I

Era chegado o Apostolo eloquente

Cansado, e firme n'uma fé robusta,

Da romagem longinqua do Oriente,

Por hordas sevas da região adusta:

Vinha trazer á Capital da Gente

Que impera no orbe e com poder assusta

De armas e leis, poder egual não visto,

O Verbo novo que dissera Christo.

Vira o Apostolo uma fresca gruta,

Entrou, sentou-se em vago esquecimento.

Queria forças para entrar na lucta,

E repouso de quem recobra alento;

Santos carmes do velho Lacio escuta

Agitando-lhe o incerto pensamento.

É bem que te extasies e arrebates

Co'a a lingua dos Juristas e dos Vates!

Sentou-se extenuado sobre as bordas

Do tumulo sagrado de Virgilio!

Transpondo os mares, e sedentas hordas,

Mal comprehende o Apostolo esse idylio

Que resôa das invisiveis cordas

Da alma grega no etrusco domicilio.

Elle quer possuir essa magia

Para espalhar a fé viva que o guia.

Virgilio! A natureza era serena!

Com mansidão o mar longe estuava

Na forte placidez de quem sem pena

Do promontorio os vinculos quebrava.

Atito pesaroso de uma avena

Graça de infancia á paisagem dava;

Era limpido o ár! Cariz de Italia...

Quem tiver mais poesia n'alma exhale-a.

Havia o quer que é, de mysterioso

Que perturbava o Apostolo fervente,

A revelar-lhe com tristeza e goso,

Que vinha tarde ás bandas do Occidente,

Fallar do Verbo novo e doloroso

Da liberdade humana florescente!

Sobre o tumulo d'esse augusto Vate

Medita nas palavras do resgate.

Repousou a cabeça somnolenta

Da campa de Virgilio sobre a lagem;

A mente em sonho vago representa

Que chegou tarde tarde da romagem.

E chorou como aquelle que se ausenta

Do seu amigo, para a eterna viagem,

E chorou! Concentrou-se a natureza

Para ouvil-o em sua intima tristeza: