratica, que bajulava o absolutismo e se isolava na sua soberba cardinalesca. Assim como a poesia foi sempre na civilisação portugueza a linguagem de protesto de uma consciencia atrophiada, assim Coimbra nos apparece tambem na historia como a capital do nosso lyrismo; ali cantaram Sá de Miranda, Ferreira, Camões, Jorge de Monte-Mór, Bernardes, Soropita, Francisco Rodrigues Lobo, Garção, em pleiadas que se succederam até ao seculo XIX segundo as correntes litterarias que percorriam a Europa. De Coimbra sáem tambem Garrett e Castilho.
Na renovação do lyrismo moderno é de Coimbra que partem os mais poderosos e decisivos impulsos; a escola do Trovador reune a mocidade academica de 1848, de que o principal vulto foi João de Lemos. Mas essa mocidade vivia no idylio insulso «sobre as azas da saudade», como se vê na festa da Primavera; inspirava-se do christianismo de Chateaubriand, acreditava devotamente na monarchia, contentava-se com tres nomes da historia patria para symbolisar toda a tradição nacional, e na sua ingenuidade não sabia conhecer as banalidades que punha em verso de redondilha, nem sabia os justos limites de uma exhuberancia fastidiosa. Ao entrar nas lides politicas esta camada esterilisou-se, e os poucos que conservaram um debil culto litterario ficaram constituindo a pretendida geração nova. Esta devera ser considerada a primeira phase da Eschola de Coimbra. Passou rapida; quasi que desconheceu o espirito revolucionario, e influiu sobre Portugal inteiro contagiando um falso estylo poetico, causa de todos os máos livros de versos que ainda apparecem de algum incomprehendido de provincia.
A vida academica é excepcional; a mocidade acha-se de repente livre dos vinculos da familia, senhora de si, meia irresponsavel, e em conflicto de costumes, de opiniões, de vaidades, e separada da direcção espiritual dos seus professores. Vive na indisciplina, alimenta-se das phantasmagorias theoricas, dispende um immenso vigor na dialectica, e por ultimo quando entra na realidade da vida em grande parte succumbe. O lente occulta a sua ignorancia e estupidez no isolamento doutoral; despreza o estudante, a quem nunca dirige a palavra, e impõe-se respeito pelo terror da reprovação! A mocidade liga-se contra este pedantismo, alimentando-se com as suas proprias leituras, fortalecendo-se com exercicios de argumentação, e amarrando os seus ogres a epigrammas eternos, como este:
Aquelle homem feio
E de aspecto máo,
É o Pedro Penedo
Da Rocha Calháo!
ou a epithetos pittorescos, como o Cão de quinta, o Doutor Hemoroide, o Marmellada.
Ali a cada geração academica succede-se a influencia de um dado philosopho; já no seculo passado o Intendente Manique accusava nas suas Contas para as Secretarias quaes os livros que andavam nas mãos dos estudantes, taes como as obras de Voltaire, Rousseau, Reynal, Bayle, Hobbes, etc. Na epoca de Garrett lia-se secretamente Dupuis; e ás differentes gerações se foram succedendo Chateaubriand e Aimé Martin, depois Krause, depois Pelletan, Quinet e Michelet, depois Vico, Hegel e Augusto Comte. Foram differentes correntes de ideias que revolucionaram o espirito da mocidade; os seus professores ficaram na ordem mental em uma especie de nirvana buddhico. D'essa mocidade, os que se impulsionaram pelas theorias metaphysicas ao entrarem na vida publica nada deram, e deixaram atrazar as cousas pela sua propria esterilidade. Sob a influencia de Aimé Martin e Krause, succedeu-se na poesia a segunda phase da Eschola de Coimbra, representada pelo Novo Trovador. O seu principal vulto foi Soares de Passos; veiu n'essa epoca em que ao exagero das paixões no theatro correspondia no lyrismo a melancholia tenue representada na Allemanha por Novalis, na Inglaterra pelos Lakistas, em França por Millevoye e Lamartine, e na Italia por Leopardi e Manzoni. Soares de Passos inspirou-se d'este desalento contagioso mas tardio, a que o proprio Garrett, em França, não escapou no poema Camões. Elle é o poeta da tristeza; todos os sentimentos que retrata, a admiração por Camões, a elevação deísta diante do Firmamento, a independencia no canto do Escravo, em tudo o tom natural a que vem sempre ter é a tristeza. Esta caracteristica explica-nos toda a sua acção litteraria. Esse sentimento de pesar e desgosto, em parte motivado pela doença physica de que morreu, tirou-lhe a individualidade, não o deixou ser iniciador; nenhuma das suas bem trabalhadas odes era capaz de suscitar uma eschola de poesia; é geralmente imitador, agrada-lhe o vago e indeterminado, e por isso traduz o primeiro canto de Fingal; ainda com o fervor dos bons tempos de um Werther, imita as balladas phantasticas do norte, conhecidas através das versões de Marmier, como no Noivado do sepulchro; é mystico, seguindo Lamartine na Morte de Socrates e no Firmamento. Esse sentimento de tristeza expresso sem banalidade mas sem individualidade, tornou os versos de Soares de Passos distinctos entre a multidão das collecções metricas, sobretudo quando a morte prematura do poeta veiu dar o perstigio prophetico aos seus presentimentos. Soares de Passos escreveu pouco em metro octosyllabo, o bastante para se conhecer que nos seus primeiros tempos de noviciado poetico de Coimbra soffreu a influencia da eschola do Trovador. A sua perfeição explica-se pelo limitado numero de composições que deixou; emendava sempre, calculadamente e com a pericia de quem tem só um sentimento a exprimir e já muitas vezes retratado[7].
