III
Entre os differentes dialectos romanicos da peninsula nenhum recebeu mais prematuramente a forma escripta do que o gallego, pelo qual se introduziu a poesia provençal nas côrtes de Portugal e de Hespanha[33]; por circumstancias politicas nenhum perdeu tão cedo a vida litteraria, ficando apenas fallado por um povo desde muito tempo annullado pela absorpção castelhana. Ao formarem-se as primeiras litteraturas da peninsula, o gallego foi a linguagem em que se poetava na côrte de Castella, como se vê pelas Cantigas de Affonso o Sabio, e na côrte de Portugal, como está bem patente nas mil duzentas e cinco canções do Cancioneiro da Vaticana, e nos centenares de canções da collecção da Ajuda; por esse dialecto hoje desprezado, admittido apenas para uso das relações intimas das necessidades infantis, é que se podem explicar certas formas litterarias, como as Serranilhas, e certos phenomenos linguisticos do portuguez e castelhano como o che por te e por pl. Effectivamente, a Galliza deve ser considerada como um fragmento de Portugal, que ficou fóra do progresso de nacionalidade. Apesar de todos os esforços da desmembração politica, a Galliza não deixou de influir nas formas da sociedade e da litteratura portugueza: nas luctas de D. Affonso II, refugiaram-se na Galliza bastantes trovadores portuguezes, como João Soares de Paiva, e nas luctas de D. Fernando, refugiaram-se em Portugal um grande numero de familias nobres da Galliza, como os Camões, os Mirandas, os Caminhas, d'onde provieram os grandes e os maiores escriptores da esplendida epoca dos Quinhentistas.
Nas epocas em que a litteratura portugueza fixava as formas da lingua, ainda bastantes vestigios do gallego transparecem inconscientemente na linguagem dos escriptores, quando se aproximam da dicção popular. No Cancioneiro de Resende, em um Vylancete do Conde de Vimioso, se acha o galleguismo:
querend' esquexer-vos (fl. 85, col. 6.)
Nas comedias de Jorge Ferreira, cheias de locuções populares, abundam estes factos: «pagam-se de bem che quero;» (Eufros., 259) «fallou o boi e dixo bee;» (ib. 279) na comedia Aulegraphia: «Sempre fostes d'esses dichos.» (fl. 37 v.) «o som de bem che farei e nunca lhe fazem.» (fl. 20); «minha madrinha é azougue, e joga o dou-che-lo com quantos aqui ancoram.» (fl. 59, v.) «Andaes vós a bons dichos de philosophos.» (fl. 76. v.)
Em Sá de Miranda, nas Eclogas, sobretudo quando imita a linguagem popular, pollulam os galleguismos:
Onde quer que cho demo jaz (Ed. 1804, p. 220.) Não sei quem che por famoso (Id. 291.) Antre nós che era outro tal. (Id. 223.) Disse então. E assi che vae? (Id. 232, passim.)
Dos Autos de Gil Vicente tiraremos os bastantes para se reconhecer este fundo da lingua:
Cha, cha, cha, raivaram ellas (Ob. t. I, p. 131.) Que a ninguem tanto mal quige (Id. p. 135.) Se xe m'eu isso soubera (Ib. p. 136.) Que te dixe, mana emfim? (Ib. p. 142.) Que homem ha hi-de pucha (Ib. p. 172.) Isto hi xiquer irá (Ib. p. 247.) A Deos douche alma dizer. (Ib. p. 261.) Assi xe m'o faço eu. (III, 162.)
Até em Camões ainda persistem as formas gallegas, como na cantiga:
Hei me de embarcar n'um barco;
e nos Lusiadas na expletiva a, tão peculiar do dialecto em que o grande epico chegou a escrever dois sonetos.
Bem cedo as relações ethnicas de Portugal com a Galliza foram desconhecidas, e este facto é uma consequencia do desprezo que os escriptores tiveram pela tradição nacional. O nome de gallego tornou-se desprezivel em Portugal, e os grandes poetas oriundos de familias gallegas usaram-no n'esse sentido. Assim diz Sá de Miranda em uma Serranilha:
Sola me dexaste
En aquel yermo
Villano, malo, gallego. (Ob., 1804, p. 404.)
E o proprio Camões, nos Lusiadas, deixou essa phrase injusta: «Oh sórdido gallego...» ao passo que o povo portuguez derivou da sua indole pacifica o velho amphigurí:
Duzentos gallegos
não fazem um homem...
As povoações do Alemtejo chamam gallegos a todos os moradores do Ribatejo, pela transmissão inconsciente de uma tradição perdida. Isto bastará para explicar o assombro que deve causar aos conterraneos o vêrem a poesia moderna gallega occupando um logar devido ao lado da poesia portugueza, como uma das suas formas archaicas; seguimos o rigoroso criterio scientifico, deixando as preoccupações vulgares.
