III

Longo foi o silencio, como aquelle

Que procede o ruir da tempestade,

Antes que o vendaval rijo atropelle

As ondas, contra as quaes urrando brade!

Paulo chorava por essa alma imbelle,

Com magua e suavissima saudade

Ás lagrimas, da compunção alarde,

Respondeu-lhe uma voz:

—Não vieste tarde.

Não vieste tarde! E vê se poderias

Ao maximo pontifice do Justo

Leval-o a crêr na Graça que annuncias?

Não podera esquecer a todo o custo

O nexo da harmonia das vontades,

Por um dogma de privilegio augusto.

Cuspido ás praias pelas tempestades

Vieste Paulo, a tempo a dar a nova

D'esse mysterio ás immoraes cidades.

Em quanto da Justiça déra prova

Roma! foi grande, soberana e forte.

Quem haverá que a outra ideia a mova?

Mas essa luz que sempre foi seu norte,

Um dia a apaga a purpura devassa:

Do carcomido imperio segue a sorte.

Antepondo á Justiça, arbitrio ou Graça,

Vae, Paulo! agora é tempo, e entra em Roma,

Se fallas em Justiça, a plebe passa...

Ella não te percebe! Ah Paulo, dóma

A plebe ignava com o doce engano

De cousa que se palpe e que se coma...

Da bem aventurança pinta o arcâno;

Mas a doutrina só será fecunda

Quando o teu Christo se tornar romano.

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Theophilo Braga