I

Quando eu te fujo e me desvio cauto

Da luz de fogo que te cerca, oh bella,

Comtigo dizes, suspirando amores:

«Meu Deus! que gelo, que frieza aquella!»

Como te enganas! meu amor é chamma

Que se alimenta no voraz segredo,

E se te fujo, é que te adoro louco...

És bella,—eu moço; tens amor,—eu medo!...

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,

Da luz, da sombra, do silencio ou vozes,

Das folhas seccas, do chorar das fontes,

Das horas longas a correr velozes.

O véo da noite me atormenta em dores,

A luz da aurora me entumece os seios,

E ao vento fresco do caír das tardes

Eu me estremeço de crueis receios.

É que esse vento, que na varzea—ao longe,

Do côlmo o fumo caprixoso ondeia,

Soprando um dia, tornaria incendio

A chamma viva que teu riso atêa.

Ai! se abrazado crepitasse o cedro,

Cedendo ao raio que a tormenta envia,

Diz:—que seria da plantinha humilde

Que á sombra d'elle tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco

Torrára a planta qual queimára o galho,

E a pobre nunca reviver podera

Chovesse embora paternal orvalho!