Pelo estudo da poesia gallega, é que se podem comprehender as formas do lyrismo portuguez; e a desmembração d'esse territorio, que ethnicamente nos pertence e tem permanecido para nós extranho durante tantos seculos, é que prova a falta absoluta de plano na nossa vida politica. A verdadeira origem da tradição lyrica da Galliza está ligada á sua constituição ethnica; esse lyrismo provém da eschola da Aquitania, onde a raça pertencia, segundo Strabão, mais ao typo iberico do que ao gaulez. Segundo as modernas descobertas da Antropologia e da Linguistica sabe-se que o Ibero, ou o basco actual, é de raça turaniana. Quando Silio Italico, escrevendo no seculo I, faz no poema historico da Segunda guerra punica a lista dos diversos povos da Peninsula que acompanharam Anibal na expedição contra a Italia, diz da Galliza:
Fibrarum et pennœ, divinarumque sagacem,
Flammarum, misit dives Gallaecia pubem
Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,
Nunc pedis alterno percussa verbere terra
Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras,
Haec requies, ludusque viris, ea sacra voluptas.
(Lib. III, V. 345.)
Esta descripção coincíde com muitos caracteristicos da raça turaniana. Acclarando as interpretações de Sarmiento, poremos em relevo este sentido novo. Nas Memorias para la Historia de la poesia y poetas españoles, diz este critico patricio de Feijó: «Primeiramente llama a este pais de Gallicia rico (dives) acaso por los varios y preciosos metales que de alli salian para los romanos, y aun hoy se benefician.» De facto sabe-se hoje que a industria metalurgica é de origem turaniana, e que os vestigios d'esta raça se encontram sempre junto dos grandes jazigos minereos. Diz mais Sarmiento: «supone que tenian idioma proprio y aun idiomas diferentes (propris linguiis). Esto contra los que imaginan un solo idioma nacional en toda España en tiempo de los carthaginezes.» A fusão das tribus turanianas com os celtas lygios (tal como se deu na Irlanda) formando os celtiberos, fazia-se notar aos romanos pelos seus differentes, dialectos. Continúa Sarmiento: «supone los gallegos devotos y religiosos, pues los supone con sacrificios y demas diestros y sagaces en consultar á sus dioses, y al extispicio de sus victimas, ya en el auspicio de las aves, ya finalmente en la observancia, aun que vana, de los movimientos, color, volumen, voracidad y direcion de las llamas de sus holocaustos.» As formas magicas da religião accadica, o culto do fogo, e os nomes de divindades naturalistas que se acham nas Inscripcões colligidas por Hubner, dão a prova demonstrada d'essa raça turaniana, que desceu do norte da Europa. Finalmente Sarmiento: «dice que usaban en sus diversiones, juegos y fiestas sagradas de hymnos, canto, musica y bailes: ulutantem... carmina... alterno verbere pedis... ad numerum resonas cetras[34].»
Esta grande abundancia de cantos e hymnos sagrados, tal como se descobriram nos livros accádicos, levam-nos a fixar que sob a forma celtica, acobertada com o nome de Galliza, existe uma camada social turaniana, da antiga diffusão que occupava a Aquitania e a Sicilia. É justamente n'estes pontos que subsistem as fórmas lyricas analogas ás gallegas, e portanto nenhum conhecimento seguro se póde ter do genio d'este povo sem tirar a luz da sua origem turaniana, tão persistente na indole e fórmas da sua civilisação. Os instrumentos musicos a que cantavam eram, como diz Silio Italico, ritu moris Iberi... barbara cetra, o que confirma, que no primeiro seculo christão ainda era sensivel esse caracter turaniano. A acção exercida pelo elemento celtico, romano, e mais tarde suévico sobre a raça turaniana pelo menos até ao Mondego, é complexissima: o celta desenvolveu a tendencia poetica amorosa, fazendo esquecer pelas prescripções druidicas os cantos religiosos; o romano influiu na creação precóce de um dialecto e na industria agricola; a estabilidade do suevo, tornado pacifico pelas suas grandes derrotas, manteve essa passividade que o gallego conserva na constituição das modernas nacionalidades da Peninsula.
De todas estas camadas ethnicas se conservam vestigios poeticos, e com assombro o dizemos, na tradição actual; são de origem turaniana os cantos de Alalála; são celticos os Cantares guayados; são romanos os cantos de Ledino, são suevicas ou germanicas as Chacones. Falaremos d'aquelles cantos tradicionaes que explicam o lyrismo moderno.
