VICTOR HUGO
traduzido por Machado de Assis
RIO DE JANEIRO
TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.
[SEGUNDA PARTE]
O engenhoso Gilliatt
[LIVRO TERCEIRO]
A luta
[I]
O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRARIO ANNUNCIA O CONTRARIO
Nada tão ameaçador como o equinoxio que retarda.
Ha no mar um phenomeno medonho que se póde chamar a chegada dos ventos do largo.
Em todas as estações, especialmente na época das syzygias, no momento em que menos se espera, o mar apresenta uma subita e estranha tranquillidade. Applaca-se aquelle prodigioso movimento continuo; cahe em madorna e languidez; parece que vai descançar: crer-se-hia que está fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flamulas de pesca, até ás insignias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões almirantes, reaes, imperiaes, dormem todos.
De repente esses pannos começam a mexer-se discretamente.
É a hora, se ha nuvens, de espreitar a formação dos cirrus; se o sol se põe, é a hora de examinar a côr da tarde; se é de noite e ha luar, é a hora de estudar as aureolas planetarias.
Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade cujo inventor não se conhece, observa o vidro com o microscopio e toma as suas precauções contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de assucar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em crystallisações semelhantes aos tuffos de hervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado o gnomon mysterioso gravado pelos romanos, ou pelos demonios, n'uma dessas estreitas pedras enigmaticas que na Bretanha se chama menhir, e na Irlanda cruach, o pobre pescador irlandez ou bretão retira a sua barça do mar.
Persiste entretanto a serenidade do céo e do oceano. A manhã rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos poetas e os antigos adevinhos, assustados de que se podesse crer na deslealdade do sol. Solem quis dicere falsum audeat.
A sombria visão do possivel latente é interceptada ao homem pela opacidade fatal das cousas. O mais temivel e o mais perfido aspecto é a mascara do abysmo.
Diz-se: anguis in herba; devia dizer-se: borrasca na calma.
Assim se passam horas, e ás vezes dias. Os pilotos assestam os seus oculos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se prende á colera secreta da expectação.
De subito ouve-se um grande murmurio confuso. Ha uma especie de dialogo mysterioso no ar.
Não se vê cousa alguma.
A extensão fica impassivel.
Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Accentua-se o dialogo.
Ha alguem por traz do horisonte.
Pessoa terrivel essa, é o vento.
O vento, isto é, a populaça de titães que chamamos Tufões.
Immensa plebe da sombra.
A India chamava-os Morouts, a Judéa Keroubins, a Grecia Aquilões. São os invisiveis passaros ferozes do infinito. Esses Boreas precipitam-se.
[II]
OS VENTOS DO LARGO
Donde vem elles? Do incomensuravel. Os seus grandes vôos exigem o diametro do golphão. As suas azas desmedidas precisam das solidões indefinidas. O Atlantico, o Pacifico, essas vastas aberturas azues, eis o que lhes convém. Fazem-n'as sombrias. Voam em bandos. O commandante Page vio de uma vez no mar alto, sete trombas a um tempo. Ahi são medonhas. Premeditam os desastres. Tem por trabalho delles o entumecimento ephemero e eterno dos vagalhões. Ignora-se o que elles podem, desconhece-se o que elles querem. São as sphynges do abysmo; e Vasco da Gama é o seu Œdipo. Faces de nuvens apparecem nessa obscuridade da extensão sempre em movimento. Quem descobre os seus lineamentos lividos nessa dispersão que é o horisonte do mar sente-se em presença da força irreductivel. Dissera-se que a intelligencia humana os assusta, e eriçam-se contra ella. A intelligencia é invencivel, mas o elemento é indomavel. Que fazer contra a ubiquidade que se não sujeita? O vento faz-se massa e torna-se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se. Quem depara com elles só póde lançar mão de expedientes. Elles frustam-nos pelo assalto diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpaveis tenazes. Como vence-los? A prôa do navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo prôa e piloto, costumava fallar-lhes. Elles maltratavam aquella prôa deosa. Christovão Colombo, vendo-os vir de encontro á Pinta subio ao tombadilho e dirigio-lhes os primeiros versiculos do Evangelho de S. João. Surcouf insultava-os. Ahi vem a pandilha, dizia elle. Napier descarregava-lhes tiros em cima. Elles tem a dictadura do chaos.
Tem o chaos. Que fazem delle? Fazem uma cousa implacavel. A cova dos ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos cadaveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas elles não ouvem a ninguem. Commettem cousas que parecem crimes. Não se sabe sobre quem atiram elles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade impia no naufragio! Que affronta á Providencia! Ás vezes parecem que cospem em Deos. São os tyrannos dos lugares desconhecidos. Luoghi spaventosi, murmuravam os marinheiros de Veneza.
Os espaços tremulos supportam os seus ataques. É inesprimivel o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se á sombra um elemento equestre. O ar faz um rumor de floresta. Não se vê nada, mas ouve-se um ruido de cavallos. É meio dia, de subito anoitece; passa um tornado; é meia noite, de repente esclarece, accende-se o effluvio polar. Alternam em sentido inverso os turbilhões, especie de dansa hedionda, tripudeo dos flagellos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens purpureadas, illuminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem esvasiada de raio, é carvão apagado. Saccos de chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As alvuras do mar debaixo do aguaceiro illuminam sorprehendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se reproduzem as semelhanças. Monstruoso umbigo vai rompendo as nuvens. Volteam os vapores, saracoteam as vagas; rolam embriagadas as nayades; a perder de vista, o mar massiço e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo é livido; desesperados gritos sobem desse palor.
No fundo da obscuridade inaccessivel tremem grandes germens de sombra. De quando em quando ha paroxismo. O rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horisonte, superposição confusa de vagas, oscillação sem fim, murmura continuamente; alli arrebentam extranhamente uns arremeços de fracaço; parece-se ouvir as hydras espirrando; sopram palitos frios, seguem-se halitos quentes. A trepidação do mar annuncia um medo que tudo espera. Inquietação. Angustia. Terror profundo das aguas. Subitamente, o furacão, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a agua sóbe para a boca invisivel, fórma-se uma ventosa, incha o tumor; é a tromba, o Prester dos antigos, stalactite em cima, stalagmite em baixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a columna da Biblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o trovão. Parece que tem medo.
Ha uma escala na vasta turvação das solidões; temivel crescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lyra do vento, as sete notas do abysmo. O céo é uma largura, o mar é um arredondado; passa um vento, já não ha nada disso, tudo é furia e confusão.
Taes são aquelles severos sitios.
Os ventos correm, voam, abatem-se expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: freneticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascivel. Tem harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céo. Sopram nas nuvens como n'um metal; embocam o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma especie de tangeres prometheanos. Quem os ouve, ouve Pan. que mais assusta é vêl-os assim. Tem uma colossal alegria composta de sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem tregoas, noite dia, em todas as estações, no tropico como no polo, tocando a trombeta delirante, vão elles, por meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos naufragios. São os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os seus cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens. Amassam como se tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da agua immensa.
A agua é flexivel porque é incompressivel. Resvala debaixo do esforço. Apertada por um lado, escapa por outro. É assim que a agua se faz onda. A vaga é a sua liberdade.
[III]
EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT
A grande approximação dos ventos para a terra faz-se nos equinoxios. Nessas épocas o grande balanço do tropico e do polo, e a collossal maré atmospherica derrama o seu flux em um hemispherio, e o reflux em outro. Ha constellações que significam esses phenomenos. Libra e Aquario.
É a hora das tempestades.
O mar espera silencioso.
Ás vezes o céo tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto por um grande panno obscuro; os marinheiros contemplam anciosos o ar opprimido de sombra.
Mas o que elles mais temem é o ar alegre. Céo risonho no equinoxio é a tempestade com pés de lã. Com céos desses, a Torre das Carpideiras de Amsterdão enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.
Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está ajuntando uma massa ainda maior. Enthesoura para destruir. Desconfia da acumulação de juros. Ango dizia: O mar é bom pagador.
Quando a demora é demasiado longa, o mar trahe a sua impaciencia pela calma. Sómente a tenção magnetica se manifesta naquillo que se póde chamar a inflamação da agua. Rompem clarões da vaga. Ar electrico, agua phosphorica. Os marinheiros sentem-se estafados. É uma hora especialmente perigosa para os encouraçados; o casco de ferro póde produzir falsas indicações da bussola e perdel-os. Assim pereceu o paquete transatlantico Yowa.
Para os que estão familiarisados com o mar, o seu aspecto nesses momentos é extranho; dissera-se que o mar deseja e receia o cyclone. Certos hymeneus, aliás impostos pela natureza, são acolhidos assim. A leôa desejosa foge diante do leão. Tambem a agua tem o seu calor, e dahi lhe vem o estremecimento.
Vae realisar-se o immenso consorcio.
Este consorcio, como as nupcias dos antigos imperadores, celebra-se com exterminações. É uma festa temperada de desastres.
Attenção, ahi vem o facto equinoxial.
Conspira a tempestade. A velha mythologia entrevia essas personalidades indistinctas misturadas á grande natureza diffusa. Eolo harmonisa-se com Boreas. O accordo do elemento com o elemento é necessario. Distribuem entre si a tarefa. Ha impulsões para a vaga, para a nuvem, para o effluvio; a noite é um auxiliar; deve ser empregada. Ha bussolas para desviar, pharóes para apagar, estrellas para esconder. É preciso que o mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um murmurio. Por traz do horisonte ha o cochicho prévio dos furacões.
É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do silencio assustado do mar.
Gilliatt ouvio esse chochichar tremendo. A phosphorescencia foi a primeira advertencia; o rumor foi a segunda.
Se existe o demonio Legião, esse demonio é o Vento, com certeza.
O vento é multiplo, mas o mar é um.
Dahi esta consequencia: toda tempestade é mixta. A unidade de ar o exige.
Abismo implica tempestade. O oceano inteiro está n'uma borrasca. A totalidade das suas forças entra em linha e toma parte nella. Uma vaga é o golphão de baixo; um tufão é o golphão de cima. Lutar com uma tempestade é lutar com o mar inteiro e o céo inteiro.
Messier, o homem da marinha, o astronomo pensativo da choça de Clerny, dizia: O vento de toda a parte está em todas as partes. Elle não acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados. Para elle não haviam ventos mediterraneos. Dizia que os conhecia na passagem. Affirmava que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constança, o antigo Favonio de Lucrecio, atravessara no horisonte de Paris; em outro dia era o Bora do Adriatico; em outro era o Noto giratorio que se pretende estar encerrado nas Cyclades. Especificava os effluvios. Não pensava que o vento que gira entre Malta e Tunis, e o vento que gira entre a Corsega e as Baleares, estivessem na impossibilidade de se libertarem. Não admittia os ventos, como ursos, fechados em jaula. Dizia: «Todas as chuvas vem do tropico, e todos os raios do polo.» O vento, com effeito, satura-se de electricidade na intercessão dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da agua no equador; traz-nos da linha o liquido e dos polos o fluido.
Ubiquidade é o vento.
Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada mais demonstrado que as correntes continuas, e dia virá em que a navegação aérea, servida pelos navios do ar (air-navires) que chamamos, por mania de grego, aeroscaphos, utilisará as linhas principaes. A canalisação do ar pelo vento é incontestavel; ha rios de vento, ribeiros de vento, riachos de vento; sómente ao invez das ramificações da agua, são os riachos que sahem dos ribeiros, e os ribeiros que sahem dos rios, em vez de serem affluentes: em vez de concentração, dispersão.
Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da atmosphera. Uma molecula deslocada desloca outra molecula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas do amalgama, acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosphera com todas as suas montanhas, fazendo nós e torções nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as contra-correntes. Irradiação illimitada.
O phenomeno do vento é a oscilação de dous oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de agua, apoia-se nessa fuga e vacilla nessa vacillação.
O indivisivel não usa compartimentos. Não ha tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do Cabo de Boa Esperança. A navegação universal faz frente a um monstro unico. Todo o mar é uma só hydra. As vagas cobrem o mar de uma especie de escama. Oceano é Ceto.
Nessa unidade abate-se o inumeravel.
[IV]
TURBA, TURMA
Para a bussola ha trinta e dous ventos, isto é, trinta e duas direcções; mas essas direcções podem subdividir-se indefinidamente. O vento classificado por direcções, é o incalculavel; classificado por especies, é o infinito.
Homero recuaria ante esse recenceamento.
A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equilibrio começa pelo choque, sahe a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispersão dos tufões sacode nos quatro cantos do horisonte o prodigioso esgadelhado do ar.
Ahi estão todos os rumos; o vento de Gulf-Stream que despeja tanta nevoa na Terra Nova: o vento do Perú, região de céo mudo onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Escocia onde vôa o grande Auk, Alca impennis, de bico riscado; os turbilhões de Ferro dos mares da China; o vento de Moçambique que maltrata os juncos; o vento electrico do Japão denunciado pelo gong; o vento da Africa que habita entre a montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadea dahi; o vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça uma parabola cujo cimo fica a oeste; o vento plutonico que sahe das crateras e que é o temivel sopro das chammas; o extranho vento proprio do volcão Awa que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a monção de Java, contra a qual estão construidas aquellas casamatas chamadas casas do furacão; a brisa ramificada que os inglezes chamam busk, bebida; os grãos arqueados do estreito de Malaca observados por Horsfurgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampero no Chile, e Rebojo em Buenos-Ayres, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pelle de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os pés; o vento chimico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoada; o hermatan do Caffres; o sopra-neves polar, que se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golpho de Bengala que vai até Nijni-Novogorod devastar o triangulo das barracas de pão onde se faz a feira da Asia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos archipelagos da Australia onde os caçadores de mel arrancam as colmêas silvestres escondidas nos galhos do eucalyptus gigante; o sirocco; o mistral; o hurricana; o vento de secca; os ventos de innundação; os diluvianos; os torridos; os que lançam nas ruas de Genova a poeira das planicies do Brazil; os que obedecem á rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer a Herrera: Malo viento torna contra el sol; os que vão aos pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aquelles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de Outubro a 28 de Novembro de 1520, puzeram em questão Magalhães abordando o Pacifico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Philippe II.
Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chama salto de vento e que tem por tarefa acabar com os naufragos; os que, com um sopro unico, deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que construem os circumcumuli; os ventos que construem os circumstrati; os pesados ventos cegos, tumidos de chuva; os ventos do graniso; os ventos da febre; os ventos cuja approximação faz ferver os salsos e os solfatarios de Calabria; os ventos que fazem brilhar o pello das pantheras de Africa andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vem sacudindo fóra da sua nuvem, como uma lingoa trigonocephala, o temivel relampago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal é o exercito.
O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt construia o quebra-mar, ouvia-lhes o galopo longinquo.
Já o dissemos, o Vento compõe-se de todos os ventos.
Acercava-se toda aquella horda.
De um lado, essa legião.
Do outro, Gilliatt.
[V]
GILLIATT PÓDE ESCOLHER
As mysteriosas forças escolheram bem o momento.
O acaso, se é que existe, é habil.
Emquanto a pança esteve guardada na angra do Homem, emquanto a machina esteve mettida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugnavel. A pança estava em segurança, a machina estava abrigada; as Douvres, que sustentavam a machina, condemnavam-n'a a uma destruição lenta, mas protegiam-n'a contra uma surpreza. Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso. A machina destruida não destruia a Gilliatt. Tinha a pança para salvar-se.
Mas esperar que a pança estivesse fóra do ancoradouro, onde era inaccessivel, deixal-a pôr entre as Douvres, esperar que ella lá estivesse presa tambem pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse o salvamento e o transporte da machina, não impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triumpho, esse era o laço. Via-se agora, como uma especie de lineamento sinistro, a sombria astucia do abysmo.
Agora, a machina, a pança, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. A pança esmigalhada no escolho, a machina mettida a pique, Gilliat, affogado, era negocio de um esforço unico num só ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispersão; tudo podia ser destruido de um lance.
Não ha situação mais critica do que a de Gilliatt.
A sphynge possivel, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe este dilemma.
Fica ou parte.
Partir era insensato, ficar era medonho.
[VI]
O COMBATE
Gilliatt trepou á grande Douvre.
Dahi via todo o mar.
Era sorprehendente o oeste. Sahia delle uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extenção, subia lentamente do horisonte para o zenith. Essa muralha rectilinea, vertical, sem um rombo no alto, sem um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda. Era nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na estremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e offerecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a cymalha deixasse um instante de ser paralella á linha do horisonte, quasi indistincta na obscuridade que se ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e silenciosamente. Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma saliencia. Era lugubre aquella immobilidade em movimento. O sol, livido por traz de uma certa transparencia morbida, alumiava aquelle lineamento de apocalipse. A nuvem invadia já quasi metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do abysmo. Era uma como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o céo.
Era em pleno dia a ascenção da noite.
Havia no ar um calor de fogão. Uma lixivia de estufa sahia daquelle amontoado mysterioso. O céo, que de azul tornára-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardosia. Embaixo o mar escuro e de chumbo, era outra ardosia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela. Os passaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.
O crescimento de toda aquella sombra amplificava-se insensivelmente.
A montanha movediça de vapores que se dirigia para as Douvres, era uma dessas nuvens que se podem chamar nuvens de combate. Nuvens vesgas. Atravez daquelles amontoados escuros, extranho estrabismo fita o homem.
Temivel era a approximação.
Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: «Tenho sede, vás dar-me agua.»
Ficou alguns momentos immovel com os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.
Tinha o barrete no bolso, tirou-o e pol-o na cabeça. Tirou do buraco, onde por tanto tempo dormira, o fato de reserva, e vestio tudo, grevas e capotão, como um cavalleiro veste a armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os pés descalços tinham-se endurecido nos rochedos.
Preparado o vestuario de guerra, contemplou elle o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de nós, desceu da platafórma das Douvres, tomou pé nas rochas debaixo, e correu ao deposito. Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pôde ouvir-lhe os sons do martello. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos prégos, cordas e vigas, construia na abertura de leste uma segunda porta de dez a doze pés por traz da primeira.
Profundo era o silencio. Os talos de herva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.
Subitamente o sol desappareceu. Gilliatt levantou a cabeça.
A nuvem ascendente acabava de attingir o sol. Foi como que uma extinção da luz substituida por uma reverberação mesclada e pallida.
A muralha de nuvem mudara de aspecto. Já não tinha unidade. Encrespara-se horisontalmenle tocando o zenith, pendendo em todo o resto do céo. Tinha agora divisões. A formação da tempestade desenhava-se como em uma secção dividida. Distinguia-se as camadas da chuva e os jazigos do granito. Não havia relampago, mas um horrivel clarão espesso; porque a idéa do horror póde ligar-se á idéa da luz. Ouvia-se o vago respirar da tempestade. Aquelle silencio palpitava obscuramente. Gilliatt, tambem silencioso, via agruparem-se por cima delle todos aquelles montões de bruma e compôr-se a difformidade das nuvens. No horisonte pesava e estendia-se uma facha de nevoeiro côr de cinza, e no zenith uma facha côr de chumbo; lividos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os nevoeiros debaixo. O fundo, que era a parede de nuvens, estava baço, leitoso, terreo, livido, indescriptivel. Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na compressão das nuvens, via-se na obscuridade, um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem pallida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras como se não soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes a um tempo, augmentava o eclipse, e continuava a sua interposição lugubre. A leste, por traz de Gilliatt, havia apenas um portal de céo claro que ia ser fechado. Sem a menor impressão de vento, passou uma extranha diffusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum passaro gigantesco acabasse de ser depennado por traz daquelle muro de tenebras. Formou-se um tecto de negrume compacto que, no extremo horisonte tocava no mar e misturava-se na noite. Sentia-se alguma cousa que se avançava. Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade lornava-se mais espessa. De subito roncou immenso trovão.