O que fez Soares de Passos para a tristeza, fez João de Deus para o amor; n'elle começa a terceira phase da Eschola de Coimbra. Ninguem sentiu melhor o idealismo camoniano, perdido desde o fim do seculo XVI, ninguem levou a fórma á mais alta perfeição, ninguem como elle exerceu ainda uma acção mais funda e salutar na transformação da poesia portugueza. É o mestre de nós todos. Deixou entre as gerações escholares uma tradição luminosa como de um provençal, e a sua organisação absolutamente artistica prejudica-o no conflicto de uma sociedade burgueza. O que lhe faltava, e que esterilisava as suas faculdades creadoras, suppriram-n'o os poetas do periodo indisciplinado da Eschola de Coimbra, que por seu turno actuaram sobre o genio de João de Deus; suppriram-n'o pelo estudo, primeiro, de Quinet e Michelet, depois de Vico, Hegel e Augusto Comte, d'onde provieram esses dois ramos da poesia revolucionaria, socialista representada pelas Odes modernas, e da concepção philosophica da historia realisada na Visão dos Tempos. N'este caminho a poesia portugueza achou outra vez o seu destino. O que provinha da anarchia metaphysica dispendeu-se em um clarão repentino[8], o que conduziu para a synthese positiva tornou-se fecundo, produzindo a exploração scientifica das tradições da nacionalidade portugueza, a creação da nossa historia litteraria, e a base critica para o estudo da nossa pedagogia, da politica e da previsão do que é preciso que se faça. Á influencia das Odes modernas pertence essa poesia chamada satanica, de um pessimismo á Baudelaire, facil de imitar e mais facil em illudir o gosto dos que aspiram a uma ordem nova. A Visão dos Tempos, pouco imitada no pensamento, exerceu maior influencia pela fórma da versificação e dos poemetos; o pensamento era converter em mythos modernos e conscientes a concepção philosophica das grandes epocas da humanidade, ao contrario dos mythos anonymos e inconscientes das edades primitivas que ainda hoje nos estão atrazando; a fórma procurava alliar a acção de Garrett com a de João de Deus. A apparição d'este espirito novo está ligada a uma grande pugna litteraria, encetada com a carta intitulada Bom senso e bom gosto e Theocracias litterarias[9]. A esse impulso appareceram novos obreiros, que inauguraram a sciencia da Linguistica e da philologia romanica, e a Archeologia artistica; a educação scientifica elevou-se, como se viu na nova questão litteraria do Fausto e na Bibliographia critica de Historia e litteratura; a critica dos costumes achou a sua direcção nas Farpas, e o romance attingiu a sua admiravel perfeição realista no Crime do Padre Amaro. A falta de efficacia de todo este movimento provém da desmembração dos obreiros. Pelo criterio ethnico da historia litteraria e pela philologia, é que a poesia brazileira e gallega foram comprehendidas como fórmas homogeneas do lyrismo portuguez; longo tempo desprezadas, é d'ellas que ha de vir o descobrir-se o verdadeiro espirito d'este lyrismo nosso, que apenas se faz valer não pelo que tenha de nacional, mas sómente pelo modo como serve a ideia revolucionaria.