O Alalála é a neuma patriotica dos cantos gallegos, que os romanos julgavam ser o ulular; é ella que hallucina o que está ausente da sua patria, e que o cura da saudade nostalgica, chamada em Hespanha morrinha gallega. Um proverbio vasconço diz: Bethico leloa, isto é, «o eterno lelo,» ou—antigo e persistente como este estribilho nacional, que Silio Italico tomou como caracteristico. Na poesia euskariana conserva-se este vestigio cantabrico, que pela sua aproximação dos costumes irlandezes, se vê que é o estribilho de uma canção funebre ou areyto:
Lelo, il lelo
lelo, il lelo
leloa zarac (çaray?)
il leloa.
Outras canções vasconças conservam o mesmo estribilho, tantas vezes considerado como um individuo:
Eta lelori bay lelo...
Etoy lelori bay lelo, leloa çaray leloa[35].
Na poesia popular portugueza ainda se encontra em Coimbra e Açores o estribilho:
Lari lole
Como vae airosa,
Com a mão na transa,
Não lhe caia a rosa[36].
Tudo isto se liga a um veio perdido da poesia primitiva da grande raça turaniana, como se confirma por um canto funebre da Irlanda sempre acompanhado como o estribilho ullaloo[37]. A demonstração torna-se mais rigorosa desde que este mesmo estribilho apparece entre raças isoladas, de origem turanica.
Diz o Abbade Bertrand: «Os Chulalanos nas suas festas cantavam, dansando em volta de Teocalli (casa de Deus) um canto que começava pelas palavras tulanian, hululaez, que não pertence a nenhuma lingua actual do Mexico... O grito de alegria dos Kaulchadales, alkalalai, lembra tambem a mesma fórmula pelas ultimas syllabas...» Os saxões caminhavam para a guerra ao grito de alelá, grito que é ainda o haleli das caçadas. Em uma canção portugueza do Cancioneiro da Vaticana, se repete Edoy (Etoy) lelia, leli, leli. Como se explica a persistencia d'este refrem primitivo, ao passo que se foi perdendo o genero poetico? Sabe-se que o Arabe trouxe para a peninsula um grande numero de superstições turanianas, e assim fez reviver formas quasi extinctas da civilisação que trazia; a Serranilha é de designação arabe, como os Fados, (Huda) e um dos sete atributos que os derviches repetiam frequentes vezes ao dia era: La ilahi ill'Allah (não ha deus senão Allah), que parece quasi o estribilho gallego moderno: Alalála, lála la.
No grande Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, ainda se encontra um vestigio das antigas cantigas de Alalála; pertence essa composição a Pedro Anes Solaz, e é do mais alto valor archeologico:
Eu, velida, dormia,
le-li-a, d'outra!
E meu amigo venia,
edoy le-li-a d'outra.
Nen dormia e cuydava
lelia d'outra!
E meu amigo chegava
edoy lelia d'outra!
O meu amigo venia
lelia d'outra!
E d'amor tambem dizia
edoy lelia d'outra.
O meu amigo chegava
lelia d'outra
E d'amor tambem cantava
edoy lelia d'outra!
Muyto desej'ey, eu amigo,
lelia d'outra,
Que vos tevesse comigo
edoy lelia d'outra!
Leli, leli, por deus lely
lelia d'outra!
Bem sey quem non diz leli
edoy lelia d'outra.
Bem sey eu quem diz lelya
lelia d'outra!
Demo xe quem non diz lelia
edoy lelia d'outra[38].
As varias formas poeticas, que se encontram na Europa, o liedle do dialecto suisso, o lied allemão, o liod irlandez, leod anglo-saxão, o leudus da baixa latinidade, o leoi irlandez, o lai bretão, correspondendo ao genero do lelo basco e Alalála galleziano, e lelia portuguez, accusam uma origem commum, que se pode explicar pela tradição lyrica da raça turaniana na Europa. O sentido da palavra lai, que ficou nas litteraturas como caracteristico de um genero lyrico, é especialmente musical.
Uma outra neuma caracteristica da Peninsula, mas já peculiar da raça celtica é o Guay, que chegou a constituir um genero dos cantares guayados, do que ainda falla Gil Vicente. Os romances peninsulares assim como começavam «Helo, helo, por do viene» tambem tem outro principio, como «Guay Valencia, Guay Valencia.» É aquelle grito celtico Woe! Woe! que ainda hoje se conserva na Escossia como uma vehemente expressão natural. A gaita de folles da Escossia é similhante á gaita gallega, em tempo admtida no exercito hespanhol como meio salutar na nostalgia dos recrutas da Galliza. Como o gaëls das montanhas da Escocia, que, longe da patria, na America do norte ou nas florestas do Canadá, falla o inglez, mas sonha e sente no dialecto gaëlico, é assim o gallego entregue aos trabalhos braçaes longe da sua patria, ou nas guarnições militares; as cantigas do Alalála, a Muiñera trazem-lhe á lembrança o ár das suas montanhas: Ayriños de miña terra, que elles aspiram n'esse hausto de saudade, Guay!