Gilliatt sentio o abalo. Ha sonho no trovão. Essa realidade brutal na região visionaria tem alguma cousa de terrifico. Acredita-se ouvir a queda de um movel no aposento dos gigantes.
Nenhum flammejar electrico acompanhara o som. Foi um trovão negro. Voltou o silencio. Houve uma especie de intervallo como quando se toma posição. Depois um após outro, e lentamente, romperam-se informes relampagos. Eram todos mudos. Nenhum rugido. Cada relampago illuminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nella abobadas, e arcarias. Viam-se traços. Esboçavam-se monstruosas cabeças; distendiam-se pescoços; entreviam-se e desappareciam elephantes carregados de torres. Uma columna de bruma, recta, redonda, com uma fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor collossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem. Acreditava-se vêr dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas espessuras, mergulhava-se, immovel, um caroço de nevoeiro denso, inerte, impenetravel ás faiscas electricas, especie de feto hediondo no ventre da tempestade.
Gilliatt sentio subitamente que um vento lhe agitou os cabellos. Tres ou quatro largas aranhas de chuva despedaçaram-se em roda delle na rocha. Depois houve um segundo trovão. Começou o vento.
A espera da sombra chegara ao cumulo; o primeiro trovão agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto abaixo, abrio-se uma fenda, toda a batega suspensa jorrou por esse lado, o buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o vomito da tempestade começou.
Tremendo foi o instante.
Aguaceiro, furacão, relampagos, raios, vagas até ás nuvens, espuma, detonações, torções freneticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.
O vento fulminava. A chuva não cahia, desabava.
Para um pobre homem, mettido, como Gilliatt, com um barco carregado, no intervallo de dous rochedos, em pleno mar, não ha crise mais ameaçadora. O perigo da maré, de que Gilliatt triumphára, nada era ao pé do perigo da tempestade. Eis a situação:
Gilliatt, em volta de quem tudo era precipicio, descobrio, no ultimo momento, e diante do risco supremo, uma estrategia engenhosa, Fez ponto de apoio no proprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversario, era agora o seu padrinho naquelle immenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquelle sepulchro uma fortaleza. Assestou-se naquelle pardieiro formidavel do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, aggregado ao escolho, face a face com o furacão. Pôr barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a unica cousa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um despota pode ser tambem vencido pelas barricadas. A pança podia ser considerada segura por tres lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais affeitos a produzir naufragios que a impedil-os. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude flux do alto mar, verdadeira porta de cidadella tendo por hombreiras as proprias columnas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que receiar por esse lado. O perigo estava a leste.
A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de pulverisação. Precisa ao menos duas lumieiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construia a segunda mesmo com a tempestade.
Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descahidas. Aquelle vento, que era o galerno antigo, tinha pouco effeito nas Douvres. Assaltava o escolho de travez, e não impeilia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua, esbarrava-se n'uma muralha. A tempestade atacava mal.
Mas os attaques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma viravolta subita. Se essa viravolta se fizesse a leste antes que a segunda claraboia do quebra-mar estivesse construida, o perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.
Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. Á força de ser uma raiva, dá lugar á intelligencia, e o homem defende-se; mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégoa, nenhum descanço para tomar alento. Ha uma não sei que de covardia nessa prodigalidade do inexgotavel.
Toda a immensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres. Ouviam-se vozes sem numero. Quem gritava assim? Estava alli o antigo terror panico. De quando em quando, parecia que era alguem que fallava, como se fizesse um commando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquelle grande e magestoso urro que os marinheiros dizem ser a chamada do oceano.
As espiraes indefinidas e fugazes do vento assoviavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daquelles torneamentos, eram atiradas contra os parceis como chapas gigantescas por athletas invisiveis.
A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva em baixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar idéa dos fracassos misturados áquellas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam immoveis, em outros o vento fazia vinte toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; dez léguas de agua de sabão enchiam o horisonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas semelhantes ás brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.
Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma agua incommensuravel, ouviam-se fogos de pelotão no firmamento. Havia no meio do tecto de sombra uma especie de vasta alcofa virada, donde cahiam em confusão, a tromba, a chuva, as nuvens, as côres rubras, os relampagos, a noite, a luz, os raios, tão formidaveis são essas inclinações do golphão!
Gilliatt parecia não attender a nada. Tinha a cabeça inclinada no trabalho. A segunda claraboia começava a levantar-se. A cada trovão respondia elle com uma martellada. Ouvia-se essa cadencia naquelle cahos. Estava com a cabeça descoberta. Uma lufada levou-lhe o chapéo.
Tinha uma sêde ardente. Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de chuva tinham-se formado á roda delle nas covas do rochedo. De quando em quando tirava agua com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.
Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não terminasse a tempo o quebra-mar. Porque motivo perder um minuto para ver approvimar-se a face da morte?
A desordem em torno delle era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. Ás vezes o raio parecia descer uma escada. As percursões electricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Haviam pedras de chuva da grossura de uma mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras tinham pedras.
O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvres; mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com rasão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da prôa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistencia; os calculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si propria elastica, uma reunião de pãos, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obstaculo que um breack-water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era além disso tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martello que mette o prego apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demolil-o, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguio atirar á pança, por cima do obstaculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças ao tapamento a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforço. Sentia tranquillamente atraz de si essa raiva inutil.
Os frocos de espuma, sahindo de todos os lados, assemelhavam-se a lã. A agua vasta e irritada afogava os rochedos, trepava por elles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e sahia das massas graniticas por fendas estreitas, especies de bocas inexgotaveis que faziam naquelle diluvio pequenas fontes placidas. Filetes de agua cahiam graciosamente daquelles buracos no mar.
A claraboia de reforço do tapamento de leste estava quasi concluida. Mais umas voltas de cordas e correntes, e approximava-se o momento de tambem lutar esse tapamento.
De subito, fez-se um grande clarão, a chuva e as nuvens separaram-se, era o vento que mudava, uma especie de janella grande crepuscular abrio-se no zenith, e apagaram-se os relampagos; pareceu que estava acabado. Era o começo.
O vento mudou de sudoeste para nordeste.
A tempestade ia recomeçar com uma nova matilha de furacões. Vinha do norte, violento assalto. Os marinheiros chamam a isso o vento de esboroar. O vento do sul tem mais agua, o vento do norte tem mais raios.
Vindo do nordeste, a aggressão ia dirigir-se ao ponto fraco.
Desta vez Gilliatt parou o trabalho, e olhou.
Collocou-se de pé sobre uma saliencia de rochedo inclinado por traz da segunda claraboia quasi terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e debaixo dessa demolição, esmagaria Gilliatt, Gilliatt no lugar que escolhera, seria achatado antes de ver a pança e a machina e toda a sua obra abysmar-se no golphão. Tal era a eventualidade. Gilliatt, acceitou-a, e, terrivel, elle a queria.
Nesse naufragio de todas as suas esperanças, morrer primeiro, convinha-lhe a elle; morrer primeiro, porque a machina fazia-lhe o effeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda os cabellos collados aos olhos pela chuva, apertou o martello, inclinou-se para traz, ameaçante, e esperou.
Não esperou muito.
Um ribombo deu o signal, fechou-se a abertura pallida do zenith, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tomou-se escuro, e não houve outro facho mais que o relampago. Começava o sombrio ataque.
Possante vagalhão, visivel entre os relampagos, levantou-se a leste além do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro. Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cylindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.
Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partio-se em dous e continuou. Os dous pedaços juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande montanha de agua, e de parallela que estava ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a fórma de uma viga.
Atirou-se ao quebra-mar aquelle ariete. Rugia o choque. Tudo desappareceu em espuma.
Não se póde imaginar o que são essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quaes engole rochedos de mais de cem pés de altura, taes, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o Pinaculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagascar, saltam por cima da ponta de Pintingue.
Durante alguns instantes, o rolo de mar tapou tudo. Só ficou visivel um montão furioso, uma escuma immersa, a alvura de um sudario fluctuando no vento do sepulchro, uma mistura de ruido e de tempestade debaixo da qual trabalhava o exterminio.
Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.
O tapamento resistira. Nenhuma corrente arrebentou, nenhum prégo sahio. O tapamento mostrou á prova as duas qualidades do quebra-mar; foi flexivel como um caniço e solido como uma parede. O vagalhão dissolveu-se em chuva.
A espuma escorrendo ao longo dos zig-zags do estreito foi morrer debaixo da pança.
O homem que fizera aquelle açamo ao oceano não repousou.
A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarniçamento das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma tregoa. Gilliatt aproveitou-a para completar a claraboia de traz.
O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas violencias no flanco do escolho com uma solemnidade lugubre. A urna de agua e a uma de fogo que existem nas nuvens, esvasiava-se sem esgotar nunca. As ondulações altas e baixas do vento, pareciam movimentos de um dragão.
Quando a noite chegou já havia noite; não se pôde reparar nella.
Mas não era obscuridade completa. As tempestades illuminadas e cégas pelo relampago, têm intermittencias de visivel e invisivel. Tudo está claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se á sahida das visões, e á entrada das trevas.
Uma zona de phosphoro, côr da aurora boreal, fluctuava como um farrapo de flamma spectral por traz das espessuras de nuvens. Resultava uma vasta pallidez. As chapas de chuva eram luminosas.
E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Elle voltou-se para o relampago e disse: segura-me a vela!
Com o auxilio dessa claridade póde elle levantar a claraboia de traz, ainda mais acima da da frente. O quebra-mar estava quasi completo. Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de reforço, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabeça. O vento voltára bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste recomeçava. Gilliatt olhou para o mar. O quebra-mar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo vagalhão.
Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quasi juntos; finalmente um ultimo e tremendo.
Este que era um como que total de forças, tinha a figura de uma cousa viva. Não era difficil imaginar naquella intumescencia e naquella transparencia, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partio-se no quebra-mar. A sua forma quasi animada dilacerou-se num esguicho. Naquelle montão de rochedos e taboas, foi uma especie de esmagamento de hydra. A onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se á saliva de um leviathan.
A espuma que cahia deixava vêr uma devastação. O vagalhão fez obra. Dessa vez o quebra-mar soffreu um pouco. Uma longa e pesada viga, arrancada da claraboia da frente, foi lançada por cima do tapamento de traz, sobre a rocha inclinada escolhida por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez não estava elle ahi. Ficaria morto.
Houve na queda da viga uma singularidade, que, impedindo qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobresalto perigoso. Foi ainda util por outro modo como se vai vêr.
Entre a saliencia da rocha e o declive interno da garganta, havia um intervallo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou á alveola de um canto. Uma das extremidades da prancha atirada ao ar pela vaga, cahio no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.
Gilliatt teve uma idéa.
Pesar na outra extremidade.
A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, sahia d'ahi como um braço estendido. Essa especie de braço alargava-se paralellamente á facha interna da garganta, e a extremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de dezoito ou vinte pollegadas. Boa distancia para fazer o exforço.
Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o rochedo e metteu hombros á enorme viga. A viga era comprida, o que augmentava a força do peso. A rocha já estava abalada. Comtudo Gilliatt teve de tentar a cousa quatro vezes. Cahia-lhe dos cabellos mais suor do que chuva. O quarto exforço foi frenetico. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como uma boca, e a pesada massa cahio no estreito intervallo com um ruido terrivel, replica aos trovões.
Cahio direita, se esta expressão é possivel, isto é sem quebrar-se.
Imaginae um menhir precipitado todo inteiro.
A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt cedendo ao mesmo tempo, escapou de cahir tambem.
O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca agua. O monolitho, n'uma agitação de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralellas da garganta e fez uma parede transversal, especie de linha de união dos dous rochedos. Tocavam as duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma especie de beco sem sahida que ainda hoje pode ser visto. A agua por detraz dessa barra de pedra, é quasi sempre tranquilla.
Era um baluarte aquelle ainda mais invencivel que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres. Esse tapamento interveio a proposito.
Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obstaculo. A primeira claraboia começava a desarticular-se. Uma malha de quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitavel o alargamento do buraco, e nenhum meio póde remediar logo. A vaga carregaria o trabalhador.
Uma descarga electrica, que illuminou o escolho, descobrio a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas e correntes começando a fluctuar ao vento, um rasgão no centro do aparelho. A segunda claraboia estava intacta.
O penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervallo das rochas, por traz do quebra-mar, era a mais solida barreira, mas tinha um defeito; era demaziado baixo. As vagas não podiam rompel-o, mas podiam galgal-o.
Era impossivel faze-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser utilmente sobrepostas áquelle tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas, como arrastal-as, como levantal-as, como collocal-as, como fixal-as? Pregam-se taboas, não se pregam rochedos.
Gilliatt não era Encelado.
A pouca elevação daquelle pequeno isthmo de granito preocupava Gilliatt.
Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o quebra-mar; já se não encarniçavam, parecia que se applicavam. Ouvia-se naquella construcção abalada uma especie de escouceamento regular.
De repente um pedaço de peça de viga, destacado da dislocação, pulou por cima da segunda claraboia, voou por cima da rocha transversal, e foi cahir na garganta do rochedo, onde a agua a levou pelas sinuosidades da viella. É provavel que fosse esbarrar na pança. Felizmente, no interior do escolho, a agua fechada por todos os lados, mal se resentia da agitação exterior. Havia pouco marulho, e o choque não devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de occupar-se com essa avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto vulneravel, a imminencia estava diante delle.
Profunda foi, por alguns instantes, a escuridão, interrompeu-se o relampago, connivencia sinistra; a nuvem e a vaga eram a mesma cousa! houve um golpe surdo.
Depois um fracasso.
Gilliatt adiantou a cabeça. A claraboia que tapava a frente estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. O mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.
Gilliatt sentio o que sentiria um general vendo voltar a vanguarda.
A segunda tapagem resistio ao choque. A armadura de traz estava fortemente ligada. Mas a claraboia despedaçada era pesada, estava á disposição das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras que lhe restavam impediam-n'a de partir-se em pedaços, e mantinham-lhe todo o volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como apparelho de defeza faziam agora d'aquillo uma excellente ferramenta de destruição. De broquel tornara-se massa. Além disso as fracturas herissavam-n'a, sahiam-lhe pontas em toda ella, cobriam-n'a de dentes esporas. Nenhuma arma contundente mais temivel e propria para ser manejada pela tempestade do que aquella.
Era o projectil, e o mar a catapulta.
Succediam-se os golpes com uma especie de regularidade tragica. Gilliatt, pensativo por traz daquella porta tapada por elle, ouvia esse bater da morte querendo entrar.
Elle refletio amargamente que, se não fosse o cano da Durande tão fatalmente retido no casco estaria áquella hora, e desde manhã, em Guernesey, e no porto, com a pança abrigada e a machina salva.
Realisou-se o tremendo perigo. Fez-se a effração. Foi como uma agonia de moribundo. Todo o madeiramento do quebra-mar, as duas armaduras confundidas e despedaçadas juntas, foi n'uma tromba d'agua rolar no tapamento de pedra como um cahos n'uma montanha, e parou. Foi um travamento informe de pãos embrenhados, penetravel ás vagas, mas pulverisando-as ainda. Aquelle baluarte vencido agonisava heroicamente. O mar quebrou-o, elle quebrava o mar. Derrubado ainda ficava um pouco efficaz. A rocha que senda de tapagem, obstaculo sem recurso possivel, retinha-o pelo pé. A garganta naquelle ponto, era muito estreita; a tempestade victoriosa tinha empurrado, misturado e empilhado todo o quebra-mar naquelle lugar angustioso; a violencia da impulsão, misturando a massa, e mettendo as fracturas umas nas outras, fez daquella demolição uma cousa solida. Estava destruido e inabalavel. Só algumas peças de páo ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga. Uma passou no ar, perto de Gilliatt. Elle sentio o ar agitado pela taboa na fronte.
Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporaes voltam sempre, com uma periodicidade imperturbavel, saltavam por cima das ruinas do quebra-mar. Cahiam na garganta, e a despeito dos cotovellos que a viella tinha, chegavam a levantar a agua. A onda do estreito começava a agitar-se de um modo feio. Accentuava-se o beijo obscuro das vagas nas rochas.
Como impedir agora que essa agitação se propagasse até á pança?
Não precisava muito tempo para que toda a agua interior ficasse tempestuosa, e com algumas ondas, a pança seria estripada, e a machina a pique.
Gilliatt scismava tremulo.
Mas não se desconcertou. Para aquella alma havia derrota possivel.
O furacão engolphava-se agora entre as duas muralhas do estreito.
De subito resoou e prolongou-se a alguma distancia por traz de Gilliatt um estalo mais assustador, que tudo quanto Gilliatt até então ouvira.
Era do lado da pança.
Passava-se alli alguma cousa funesta.
Gilliatt correu.
Do lado de leste, onde se achava, não podia elle vêr a pança por causa dos zig-zags da viella. Na ultima volta parou e esperou o relampago.
Rompeu o relampago e mostrou-lhe a situação.
Á vaga da abertura de leste correspondeu um tufão na abertura de oeste. Esboçava-se um desastre.
Á pança não tinha avaria visivel; ancorada como estava, dava pouco flanco, mas o casco da Durande estava em risco de cahir.
Aquella ruina, em semelhante tempestade, apresentava uma victima. Estava toda fora d'agua, no ar, offerecida ao temporal. O buraco que Gilliatt praticára para extrahir a machina enfraquecêra o casco. O barrote da quilha estava cortado. O esqueleto tinha columna vertebral despedaçada.
Soprára em cima o furacão.
Não precisou mais. A amurada dobrou-se como um livro que se abre. Fez-se o desmembramento. Foi estalo que, no meio da tempestade, chegára aos ouvidos de Gilliatt.
O que elle vio ao chegar parecia quasi irremediavel.
A incisão operada por elle tornára-se uma chaga. Dessa abertura fez o vento uma fratura. O córte transversal separava em duas a Durande. A parte posterior, a que ficava em frente de Gilhatt, vizinha da pança, ficára solida nos rochedos. A parte anterior, que fazia face a Gilliatt, estava pendurada. Uma fractura é um gonzo. Aquella massa oscillava sobre as suas fendas, e o vento balançava-a com um tremendo rumor.
Felizmente a pança já não estava em baixo.
Mas o balanço abalava a outra metade do casco, ainda presa e immovel entre as duas Douvres. Do abalo á queda, a distancia era pequena. Com a teima do vento, a parte deslocada podia subitamente arrastar a outra que tocava quasi na pança, e tudo, pança e machina, ficaria engulido.
Gilliatt, tinha isso diante dos olhos.
Era a catastrophe.
Como desvial-a?
Gilliatt, era daquelles que tiram recurso do proprio perigo. Reflectio um momento.
Depois, foi ao deposito e tirou o machado.
O martello trabalhára muito; era chegada a vez do machado.
Gilliatt subio á Durande. Firmou-se na parte do navio, que ainda estava segura, e, inclinado sobre o precipicio do intervallo das Douvres, pôz-se a cortar as taboas quebradas, e tudo quanto ainda prendia o pedaço de casco pendente.
Consummar a separação dos dous pedaços do casco, libertar a metade solida, deitar ao mar aquillo que o vento destruira, dar o quinhão á tempestade, tal era a operação. Era mais perigosa que difficil. A metade pendente do casco, empuchada pelo vento e pelo peso, adheria apenas por alguns pontos. O conjuncto do casco assemelhava-se a um dyptico, partido em dous pedaços, e batendo ambos um no outro. Cinco ou seis peças apenas, vergadas e arrebatadas, mas não completamente soltas, ainda sustentavam o casco. As fracturas guinchavam e alargavam-se a cada sopro do vento, e o machado apenas ajudava. Esta circumstancia, que tornava facil o trabalho, tornava-o arriscado tambem. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo Gilliatt.
