VII.

Protesto que com toda a resignação, e com a melhor vontade, acceito da vossa mão e da vossa adoravel e amorosa Providencia a molestia que deve pôr fim a meus dias, as dores, as afflicções e angustias da morte, e a mesma morte, e proponho tudo soffrer e levar com espirito penitente e christão, beijando a vossa divina e paternal mão, já em justissimo castigo e expiação das minhas culpas, já em testemunho do meu amor, e do desejo de acompanhar-vos em vossa sacratissima paixão, morte e Cruz, e de participar d'ella, pois que n'ella e por ella me remistes: por isso desde ja vos offereço todos aquelles padecimentos e a minha morte em satisfação dos meus peccados, e em sacrificio d'amor, gratidão, humildade e submissão a vossa Suprema Magestade; e não só conformo e resigno toda a minha vontade na vossa e renuncio toda a impaciencia, mas em igual espirito e intenção me sujeito a todas as humilhantes mudanças, corrupção e dissolução por que o meu corpo ha de passar, e a que a morte o ha de reduzir em justissima pena das offensas, de que no decurso da vida, foi causa, e instrumento contra o seu mesmo Senhor e Creador. Convenho, e até mesmo estimo, que todos os meus membros, ossos, e carne soffram os horrores e humiliações da sepultura, para assim ao menos repararem por fim a enorme injustiça da sua rebellião contra o espirito, e mais que tudo contra vós. E ainda que iste não fosse indispensavel pensão de todo o ser humano, eu mesmo se me fosse permittido, a pagaria por escolha minha, só para d'alguma maneira render á suprema Sabedoria de vossa divina Magestade um sacrificio, e testemunho nada equivoco, e incontestavel, do meu reconhecimento, submissão, e humildade.