O URSO BRANCO
Elle é descommunal, titânico, felpudo;
Anda sinistramente a farejar na treva,
E causa-nos horror, como um gigante mudo.
Vive na escuridão phantastica do Neva,
E já ouvi dizer que essa alimaria informe
É também como nós filho de Adão e Eva.
Rasteja pela sombra; e mesmo quando dorme
Conserva sempre aberto um olho coruscante
Como um cacto real ensanguentado, enorme.
É o despota feroz o Cesar triumphante
D'uma crepuscular, longinqua Babylonia,
Que é como um pezadelo, uma visão do Dante.
Nas convulsões febris da bestial insomnia
Estorce-se a lamber as garras sensuaes,
Ruminando lá dentro o craneo da Polonia.
Anda espreitando ao longe as torres orientaes,
As flexas de Stambul, as morbidas almêas
Com o riso cruel dos lobos imperiaes.
Tira o sangue do povo e manda abrir-lhe as veias,
E os duques-generaes e os bispos-cortezãos,
Misturam-no com vinho e bebem-no nas ceias.
Satanaz é seu pae, e os tigres seus irmãos,
Depois de realisar doidas carnificinas,
Lava com agua benta as sanguinarias mãos.
Sobre os campos do mal semeia as guilhotinas,
Mergulha brutalmente a plebe esfarrapada
Na bronzea escuridão de tenebrosas minas:
Por isso quando vae de fronte levantada,
Entre o clamor febril da guarda pretoriana,
Erguendo para a luz a flammejante espada,
Debaixo de seus pés, em confusão insana,
Sente-se revolver um mar de imprecações,
Que abala o fundamento á consciencia humana.
Justiça! vae abrir as furnas dos leões!
Desce d'aquelle inferno ás gélidas entranhas,
E arranca-me de lá os tristes corações,
Que sentem sobre si o peso das montanhas.
Transforma n'uma lança os ferros das algemas!
Vae aos gelos do norte, as solidões estranhas...
Procura a fera brava; eia, mulher, não tremas!
Embebe-lhe sem dó no musculoso flanco
A lança virginal das coleras supremas.
Monta no teu corcel! Agarra o urso branco:
Ensina-lhe a dansar umas grutescas dansas,
E dá-o de presente a um magro saltimbanco
Que o mostre n'uma feira aos risos de crianças.
Guerra Junqueiro