Vejamos como por seu termo a influencia do genio celtico faz prevalecer esse profundo caracter de unidade tradicional do lyrismo moderno. Na civilisação da Peninsula, a Galliza occupa uma posição excepcional como a Provença para com a França; a sua longa tranquilidade fel-a adoptar o gosto lyrico da Eschola da Aquitania; e assim como a poesia provençal foi o desenvolvimento litterario de cantos tradicionaes do meio dia da França (celto-romana) como ainda se descobre por uma rubrica de uma canção do conde Poitiers, na Galliza sugere as formas novas e o estylo lyrico popular aos trovadores portuguezes e castelhanos. Não basta sómente Strabão considerar os Aquitanios mais parecidos com os Iberos (da fusão celtibera) do que com os gaulezes (reconhecidos como raça scythica[39]) ha um fundo commum de poesia lyrica pertencente á Italia, á Provença, á Galliza, e a Portugal, que comprova a existencia de um mesmo elemento ethnico n'estes paizes. Onde povos celticos se cruzaram com iberos, ou tribus turanianas, persistiu a primitiva tradição lyrica. A publicação moderna de algumas Pastorellas provençaes levou a presentir pela comparação essa unidade. Os restos de Dizeres e Serranilhas, que Gil Vicente intercala nos seus autos, são vestigios de canções gallegas do seculo XIV, tal como se lêem no Cancioneiro portuguez da Vaticana[40].
Uma Pastorella de Guido Cavalcanti traz estes versos quasi identicos a uma das serranilhas de Gil Vicente:
E domandai si avesse compagnia?
Ed ella me rispose dolcemente
Che sola, sola per lo bosco gia[41].
E em Gil Vicente:
Cheguei-me per'ella com gram cortezia,
Disse lhe:—Senhora, quereis companhia?
Disse-me: Escudeiro, segui vossa via[42].
Em um poeta do Cancioneiro geral, achamos um vilancente immensamente parecido com uma canção bearneza e com outra do sul da Franca; eis o vilancente de Francisco de Sousa:
Abaix'esta serra
verey minha terra!
Oh montes erguidos,
Deixae-vos caír,
Deixae-vos sumir
E ser destroydos!
Poys males sentidos
Me dam tanta guerra
Por ver minha terra[43].
Na canção bearneza de Gastão Phebus, existem estes mesmos elementos tradicionaes:
Aquères mountines
Qui ta haütes soun,
M'empèchen de béde
Mas amous oun soun.
Si subi las béde
Ou las rancountrá,
Passéri l'ayguete
Chéus poü dem'nega[44].
Em um canto provençal moderno de Jasmim, ao referir-se aos refrens que ressôam pelos áres, intercala este vestigio tradicional das antigas pastorellas:
Aquellos muntaynos
Que tam hautos sun,
M'empachon de beyre
Mas amus un sun;
Baycha-bus, muntaynos,
Planos, hausabús,
Perque posqui beyre
Un sun mas amús[45].
A persistencia da tradição lyrica na Galliza, é que a tornou o centro de irradiação litteraria nas côrtes peninsulares onde o seu dialecto era empregado na linguagem poetica, como o provençal no norte da França. A conquista romana veiu muito cedo influir na constituição do dialecto gallego, sem alterar a tradição poetica; influiu bastante na forma da industria agricola. Diz Sarmiento: «Galicia, mi patria, es la Provincia que mas voces latinas conserva, y en especial en quanto toca á agricultura. Digolo, porque lei por curiosidad de verbo ad verbum, á Caton, Varron, Columella y Palladio[46].» A Galliza foi o primeiro territorio da Peninsula que sofreu e ficou submettido á invasão dos barbaros do norte; os Suevos, que se apoderaram d'ella eram um dos ramos mais civilisados das raças germanicas, e chegaram a estender o seu dominio até ao Tejo. A sua derrota, por Theodorico, na batalha de Urbius, restringiu-os ao territorio gallaico, e a sua adopção do catholicismo, fez com que o Suevo perdesse os seus mythos odinicos, e por tanto não pode elaborar os cantos epicos, que teriam sido um estimulo de resistencia e de cohesão nacional. Por causa do catholicismo entraram em conflicto com os Vandalos, que seguiam as doutrinas de Ario, e pelo catholicismo veiu a prevalecer a erudição morta das escholas latinas, dando ao novo dialecto uma forma bastante artificial. Uma vez privado das antigas ambições de conquista e da actividade das armas, o Suevo ficou sedentario, e pelas condições do territorio em que estava limitado, entregou-se ao trabalho da agricultura; o lyrismo desenvolveu-se sob as emoções da vida rural, mas a emphyteuse romana, e os direitos de mão-morta tornaram a lavoura um trabalho de servos e a Galliza um paiz de desgraçados. A influencia da lingua dos suevos sobre o gallego actual fazendo com que tivesse uma poesia muito mais cedo do que as outras linguas da Peninsula, é assim caracterisada por Helfrich e Declermont: «Comparando a vocalisação do dialecto suabio actual á do portuguez, julga-se ter achado a solução do problema. Foram os Suevos, que, primeiro do que todas as outras tribus germanicas se estabeleceram na Galliza, e admittindo que a lingua allemã recebesse na bocca dos Suevos, desde a sua primeira apparição historica, uma vocalisação distincta da do gothico, não custará a attribuir a intonação nasal, particular ao dialecto suabio, e que se encontra de uma maneira surprehendente no portuguez, á influencia da lingua dos Suevos sobre o novo-latino que acabava de se formar unicamente na Galliza[47].» E Sarmiento, tão investigador das antiguidades da Galiza, affirma: «Quando Portugal estaba em posesion de los Moros, se hablava ya en Galicia el idioma vulgar, aunque dudo que se escribiesse; como ni aun hoy se escribe. Pero esto no impide que se cantasse, e que en el se hiciesen varias coplas, que despues se pasaran al papel...» (op. cit., p. 200). D'estes cantos populares existem preciosos especimens no Cancioneiro da Vaticana, mas sobretudo existe a canção épica com que o genio do Suevo reagiu contra a invasão arabe da peninsula; tal é a tradição de Peito Burdello, gallega na forma, conservada em Portugal:
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei;
Seis nenas encontrara
Seis nenas encontrei...[48]
D'outras formas epicas conserva-se apenas a designação de Chacone, tambem commum a Portugal, Hespanha, França e Italia, como vestigio do elemento germanico (wisigothico, franko e lombardo). O mais antigo romance hespanhol hoje conhecido, tem a fórma gallega, e foi por nós restituido sobre o apographo da Vaticana[49].
Uma das causas porque a lingua gallega se tornou o dialecto particular da poesia lyrica tanto de Portugal como de Castella alem da communicação primeira com os trovadores da Aquitania, está no estado de desenvolvimento politico d'estes dois paizes. Castella, não tinha ainda dominado as differentes provincias de Hespanha, nem garantido contra ellas a sua propria independencia; a unidade soberana das Hespanhas era disputada pelo Aragão e por Leão. Só no meiado do seculo XV, sob Fernando e Izabel é que essa unidade politica se fez; e é a datar d'esse tempo que a lingua castelhana toma desenvolvimento, reduzindo as outras linguas a dialectos restrictos e particulares; era no principio do seculo XV que o marquez de Santillana fallava do uso gallego na poesia castelhana não só referindo-se ás poesias de Affonso o Sabio, educado na Galliza, mas a essa especie de renascença do genio poetico da Galliza em Villasandino, em Macias e Juan Rodrigues del Padron, seus contemporaneos. A influencia da lingua gallega cessa no momento em que o castelhano, por effeito da unidade politica, se constitue em disciplina grammatical e em lingua official. N'este mesmo periodo do seculo XV já a lingua portugueza estava mais contraída do que a castelhana, já distinguia a sua epoca archaica, porque desde a constituição da nacionalidade portugueza ou melhor, desde que recebeu forma escripta, não teve nunca a lutar com as aberrações dialectaes, e por isso o seu desenvolvimento em vez de dispender-se em unificação deu-se no sentido do neologismo e da disciplina.
Mas o uso da lingua gallega em Portugal, sobretudo na poesia, proveiu, em parte, do elemento aristocratico, e em parte pela immobilidade d'esse dialecto, que era uma como especie de apoio no meio das perturbações que as colonias francezas e inglezas, e as povoações mosarabes e mudgares conquistadas podiam produzir na nova sociedade. A separação do portuguez do gallego consistiu na immobilidade do mesmo dialecto em um ponto, e do seu progresso successivo e litterario em outro.
Os limites da Galliza, na epoca da constituição da nacionalidade portugueza, demonstram materialmente a relação em que estavamos para recebermos e imitarmos essa poesia popular e esse novo dialecto. Diz Herculano: «No seculo XI a extrema fronteira da Galliza ao occidente, parece ter-se dilatado ao sul do Douro, nas proximidades da sua foz, pela orla do mar até alem do Vouga; mas seguindo ao nascente o curso d'aquelle rio, os sarracenos estavam de posse dos castellos de Lamego, Tarouca, S. Martinho de Mouros, etc.[50]» No antigo Cancioneiro da Ajuda, encontra-se a cada verso o xe, por te:
Fazer eu quanto x'el quer fazer. (Canc. n.º 55.)