A tempestade attingio ao paroxysmo. Até então fôra terrivel, agora fez-se horrivel. A convulsão do mar reproduzio-se no céo. A nuvem até então fôra soberana, parecia executar a sua vontade, dava o impulso, derramava ás vagas a loucura, conservando sempre uma lucidez sinistra. Em baixo havia demencia, em cima colera. O céo era o sopro, o oceano era apenas a espuma. Dahi vem a autoridade do vento. O furacão é genio. Entretanto a embriaguez de seu proprio horror tinha-o perturbado. Agora era o turbilhão. Era a cegueira produzindo a noite. Ha nos temporaes um momento insensato; é para o céo uma especie de sangue que sobe á cabeça. O abysmo já não sabe o que faz. Fulmina ás apalpadellas.
Nada mais horrendo. É a hora hedionda. Chegara ao cumulo o tremor do escolho. A tempestade tem um plano mysterioso; mas nesse instante perde-o. É a má hora da tempestade. Nesse instante, o vento, dizia Thomas Fuller, é um doido furioso. É nesse instante, que as tempestades fazem essa despeza continua de electricidade que Piddington chama a cascata de relampagos. É nesse instante, que apparece nas nuvens mais negras, não se sabe porque e como que para espiar o terror universal aquelle circulo azul que os velhos marinheiros hespanhóes chamavam o olho da tempestade, el ojo de la tempestad. Esse olho lugubre fitava Gilliatt.
Gilliatt de seu lado contemplava a nuvem. Levantou a cabeça. Dava uma machadada e levantava-se altivo. Estava, ou parecia estar demasiado perdido, para que não tivesse orgulho. Desesperava? Não. Ante o supremo accesso de raiva do oceano, Gilliatt era tão prudente quanto audaz. Em cima do casco, só pisava o ponto solido. Arriscava-se e preservava-se. Tambem elle chegára ao paroxismo. Decuplou-se-lhe o vigor. Estava desvairado de intrepidez. Os golpes de machado soavam como desafios. Parecia ter ganho o que tinha perdido a tempesdade. Conflicto pathetico. De um lado o inesgotavel, do outro o infatigavel. Estavam a ver qual dos dous venceria. As nuvens terriveis modelavam na immensidade mascaras de gorgonas, produzia-se toda a intimidação possivel, a chuva surgia das vagas, a espuma tombava das nuvens, curvavam-se os fantasmas dos ventos, faces de meteóro avermelhavam-se e eclypsavam-se, e a obscuridade, apoz tantos desmaios, era monstruosa; havia um só derramamento, vindo por todos os lados ao mesmo tempo; tudo era ebulição; a sombra em massa transbordava; cumulus carregados de graniso, esfarelados, côr de cinza, pareciam andar num frenezim giratorio, havia no ar um rumor de grãos seccos, sacudidos n'uma peneira, as eletricidades inversas observadas por Volta faziam de nuvem em nuvem os fulminantes disparos, os prolongamentos do raio eram terrificos, os relampagos aproximava-se em torno de Gilliatt. O abysmo parecia espantado. Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o tombadilho debaixo dos pés, batendo, cortando, rachando, machado em punho, livido diante dos relampagos, esguedelhado, descalço, rôto, com a face coberta dos escarros do mar, grande naquella sentina de trovões.
Contra o delirio das forças, só a destreza póde luctar. A destreza era o triumpho de Gilliatt. Elle queria uma queda de todo o destroço deslocado. Por isso enfraqueceu as fracturas sem rompel-as completamente, deixando algumas fibras que sustentavam o resto. Subitamente parou com o machado no ar, a operação estava acabada. Todo o pedaço destacou-se.
Essa metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de Gilliatt, que ficou em pé n'outra metade inclinado e olhando; mergulhou-se perpendicularmente, arrombou os rochedos e parou na garganta antes de chegar ao fundo. Ficou uma parte fora d'agua, tanto quanto era sufficiente para dominar a onda mais de doze pés; foi mais uma barricada entre as duas Douvres; bem como a rocha atirada no estreito, deixava apenas filtrar um pouco de espuma nas suas extremidades, e foi essa a quinta barricada improvisada por Gilliatt, contra a tempestade, naquella rua do mar.
O furacão, cégo, trabalhava a ultima.
Foi uma felicidade que o angustiado das paredes internas impedisse de ir ao fundo aquella tapagem. Dava-lhe mais altura; demais a agua podia passar por baixo do obstaculo, o que affectava a força das ondas. Aquillo que passa por baixo não salta por cima. É esse em parte o segredo de quebra-mar fluctuante.
De ora ávante, houvesse o que houvesse, já não havia que receiar nem quanto á pança, nem quanto á machina. A agua já não podia agitar-se a roda dellas. Entre a tapagem das Douvres que as cobria a oeste, e o navio, tapamento que as protegia a leste, nenhuma onda, nenhum vento poderia attingil-as.
Gilliatt tirára da catastrophe a salvação. Ajudára-o a tempestade.
Feito isto apanhou um punhado de agua da chuva, bebeu e disse á nuvem: Cantaro!
É uma alegria ironica para a intelligencia combatente attestar a vasta estupidez das forças furiosas concluindo por prestar serviços, e Gilliatt sentio essa immemorial necessidade de insultar o inimigo, que remonta aos heróes de Homero.
Gilliatt desceu á pança e aproveitou os relampagos para examinal-a. Era tempo que a pobre barquinha fosse soccorrida; tinha sido muito sacudida e começava a arquear. Gilliatt, com aquelle olhar summario, não vio nenhuma avaria. Comtudo, era certo que ella devia ter recebido violentos choques. Acalmada a agua, endireitou o casco; as ancoras portaram-se bem; quanto á machina, as quatro correntes mantiveram-n'a admiravelmente.
Quando Gilliatt acabava a revista, uma cousa branca passou por elle e margulhou na sombra. Era uma gaivota.
Não ha melhor apparição nas tempestades. Quando os passaros chegam, é que a tempestade vae-se embora.
Outro signal excellente, o trovão redobrava.
As supremas violencias da tempestade desorganisam-n'a. Todos os marinheiros o sabem, a ultima prova é rude, mas curta. O excesso do raio annuncia-lhe o fim.
A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ruido nas nuvens. O temporal cessou como uma prancha que cahe no chão. Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a immensa machina das nuvens. Uma fenda de céo claro disjungio as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia claro.
A tempestade durára quasi vinte horas.
O vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escuridão depressa encheu o horisonte. As brumas rotas e fugitivas amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta á outra da linha do horisonte um movimento de retirada, ouvio-se um longo rumor decrescente, cahiram algumas gotas ultimas de chuva, e toda aquella sombra cheia de trovões foi-se como uma turba de carros terriveis.
Bruscamente fez-se azul o céo.
Gilliatt reparou que estava cançado. O somno abate-se sobre a fadiga como uma ave de rapina. Gilliatt deixou-se cahir na barca sem escolher lugar e dormio. Ficou assim algumas horas inerte e estendido, pouco distincto das pranchas e barrotes entre os quaes adormecera.
[LIVRO QUARTO]
O forro do obstaculo
[I]
QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHA
Quando Gilliatt acordou teve fome.
Acalmava-se o mar. Havia porém alguma agitação ao largo, que impedia a partida immediata. Demais o dia já estava adiantado. Com o carregamento da pança, para chegar a Guernesey antes de meia noite, era preciso sahir de manhã.
Embora a fome urgisse, Gilliatt começou por despir-se, unico meio de aquecer-se.
As roupas estavam molhadas da chuva, mas a agua da chuva lavára a agua do mar, o que fez com que agora podessem sêccar as roupas.
Gilliatt apenas ficou com as calças, que arregaçou até os joelhos.
Estendeu, com pesos em cima, nas saliencias do rochedo, todo o resto da roupa.
Depois pensou em comer.
Gilliatt recorreu á faca que teve o cuidado de afiar e tel-a em bom estado, e arrancou do granito alguns mariscos. Comeu-os crús. Mas depois de tantos trabalhos, fraca era a pitança. Já não tinha biscouto. Quanto á agua, não lhe faltava. Estava mais que saciado, estava innundado.
Aproveitou a vasante para perlustrar os rochedos á cata de lagostas. Já havia muita rocha descoberta; podia apanhar boa caça.
Sómente não reflectia elle que já não podia cozer peixe algum. Se tivesse de ir ao deposito veria tudo derrubado pela chuva. O pão e o carvão estavam encharcados, e da provisão de estopa, que lhe servia de isca, não tinha um fio que não estivesse molhado. Não havia meio de saccar fogo.
De resto, o folles estava desorganisado; a tempestade saqueou-lhe o laboratorio. Com o resto da ferramenta, Gilliatt, a rigor, podia ainda trabalhar de carpinteiro, não de forja. Mas Gilliatt, naquelle momento não pensava na officina.
Empuxado pelo estomago, sem mais reflexão, entrou a procurar comida. Errava, não na garganta do escolho, mas fóra, nas dobras dos cachopos. Foi desse lado que a Durande, dez semanas antes, esbarrára nas pedras.
Para a caça que Gilliatt fazia, o exterior da viella valia mais que o interior. Os carangueijos, nas aguas baixas, tem costume de tomar ar. Aquecem-se ao sol. Amam o sol aquelles entes disformes. É uma cousa estranha a sahida delles em plena luz. Quasi indigna-se a gente com elles. Quando os vemos, com o seu aspecto obliquo, subir pesadamente, um por um, os andares inferiores dos rochedos como degráos de uma escada, acreditamos por força que o oceano tambem tem os seus piolhos.
Desses piolhos vivia Gilliatt ha dous mezes.
Comtudo nesse dia os carangueijos e as lagostas andavam escondidos. A tempestade empurrára aquelles solitarios para os seus esconderijos, e ainda não se animavam a sahir. Gilliatt tinha na mão a faca aberta, e arrancava de quando em quando uma concha debaixo do sargaço. Comia andando.
Não devia estar longe do lugar onde se perdera o Sr. Clubin.
Quando Gilliatt já se resignara aos ouriços e castanhas do mar, fez-se um movimento a seus pés. Um grande carangueijo, assustado com a presença delle tinha pulado na agua. O carangueijo não mergulhou tanto que Gilliatt não o visse.
Gilliatt começou a correr atraz do carangueijo no esvasamento da rocha. O carangueijo fugia.
De repente não vio mais nada.
O carangueijo mettera-se por algum buracco debaixo do rochedo.
Gilliatt atracou-se aos relevos da pedra e esticou o pescoço para ver se via alguma cousa.
Havia com effeito uma anfractuosidade. O carangueijo devia ter-se refugiado ahi.
Era mais que uma fenda, era um portico.
O mar entrava por baixo desse portico, mas não era profundo. Via-se o fundo coberto de pedrinhas. Essas pedrinhas eram esverdeadas e revestidas de filamentos, o que indicava que nunca estavam a secco. Assemelhavam-se a cabeças de criança com cabellos verdes.
Gilliatt pôz a faca nos dentes, desceu do alto da rocha e saltou na agua. Teve agua quasi até os hombros. Metteu-se pelo portico. Achou-se num corredor gasto, com um esboço de abobada ogiva por cima. As paredes eram polidas e lizas. Já não via o carangueijo. Tomára pé. Caminhava e dimimuia-se a luz. Começou a não vêr cousa alguma.
Depois de quinze passos, cessou a abobada. Estava fóra do corredor. Havia mais espaço, e por consequencia mais luz; as pupillas tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surpresa.
Acabava de entrar naquella cava estranha visitada por elle um mez antes.
Sómente, desta vez entrou pelo mar.
Aquella arcaria que elle vira afogada, era a mesma por onde agora passou. Em certas marés baixas era praticavel.
Os olhos iam-se acostumando ao lugar. Via cada vez melhor. Estava estupefacto. Tornava achar aquelle extraordinario palacio da sombra, aquella abobada, aquelles pilares, aquelles rubros, aquella vegetação de pedras, e no fundo aquella crypta, quasi santuario, e aquella pedra, quasi altar.
Não se lhe despertavam muito os pormenores, mas tinha no espirito a idéa do todo, e reconheceu.
Via diante delle, em certa altura, na rocha, o buraco por onde penetrou a primeira vez, e que, do ponto onde estava agora, parecia inaccessivel.
Tornava a ver perto da arcaria ogiva as grotas baixas e obscuras, especie de cavas na cava, que já observára de longe. A que ficava mais perto delle estava a secco e era facil de se lhe chegar.
Mais perto ainda que essa descobrio elle, ao alcance da mão, uma fenda horisontal no granito. Provavelmente estava alli o caranguejo. Metteu a mão o mais que pôde, e procurou ás apalpadellas naquelle buraco de trevas.
De repente sentio que lhe agarravam no braço.
O que elle experimentou nesse momento foi o horror indescriptivel.
Uma cousa que era delgada, aspera, chata, gelada, pegajosa e viva torcia-se na sombra á roda de seu braço nú, e subia-lhe para o peito. Era a pressão de uma corrêa, e o impulso de uma verruma. Em menos de um segundo, uma especie de espiral tinha-lhe invadido o punho e o cotovello e tocava-lhe o hombro. A ponta mettia-se-lhe no sovaco.
Gilliatt atirou-se para traz, e mal pôde fazel-o. Estava como que pregado. Com a mão esquerda que ficava livre pegou na faca que tinha entre os dentes, e com essa mão, que segurava a faca, apoiou-se no rochedo com um esforço desesperado para saccar o braço. Só conseguio inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flexivel como o couro, solida como o aço, fria como a noite.
Outra corrêa, estreita e pontuda, sahio do buraco da rocha. Era uma especie de lingua sahindo de uma goela. Lambeu medonhamente o corpo nú de Gilliatt, e de repente, esticando-se, desmedida e fina, applicou-se-lhe na pelle e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um soffrimento inaudito, sem comparação neste mundo, levantava os musculos de Gilliatt. Sentia que lhe abriam a pelle em muitos pontos, de um modo horrivel. Parecia-lhe que innumeros labios, pregados á carne, procuravam beber-lhe o sangue.
Terceira corrêa sahio fóra do rochedo, apalpou Gilliatt, e chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal fixou-se como as outras.
A angustia, no paroxysmo, é muda. Gilliatt não soltou um grito. Havia bastante luz para que elle podesse ver as fórmas repellentes applicadas ao corpo delle.
Quarta ligadura, esta rapida como uma flecha, saltou-lhe em roda do ventre e enrolou-se-lhe.
Era impossivel cortar nem arrancar aquellas corrêas viscosas que adheriam estreitamente ao corpo de Gilliatt e por muitissimos pontos. Cada um desses pontos era um fogo de terrivel e estranha dôr. Era o que sentiria quem fosse engolido ao mesmo tempo por uma porção de bocas pequeninas.
Quinta ligadura rompeu do tronco. Sobrepôz-se aos outros e foi enroscar-se no diaphragma de Gilliatt. A compressão ajuntava-se á anxiedade. Gilliatt mal podia respirar.
Aquellas ligaduras, pontudas na extremidade, iam alargando como laminas de espada para o punho. Todas cinco pertenciam evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para Gilliatt. Elle sentia deslocar-se essas pressões obscuras que lhe pareciam bocas.
Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata sahio de dentro da rocha. Era o centro; as cinco ligaduras prendiam-se a elle, como raios a um eixo; ditistinguiam-se do lado opposto daquelle disco immundo o começo de outros tres tentaculos, presos no fundo do buraco. No meio dessa viscosidade haviam dous olhos.
Olhavam elles para Gilliatt.
Gilliatt reconheceu que era uma pieuvre.
[II]
O MONSTRO
Para acreditar na pieuvre é preciso tel-a visto.
Comparadas á pieuvre, as velhas hydras fazem sorrir.
Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que fluctua em nossos sonhos, encontra na realidade imans aos quaes esses lineamentos se prendem, e dessas obscuras ficções do sonho surgem creaturas. O ignoto dispõe do prodigio e serve-se delle para compôr o monstro. Orpheu, Homero e Hesiodo só poderam fazer a chimera; Deos fez a pieuvre.
Quando Deos quer excede no execravel.
A razão desta vontade é o medo do pensador religioso.
Admittidos todos os ideaes, se o terror é um fim, a pieuvre é uma obra prima.
A baleia é enorme, a pieuvre é pequena; o hypopotamo tem uma couraça, a pieuvre é núa: a jararaca tem um silvo, a pieuvre é muda; o rhinoceronte tem um chifre, a pieuvre não tem chifre; o scorpião tem um dardo, a pieuvre não tem dardo; o macaco tem uma cauda, a pieuvre não tem cauda; o tubarão tem barbatanas cortantes, a pieuvre não tem barbatanas; o vespertilio-vampiro tem azas com unhas, a pieuvre não tem azas; o porco espinho tem espinhos, a pieuvre não tem espinhos; o espadarte tem um gladio, a pieuvre não tem gladio; o torpedo tem um raio, pieuvre não tem raio; o sapo tem um virus, a pieuvre não tem virus; a vibora tem um veneno, a pieuvre não tem veneno; o leão tem garras, a pieuvre não tem garras; o gypoéte tem um bico, a pieuvre não tem bico; o crocodilo tem uma guela, a pieuvre não tem dentes.
A pieuvre não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem couraça, nem chifre, nem dardo, nem cauda, nem barbatanas, nem azas, nem espinhos, nem espada, nem descarga electrica, nem virus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre é de todos os animaes o mais formidavelmente armado.
O que é então a pieuvre? É a ventosa.
Nos escolhos em pleno mar, onde a agua mostra e esconde todos os seus esplendores, nas cavas de rochedos não visitadas, nas cavas desconhecidas aonde abundam as vegetações, os crustaceos e as conchas, debaixo dos profundos porticos do occeano, o nadador que se arrisca, arrastado pela belleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se tiveres esse encontro não sejas curioso, foge. Entra-se fascinado, sahe-se apavorado.
Eis o que é esse encontro sempre possivel nas rochas do mar alto.
Uma fórma cinzenta oscilla n'agua, da grossura de uma braça e de meia vara de comprido; é um trapo; essa fórma assemelha-se a um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o homem. De repente abre-se, oito raios sahem bruscamente da roda de uma face que tem dous olhos; esses raios vivem; flammejam ondeando; é uma especie de roda desenrolada, tem quatro ou cinco pés de diametro. Desentolamento medonho. Atira-se ao infeliz.
A hydra harpôa o homem.
Este animal applica-se á sua presa, cobre-a, envolve-a com os seus longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é terrea; nada póde imitar esse inexplicavel matiz de poeira; dissera-se um animal feito de cinza, e morando n'agua. É arachnida pela fórma, e cameleão pelo colorido. Irritada, torna-se roxa. Cousa horrivel, é flacida.
Os seus nós garroteara; o seu contacto paralysa.
Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a molestia feita monstruosidade.
Não se póde arrancal-a; agarra-se estreitamente á sua presa; como? Pelo vacuo.
As oito antenas largas na origem, vão estreitando-se e terminam como agulhas: debaixo de cada uma dellas alongam-se parallelamente duas filas de pustulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fila tem vinte e cinco. Ha cincoenta pustulas em cada antenna, e todo o animal tem quatrocentas. Essas pustulas são ventosas.
As ventosas são cartilagens cilyndricas e lividas. Na grande especie vão diminuindo de diametro—desde uma moeda de cinco francos até á grossura de uma lentilha. Esses pedaços de tubos sahem e entram no animal. Podem metter-se no corpo de um homem mais de uma pollegada.
Este apparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece á menor intensão do animal. As sensibilidades mais delicadas não igualam á contractibilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. Este dragão é uma sensitiva.
Este monstro é aquelle que os marinheiros chamam polvo, que a sciencia chama cephalopode, e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros inglezes chamam-no devil-fish, o peixe diabo. Chamam-no tambem blood-sucker, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na pieuvre.
É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e frequente em Serk.
Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um cephalopode estreitanto uma fragata. Dionizio Monfort pensa que na verdade o polvo das altas latitudes póde metter um navio a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas attesta que nas nossas regiões o polvo attaca o homem. Quem for a Serk verá perto de Brecq-Hou o buraco do rochedo onde uma pieuvre ha annos agarrou, reteve e affogou um pescador de lagostas. Peron e Lamarck, enganam-se quando duvidam que o polvo não tendo barbatanas possa nadar. Aquelle que escreve estas linhas, vio com seus proprios olhos em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir a nado um homem que tomava banho. Foi morta e medida; tinha quatro pés inglezes de largura e pôde-se contar quatrocentos chupadores. O bicho agonisante atirava-os para longe de si convulsamente.
Segundo Dionizio Montfort, um desses observadores, cuja alta intuição faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quasi as paixões de homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo é odiar.
O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação que o torna hostil.
A pieuvre nadando conserva-se por assim dizer na bainha. Nada com as antennas fechadas. Imaginem uma manga cozida com um punho dentro. Esso punho, que é a cabeça, impelle o liquido e avança com um vago movimento ondulatorio; os dous olhos, embora grandes, são pouco distinctos por serem da côr da agua.
A pieuvre quando espreita caça esquiva-se; diminue-se, condensa-se; reduz-se á mais simples expressão. Confunde-se com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo, excepto a cousa viva.
A pieuvre é o hypocrita. Não se rapara nella; repentinamente abre-se.
Que ha ahi de mais medonho que isso; uma viscosidade com uma vontade! O viscoso amaçado de odio.
É no mais bello azul d'agua limpida, que surge essa hedionda estrella voraz do mar. O que é terrivel, é que não se sente de longe. Quando a gente a vê, já está agarrada.
Comtudo á noite, e particularmente na estação do desejo, a pieuvre é phosphorica; aquelle pavor tem os seus amores. Aguarda o hymeneu. Faz-se bella, illumina-se, e do alto de algum rochedo, póde-se vel-a nas profundas trevas aberta n'uma irradiação, sol espectro.
A pieuvre anda; tambem nada. É um tanto peixe e um tanto reptil. Arrasta-se no fundo do mar. Utilisa as suas oito pernas. Roja-se como a lagarta.
Não tem osso, nem sangue e nem carne. É flacida. Não tem nada dentro. É uma pelle. Póde-se virar-lhe os tentaculos de dentro para fóra, como dedos de uma luva.
Tem um só orificio no centro dos oito raios.
É fria toda ella.
Repelente bicho, é um do mediterraneo. É um contacto hediondo, essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se pucha sem tirar, especie de creatura resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os dedos; mas nada iguala a subita apparição da pieuvre, Medusa servida por oito serpentes.
Não ha aperto igual ao do cephalopode.
É uma machina pneumatica que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma scarificação indisivel. Uma mordedura é temivel; é menos ainda que uma sucção. A garra não iguala a ventosa. A garra, é o animal que entra na carne; a ventosa é o homem que entra no bicho. Incham-se os musculos, torcem-se as fibras, rebenta a pelle, debaixo de um peso immundo, jorra o sangue, mistura-se horrivelmente á limpha do mollusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames; a hydra iucorpora-se ao homem; o homem amalgama-se á hydra. Ficam sendo um só. Pesa aquelle sonho. O tigre póde apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Pucha o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvasiado naquelle terrivel sacco, que é um monstro.
Além do terrivel, que é ser comido vivo, ha o inexprimivel, que é ser bebido vivo.
Essas estranhas animações são ao principio regeitadas pela sciencia, segundo o habito de sua excessiva prudencia; depois estuda-os, descreve-os, classifica-os, inscreve-os, põe-lhes rotulos, procura exemplares; expõe-nos em museos; elles entram na nomenclatura; ella os qualifica molluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as fronteiras; um pouco além os calmares, um pouco aquem os depiarios; para estas hydras da agua salgada acham um analogo na agua doce, o argyronete; divide-as em grande, media e pequena especie; admitte mais facilmente a pequena especie que a grande, o que é, em todas as regiões, a tendencia da sciencia, a qual é mais microscopica que telescopica; olha a sua construcção e chama-os cephalopodes; contam-se as suas antennas e chama-os octopedes. Feito isto, deixa-os assim. Onde a sciencia os larga, a philosophia os retoma.
A philosophia estuda por sua vez esses entes. Ella vae menos longe e mais longe que a sciencia. Não os disseca, medita-os. Onde o scalpello trabalhou, immerge a hypothese. Procura a causa final. Profundo tormento de pensador. Essas creaturas o inquietam quasi sobre o creador. São as sorprezas hediondas. São os perturbadores do contemplativo. Elle as verifica desvairado. São as formas intencionaes do mal. Que fazer diante dessas blasphemias da creação contra si propria? A quem deve elle queixar-se?
O possivel é uma matriz formidavel. O mysterio concreta-se em monstros. Lanhos de sombra sahem deste penedo,—a imminencia,—rasgam-se, destacam-se, rolam, fluctuam, condensam-se, enchem-se do negrume ambiente, recebem as polarisações desconhecidas, tomam vida, compõem uma forma com a obscuridade e uma alma com o miasma, e vão-se, larvas, atravez da vitalidade. É alguma cousa semelhante ás trevas feitas animaes. Porque? para que? Volta a questão eterna.
Esses animaes são fantasmas e monstros, a um tempo. São provados e improvaveis. Ser, é o facto, não ser, é o direito. São os amphibios da morte. A sua inverosimilhança complica a sua existencia. Tocam a fronteira humana e povoam o limite chimerico. Negaes o vampiro, apparece a pieuvre. É uma certeza que desconcerta a nossa segurança. O optimismo, que é a verdade, perde-se quasi diante delles. São a extremidade visivel dos circulos negros. Marcam a transição da nossa realidade a outra. Parecem pertencer a esse começo de entes terriveis que o sonhador entrevê confusamente na noite.
Esses prolongamentos de monstros, no invisivel, no principio, no possivel depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo extasis severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos philosophos. Dahi a conjectura de um inferno. O demonio é o tigre do invisivel. A besta feroz das almas foi denunciada ao genero humano por dous visionarios, um que se chama João, outro que se chama Dante.
Se com offeito os circulos da sombra continuam indefinidamente, se depois de um annel ha outro, se isto vai em progressão illimitada, se existe a cadêa, de que estamos resolvidos a duvidar, é certo que a pieuvre numa extremidade prova Satanaz na outra.
É certo que o mal n'um limite prova a maldade no outro.
Todo o animal feroz, como toda intelligencia perversa, é sphynge.
Sphynge terrivel, propondo o enigma terrivel. O enigma do mal.
Essa perfeição do mal é que faz inclinar ás vezes os grandes espiritos para a crença do Deos duplo, para o tremendo bifronte dos manicheos.
Uma rede chineza, roubada na ultima guerra, no palacio do imperio da China, representa o tubarão comendo o crocodilo, o qual come a serpente, a qual come a aguia, a qual come a andorinha, a qual come a lagarta.
Toda a natureza devora ou é devorada. As prezas mastigam-se umas ás outras.
Entretanto os sabios que tambem são philosophos, e por consequencia benevolos para a creação acham ou acreditam achar a explicação disto. O fim destas cousas apparece, entre outros, a Bonnet de Genebra, aquelle mysterioso espirito exacto, que foi opposto a Buffon, como mais tarde Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explicação dizem ser esta: a morte exige a inhumação. Esses vorazes são coveiros.
Todas as creaturas entram umas nas outras. Podridão é alimentação. Assustadora limpeza do globo. O homem, carnivoro, tambem é a lei terrifica. Somos sepulchros.
No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz monstros. Perguntais: Porque? É por isto.
Será isto a explicação? Será esta a resposta? Mas então porque não será outra a ordem? Reapparece a questão.
Vivamos, seja.
Mas façamos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos mundos menos tenebrosos.
Sigamos a consciencia que nos leva para lá.
Porquanto, não o esqueçamos nunca, o preferivel só é achado pelo melhor.
[III]
OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABYSMO
Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt pertencia.
Aquelle monstro era o habitante daquella grota. Era o medonho genio do lugar. Especie de sombrio demonio da agua.
Todas essas magnificencias tinham por centro o horror.
Um mez antes, no dia em que pela primeira vez Gilliatt penetrou na caverna, a fórma escura, entrevista por este nas dobras da agua secreta, era aquella pieuvre.
Estava ella em sua casa.
Quando Gilliatt entrando pela segunda vez na caverna, em busca do carangueijo, vio o buraco onde pensou que o carangueijo se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco á espreita.
Póde-se imaginar esta espera?
Nenhum passaro ousaria chocar, nenhum ovo ousaria abrir, nenhuma flôr ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum coração ousaria amar, nenhum espirito ousaria voar, se se pensasse nas sinistras emboscadas do abysmo.
Gilliatt mettêra o braço no buraco; a pieuvre agarrou-o.
Gilliatt estava preso.
Era a mosca daquella aranha.
Gilliatt tinha agua até á cintura, os pés agarrados nos seixos arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas corrêas da pieuvre, e o tronco do corpo desapparecendo quasi debaixo das dobras e crusamentos daquella atadura horrivel.
Dos oito braços da pieuvre, tres adheriam á rocha, cinco adheriam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um lado e ao homem pelo outro, encadeava Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em si duzentos e cincoenta chupadores. Complicação de angustia e de enjôo. Estava apertado dentro de uma grande mão, cujos dedos elasticos e do comprimento de um metro, são inteiramente cheios de pustulas vivas que lhe foçavam na carne.
Já o dissemos, não se pode arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ella aperta-se mais. O seu esforço cresce na razão do esforço do homem. Quanto maior é a sacudidella, maior é a constricção.
Gilliatt só tinha um recurso, a faca.
Tinha a mão esquerda livre; é sabido que elle usava della poderosamente. Podia dizer-se que tinha duas mãos direitas.
Nessa mão, tinha elle a faca aberta.
Não se cortam as antennas da pieuvre; é um couro impossivel de cortar, resvala debaixo da lamina; demais a superposição é tal que um córte nessas corrêas iria até á carne.
O polvo é formidavel, ha comtudo uma maneira de vencê-lo. Os pescadores de Serk o sabem; quem os vio executar no mar certos movimentos bruscos, tambem o sabe. Os ouriços do mar tambem conhecem esse modo; têm uma maneira de morder a siba que lhe córta a cabeça. Dahi vem que se encontram muitas sibas e pieuvres sem cabeça no mar alto.
O polvo, na verdade, só é vulneravel na cabeça.
Gilliatt não o ignorava.
Nunca tinha visto uma pieuvre daquelle tamanho. Logo da primeira vez, achava-se agarrado pela grande especie. Qualquer outro ter-se-hia perturbado.
Ha um momento para vencer a pieuvre, como o touro; é o instante em que o touro curva o pescoço, é o instante em que a pieuvre estica a cabeça; instante rapido. Quem o deixa escapar está perdido.
Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos. Gilliatt sentia crescer a sucção das duzentas e cincoenta ventosas.
A pieuvre é traidora. Procura apavorar a presa. Agarra, e espera o mais que póde.
Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções augmentavam.
Elle olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para elle.
De repente o bicho desprendeu do rochedo a sexta antenna e atirando-a sobre Gilliatt procurou agarra-lhe o braço esquerdo.
Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo, e a sua boca applicar-se-hia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt sangrado no corpo e preso pelos braços, estava morto.
Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.
Evitou a antenna, e no momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua mão armada abateu-se sobre o bicho.
Houve duas convulsões em sentido inverso, a da pieuvre e a de Gilliatt.
Foi luta de dous relampagos.
Gilliatt mergulhou a ponta da faca na viscosidade chata e com um movimento giratorio semelhante á torção de uma chicotada, fazendo um circulo á roda dos dous olhos arrancou a cabeça como quem arranca um dente.
Estava acabado.
O bicho cahio.
Parecia uma roupa que se desprende. Destruida a bomba aspirante, desfez-se o vacuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquelle andrajo foi ao fundo d'agua.
Gilliatt, offegante da luta, pôde vêr a seus pés em cima das pedras do fundo dous montes gelatinosos e informes, a cabeça de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque não se poderia dizer corpo.
Gilliatt, com tudo, receiando algum ataque convulsivo da agonia collocou-se fóra do alcance dos tentaculos.
Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.
[IV]
NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE
Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quasi sem folego; tinha o braço direito e o corpo rôxos; esboçavam-se nelles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. O remedio para essas lesões é a agua salgada; Gilliatt mergulhou n'agua. Ao mesmo tempo esfregava-se com a palma da mão e os tumores desappareciam.
Recuando e mergulhando n'agua, achou-se elle proximo da especie de cava que ficava ao pé do buraco onde a pieuvre o agarrou.
A cava prolongava-se obliquamente, e a secco, debaixo das grandes paredes da caverna. Os seixos que alli se tinham ajuntado levantavam o fundo acima das marés ordinarias. Essa anfractuosidade, era um largo cimbrio abatido, um homem podia entrar curvando-se. A claridade verde da caverna penetrava ahi e illuminava-a fracamente.
Aconteceu que, esfregando a pelle entumecida, Gilliatt levantou machinalmente os olhos.
Olhou para dentro da cava.
Estremeceu.
Pareceu-lhe vêr no fundo desse buraco, na sombra, uma especie de cara rindo.
Gilliatt ignorava a palavra allucinação, mas conhecia a cousa. Os mysteriosos encontros com o inverosimil que chamamos allucinações, existem na natureza. Illusões ou realidades, as visões apparecem. Quem está presente, vê-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um pensativo. Tinha a grandeza de ser ás vezes allucinado como um propheta. Não se é impunemente sonhador dos lugares solitarios.
Acreditou em uma dessa miragens das quaes, homem nocturno como era, mais de uma vez teve medo.
A anfractuosidade figurava exactamente um forno de cal. Era um nicho baixo, em fórma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas iam extreitando-se até á extremidade da crypta onde os seixos e a abobada se juntavam e fechavam.
Gilliatt entrou, e inclinando a cabeça, dirigio-se para o que estava no fundo.
Era com effeito alguma cousa que ria.
Era uma caveira.
Só havia a cabeça, havia o esqueleto.
Um esqueleto humano estava deitado na cava.
O olhar de um homem audaz, em taes occasiões, quer saber das cousas a fundo.
Gilliatt olhou em roda de si.
Estava cercado de uma porção de carangueijos.
Não se mexiam elles. Era o aspecto de um formigueiro morto. Todos os carangueijos estavam mortos. Estavam vasios.
Os grupos, semeados, faziam no chão de seixos que enchiam a cava, constellações disformes.
Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhára por cima sem reparar.
Na extremidade da crypta onde chegára Gilliatt, havia maior espessura. Era um montão immovel de antennas, de patas, e de mandibulas. Pinças abertas conservavam-se direitas, e já se não fechavam. As caixas de ossos não se mechiam debaixo da sua crosta de espinhos; algumas viradas mostravam o interior livido. Este amontoado parecia uma multidão de sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.
Debaixo desse montão estava o esqueleto.
Via-se debaixo dessa porção de tentaculos e escamas, o craneo com as estrias, as vertebras, os femures, os tibias, os longos dedos nodosos, com unhas. As costellas estavam cheias de caranguejos. Tinha palpitado alli algum coração. Os buracos dos olhos estavam atopetados de bolor marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas fossas nasaes. Não havia nesse recanto da caverna nem sargaços, nem hervas, nem sopro de ar. Nenhum movimento. Os dentes riam.
O lado assustador do riso, é a imitação que faz delle uma caveira.
Aquelle maravilhoso palacio do abysmo, bordado e incrustado de todas as pedrarias do mar, revellava por fim o seu segredo. Era um covil, a pieuvre morava ahi; e era uma tumba, ahi jazia um homem.
A immobilidade espectral do esquelleto, e dos molluscos oscilavam vagamente, por causa da reverberação das aguas subterraneas que tremia naquella petrificação. Os carangueijos, mistura medonha, pareciam ter acabado a sua refeição. Aquellas cascas pareciam comer aquelle esqueleto. Nada mais estranho do que aquella bicharia morta, sobre aquelle homem finado Sombrias continuações da morte.
Gilliatt tinha diante de si, o armario da pieuvre.
Visão lugubre, donde surgia o horror profundo das cousas. Os carangueijos tinham comido o homem, a pieuvre tinha comido os carangueijos.
Não havia nenhum resto de roupa ao pé do cadaver. O homem devia ter sido agarrado nú.
Gilliatt attento e examinando, começou a tirar os carangueijos de cima do homem. Quem era esse homem? O cadaver estava admiravelmente dissecado. Dissera-se uma preparação de anatomia; toda a carne estava eliminada; já não restava nenhum musculo. Se Gilliatt fosse do officio reconheceria isso. Os periostios estavam brancos, polidos e como que lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e alli, seria marfim puro. As divisões cartilaginosas, estavam delicadamente affiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.
O cadaver estava como que enterrado debaixo de carangueijos mortos. Gilliatt desenterrava-o.
De repente inclinou-se vivamente.
Acabava de vêr á roda da columna vertebral, uma especie de atilho.
Era um cinto de couro, que evidentemente fôra atado ao ventre do homem antes de morrer.
O couro estava cheio de mofo. A fivella estava enferrujada.
Gilliatt puchou o cinto; as vertebras resistiram, e Gilliatt teve de quebral-as, para tirar o cinto. O cinto estava intacto. Começava a formar-se nelle uma crosta de conchas.
Gilliatt apalpou o cinto, e sentio um objecto duro de fórma quadrada no interior. Não era possivel abrir a fivella. Gilliatt cortou o couro com a faca.
O cinto continha uma caixinha de ferro, e algumas moedas de ouro. Gilliatt contou vinte guinéos.
A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindo-se por mola. Estava muito enferrujada. A mola completamente oxidada já não funccionava.
A faca veio em auxilio de Gilliatt. Com a ponta da lamina, fez elle pular a tampa da boceta.
A boceta abrio-se.
Só havia papel dentro della.
Um macinho de folhas finas, dobradas em quatro, estava no fundo da boceta. Estavam humidos, mas não alterados. A boceta hermeticamente fechada preservou-as. Gilliatt abrio-as.
Eram tres notas do banco de mil libras esterlinas cada uma, formando uma somma de setenta e cinco mil francos.
Gilliatt dobrou-as, pol-as na caixinha, aproveitou o pouco lugar que restava para deitar dentro os vinte guinéos, e fechou a caixinha o melhor que pôde.
Depois examinou o cinto.
O couro, outr'ora envernisado pela parte de fora, não o era no interior. Ahi estavam traçadas algumas letras com tinta gordurosa. Gilliatt decifrou as letras e leu: Sr. Clubin.
[V]
HA LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALLO QUE SEPARA SEIS POLLEGADAS DE DOUS PÉS
Gilliatt metteu outra vez a caixinha no cinto, e poz o cinto na algibeira da calça.
Deixou o esqueleto aos carangueijos com a pieuvre morta ao pé.
Emquanto Gilliat esteve com a pieuvre e o esqueleto, a maré enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pôde sahir mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe facil; conhecia a sahida, e era mestre nessas gymnasticas do mar.
Advinha-se o drama que se passára alli dez semanas antes. Um monstro agarrára o outro. A pieuvre agarrára Clubin.
Foi isso, na sombra inexoravel, o que se poderia chamar o encontro das hypocrisias. Houve no fundo do abysmo, um embate dessas duas existencias feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justiças.
O carangueijo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de carangueijos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um cão, um homem se póde, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo d'agua o corpo morto. Os carangueijos são os escaravelhos necrophoros do mar. Attrahe-os a carne putrida; elles approximam-se, comem o cadaver; a pieuvre os come depois. As cousas mortas desapparecem no carangueijo, o carangueijo desapparece na pieuvre. Já indicamos esta lei.
Clubin foi o engodo da pieuvre.
A pieuvre reteve-o e affogou-o; os carangueijos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquella cava, no fundo da anfractuosidade onde Gilliatt o achou.
Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra cousa que não fosse carangueijos. Parecer-lhe-hia comer carne humana.
Demais, elle tratava de cear o melhor possivel antes de partir. Já nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades são sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias ás vezes. Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no dia seguinte de manhã. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da maré, o tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de madrugada essa tapagem, empurrar a pança para fora, e abrir vela para Saint-Sampson. A brisa de calma que soprava, e que era sudoeste, era exactamente o vento que lhe era preciso.
Entrava o primeiro quarto de lua de Maio; os dias eram longos.
Quando Gilliatt, terminada a pesquiza dos rochedos e mais ou menos satisfeito do estomago, voltou para a garganta das Douvres, onde estava a pança, já o sol cahira no poente, e o crepusculo redobrava com aquelle meio luar que se póde chamar o luar do crescente; a maré, que tinha enchido completamente, começava a vasar. O cano da machina de pé acima da pança estava coberto pela espuma da tempestade de uma camada de sal que a lua embranquecia.
Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitára dentro da pança muita agua de chuva e do mar, e que, se quizesse partir no dia seguinte, era preciso esvasiar a barca.
Tinha verificado, ao deixar a pança para ir procurar carangueijos que havia cerca de seis pollegadas de agua no porão. A pá de esgoto bastaria para deitar essa agua fóra.
Chegando á pança, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia na pança perto de dous pés de agua.
Incidente terrivel, a pança fazia agua.
Enchera-se pouco a pouco durante a ausencia de Gilliatt. Carregada como estava, vinte polegadas de agua era sobre posse. Mais um pouco e a pança iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora mais tarde, só acharia fóra d'agua o casco e o mastro.
Não podia perder um minuto em deliberação.
Era preciso procurar o buraco, tapa-lo, depois esvasiar a barca, ou ao menos allivia-la. As bombas da Durande tinham-se perdido no naufragio; Gilliat estava reduzido á pá de esgoto.
Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.
Gilliatt poz mãos á obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo tremulo. Já não sentia fome, nem frio.
A pança continuava a encher. Felizmente não havia vento. O menor abalo da onda metteria a pança a pique.
A lua desapparecera.
Gilliatt, ás apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na agua, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.
Durante a tempestade, no momento critico em que a pança se arqueára, robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fractura no casco, a estibordo.
Este buraco estava infelizmente, podia-se quasi dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedira Gilliatt, na revista obscura e rapida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.
A fractura assustava, porque era larga, e tranquillisava porque, embora immersa neste momento pela enchente interna da agua, ficava acima do lume d'agua.
No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida no estreito, e já não havia nivel de fluctuação, a onda penetrára pela effracção na pança; a pança com mais essa carga mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do liquido filtrado, fazendo levantar a linha de fluctuação, manteve o buraco debaixo d'agua. Dahi vinha a imminencia do perigo. A cheia augmentára de seis pollegadas a vinte. Mas conseguindo tapar o buraco, podia-se esvasiar a pança; esvasiada a pança, voltaria á fluctuação normal, a fractura sahiria d'agua, e a secco, a reparação seria facil, ou ao menos possivel. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta de carpinteria em bom estado.
Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas más probabilidades! Gilliatt ouvia a agua correr inexoravelmente. Um empuchão e tudo iria a pique. Que desgraça! Talvez já não fosse tempo.
Gilliatt accusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As seis polegadas d'agua no porão deviam têl-o advertido. Foi estupidez attribuir as seis pollegadas d'agua á chuva e á espuma. Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quasi também a tempestade e a noite. Tudo era culpa delle.
Essas cousas duras, que elle dizia a si proprio, iam de envolta com o vai-vem do trabalho e não o impediam de observar.
Achar o buraco ora o primeiro passo; tapal-o era o segundo. Não se podia mais agora. Não se faz carpintaria debaixo d'agua.
Havia uma circumstancia favoravel, era que o buraco do casco foi aberto no espaço comprehendido entre as duas correntes que prendiam a estibordo o cano da machina. A estopa podia prender-se a essas correntes.
Entretanto a agua subia. Já passava de dous pés.
Gilliatt tinha agua acima dos joelhos.
[VI]
DE PROFUNDIS AD ALTUM
Gilliatt tinha á sua disposição, na reserva do apparelho da pança, um grande panno alcatroado com as competentes cordas longas nas quatro pontas.
Pegou nesse panno, amarrou dous cantos pelos cabos ás duas argolas das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o panno por cima da borda. O panno cahio como uma toalha entre a pequena Douvre e a barca, e mergulhou. A agua querendo entrar na pança applicou o panno ao casco sobre o buraco. Quanto mais a agua batia, mas adheria o panno. Foi collocado pela vaga sobre a fractura. A chaga da barca estava pençada.
A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do porão e as vagas de fóra. Jã não entrava nem gotta d'agua se quer.
O buraco estava tapado, mas não estopado.
Era uma espera.
Gilliatt começou a esvasiar a pança. Era tempo de allivia-la. O trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gilliatt confessava que não iria ao fim, e não chegaria a estancar o porão. Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilhação de sentir-se extenuado.
Media o progresso dos trabalhos pela baixa do nivel da agua nos seus joelhos. A descida era lenta.
Além disso a entrada da agua estava apenas interrompida. O mal estava palliado, mas não reparado. O panno, empurrado na fractura pela vaga, começava a fazer um tumor pelo lado de dentro. Parecia que havia uma mão fechada debaixo do panno, procurando romper o buraco. A lona, solida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tensão iam augmentando; não era certo que o panno não cedesse, e de um momento para outro o tumor poderia romper. Recomeçaria então a irrupção da agua.
Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, não ha outro recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de toda a especie, o que se acha á mão, tudo quanto a lingua especial chama forro, e mete-se o mais que se póde na fenda do tumor da lona.
Desse forro Gilliatt não tinha nenhum. Todos os pannos e estopas armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo vento.
Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. A pança já estava bastante alliviada, e elle podia ausentar-se um quarto de hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escuridão. Já não havia lua; apenas o sombrio céo estrellado. Gilliatt não tinha fios seccos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo para accendêl-a, nem lanterna para abrigal-a. Tudo estava confuso e indistincto na barca e no escolho. Ouvia a agua romurejar á roda do casco ferido, e nem se quer podia vêr o buraco; foi com as mãos que Gilliatt pôde averiguar a tensão crescente do panno. Era impossivel fazer naquella obscuridade uma pesquiza util de pedaços de lona e maçame esparsos nos cachopos. Como colher esses andrajos, sem luz? Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrellas e nem uma vela.
A massa liquida diminuira na barca, a pressão externa augmentára. Crescia o inchamento do panno. Entumescia-se cada vez mais. Era um abcesso prestes a abrir. A situação, um momento melhorada, tornava-se ameaçadora.
Era imperiosamente necessario um batoque.
Gilliatt apenas tinha as suas roupas.
Tinha-as posto a seccar nas saliencias do rochedo da pequena Douvre.
Foi buscal-as, e depositou-as na borda da pança.
Pegou no capote alcatroado e ajoelhando-se na agua, metteu-o no buraco, empurrando o tumor do panno para fóra, e portanto esvasiando-o. Depois metteu a pelle de carneiro, depois a camisa de lã, depois a japona. Tudo.
Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e com a calça engrossou e apertou o batoque. Estava prompto e não parecia insufficiente.
O batoque sahia pelo buraco tendo o panno por envolucro. A agua, querendo entrar, apertava o obstaculo, alargava-o utilmente na fractura, e consolidava-o. Era uma especie de compressa exterior.
No interior, tendo sido empurrado apenas o centro da lona, ficava á roda do buraco e do batoque um rolete circular do pau no tanto inais adherente quanto que as desigualdades da fractura o retinham. A via d'agua estava tapada.
Mas nada mais precario do que aquillo. Os relevos agudos da fractura que fixavam o panno, podiam fura-lo e por esses buracos entraria a agua. Gilliatt na obscuridade, não descobria isso. Era pouco provavel que o batoque durasse até de manhã. A anxiedade de Gilliatt mudou de forma, mas elle sentia a crescer ao mesmo tempo que sentia quebrarem-se-lhe as forças.
Continuou a esvasiar o porão, mas os seus braços, no extremo esforço, apenas podiam levantar a pá d'agua. Estava nú e tremia.
Gilliatt sentia a approximação sinistrada extremidade. Talvez houvesse uma vela ao largo, um pescador que por acaso passase nas aguas de Douvres podia ajudal-o. Era chegado o momento em que se tornava necessario um collaborador. Um homem e uma lanterna, e tudo estaria salvo. Sendo dous, esvasiava-se facilmente a barca; uma vez estancada, sem aquella sobrecarga liquida, voltaria ao nivel de fluctuação, o buraco sahiria d'agua, o reparo seria exequivel, podia-se immediatamente substituir o batoque por uma peça de madeira, e o aparelho provisorio por um concerto difinitivo. Senão, era preciso esperar até de manhã, esperar a noite toda! Funesta demora que podia ser a perdição. Gilliatt tinha a febre da urgencia. Se por acaso algum pharol de navio estava a vista, Gilliatt poderia fazer signaes, do alto da grande Douvre. O tempo estava calmo, não havia vento, não havia mar, um homem agitando-se no fundo estrellado do céo tinha a possibilidade de ser visto. Um capitão de navio, e mesmo um patrão de lancha, não anda de noite nas aguas das Douvres sem pôr o oculo no escolho; é a precaução.
Gilliatt esperava que o vissem.
Escalou o casco da Durande, empunhou a corda e subio á grande Douvre.
Nenhuma vella no horisonte. Nenhum pharol.
A agua estava deserta a perder de vista.
Nenhuma assistencia possivel e nenhuma resistencia possivel.
Gilliatt, cousa que até então não sentira, sentio-se desarmado.
A fatalidade obscura assenhoreára-se delle. Elle, com a barca, com a machina da Durande, com o trabalho, com o bom exito, com a coragem, tudo isso pertencia ao golphão. Já não tinha recurso de luta; tornava-se passivo. Como impedir a maré e a noite? O batoque era o unico ponto de apoio. Gilliatt exhaurira-se em compol-o e completal-o; fortifical-o é que já não podia; o batoque devia ficar assim e fatalmenle tinha acabado todo o esforço. O mar tinha á sua discrição aquelle apparelho prematuro applicado ao buraco. Como resistiria aquelle obstaculo inerte? Chegára-lhe a vez de combater, depois de Gilliatt. Entrava o trapo, retirava-se o espirito. O entumecimento de uma onda bastava para abrir a fractura. Maior ou menor pressão, a questão era essa.
O desfecho ia nascer por uma luta machinal entre duas quantidades mechanicas. Gilliatt não podia agora, nem ajudar o auxiliar, nem impedir o inimigo. Era apenas o espectador da sua vida ou da sua morte. Aquelle Gilliatt que tinha sido uma providencia foi substituido no supremo instante por uma resistencia inconsciente.
Nenhuma das provas e dos pavores que Gilliatt atravessára era igual a esta.
Chegando ao escolho Douvres, vio-se cercado, como que agarrado pela solidão. A solidão fazia mais que cercal-o, envolvia-o. A um tempo mais de mil ameaças o desafiavam. O vento estava alli, prestes a soprar; alli estava ornar; prestes a rugir. Era impossivel amordaçar a guela ao vento, era impossivel desarmar a bocca do mar. E comtudo tinha elle combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano, engalfinhára-se com a tempestade.
Tinha affrontado outras anciedades e necessidades. Pelejou contra outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem ferramenta, carregar fardos sem auxilio, resolver problemas sem sciencia, comer e beber sem provisões, dormir sem leito e sem tecto.
Naquelle rochedo, eculeo tragico, pozeram-lhe a questão as diversas fatalidades iniquas da natureza, mãe quando quer, algoz quando lhe apraz.
Venceu o isolamento, venceu a fome, venceu a sêde, venceu o frio, venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o somno. Encontrou no caminho os obstaculos coalisados. Depois da nudez, o elemento; depois da maré, a tempestade; depois da tempestade, a pieuvre; depois do monstro, o espectro.
Lugubre ironia final. Naquelle escolho d'onde Gilliatt contava sahir triumphante, Clubin morto olhára rindo para elle.
Tinha razão o riso do espectro. Gilliatt via-se perdido. Via-se tão morto como Clubin.
O inverno, a fome, a fadiga, o desapparelhar do casco, o transporte da machina, o equinoxio, o vento, o trovão, a pieuvre, tudo isso nada era ao pé do arrombamento da pança. Podia-se ter, e Gilliatt os teve, contra o frio, o fogo; contra a fome, as conchas; contra a sêde, a chuva; contra as difficuldades, a industria e a energia; contra a maré e a tempestade, o quebra-mar; contra a pieuvre, a faca. Contra o arrombamento, nada.
O furacão deixava-lhe aquelle adeus sinistro. Ultima repetição, perfida estocada, ataque sorrateiro do vencido ao vencedor. A tempestade fugitiva lançava-lhe aquella flecha. A derrota olhava para traz e feria. Era o coup de jarnac do abysmo.
Combate-se a tempestade; mas como combater um esgoto?
Se o batoque cedesse nada podia impedir que a pança fosse a pique. Era a ligadura da arteria que se rompe. E apenas fosse ao fundo d'agua,com a machina dentro, não havia meio de arranca-la. O magnanimo exforço de dous mezes titanicos acabava por um anniquilamento. Recomeçar era impossivel. Gilliatt já não tinha nem forja, nem materiaes. Talvez tivesse elle de ver, ao romper do dia, mergulhar-se lentamente e irremediavelmente toda a sua obra no golphão.
Cousa assustadora é sentir debaixo de si a força sombria.
O golphão attrahia-o.
Engulida a barca, restava-lhe morrer de fome e de frio como o naufrago do rochedo Homem.
Durante dous longos mezes, as consciencias e as providencias que existem no invisivel, tinham assistido a isto: de um lado a extensão, as vagas, os ventos, os relampagos, os meteoros, do outro lado um homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de um lado o infinito, do outro um atomo.
E houve batalha.
E abortava talvez aquelle prodigio.
Assim chegou á impotencia o inaudito heroismo, acabava-se pelo desespero aquelle formidavel combate, aquella luta do Nada contra Tudo, aquella Illiada de um.
Gilliatt desvairado contemplava o espaço.
Nem mesmo tinha roupa, estava nú diante da immensidade.
Então, no acabrunhamento de toda aquella enormidade desconhecida, não sabendo já o que queriam delle, confrontando-se com a sombra, em presença daquella obscuridade irreductivel, no rumor das aguas, das ondas, dos marulhos, das espumas, das lufadas, debaixo das nuvens, debaixo dos ventos, debaixo da vasta força esparsa, debaixo daquelle mysterioso firmamento das azas, dos astros e das tumbas, debaixo da intenção possivel das cousas desmesuradas, tendo á roda de si e era baixo de si o oceano, e acima as constellações, debaixo do insondavel, Gilliatt abateu-se, desistio, deitou-se ao comprido sobre a rocha, voltado para as estrellas, vencido, e pondo as mãos diante da profundeza terrivel, bradou ao infinito: piedade!
Abatido pela immensidade, Gilliatt implorou.
Estava só naquella noite, em cima daquelle rochedo, no meio daquelle mar, cahido de cansaço, semelhante a um fulminado, nú como o gladiador no circo, tendo em vez do circo o abysmo, em vez das feras as trevas, era vez dos olhos do povo o olhar do ignoto, em vez das vestaes as estrellas, em vez de Cezar, Deos.
Pareceu-lhe que se dissolvia no frio, no cansaço, na impotencia, na oração, na sombra e fecharam-se-lhe os olhos.
[VII]
HA UM OUVIDO NO IGNOTO
Correram algumas horas.
O sol levantava-se deslumbrante.
O seu primeiro raio illuminou na plataforma da grande Douvre, uma forma immovel. Era Gilliatt. Continuava estendido em cima do rochedo.
Já não estremecia aquella nudez gelada e endurecida. Estavam lividas as palpebras fechadas. Era difficil dizer que não era um cadaver.
O sol parecia contempla-lo.
Se aquelle homem nú não estava morto, devia estar tão perto disso que bastaria o menor vento frio para acaba-lo.
Começou a soprar o vento, tepido e vivificante; era o halito vernal de Maio.
Entretanto o sol subia no profundo céo azul; o seu raio menos horisontal ia-se purpureando. A luz fez-se calor. Cingio Gilliatt.
Gilliatt não se mexia. Se respirava, era uma respiração quasi extincta que mal poderia embaciar um espelho.
O sol continuava a sua ascenção cada vez menos obliqua sobre Gilliatt. O vento que era tepido ao principio, tornou-se callido.
Aquelle corpo rigido e nú continuava sem movimento; entretanto a pelle parecia menos livida.
O sol, acercando-se do zenith, cahia a prumo sobre a plataforma da Douvre. Vertia do alto do céo uma prodigalidade de luz; juntava-se a ella a vasta reverberação do mar tranquillo, o rochedo começava a ficar tepido e aquecia o homem.
O peito de Gilliatt levantou-se com um suspiro.
Vivia.
O sol continuava as suas caricias, quasi ardentes. O vento, que já era o vento do meio dia, e o vento de verão, approximava-se de Gilliatt como uma boca, soprando mollemente.
Gilliatt fez um movimento.
Era inexprimivel a tranquillidade do mar, tinha um murmurio de ama ao pé do filho. As vagas pareciam embalar o escolho.
As aves marinhas que conheciam Gilliatt, voavam inquietas por sobre elle. Já não era o medo selvagem do principio. Era um quê de terno e fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam chamal-o. Uma gaivota que o amava sem duvida, teve a familiaridade de descer para junto delle. Começou a fallar-lhe. Elle não parecia ouvil-a.
Ella saltou-lhe sobre o hombro e começou a brincar docemente com o bico nos seus labios.
Gilliatt abrio os olhos.
Os passaros, alegres e ariscos, voaram.
Gilliatt levantou-se e espreguiçou-se como o leão acordando, correu á bordo da plataforma e olhou para o intervallo das Douvres.
A pança estava intacta. O batoque resistira; provavelmente o mar maltratara-o pouco.
Tudo estava salvo.
Gilliatt já não estava cansado. Refizeram-se-lhe as forças. O desmaio foi um somno.
Esvasiou a pança, poz a avaria fora da fluctuação, vestio-se, bebeu, comeu, tornou-se alegre.
O buraco examinado de dia demandava mais trabalho de que Gilliatt pensou. Era uma grande avaria. Gilliatt gastou o dia inteiro em reparal-o.
No dia seguinte, de madrugada, depois de desfazer a tapagem e abrir a sahida do estreito, vestido com os andrajos que tinham vencido a avaria, tendo comsigo o cinto de Clubin e os setenta e cinco mil francos, em pé na pança concertada, ao lado da machina salva, com um vento de feição e mar admiravel, Gilliatt sahia do escolho Douvres.
Aproou sobre Guernesey.
No momento em que se a affastava do escolho, alguem que lá estivesse tel-o-hia ouvido entoar a meia voz a canção Bonny Dundee.
FIM DA SEGUNDA PARTE
[TERCEIRA PARTE]
Deruchette
[LIVRO PRIMEIRO]
Noite e lua
[I]
O SINO DO PORTO
O Saint-Sampson de hoje é quasi uma cidade; o Saint-Sampson de ha quarenta annos era quasi uma aldêa.
Chegando á primavera, e acabadas as vigilias de inverno, deitavam-se todos cedo. Saint-Sampson era uma antiga parochia de tocar a recolher, tendo conservado o habito de apagar cedo as luzes. Os habitantes deitavam-se e levantavam-se com o dia. As velhas aldêas normandas são voluntariamente gallinheiros.
Digamos além disso que Saint-Sampson, á excepção de algumas ricas familias burguezas, é uma população de pedreiros e carpinteiros. O porto é um lugar de concertar navios. Durante o dia extrahem-se pedras du trabalham-se pranchas; aqui a picareta, além o martello. Perpetuo meneio de páu e granito. Á tarde tudo cahe de cançasso e dorme como chumbo. Os rudes trabalhos fazem os duros somnos.
Uma noite dos principios de Maio, depois de ter por alguns instantes contemplado o crescente da lua nas arvores e ouvido o passo de Deruchette passeiando sozinha, ao fresco da noite, no jardim de Bravées, mess Lethierry entrou para seu quarto situado sobre o porto e deitou-se. Doce e Graça estavam na cama. Excepto Deruchette, tudo dormia na casa. Portas e postigos estavam fechados. Ninguem andava nas ruas. Raras luzes semelhantes ao piscar de olhos que vão fechar-se, brilhavam aqui e alli nas janellas dos sotãos, annuncio do deitar dos criados. Já nove horas tinham batido na velha torre romana, coberta de hera, que partilha com a igreja de Saint-Brelade de Jersey, a singularidade de ter por data quatro uns: 1111; o que significa mil cento e onze.
A popularidade de mess Lethierry em Saint-Sampson vinha do bom exito da Durande. Acabado este, fez-se o vacuo. Parece que o enguiço pega, e que as pessoas infelizes tem a peste comsigo, tão rapida é a quarentena em que as mettem. Os lindos filhos-familias evitavam Deruchette. O isolamento em roda da casa de Lethierry era tal que nem mesmo se soube ahi o pequeno grande acontecimento local que nesse dia agitou Saint-Sampson. O cura da parochia, o reverendo Joe Ebeneser Caudray estava rico. O tio delle, o magnifico decano de Saint-Asaph, morrera em Londres. A noticia foi trazida pelo sloop de posta Cashmere chegado de Inglaterra nessa manhã, e cujo mastro via-se no porto de Saint-Sampson. O Cashmere devia voltar para Southampton no dia seguinte ao meio dia, e dizia-se que devia levar o reverendo cura, chamado á Inglaterra sem demora para a abertura official do testamento, sem contar as outras urgencias de uma grande herança para recolher. Durante o dia Saint-Sampson dialogou coufusamente. O Cashmere, o reverendo Ebeneser, o tio morto, a riqueza, a partida, as promoções possiveis no futuro, foram o fundo do borborinho. Só uma casa, que nada sabia, ficara silenciosa, a de Lettierry.
Mess Lethierry atirou-se á maca vestido.
Depois da catastrophe da Durande, atirar-se á maca, era o recurso delle. Deitar-se no grabato é o recurso do prisioneiro, e mess Lethierry era prisioneiro da tristeza. Deitava-se; era uma tregoa, um descanço, uma suspensão de idéas. Dormia? Não. Vellava? Não. Propriamente fallando, havia dous mezes e meio,—já dous mezes e meio,—mess Lethierry estava em somnambulismo. Não era ainda senhor de si. Andava nesse estado mixto e diffuso que costumam ter os que soffreram grandes abatimentos. As suas reflexões não eram pensamentos, o seu somno não era repouso. De dia não era um homem acordado, de noite não era um homem adormecido. Estava em pé, estava deitado, eis tudo. Quando estava na maca, esquecia-se um pouco; a isso chamava elle dormir; as chimeras flutuavam nelle e por sobre elle, a nuvem nocturna, cheia de faces confusas, atravessava-lhe o cerebro; o imperador Napoleão dictava-lhe as suas memorias, haviam muitas Deruchettes, extranhos passaros pousavam nas arvores, as ruas de Lons-le-Saulnier toruavam-se serpentes. O pesadelo era o descanço do desespero. Passava as noites a sonhar e os dias a scismar.
Ás vezes ficava uma tarde inteira, immovel á janella do quarto que dava para o porto, com a cabeça baixa, os cotovellos sobro o peitoril de pedra, as orelhas nas mãos, as costas voltadas para o mundo inteiro, o olhar fito na velha argola de ferro pregada no muro da casa a alguns pés da janella, onde outrora amarrava a Durande. Contemplava a ferrugem que invadia a argola.
Mess Lethierry estava reduzido á funcção machinal de viver.
Os homens mais valentes, privados da sua idéa realisavel, attingem a isto. É esse o effeito das existencias esvasiadas. A vida é a viagem, a idéa é o itinerario. Sem itinerario, pára-se. Perdido a alvo, morre a força. A sorte é um obscuro poder descricionario. Póde bater com as suas vergastas o nosso ser moral. O desespero é quasi a destituição da alma. Só os grandes espiritos resistem. E ainda assim...
Mess Lethierry meditava contiuamente, se a absorpção pode chamar-se meditação, no fundo de uma especie de precipicio turvo. Escapavam-lhe palavras desoladas como estas: só me resta pedir ao céo o meu bilhete de sahida.
Notemos uma contradição nesta natureza, complexa como o mar, de que mess Lethierry era, por assim dizer, o producto; mess Lethierry não resava.
Ser impotente é uma força. Diante das nossas duas grandes cegueiras, o destino e a natureza, é na sua impotencia que o homem acha o ponto de apoio, a oração.
O homem soccorre-se do proprio medo; pede auxilio ao pavor; a anciedade aconselha o ajoelhar.
A oração, enorme força propria da alma, é da mesma especie que o mysterio. A oração dirige-se á magnanimidade das trevas; a oração contempla o mysterio com os olhos da sombra, e diante da fixidez poderosa desse olhar supplice, sente-se um desarmamento possivel no ignoto.
Essa possibilidade entrevista é já uma consolação.
Mas Lethierry não orava.
No tempo em que era feliz, Deos existia para elle, póde dizer-se que em carne e osso; Lethierry fallava-lhe, dava-lhe a sua palavra, dava-lhe quasi, de quando em quando, um aperto de mão. Mas no infortunio de Lethierry, phenomeno aliás frequente, Deos eclypsava-se. Isto acontece a quem imagina um Deos bonachão.
Não havia para Lethierry, no estado a que chegára, mais que uma visão pura, o sorriso de Deruchette. Fora desse sorriso, tudo era negro.
Desde algum tempo, sem duvida por causa da perda da Durande, cujo choque ella sentia, tornou-se raro o delicioso riso de Deruchette. Parecia preoccupado. Extinguia-se-lhe a gentileza de passaro e de criança. Já ninguem a via, ao tiro de peça da manhã, fazer uma cortezia e dizer ao sol: «bum!... jour!... queira entrar.» Tinha ás vezes um ar sério, cousa triste naquella doce creatura. Entretanto fazia esforço para rir a mess Lethierry, e para distrahil-o, mas a sua alegria apagava-se dia a dia, e cobria-se de poeira, como a aza de uma borboleta que um alfinete atravessou. Accrescentemos que, seja porque a tristeza do tio a fizesse triste, e ha dôres de reflexo, seja por outras razões, ella parecia agora inclinar-se muito para a religião. No tempo do antigo cura, Jaquemin Herodes, ella ia apenas quatro vezes á igreja. Agora era muito assidua. Não faltava a officio algum, nem aos domingos, nem ás quintas-feiras. As almas piedosas da parochia viam com satisfação esta emenda. Porquanto, é uma grande ventura para uma moça, que corre tantos perigos entre os homens, voltar-se para Deos.
Ao menos isto faz com que os paes fiquem tranquillos a respeito de namoricos.
De noite, sempre que o tempo permittia, passeava no jardim, uma ou duas horas. Andava quasi tão pensativa com mess Lethierry, e sempre só. Deruchette deitava-se por ultimo. Mas isto não impedia que Graça e Doce não a perdessem de vista, por esse instincto de espionar que anda ligado á domesticidade; espionar desenfada de servir.
Quanto a mess Lethierry, no estado obscurecido em que se achava o seu espirito, não percebia essas pequenas alterações nos habitos de Deruchette. Demais, elle não nascera aio. Nem mesmo notava a pontualidade de Deruchette aos officios da parochia. Tenaz no seu preconceito contra as cousas e os homens do clero, teria visto sem prazer essas frequencias á igreja.
Não é que a sua situação moral não estivesse em caminho de modificar-se. O pesar é nuvem e muda de forma.
As almas robustas, como dissemos, são ás vezes, em certas desgraças, distituidas quasi, mas não de todo. Os caracteres viris, taes como Lethierry, reagem n'um tempo dado. O desespero tem grãos ascendentes. Do acabrunhamento sobe-se ao abatimento, do abatimento á afflição, da afllição á melancolia. A melancolia é um crepusculo. Ahi o soffrimento funde-se em sombria alegria.
A melancolia é a ventura de ser triste.
Essas attenuações elegiacas não eram feitas para Lethierry; nem a natureza do seu temperamento, nem o genero da sua desgraça, comportavam essas variações. Sómente, no momento em que o encontramos, a scisma do seu primeiro desespero tendia a dissipar-se; sem estar menos triste, Lethierry estava menos inerte; continuava a estar sombrio, mas já não estava amortecido; voltava-lhe uma certa percepção dos factos e dos acontecimentos; e começava a sentir alguma cousa desse phenomeno que se poderia chamar a entrada na realidade.
Assim que, de dia, na sala baixa, não escutava as palavras, mas ouvia-as. Graça veio uma manhã triumphante dizer a Deruchette que mess Lethierry rasgára o envolucro do seu jornal.
Esta meia aceitação da realidade é em si um bom symptoma. É a convalescença. As grandes desgraças aturdem. Sahe-se do aturdimento por aquelle modo. Mas essa melhora parece ao principio um aggravo. O estado do sonho anterior embotava a dôr; antes via-se turvo, sentia-se pouco; agora a vista é clara, não se escapa a cousa alguma, sangra-se por tudo. Aviva-se a chaga. A dôr accentua-se com todos os pormenores que se vêem. Revê-se tudo na memoria. Achar tudo, é lamentar tudo. Ha nesta volta á realidade todas as provas amargas. Fica-se melhor e peior. É o que Lethierry sentia. Soffria mais distinctamente.
O que trouxera mess Lethierry ao sentimento da realidade, foi um abalo.
Digamos qual foi elle.
Uma tarde, a 15 ou 20 de Abril, ouvio-se na porta da sala baixa as duas pancadas que annunciavam o correio. Doce abrio a porta. Era uma carta.
Vinha do mar a carta. Era dirigida a mess Lethieny. Trazia o sello de Lisboa.
Doce levou a carta a mess Lethierry que estava fechado no quarto. Elle pegou na carta, pôl-a machinalmente na mesa, e nem olhou.
A carta ficou alli uma boa semana sem ser aberta.
Aconteceu, porém, que uma manhã Doce disse a mess Lethierry:
—Devo tirar a poeira de que está cheia a carta?
Lethierry pareceu accordar.
—Sim, disse elle.
E abrio a carta.
Leu isto:
«No mar, 10 de Março.
«Mess Lethierry, de Saint-Sampson.
«Receberá o senhor com prazer noticias minhas.
«Estou no Tamaulipas, em viagem para não voltar. Ha na equipagem um marujo, Ahier-Tostevin, de Guernesey, que ha de voltar ahi, e que lhe ha de contar alguma cousa. Aproveito o encontro do navio Hernan Cortez, com destino a Lisboa, para mandar-lhe esta carta.
«Espante-se. Sou um homem honesto.
«Tão honesto como o Sr. Clubin.
«Devo crer que já sabe o que aconteceu; comtudo não será máo que lhe lembre o caso.
«Eil-o:
«Restitui-lhe os seus capitaes.
«Tomei-lhe emprestados, um pouco incorrectamente, cincoenta mil francos. Antes de deixar Saint-Malo, entreguei, para o senhor, ao seu homem de confiança, o Sr. Clubin, tres notas do banco de mil libras cada uma, o que faz setenta e cinco mil francos. Creio que ha de achar esse reembolso sufficiente.
«O Sr. Clubin tratou dos seus interesses, e recebeu o seu dinheiro com energia. Parece-me um homem zeloso; é por isso que o advirto.
«O seu homem de confiança,
«Rantaine.»
«Post-scriptum.—O Sr. Clubin tinha um revolver, e foi por isso que não tive recibo.»
Tocai um torpedo, tocai uma garrafa de Leyde carregada, e sentireis o mesmo que sentio mess Lethierry lendo esta carta.
Debaixo daquella sobrecarta, naquella folha de papel dobrada em quatro, a que, no primeiro momento, dera pouca attenção, havia uma commoção.
Lethierry reconheceu a letra, reconheceu a assignatura. Quanto ao facto, nada comprehendeu ao principio.
A commoção foi tal que lhe poz, por assim dizer, o espirito em pé.
O phenomeno dos setenta e cinco mil francos que Rantaine confiára a Clubin, era um enigma, e era por isso o lado util do abalo, visto que obrigava Lethierry a reflectir. Fazer uma conjectura, é para o pensamento uma occupação sã. Accorda, o raciocinio, convoca-se a logica.
Desde algum tempo, a opinião publica de Guernesey occupava-se em julgar Clubin, o honrado homem que por tantos annos foi unanimemente admittido na circulação da estima. Interrogavam-se uns aos outros, duvidava-se, apostava-se pró e contra. Appareceram singulares esclarecimentos. Clubin começava a apparecer em toda a luz, isto é, tornava-se negro.
Houve em Saint-Malo uma devassa judiciaria para saber onde parava o guarda-costa 619. A perspicacia legal enganara-se, o que lhe acontece muitas vezes. Partia da supposição de que o guarda-costa fôra attrahido por Zuella e embarcado no Tamaulipas para o Chile. Esta hypothese engenhosa trouxe comsigo muitas aberrações. A myopia da justiça não chegou a vêr Rantaine. Mas no decurso da pesquiza os magistrados descobriram outros rastos; complicara-se o negocio que já era obscuro. Clubin entrava no enigma. Havia uma coincidencia, alguma relação talvez, entre a partida do Tamaulipas e a perda da Durande. Na taverna da porta Dinan, onde Clubin acreditava não ser conhecido, foi conhecido; o taverneiro fallou; Clubin tinha comprado uma garrafa de aguardente. Para quem? O armeiro da rua Saint-Vicent tambem fallou; Clubin comprára um revolver. Contra quem? O dono da hospedaria João tambem fallou; Clubin costumava a ter ausencias inexplicaveis. O capitão Gestrais Gaboreau tambem fallou; Clubin quiz partir, apezar de avisado e sabendo que devia haver nevoeiro. A tripolação da Durande tambem fallou. O carregamento era falho e mal arranjado, negligencia facil de comprehender, se o capitão quer perder o navio. Tambem fallou o passageiro guernesiano; Clubin cuidou ter naufragado nos Hanois. Tambem fallou a gente do Torteval; Clubin foi alli alguns dias antes do naufragio e dirigio-se para Plainmont, vizinho dos Hanois. Levava uma mala, e não voltou com ella. Igualmente fallaram os furta-ninhos; a historia delles parecia prender-se ao desapparecimento de Clubin, comtanto que em vez de almas de outro mundo, fossem contrabandistas. Finalmente a propria casa mal assombrada de Plaimont fallou; algumas pessoas, resolvidas a se esclarecerem, tinham-na escalado, e o que acharam dentro? Exactamente a mala de Clubin.
Os magistrados de Torteval apprehenderam a mala e abriram-na. Continha provisões de bocca, um oculo, um chronometro, roupas de homem, e roupa branca marcada com as iniciaes de Clubin. Tudo isso, nas conversas de Saint-Malo e Guernesey, ia-se accumulando, e já roçava pela fraude. Comparavara-se symptomas confusos; averiguava-se o desdem singular pelos conselhos, a affronta do nevoeiro, a negligencia na arrumação das cargas, a garrafa d'aguardente, o timoneiro ébrio, a substituição do capitão ao timoneiro, o movimento do leme, ao menos desastrado. O heroismo em ficar no navio tornava-se velhacaria. Demais, Clubin enganou-se no escolho. Addmittida a intenção de fraude, comprehendeu-se a escolha dos Hanois, a facilidade de nadar para a costa, e a residencia na casa mal assombrada até chegar a occasião de fugir. A mala acabava a demonstração. Qual o élo que prendia esta aventura á do guarda-costa, ainda não se tinha descoberto. Adivinhava-se uma correlação; nada mais. Entrevia-se, quanto a esse homem, o guarda-costa 619, um drama tragico. Clubin talvez não representasse nelle, mas descobriam-no nos bastidores.
Nem tudo se explicava pela fraude. Havia um revolver sem emprego. O revolver entrou talvez no caso do guarda.
O faro do povo é fino e acertado. O instincto publico é habil nestas restaurações da verdade feitas de pedaços soltos. Sómente, nesses factos, de que resultava uma fraude verosimil, haviam sérias incertezas.
Tudo concordava; mas não havia base.
Não se perde um navio pelo gosto de perdel-o. Não se correm os riscos do nevoeiro, do escolho, do nadar, do refugio, e da fuga, sem um interesse. Qual seria o interesse de Clubin?
Via-se o acto, não se via o motivo.
Dahi vinha a duvida a muitos espiritos. Onde não ha motivo, parece que não ha acto.
A lacuna era grave.
Ora a carta de Rantaine vinha preencher a lacuna.
A carta dava o motivo de Clubin. Queria roubar setenta e cinco mil francos.
Rantaine era o Deus ex machina. Descia das nuvens com uma vela na mão.
A carta era o esclarecimento final.
Explicava tudo essa carta, e demais a mais annunciava uma testemunha, Ahier-Tostevin.
Cousa decisiva, sabia-se agora o emprego do revolver. Rantaine estava incontestavelmente informado de tudo. A sua carta fazia tocar tudo com o dedo.
Nenhuma attenuante possivel na malvadeza de Clubin. Premeditára o naufragio, e a prova era a mala levada para a casa Plainmont. E suppondoo innocente, admittindo o naufragio fortuito, não devia elle, no ultimo momento, decidido ao sacrificio, entregar os setenta e cinco mil francos aos homens que se salvaram na chalupa? Era evidente. Mas que era feito de Clubin? Foi provavelmente victima do seu erro. Pereceu sem duvida no escolho Douvres.
O andaime de conjecturas, todas conformes, na realidade, occupou durante muitos dias o espirito de mess Lethierry. A carta de Rantaine teve a utilidade de obrigal-o a pensar. Teve um primeiro abalo de sorpreza, depois fez esforço de reflectir. Fez outro esforço mais difficil ainda para informar-se. Acceitou e procurou mesmo as conversas. No fim de oito dias tornou-se pratico até certo ponto; o espirito fortaleceu-se e quasi ficou curado. Sahio do estado turvo.
A carta de Rantaine, admittindo que mess Lethierry tivesse algum dia a esperança do reembolso, fez desapparecer a ultima probabilidade.
Á catastrophe da Durande ajuntava-se o naufragio dos setenta e cinco mil francos. A carta empossava-o do dinheiro tanto quanto lhe bastava para sentir a perda. Mostrava-lhe o fundo da ruina.
Dahi veio um soffrimento novo, e agudissimo, que já indicámos. Começou, cousa que ha dous mezes não fazia, a preoccupar-se com a casa, do que havia, e que reformas devia fazer. Tédio eriçado de mil pontas, quasi peior que o desespero. Odiosa cousa é supportar a desgraça por miudo, disputar passo a passo ao facto realisado o terreno que elle vem tomar. Acceita-se a massa do infortunio, a poeira não. O conjuncto acabrunha, o pormenor tortura. Ha pouco a catastrophe fulminava, agora mortifica.
Essa é a humilhação aggravante do infortunio. É uma segunda annullação que vem ajuntar-se á primeira, e feia. Desce-se um degráo no nada. Depois do sudario, o andrajo.
Nada mais triste do que pensar em decahir.
Parece simples estar arruinado. Golpe violento; brutalidade da sorte; é a catastrophe uma vez por todas. Seja. Aceita-se. Tudo está acabado. Fica-se arruinado. Está dito, morreu. Qual! vive-se. É o que no dia seguinte começa-se a sentir. Porque? Por alfinetadas. Passa um homem sem tirar o chapéo, chovem as contas das lojas, ri-se um inimigo. Ri-se talvez do ultimo trocadilho de Arnal, mas é o mesmo, o trocadilho pareceu-lhe mais engraçado, exactamente por que estás pobre. Lês a tua decadencia até nos olhares indifferentes; as pessoas que jantavam em tua casa, acham demasiado os tres pratos da tua mesa; os teus defeitos saltam aos olhos de todos; as ingratidões, não tendo que esperar mais nada, tiram a mascara; todos os imbecis predisseram o que te acontece; os máos dilaceram-te, os peiores lamentam-te. E mais cem pormenores mesquinhos. A nausea succede ás lagrimas. Bebeis vinho, beberás cidra. Duas criadas! Uma seria de mais. Devia-se despedir esta, sobrecarregar aquella. Ha flôres de mais no jardim; planta antes batatas. Davas flôres aos amigos, vende-as agora no mercado. Quanto aos pobres, já não deves pensar nelles; também não és pobre? As toilettes, questão pungente. Diminuir uma fita a uma mulher, que supplicio! Recusar o enfeite, a quem te dá a belleza! Ter ares do avarento! Talvez que ella te diga:—Pois que! tiraste as flôres do meu jardim, e agora as tiras do meu chapéo!—Ai triste! condemnal-a aos vestidos velhos! A mesa de familia é silenciosa. Parece-te que te querem mal. Os rostos amados parecem preoccupados. Eis o que é a decadencia. Cumpre-te morrer todos os dias. Cahir, não é nada, é a fornalha. Decahir, é o fogo lento.
A quéda é Waterloo; a decadencia é Santa Helena. A sorte, encarnada em Wellington, tem ainda alguma dignidade; mas quando se faz Hudson Lowe, que vilania! O destino torna-se um bigorrilhas. Vê-se o homem de Campo-Formio querelando por um par de meias de seda. Agorentou-se a Inglaterra, agorentando Napoleão.
Essas duas phases, Waterloo e Santa Helena, reduzidas ás proporções burguezas, todos as atravessam.
Na noite de que fallámos e que era uma das primeiras noites de Maio, Lethierry deixando Deruchette passear ao luar, no jardim, deitou-se mais triste que nunca.
Rolavam-lhe no espirito todas essas minucias mesquinhas e desagradaveis, complicações de fortunas ardidas, todas essas preoccupações de terceira ordem, que começam por ser insipidas e acabam lugubres. Triste accumulação de miserias. Mess Lethierry sentia a sua queda irremediavel. Que devia fazer agora? Que seria delle? Que sacrificios devia impôr a Deruchette. Quem devia despedir, Doce ou Graça? Venderia a casa? Seria obrigado a abandonar a ilha? Não ser cousa alguma onde se foi tudo, é uma decadencia insuportavel.
E pensar que estava acabado! Recordar as viagens de França ao archipelago, a partida ás terças-feiras, a chegada ás sextas, a chusma no cáes, aquelles grandes carregamentos, aquella industria, aquella prosperidade, aquella navegação directa e altiva, aquella machina sugeita á vontade do homem, aquella caldeira omnipotente aquelle fumo, aquella realidade! O vapor é a bussola completa; a bussola indica o caminho, o vapor segue por elle. Uma propõe, a outra executa. Onde estava agora a sua Durande, aquella magnifica e soberana Durande, aquella senhora do mar, aquella rainha que o fazia rei? Ter sido o homem idéa, o homem triumpho, o homem revolução! e renunciar! abdicar! Não existir! fazer rir aos outros! ser um sacco onde já houve alguma cousa! Ser o passado quem foi o futuro! merecer a compaixão altiva dos idiotas! ver triumphar a rotina, a obstinação, o rammerrão, o egoismo, a ignorancia! ver começar outra vez as viagens dos cutters gothicos sacudidos pela vaga! ver a antigualha rejuvenecer! perder a vida! perder a luz e soffrer o eclypse! Ah! como era bello vêr sobre as vagas aquelle cano orgulhoso, aquelle prodigioso cylindro, aquelle pilar de um capitel de fumo, aquella columna maior que a de Vendome, porque havendo nesta apenas um homem, ostentava-se naquella o progresso! O oceano está por baixo; era a certeza em pleno mar. Vio-se aquillo, naquella pequena ilha, naquelle pequeno porto, naquelle pequeno Saint-Sampson? Sim, vio-se! Pois que! vio-se e não se verá mais!
Toda este obsessão da saudade mortificava Lethierry. Ha soluços no pensamento. Talvez nunca sentisse mais amargamente a sua perda. Depois de taes excessos agudos costuma vir um entorpecimento. Debaixo desse peso de tristeza Lethierry adormeceu.
Ficou cerca de duas horas com as palpebras fechadas, dormindo pouco, sonhando muito, febril. Esses torpores cobrem um obscuro e fatigante trabalho do cerebro. Pela meia noite, um pouco antes, ou um pouco depois, Lethierry sacudio o adormecimento. Acordou, abrio os olhos, a janella estava em frente á maca, vio uma cousa extraordinaria.
Havia uma forma diante da janella. Forma inaudita. O cano de um vapor.
Mess Lethierry levantou-se de um salto. A maca oscilou, como se fosse abalada pela tempestade. Lethierry olhou. Havia na janella uma visão. O porto illuminado pela lua reflectia-se nos vidros, e no meio do luar, e, proxima á casa, surgia uma soberba forma recta, redonda e negra.
Era um tubo de machina.
Lethierry precipitou-se para fora da maca, correu á janella, levantou a vidraça, inclinou-se e reconheceu.
O cano da Durande estava diante delle.
Estava no lugar do costume.
As quatro correntes prendiam o cano á borda de um barco dentro do qual distinguia-se uma massa de fórma complicada.
Lethierry recuou, voltou as costas á janella e cahio assentado na maca.
Voltou-se outra vez e vio a mesma visão.
Um momento depois, apenas o espaço de um relampago, estava elle no cáes com uma lanterna na mão.
Á velha argola onde se prendia a Durande estava amarrada uma barca trazendo um pouco á ré um vulto massiço donde sahia o cano que ficava em frente á janella. A prôa da barca prolongava-se além do canto da parede da casa e encostada ao cáes.
Não havia ninguem na barca.
A barca tinha uma forma especial, conhecida por todos em Guernesey; era a pança.
Lethierry pulou deutro. Correu á massa que ficava alem do mastro. Era a machina.
Era ella, inteira completa, intacta, sentada sobre o fundo de metal; a caldeira estava com todas as peças; a arvore das rodas estava arranjada e amarrada perto da caldeira; a bomba estava no seu lugar; nada faltava.
Lethierry examinou a machina.
A lanterna e a lua ajudaram-lhe o exame.
Passou em revista todo o machinismo.
Vio as duas caixas que estavam ao pé. Olhou para a arvore das rodas.
Foi ao camarote; estava vasio.
Voltou á machina e apalpou-a. Metteu a cabeça na caldeira. Ajoelhou-se para ver dentro.
Collocou na caldeira a lanterna que illuminava todo o mechanismo e produzia o effeito de uma machina acesa.
Depois deu uma gargalhada, e levantando-se, com o olhar fixo na machina e os braços estendidos para o cano, gritou: soccorro!
O sino do porto ficava perto. Lethierry correu a elle, segurou a corda, e começou a sacudir o sino impetuosamente.
[II]
AINDA O SINO DO PORTO
Gilliatt, com effeito, depois de uma travessia sem incidente, mas um pouco demorada por causa do peso do carregamento, chegou a Saint-Sampson de noite, mais perto das 10 horas que das 9.
Gilliatt calculára a hora. A maré começava a encher. Havia luz e agua; podia-se entrar no porto.
O porto estava adormecido. Haviam alguns navios ancorados, cascos sem veigas, cestos de gavea recolhidos, e sem faróes. Descobria-se no fundo alguns navios em concerto postos no estaleiro. Grandes cascos desmastreados, levantando acima das amuradas furadas as pontas curvas de seus membros desnudos, semelhantes a escaravelhos mortos deitados de costas e com as pernas para o ar.
Gilliatt apenas entrou no porto examinou o caes. Não havia luz em parte alguma, nem na casa de Lethierry, nem nas outras. Não havia ninguem na rua, excepto talvez um homem que acabava de entrar ou sahir do presbyterio. E ainda assim poderia ser que não fosse uma pessoa, porque a noite esfuma tudo quanto desenha e o luar faz tudo indeciso. A distancia ajudava a obscuridade. O presbyterio de então, era situado do outro lado do porto, no lugar onde outr'ora havia uma estiva coberta.
Gilliatt encostou-se silenciosamente ao muro e amarrou a pança na argola da Durande, debaixo da janella de mess Lethierry.
Depois saltou para terra.
Gilliatt, deixando atraz de si a pança, rodeou a casa, atravessou uma viela, depois outra, nem mesmo, olhou para o entroncamento do caminho que ia ter á casa delle, e no fim de alguns minutos parou no recanto da parede onde havia um pé de malva sylvestre com flôres côr de rosa em Junho, azevinho, hera e ortigas. Era dahi que, escondido no espinheiro, assentado numa pedra, tantas vezes, nos dias de verão e durante longas horas e mezes inteiros, tinha elle contemplado por cima do muro, tão baixinho que tentava um pulo, o jardim de Bravées, e atravez das arvores, duas janellas de um quarto da casa. Achou a pedra, o espinheiro, o muro baixo, o angulo obscuro, e como um animal que volta ao buraco, antes escorregando que andando, Gilliatt agachou-se. Depois de assentado não fez movimento algum. Olhou. Tornou a vêr o jardim, as alamedas, as grutas, os canteiros, a casa, as duas janellas do quarto. A lua mostrava-lho aquelle sonho. Era-lhe horrivel ter de respirar. Gilliatt forcejava por conter a respiração.
Parecia-lhe ver um paraiso fantasma. Tinha medo que lhe voasse tudo aquillo. Era quasi impossivel que aquellas cousas estivessem diante delle; e se estavam, era sem duvida prestes a esvair-se como acontece com as cousas divinas. Bastava um sopro para desapparecer tudo. Gilliatt tremia por isso.
Perto delle, e em frente, no jardim, á beira de uma alameda, havia um banco de páo pintado de verde. Os leitores lembram-se desse banco.
Gilliatt contemplava as duas janellas. Pensava em alguem que estivesse dormindo naquelle quarto. Quizera não estar onde estava. Preferia morrer a retirar-se. Pensava numa respiração levantando um seio. Ella, aquella miragem, aquella alvura dentro de uma nuvem, aquella obsessão de seu espirito, estava alli! Gilliatt pensava no inaccessivel que dormia, e tão perto, e ao alcance do seu extase; pensava na mulher impossivel adormecida e visitada tambem pelas chimeras; na creatura desejada, remota, esvaecente, fechando os olhos com a fronte na mão; no mysterio do somno da creatura idéal; nos sonhos que póde ter um sonho. Não ousava pensar além e pensava; arriscava-se nas faltas de respeito do devaneio; perturbava-o a quantidade de forma feminina que póde haver no anjo. A hora nocturna faz com que os olhos timidos lancem furtivos olhares; censurava-se por ir tão longe, receiava profanar com a reflexão; a seu pezar, constrangido, tremulo, Gilliatt olhava para o invisivel. Sentia a commoção e quasi o soffrimento, de imaginar uma saia numa cadeira, um manto atirado ao tapete, um cinto desenlaçado, um lenço de pescoço. Imaginava um collete, um atacador arrastando no chão, meias, ligas. Tinha a alma nas estrellas.
As estrellas são feitas tanto para o coração humano de um pobre, como para o coração de um millionario. Em certo grão de paixão todos os homens são sujeitos ás fascinações profundas. Se a natureza é aspera e primitiva, razão de mais. A condição selvagem augmenta o sonho.
A fascinação é uma plenitude que transborda como todas. Ver as janellas era quasi de mais para Gilliatt.
De repente vio elle a propria moça.
Dentre os ramos de uma mouta, já espessa pela primavera, sahio com ineffavel lentidão, phantastica e celeste, uma figura, um vestido, um rosto divino, quasi um clarão no meio do luar.
Gilliatt sentio-se desfallecer. Era Deruchette.
Deruchette approximou-se. Parou. Deu alguns passos para afastar-se, parou ainda, depois voltou e assentou-se no banco de páo. A lua batia nas arvores, algumas nuvens erravam por entre as estrellas pallidas, o mar fallava ás cousas da sombra, a meia voz, a cidade dormia, do horisonte subia uma neblina, a melancolia era profunda.
Deruchette inclinava a fronte com aquelle olhar pensativo que contempla attentamente o vácuo; estava sentada de perfil, com a cabeça quasi descoberta, tendo um barretinho desatado que lhe deixava ver na nuca delicada a origem dos cabellos, enrolava machinalmente nos dedos uma fita do barrete, a penumbra modulava as suas mãos de estatua, o vestido era de uma dessas côres que de noite se fazem brancas, as arvores moviam-se como se fossem susceptiveis ao encanto que resumbrava della, via-se a pontinha de um de seus pés, havia nos seus cilios fechados aquella vaga contracção que annuncia uma lagrima represa ou um pensamento repellido, os seus braços tinham a indecisão fascinante de não achar onde encostar-se, misturava-se-lhe á postura alguma cousa fluctuante, era antes um clarão que uma luz, antes uma graça que uma deusa, as dobras da barra da saia eram delicadas, o seu admiravel rosto meditava virginalmente. Estava tão perto, que era terrivel. Gilliatt ouvia-a respirar.
Havia ao longe um rouxinol que cantava. A passagem do vento nos ramos punha em movimento o inefavel silencio nocturno. Deruchette, gentil e sagrada, apparecia naquelle crepusculo como o resultado daquelles raios e daquelles perfumes; o encanto immenso e esparso ia ter mysteriosamente a ella, nella condensava-se era a sua irradiação. Parecia a alma flôr de toda aquella sombra.
Toda aquella sombra, fluctuante em Deruchette, pesava sobre Gilliatt. Estava desvairado. O que elle sentia não cabe dize-lo em palavras; a commoção é sempre nova e as palavras já servirão muito; dahi vem a impossibilidade de exprimir a commoção. Existe o abatimento do encanto. Ver Deruchette, vêl-a ella propria, ver-lhe o vestido, ver-lhe o barrete, ver-lhe a fita que ella enrolava nos dedos, póde-se acaso imaginar semelhante cousa? Estar perto della, era acaso possivel? Ouvi-la respirar; respirava pois! então os astros respiram. Gilliatt estremecia. Era o mais miseravel e o mais inebriado dos homens. Não sabia que fazer. O delirio de ve-la esmagava-o. Pois que! Era ella quem alli estava, era elle quem estava alli! As suas idéas, deslumbradas e fixas, paravam naquella creatura como se fora um rubi. Contemplava aquella nuca e aquelles cabellos. Gilliatt nem mesmo pensava que tudo aquillo lhe pertencia, que em pouco tempo, talvez amanhã, elle teria o direito de tirar-lhe aquella coifa e deslaçar aquella fita. Sonhar até esse ponto era um excesso de audacia que elle não poderia conceber um momento. Tocar com o pensamento e quasi tocar com a mão. O amor era para Gilliatt como mel para o urso, o sonho eximio e delicado. Pensava confusarnente. Não sabia o que tinha. O rouxinol cantava. Elle sentia-se expirar.
Levantar-se, galgar o muro, approximar-se, dizer sou eu, fallar a Deruchette, foi idéa que não teve. Se ativesse, fugiria. Se alguma cousa semelhante a um pensamento chegou a despontar no seu espirito, era que Deruchette estava alli, que elle não tinha necessidade de mais cousa alguma, e que a eternidade começava.
Um rumor arrancou a ambos, ella do devaneio, elle do extasis.
Andava alguem no jardim. Não se via quem era por causa das arvores. Era um passo de homem.
Deruchette levantou os olhos.
Os passos aproximaram-se e cessaram. Quem quer que era parou. Devia estar perto. O caminho onde estava o banco, perdia-se entre duas moutas. Era ahi que estava essa pessoa, nesse intervallo, a poucos passos do banco.
O acaso tinha disposto a espessura dos ramos, de tal modo, que Deruchette via, a pessoa, sem que Gilliatt a visse.
O luar projectava no chão, fóra das moutas, e ate ao banco, uma sombra.
Gilliatt vio essa sombra.
Olhou para Deruchette.
Ella estava pallida. A boca entre aberta esboçava um grito de surpreza. Levantou-se um pouco do banco, tornou a sentar-se; havia na sua attitude, uma mistura de fuga e de fascinação. O seu pasmo era um encanto cheio de receio. Tinha nos labios quasi a irradiação do sorriso, e um reflexo de lagrimas nos olhos. Estava como que transfigurada por aquella presença. Não parecia que a creatura alli chegada fosse da terra. Havia no olhar de Deruchette a reverberação de um anjo.
A pessoa, que era apenas um sombra para Gilliatt, fallou em fim. Sahio das moutas uma voz, mais doce que uma voz de mulher, e voz de homem comtudo. Gilliatt ouvio estas palavras:
Vejo-a todos os domingos e quintas-feiras; disseram-me que outr'ora a senhora não ia lá tantas vezes. Fizeram este reparo, peço-lhe perdão. Nunca lhe fallei, era o meu dever; fallo-lhe hoje, é meu dever. Antes de tudo devo dirigir-me á senhora. O Cashmere parte amanhã; foi por isso que eu vim. A senhora passeia todas as noites neste jardim. Eu fazia mal em conhecer tanto os seus habitos se não tivesse o pensamento que tenho. A senhora é pobre. Eu sou rico desde esta manhã. Quer-me por seu marido?
Deruchette ajuntou as duas mãos como uma supplicante, e olhou para aquelle que fallava, muda, olhar lixo, tremula da cabeça aos pés.
A voz continuou:
—Amo-a, Deos não fez o coração do homem para que se cale. Se elle promette a eternidade, é porque quer o consorcio. Ha para mim na terra uma mulher, é a senhora. Penso na senhora como n'uma oração. A minha fé está em Deos, na senhora a minha esperança. As azas que tenho é a senhora quem as traz. A senhora é a minha vida, e já o meu céo.
—Senhor, disse Deruchette, não ha na casa ninguem para responder-lhe.
A voz soou de novo:
—Tive este lindo sonho. Deos não prohibe os sonhos. A senhora faz-me o effeito de uma gloria. Amo-a apaixonadamente. A santa innocencia é a senhora. Sei que esta é a hora em que todos estão dormindo, mas eu não tinha outra occasião á minha escolha. Lembra-se daquelle passo da Biblia que nos leram? Genesis, capitulo vinte e cinco. Muitas vezes pensei nelle. Reli-o muitas vezes. O reverendo Herodes dizia-me:—É-lhe preciso uma mulher rica. Eu respondi:—Não, preciso de uma mulher pobre. Fallo-lhe de longe, e recuarei mesmo se a senhora não quizer que a minha sombra toque em seus pés. É a senhora a soberana; virá a mim se quizer. Assim o espero. A senhora é a forma viva da benção.
