VISITA XXXI.
Grande foi o amor, que Jesu Christo mostrou, quando junto da fonte de Sichar se assentou, esperando que viesse a Samaritana para a converter e para a salvar. Mas que excesso de amor não mostra elle aos homens, descendo do Ceo todos os dias sobre os nossos altares, esperando, e convidando as almas a fazer-lhe companhia, ao menos por algum espaço de tempo, tudo isto a fim de attrahil-as ao seu perfeito amor? Em todos os altares em que está Jesus Sacramentado, parece que falla, e a todos está dizendo: Homens, porque fugis da minha presença? Porque não vindes, e vos chegais a mim, que tanto vos amo, e por vosso bem estou aqui assim humilhado! que temor é esse vosso? Eu não venho agora ao mundo para julgar, mas estou aqui escondido neste Sacramento de amor só para vos communicar muitos bens e salvar a todo aquelle, que a mim recorrer.
Non veni, ut judicem mundum, sed ut salvem mundum
. (
Joan. 12.
)
Almas devotas, entendei que assim como Jesu Christo está vivo no Ceo, sempre rogando por nós, assim tambem no Sacramento do altar está fazendo continuadamente de noute, e de dia, o piedoso officio de nosso advogado, offerecendo-se como victima ao Eterno Pae, para nos alcançar as suas misericordias, e graças innumeraveis. Por isso dizia um devoto, que deviamos chegar a fallar a Jesus Sacramentado com confiança, e sem temor, assim como um amigo falla com outro amigo.
Pois, Senhor, se é tanta, a vossa bondade, deixai que eu vos abra com confiança o meu coração, e vos diga: Ó meu Jesus! ó namorado das almas, eu bem conheço a ingratidão, com que vos tratão os homens. Vós os mais, e não sois amado; fazeis-lhes todo o bem, e recebeis desprezos. Quereis fazer-lhes sentir as vosssas amorosas vozes, e elles não vos querem attender: offereceis-lhes as vossas graças, e elles as recusão. Ah, meu Jesus! e é verdade que tambem eu algum tempo fui do numero destes ingratos! Ah, Deus meu! É mais que verdade; mais eu quero emendar-me, e quero compensar nos dias, que me restão de vida, os desgostos, que vos tenho dado, fazendo quanto puder daqui era diante por vos agradar. Dizei, Senhor, o que quereis que eu faça: tudo executarei sem reserva: fazei-mo saber por meio da santa obediencia que eu não tarderei em o cumprir. Deus meu; eu vos prometto resolutamente de não deixar mais cousa alguma, que eu entenda de hoje em diante ser do vosso agrado, ainda que para esse fim me fosse preciso perder os parentes, os amigos, a estimação, a saude, e até a propria vida. Sim, perca-se tudo, e dê-se gosto a vós. Feliz perda, quando se perde, e se sacrifica tudo, para contentar o vosso coração, ó Deus da minha alma. Amo-vos, ó Bem infinito, summamente mais amavel que todos os outros bens. Desejo unir o meu pequeno coração a todos os corações, com que vos amão os Serafins: só a vós amo, e só a vós quero amar sempre.
Minha vontade, etc. (
Como a pag. 19.
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A Communhão Espiritual
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que vai a pag. 11.
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