Mais pois vejo que x'el quer assi
Poil-o el faz xe me mal fazer. (N.º 158.)
Estas fórmas explicam-nos a tendencia da lingua portugueza em converter a combinação pl em ch, como em plus, chus, plantar, chantar, planto, chanto, plano, chão, platus, chato, que na corrente erudita se conservam na sua pureza latina, como plantar, pranto, plano, prato. O Cancioneiro da Vaticana conserva entre os trovadores portuguezes muitos poetas gallegos taes como Affonso Gomes, jograr de Sarria, Fernam Gonçalves de Senabria, João Ayras, burquez de Santiago, João Romeu, de Lugo, João Soares de Paiva, que foi morrer á Galliza por amores de uma infanta, João Vasques, de Talavera, Martim de Pedrozelos, João Nunes Camanes, Vasco Fernandes de Praga e outros muitos. A Galliza, nas luctas da côrte portugueza no tempo de D. Affonso II, D. Affonso III e D. Fernando I, foi uma especie de paiz neutro para onde se acolhiam os fidalgos portuguezes; os fidalgos gallegos recebiam em Portugal o melhor acolhimento e não receiaram seguir o partido de D. Fernando, tendo por isso de se refugiarem na sua côrte depois de vencidos. Aquelles poetas quinhentistas portuguezes, Sá de Miranda e Camões, que ligaram ao nome de gallego um sentido de desprezo, eram oriundos d'esta emigração politica do fim do seculo XIV; e foram elles que acharam a feição nacional da nossa poesia e nos libertaram da subserviencia litteraria de Castella, em que estavamos, como se vê pelo Cancioneiro geral, de Resende.
Era preciso que a tradição poetica popular da Galliza fosse profunda para que, ainda depois de Affonso o Sabio, quando já a Galliza não tinha vida politica, produzisse poetas lyricos de tal forma inspirados, como Villassandino, Macias, Juan Rodrigues del Padron, Jerena e Arcediago do Toro, para que no fim do seculo XIV luctassem contra a influencia do novo lyrismo da Italia, que entrava por Sevilha. Nas litteraturas a fecundidade e originalidade individual correspondem sempre á existencia de um vigoroso elemento de tradição popular; esta grande lei da critica moderna verifica-se na Galliza. No meado do seculo XV escrevia o Marquez de Santillana ao Condestavel de Portugal: «E depois acharam esta Arte, que Maior se chama, e Arte Commum, creio, nos reinos de Galliza e Portugal, onde não ha que duvidar, que o exercicio d'estas sciencias mais do que em nenhumas outras regiões e provincias de Hespanha se costuma; em tanto gráo, que não ha muito tempo, quaesquer Dizidores ou Trovadores d'estas partes ou fossem Castelhanos, Andaluzes ou da Extremadura todas as suas obras compunham em lingua gallega ou portugueza. E ainda é certo que recebemos os nomes de arte, como: maestria mayor, e menor, encadenados, lexapren e mansobre[51].»
D'este trecho, se infere: 1.º Existencia da Arte commum, usada pelos Dizidores, que compunham em maestria menor essas obras que o Marquez no § XV chama «cantigas, Serranas e Dizeres portuguezes, e gallegos.» 2.º Que a par d'esta fonte popular coexistia a Arte Mayor, usada pelos Trovadores, que escreviam em metro limosino ou endecassyllabo, (eschola da Aquitania) sendo as suas composições mais artificiaes, como os encadenados, lexapren e mansobre. 3.º Que o dialecto gallego era usado na poesia lyrica tanto em Portugal, como em Castella, na Extremadura e Andaluzia. No seculo passado teve o erudito Sarmiento uma polemica com Don Thomaz Sanchez, tomando no sentido mais absoluto as palavras do Marquez de Santillana: «Yo como interessado en esta conclusion, por ser gallego, quisiera tener presentes los fundamentos que tuvo el Marquez de Santillana; pero en ningun Autor de los que he visto, se halla palabra que pueda servir de alguna luz[52].» No tempo de Sarmiento já eram estudadas as poesias de Affonso o Sabio escriptas em dialecto gallego, conforme o reconheciam Diego Ortiz de Zuniga e Papebroquio e hoje todos os philologos. Sarmiento depois de reconhecer tambem a lingua em que escreveram Macias e Padron, conclue: «De este modo se entiende y se confirma lo que escribió el Marquez de Santillana sobre el idioma de los antiguos Trobadores castellanos, andaluces