OURO
Dizia o ouro á pedra: «Ente mesquinho,
Que profundo scismar sempre te prega
Á beira d'uma estrada, ou d'um caminho,
Pasmada, mas sem vêr, eterna cega?
Em vão o orvalho a ti te lava e rega!
Em ti não cresce nunca pão nem vinho,
Dura e inutil—o lodo é teu visinho,
E o homem só, por te pisar, te emprega.
Em ti só medra e cresce o cardo, os lixos,
Tu serves só d'abrigo ao lodo e aos bichos,
E ensanguentas os pés descalços, nús.
Oh pedra! quanto a mim sou a riqueza!»
A cega disse então, com singeleza:
—Eu tambem guardo no meu seio a luz!
Gomes Leal, Claridades do Sul, p. 33. Lisboa, 1875.