y estremenhos.» (p. 200.) Quando o Marquez de Santillana assignalava esta influencia da Galliza, escrevia «não ha muito tempo»; este limite da influencia gallega assigna-se em Hespanha com a introducção da imitação italiana em Castella por Micer Imperial, e com relação a nós os portuguezes com a imitação de João de Mena começada pelo infante D. Pedro. O ultimo vestigio d'esta unidade poetica da Peninsula foi assignado por Sarmiento na comparação dos Adagios gallegos: «Los Adagios gallegos son los mismos que los de los Portuguezes y Castellanos mas antiguos[53]; y los Catalanes, que son semejantes á los Francezes...» (Ibid., 178.) No seculo XV ainda em Portugal Camões escreveu dois sonetos em lingua gallega, cuja intenção se não pode conhecer; no seculo XVII o Marquez de Montebello caracterisa o gosto das mulheres de Braga pelo canto em córos, tal como no seculo XVIII observa Sarmiento na Galliza; diz o Marquez: «Com grande destreza se exercita a musica, que é tão natural em seus moradores esta arte, que succede muitas vezes aos forasteiros que passam pelas ruas, especialmente nas tardes do verão, parar e suspenderem-se ouvindo as trovas que cantam em córos com fugas e repetições as raparigas, que, para excitar o trabalho de que vivem lhes é permitido...» (Vida de Manoel Machado de Azevedo.) Sarmiento escrevendo em 1741, observa tambem a influencia da mulher na poesia popular da Galliza: «Ademas d'esto he observado que en Galicia las mujeres no solo son poetisas, sino tambien musicas naturales.» (P. 237.) Esta caracteristica explica-se ethnicamente: «los paizes que estan entre los dos rios Duero y Miño, pertenecian á Galicia y no á Lusitania. Ptolomeo expresamente pone dos classes de gallegos: unos Bracharenses cuya capital era Braga; y otros Lucenses, cuya cabeza era Lugo. Pero despues que Portugal se erigió en reyno á parte, agregó muchos paizes de Galicia. De esto ha resultado que muchas cosas, que en realidad son gallegas han passado por portuguezas; etc.» (Ib. p. 201.) Isto se pode applicar á antiga tradição do Peito Burdelo ou do tributo das donzellas, versificada na Galliza, e hoje só conhecida em Portugal[54].
Caracterisando a poesia popular da Galliza, continúa Sarmiento: «Generalmente hablando, assi en Castilla como en Portugal y en otras provincias los hombres son los que componem las coplas e inventam los tonos ó ayres; y ahi se vé que en este genero de coplas populares, hablan los hombres con las mujeres ó para amarlas ó para satyrisarlas. En Galicia es el contrario. En la mayor parte de las coplas gallegas hablan las mujeres con los hombres; y es porque ellas son las que componen las coplas sin artificio alguno; y elas mismas inventan los tonos ó ayres a que las han de cantar, sin tener ideia del arte musico.» (Ib. p. 237.) Este caracteristico é mui bem observado, com a differença porém, no que diz respeito a Portugal, se deve exceptuar o Minho, o qual, não só pelo que vimos do trecho do Marquez de Montebello, como pelo estado actual da tradição alli, são as mulheres que exclusivamente cantam e improvisam, e os homens em geral conservam-se mudos, pelo seu estado de estupidez. Um moderno escriptor que viveu no Minho, dá-nos a seguinte noticia do estado da poesia popular: «Passei á orla das cortinhas onde mourejavam as moças da aldeia, e ouvi-as cantar ladainhas e versos de Sam Gregorio. Quedaram de cantar e romperam n'um murmurio monotono: resavam a corôa.» O phenomeno da Galliza e do Minho em que as mulheres são as que conservam a poesia, é o resultado da sua ultima decadencia; os padres prohibem as cantigas amorosas e impõem a Ladainha ou o Bemdito. As Romarias, são um meio em que o fanatismo das classes populares se concilia com as suas tradições lyricas; a Galliza e o Minho tem as Romarias como as suas festas mais queridas, como o pretexto dos seus cantos e dansas. Muitas das antigas Serranilhas do Cancioneiro da Vaticana alludem aos logares das romarias:
Ir a San Salvador...
A la egreja de Vigo...
Ir a Santa Cecilia...
Ora vou a San Servando...
Ide a San Mamede, ver-me-hedas... etc.
Estes versos formavam um genero ainda conhecido em Portugal no principio do seculo XVI pela designação de Cantos de ledino. A descripção que Sarmiento faz d'este costume da Galliza corresponde tambem ainda hoje ao nosso Minho: «Aun hoy executan lo mismo aquelles nacionales quando van á algun santuario ó Romeria. Siempre van en tropa hombres y mujeres. Estas cantando coplas al asunto y tocando un pandero; uno de los hombres tañendo flauta; y otro ó otros dançando continuamente delante hasta cansarse, y entran otros despues. Es verdad que non lleban armas para batirlas al compas, pelo lleban en su logar un genero de instrumento crustico que en el pais llaman ferreños (em portug. ferrinhos) y en Castella sonajas[55].» Pela poesia popular da Galliza se explicam as formas dos Cantares de Amigo dos nossos Cancioneiros aristocraticos, as Serranilhas, cujos refrens ainda prevalecem hoje no lyrismo brazileiro, os cantos guayados e de ledino, ainda lembrados em Portugal no seculo XVI, os caracteristicos dos cantos do Minho entoados por mulheres e ao mesmo tempo a falta de tradições epicas.
Os trovadores e jograes que figuram no Cancioneiro da Vaticana, constituiram um genero poetico d'esta caracteristica tão especial dos cantos populares gallegos; a par de muitas canções de uma metrificação artificial e de um sentimento requintado, apparecem os mais suaves idylios em um parallelismo quasi biblico, com retornellos repetidos, em que são as mulheres que fallam dos seus namorados, despedindo-se, esperando-os, arrufando-se com elles, pondo prazo para romarias. Chamou-se a este genero Cantares de Amigo, e o que assombra é a persistencia d'esta fórma, que se elevou do povo até á imitação aristocratica, obtendo a predilecção de el-rei Dom Diniz, e como tornou a desapparecer dos Cancioneiros ficando até hoje nos costumes populares. Algumas d'essas cantigas de amigo eram tão proverbiaes que os segreis as intercallavam no meio das suas composições, como fazia Ayres Nunes, repetindo:
Sol-o ramo verde, frolido
Vodas fazem ao meu amigo;
e choram olhos de amor.
(Canc. da Vat., n.º 454.)
Uma canção de João de Gaya, termina com esta rubrica preciosa: «Esta cantiga foy seguida de uma baylada que diz:
Vós avedes los olhos verdes
e matar-me-hedes com elles.»
(Canc. da Vat., n.º 1062.)
Em outro logar o mesmo jogral satyrisando o alfaiate do bispo Dom Domingos Jardo, apresenta a rubrica: «Diz uma cantiga de vilaño:
Ó pee d'huna torre
bayla corpo e giolo,
vedel o cós, ay cavalleiro.»
(Canc., n.º 1043.)
Estes vestigios accentuam a corrente popular que entrou nos Cancioneiros, e nos dão a origem das mais bellas composições ou fórmas tradicionaes que ahi se conservam.
Portugal, Galliza e Brazil tão separados pelas vicissitudes politicas, conservam ainda inteira a sua unidade ethnica na tradição litteraria. É o que pretendemos fazer sentir n'este livro.
Pelo estudo da sua tradição é que as nacionalidades revivem; é pelo conhecimento do seu desgraçado passado que Portugal saberá traçar o seu novo destino. Na moderna nacionalidade brazileira o elemento portuguez da provincia de Minas, está destinado a manter a integridade de um povo facil a ser desnaturado por um excessivo cosmopolitismo. No seculo passado começou na Galliza um movimento nacional da tradição, pelos eruditos Feijó, auctor do Theatro critico, Sarmiento, o que até então melhor estudou as origens litterarias de Hespanha, e Sobreyra, que deixou os manuscriptos Ideia de un Diccionario de la lengua gallega. No emtanto as agitações napoleonicas embaraçaram esse progresso local, e a Galliza annullada pela centralisação castelhana, perdeu a sua lingua. Esta queda reflecte-se no annexim popular:
Sei que porque estás na Coruña
Xa non queres falar en galego[56].
O afastamento da Galliza de Portugal provém do esquecimento da tradição nacional e da falta de plano politico em todos os que nos tem governado. Em Portugal o espirito moderno penetra, mas ainda, é considerado como revolucionario. Na Galliza o estudo da tradição recomeçou já; a lingua tem já uma grammatica composta por D. Xam Anton Saco Arce[57], e um diccionario por D. Juan Cuveiro Pinhol; tem já uma historia, por D. Manoel Murguia, e a poesia é cultivada por vultos sympathicos como Elvira Luna d'o Castillo, D. Rosalia Castro de Murguia, D. Ramon Rua Figuénsa, Valentin L. Carvajal, Alberto Camiño, D. José Benito Amado, e Turnes, que fazem reviver esse dialecto outr'ora peculiar das côrtes peninsulares. E por isso que cada paiz tem o seu lyrismo bem caracterisado, em Portugal a poesia é o unico agente da ideia avançada que trabalha para a transformação futura; no Brasil predomina ainda a feição colonial, conservando as fórmas perdidas desde o seculo XVI na poesia portugueza; na Galliza, a poesia tem a ingenuidade e o fervor de uma renascença.
Theophilo Braga.