—Senhor, balbuciou Deruchette, eu não sabia que reparavam em mim aos domingos e quintas-feiras.
A voz continuou:
—Nada se pode contra as cousas angelicas. Toda a lei é amor. O casamento é Chanaam. A senhora é a belleza promettida. Ave, cheia de graça!
Deruchette respondeu:
Eu pensava que não fazia mal indo como as outras pessoas á igreja.
—A voz continuou:
—Deos pôz as suas intenções nas flôres, na aurora, na primavera, e elle quer que se ame. A senhora é bella nesta sacra obscuridade da noite. Este jardim foi cultivado pela senhora, e no perfume ha alguma cousa de seu halito. Os encontros das almas não dependem dellas. Não é culpa nossa. A senhora ia á igreja, nada de mais; eu estava lá, nada de mais. Nada fiz senão sentir que a amava. Algumas vezes os meus olhos levantaram-se para a senhora. Fiz mal, mas como não? Foi contemplando-a que eu fiquei assim. Não podia impedil-o. Ha vontades mysteriosas acima de nós. O primeiro templo é o coração. Ter a sua alma em minha casa, tal é o paraiso terrestre a que eu aspiro. Aceita? Emquanto fui pobre nada disse. Eu sei a sua idade. Tem vinte annos, eu tenho vinte e seis. Parto amanhã, se me recusa não voltarei. Quer ser minha noiva? Os meus olhos já lhe fizeram esta pergunta mais de uma vez e a meu pesar. Amo-a, responda-me. Fallarei a seu tio quando elle puder receber-me, mas em primeiro lugar á senhora. É a Rebecca que se pede Rebecca. Só se me não ama.
Deruchette inclinou a fronte e murmurou.
—Oh! eu o adoro!
Isto foi dito em voz tão baixa que só Gilliatt ouvio. Ella abaixou a fronte, como se o rosto na sombra puzesse na sombra o pensamento.
Houve uma pausa. As folhas das arvores não se mechiam. Era esse momento severo e aprazixel em que o somno das cousas a junta-se ao somno das creaturas e em que a noite parece escutar as palpitações da natureza. Neste recolhimento eleva-se, como uma harmonia que completa um silencio, o ruido immenso do mar.
A voz continuou:
—Senhora.
Deruchette estremeceu.
A voz continuou:
—Estou esperando.
—O que espera?
—A sua resposta.
Deos a ouviu—disse Deruchette.
Então a voz tornou-se sonora e ao mesmo tempo mais doce que nunca. Estas palavras sahiram da moita como de uma sarça ardente.
—Tu és minha noiva. Levante-te e vem. Que o teto azul, onde estão os astros, assista a esta aceitação da minha alma pela tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao firmamento!
Deruchette levantou-se e ficou um instante immovel e com o olhar fixo diante de si, fitando, sem duvida, outro olhar. Depois, a passos lentos, com a cabeça erguida, os braços pendentes e os dedos das mãos abertos, como quando se caminha para um amparao desconhecido, ela dirigio-se para a moita e desappareceu.
Um instante depois, em vez de uma sombra na areia, havia, duas, confundiam-se ambas, e Gilliatt via a seus pés o abraço daquellas duas sombras.
O tempo corre de nós como de uma ampulheta, e nós não temos o sentimento dessa fuga, sobretudo em certos instantes supremos. De um lado aquelle par, que ignorava a testemunha e não a via, do outro aquella testemunha que não via os dous, mas que sabia que elles alli estavam, quantos minutos ficaram assim nessa mysteriosa suspensão? Seria impossivel dizel-o. De subido echoou um ruido longinquo e uma voz gritou: Soccorro! E o sino do porto começou a soar. É provavel que a felicidade ebria e celeste não ouvisse o tumulto.
O sino continuou a soar. Quem procurasse Gilliatt no angulo do muro já o não encontraria.
[LIVRO SEGUNDO]
Reconhecimento em pleno despotismo
[I]
ALEGRIA CERCADA DE ANGUSTIAS
Mess Lethierry agitava o sino com soffreguidão. De subito parou. Vio um homem voltar a esquina do cáes. Era Gilliatt.
Mess Lethierry correu a elle, ou para melhor dizer atirou-se a elle, tomou-lhe a mão entre as suas, e olhou-o fitamente em silencio; um desses silencios da explosão, não sabendo por onde irromper.
Depois com violencia, saccudindo, e puxando, e apertando-o nos braços, fez entrar Gilliatt na sala baixa de Bravées, empurrou a porta com o tacão, e ficou entre-aberta, assentou-se ou cahio, em uma cadeira ao lado de uma grande mesa illuminada pela lua, cujo reflexo eubranquecia vagamente o rosto do Gilliatt, e com uma voz onde haviam gargalhadas e soluços misturados, gritou:
—Ah! meu filho! homem do bug-pipe! Gilliatt! eu bem sabia que eras tu! A pança! que diabo! conta-me isso! Pois foste! Ha cem annos queimavam-te. É feitiçaria. Não falta nada. Já examinei, reconheci, apalpei. Adevinho que as rodas estão nas duas caixas. Então chegaste! Fui procurar-te na pança. Toquei o sino. Procurava-te. Eu dizia comigo: onde está elle? Quero devoral-o. É preciso convir que se passam cousas extraordinarias. Aquelle animal volta do escolho Douvres. Traz-me a vida. Com os diabos! tu és um anjo. Sim, sim, sim, é a minha machina. Ninguem acredita. Hão de vêl-a e dizer: Não falta nem uma serpentina. O tubo d'agua não se deslocou. É incrivel que não houvesse avaria. Falta só pôr um pouco de azeite. Mas como foi? E a Durande vai agora navegar! A arvore das rodas está desmontada como se fosse feito por um ourives. Dá-me a tua palavra de honra que eu não estou doudo.
Levantou-se, respirou e proseguio:
—Jura-me. Que revolução! Dou beliscões em mim mesmo, vejo que não sonho. Tu és meu filho, és meu rapaz, és Deos. Ah! meu filho. Ir buscar a minha pobre machina! No mar alto! Naquella emboscada do escolho! Tenho visto muita cousa espantosa em minha vida. Nunca vi cousa assim. Vi os parisienses que são uns satanazes. Boas! não faziam isto. É peior que a Bastilha. Vi os gaúchos lavrar nas pampas, tendo por charrua um galho de arvore, do comprimento de um covado, e por grade um feixe de espinhos puxado por corda de couro; colhem com isto grãos de trigo do tamanho de avelãs. Não valem dous caracoes ao pé de ti. Fizeste um milagre, um verdadeiro milagre. Ah! tratante! Salta-me ao pescoço. Como vai rosnar a gente de Saint-Sampson! Vou tratar já e já de fazer o navio. E, admiravel não ter quebrado a vara da redouça. Meus senhores, elle foi ás Douvres. As Douvres! um penedo que não tem rival. Já sabes, está provado que a cousa foi feita de proposito. Clubin perdeu a Durande para furtar-me o dinheiro que devia trazer-me. Embriagou Tangrouille. É longo, depois te contarei a pirataria delle. Eu era um bruto, tinha confiança em Clubin. Mas o malvado não pôde naturalmente sahir de lá. Ha um Deos, canalha! Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro na forja, vamos reconstruir a Durande. Dar-lhe-hemos vinte pés mais. Agora fazem-se os navios mais compridos. Hei de comprar madeira em Dantzick e Bremen. Agora que tenho a machina hão de emprestar-me dinheiro. A confiança voltará.
Mess Lcthierry deteve-se, levantou os olhos com aquelle olhar que vê o céo atravéz do tecto, e disse entre os dentes: Ha um meio.
Depois poz o dedo medio da mão direita entre as sobrancelhas, com a unha apoiada no alto do nariz, o que indica a passagem de um projecto no cerebro, e continuou:
—É o mesmo, para começar em grande escala, algum dinheiro basta. Ah! se eu tivesse as minhas tres notas de banco que o tratante de Rautaine me restituio e que o tratante de Clubin me roubou!
Gilliatt, em silencio, procurou na algibeira alguma cousa, que collocou diante de si. Era o cinto de Clubin. Abrio e pôz na mesa o cinto, no interior do qual a lua deixava ler a palavra: Clubin; tirou da abertura uma caixinha, e da caixinha tres pedaços de papel que desenrolou e estendeu a mess Lethierry.
Mess Lethierry examinou os tres pedaços de papel. Havia bastante claridade para que o algarismo 1,000 e a palavra thousand fossem perfeitamente visiveis. Mess Lethierry pegou nos tres bilhetes, pol-os na mesa um ao lado do outro, olhou para elles, olhou para Gilliatt, ficou um momento calado, depois foi como que uma erupção depois de uma explosão.
—Tambem isto! Tu és prodigioso. As minhas notas do banco! todas tres! mil cada umal os meus sessenta mil francos! Então foste ao inferno? É o cinto de Clubin. Por Deos: leio-lhe o nojento nome. Gilliatt traz a machina, e mais o dinheiro! Isto deve ser contado nos diarios publicos. Vou comprar madeira de primeira qualidade. Adevinho, achaste o esqueleto. Clubin apodreceu lá em algum canto. Compraremos pinho em Dantzick e carvalho em Bremen, faremos um bom casco, carvalho por dentro, pinho por fora. Em outro tempo fabricavam-se navios menos perfeitos e elles duravam mais; é que a madeira era mais secca porque não se construia tanto. Faremos talvez a quilha de olmo. O olmo é bom para estar sempre na agua: andando ora molhado, ora secco, apodrece: o olmo alimenta-se de agua. Que bella Durande vamos fazer! Não me hão de impôr. Já não preciso credito. Tenho dinheiro. Já se vio cousa assim como Gilliatt? Eu estava prostrado, abatido, morto. Chega elle e pôe-me de pé. E eu que não pensava nelle! Já nem me lembrava. Agora lembra-me tudo. Pobre rapaz! Ah! bem, sabes, tu casas com Deruchette.
Gilliatt encostou-se á parede como se vacillasse e baixinho, mas distintamente, disse.
—Não.
Mess Lethierry teve um sobresalto.
—Como, não?
Gilliatt respondeu.
—Não a amo.
Mess Lethierry foi á janella, abrio-a e fechou-a, pegou nas tres notas do banco, dobrou-as, pôz a caixa cm cima, coçou a cabeça, pegou no cinto de Clubin, atirou-o violentamente contra a parede, e disse:
—Ha alguma cousa!
Metteu as mãos nos bolsos, e continuou:
—Não amas Deruchette! Era então por minha causa que tocavas bug-pipe?
Gilliatt, sempre encostado á parede empallidecia como um homem que está prestes a não respirar. Á proporção que se tornava pallido, Lethierry tornava-se vermelho.
—Vejam este parvo! Não ama Deruchette! Pois trata de ama-la, porque ella não ha de casar se não contigo. Que historias são essas? Cuidas que te acredito? Estás doente? pois bem, manda chamar um medico, mas não digas estravagancias, é impossivel que tivesses tempo de brigar com ella e ficares arrufado. É verdade que os namorados são uns tolos! Vamos, tens alguma razão? Se tens, falla; ninguem é tolo sem ter razão. Demais, eu tenho algodão nos ouvidos, talvez ouvisse mal, repete o que disseste.
Gilliatt replicou:
—Disse que não.
—Disseste que não. E teima o bruto! Tens alguma cousa, é claro! Disseste que não! É uma estupidez que passa os limites do mundo conhecido. Por muito menos dão-se banhos medicinaes a uma creatura. Ah! tu não amas Deruchette! Então foi por amor do velhote que fizeste tudo isto! Foi pelos bonitos olhos do papá que foste ás Douvres, que tiveste frio, que tives calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos do rochedo, que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o vento, e que me trouxeste a machina como se traz a uma mulher bonita o canario que fugio? E a tempestade de ha tres dias! Se tu imaginas que eu não faço idéa do que passaste! Estiveste em boas! Foi então com o pensamento em mim que cortaste, rachaste, viraste, arrastaste, limaste, serraste, inventaste, e fizeste tantos milagres, tu só, mais que todos os santos do paraiso? Ah! idiota! Pois olha que me aborreceste com a tua sanphona! Na Bretanha chama-se biniou. Sempre a mesma toada, animal! Ah! tu não amas Deruchette! Não sei o que tens. Lembra-me agora, eu estava neste canto, Deruchette disse: Casava-me. E hade casar comtigo. Ah! não a amas! Feitas as reflexões, eu não comprehendo nada. Ou tu estaes doudo ou eu! E não diz palavra! Não é licito fazer o que fizeste e dizer no fim: não amo Deruchette. Não se faz um obzequio á gente para obrigal-a a ficar com raiva. Pois bem, se não te casas com ella, Deruchette não se casa com pessoa alguma, fica para tia. Em primeiro lugar, preciso de ti. Serás piloto da Durande. Se cuidas que vou deixar-te ir assim! Ta, ta, ta, nada, meu amigo, já te não largo. És meu. Nem te quero ouvir. Onde ha um marinheiro como tu? És o meu homem. Mas falla, com os diabos!
O sino tinha accordado a gente da casa e da visinhança. Doce e Graça tinham-se levantado e acabavam de entrar na sala baixa, espantadas, sem dizer palavra. Graça trazia uma vela. Um grupo de vizinhos, burguezes, marinheiros e aldeãos, sabidos á pressa, estava fora no cáes, contemplando com pasmo e susto o cano da Durande na pança.
Alguns, ouvindo a voz de Lethierry na sala baixa, começavam a entrar silenciosamente pela porta entre-aberta. Entre duas caras de comadres, passava a cabeça do Sr. Landoys que por acaso costumava sempre estar presente nos lugares onde sentiria se não estivesse.
As grandes alegrias querem sempre um publico. Agrada-lhes o ponto de apoio um pouco esparso que offerece uma multidão; partem dahi. Mess Lethierry descobrio repentinamente que tinha gente a roda de si. Aceitou logo o auditorio.
—Ah! vocês estão ahi? Que felicidade. Já sabem a noticia. Este homem lá foi e de lá trouxe aquillo. Bom dia, Sr. Landoys. Ainda ha pouco quando accordei vi o cano. Estava debaixo da minha janella. Não falta nem um prego. Fizeram-se gravuras de Napoleão; eu prefiro isto á batalha de Austerlitz. Sabem vocês da cousa. A Durande chegou emquanto dormiam. Emquanto se mettiam nos lençóes e apagavam as velas, ha pessoas que são heróes. Uns são covardes, vadios, aquecem os seus rheumatismos; felizmente isso não impede que hajam espiritos fogosos. Esses vão onde é preciso ir, fazem o que é preciso fazer. O homem da casa mal assombrada chegou do rochedo Douvres. Pescou a Durande do fundo do mar, pescou o dinheiro da algibeira de Clubin, abysmo mais profundo que o outro. Mas como fizeste isto? Tinhas todos os diabos contra ti, o vento e a maré, a maré e o vento. É verdade que tu és feiticeiro. Os que dizem isso já não são tão pascacios. Voltou a Durande! em vão se enfurecem as tempestades, este estrangula-as. Meus amigos, annuncio-lhes que já não ha naufragios. Já examinei a machina. Está como nova, está completa! Movem-se os cylindros tão facilmente como dantes. Parecia novinha em folha. Sabem que a agua que sahe é levada para fora do navio por um tubo colocado em outro tubo por onde passa agua que entra, para utilisar o calor; pois bem, os dous tubos estão salvos. A machina toda! as rodas tambem! Ah! has de casar com ella!
—Com quem? com a machina? perguntou o Sr. Landoys.
—Não, a pequena. Sim, a machina. Ambas. Ha de ser duas vezes meu genro. Good bye, capitão Gilliatt. Vamos ter Durande! Vamos fazer negocio, vai haver circulação e commercio, e transporte de bois e carneiros! Não troco Saint-Sampson por Londres. E aqui está o autor. Digo-lhes que é uma aventura. Ha de ler-se isto sabbado na gazeta de Mauger. O engenhoso Gilliatt é um finorio. Que dinheiro é este em ouro?
Mess Lethierry acabava de ver, pela fresta da tampa, que havia ouro na caixinha posta sobre as notas de banco. Pegou nella, abrio-a, esvasiou-a na palma da mão, e pôz o punhado de guinéos sobre a mesa.
—Para os pobres. Sr. Landoys, dê estes pounds da minha parte ao condestavel de Saint-Sampson. Sabe da carta de Rantaine? Mostrei-lh'a outro dia; pois bem; aqui estão as notas do banco. Com isto posso comprar carvalho e pinho, e fazer a carpintaria. Veja. Lembra-se do tempo que houve ha tres dias? Que ataque de vento e de chuva! O céo disparava tiros de canhão. Gilliatt recebeu tudo isso nas Douvres, sem que lhe obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu relogio da parede. Graças a Gilliatt, já sou alguem. A galeota do pai Lethierry vai continuar o serviço, senhores e senhoras. Uma casca do noz com duas rodas, e um tubo de cachimbo, foi sempre a minha mania. Disse sempre comigo: Hei de fazer uma machina destas! Data de longe; foi uma idéa que tive em Pariz, no café que faz a esquina da rua Christina e da rua Delphina, lendo um jornal que fallava do invento. Sabem que Gilliatt era capaz de metter a machina de Marly na algibeira e passear com ella? Este homem é de ferro batido, é aço de tempera, é diamante, um marujo de polpa, um ferreiro, um rapazola extraordinario, mais espantoso que o principe Hohenlohe. A isto chamo eu um homem de engenho. Nós não valemos nada. Os lobos do mar somos nós; o leão de mar é elle. Hurrah, Gilliatt! Não sei o que elle fez, mas certamente fez o diabo, e como é que não lhe hei dar Deruchette!
Desde alguns instantes Deruchette entrara na sala. Não dissera palavra, não fizera rumor. Entrou como uma sombra. Assentára-se, quasi desapercebida, em uma cadeira por traz de mess Lethierry de pé, loquaz, tempestuoso, alegre, abundante de gestos, e fallando em voz alta. Um pouco atraz della, veio outra apparição muda. Um homem vestido de preto, de gravata branca, com o chapéo na mão, parára na abertura da porta. Havia agora muitas velas no grupo lentamente engrossado. As luzes batiam de lado no homem vestido de preto; o seu perfil, de alvura joven e deliciosa, desenhava-se no fundo obscuro com urna pureza do medalha; apoiava o cotovello n'uma almofada da porta, e tinha a fronte na mão esquerda, attitude que lhe era graciosa, sem ser meditada, e que fazia valer a grandeza da fronte na pequenez da mão. Havia uma ruga de angustia no centro de seus labios contrahidos. Examinava e ouvia com attenção profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o reverendo Ebeneser Caudray, cura da parochia, tinham-se affastado para deixal-o passar, mas elle ficou na soleira. Havia hesitação na sua postura e decisão no seu olhar. O olhar de quando em quando encontrava o de Deruchette. Quanto a Gilliatt, ou por acaso ou de proposito, estava na sombra, e mal se podia vêl-o.
Mess Lethierry não vio ao principio o Sr. Ebeneser, mas vio Deruchette. Foi a ella, e beijou-a com toda a soffreguidão que póde ter um beijo na fronte. Ao mesmo tempo estendia o braço para o canto escuro onde estava Gilliatt.
—Deruchette, disse elle, estás outra vez rica, e o teu marido é aquelle.
Deruchette levantou a cabeça desvairada e olhou para a sombra.
Mess Lethierry continuou:
—Ha de se fazer o casamento quanto antes, amanhã se fôr possivel, hão de haver dispensas, mas as formalidades são simples, o decano faz o que quer, casa-se a gente antes de gritar: guarda de baixo! não é como em França, onde se precisam banhos, publicações, dilações, um chuveiro de formalidades, e tu serás mulher de um homem valente, e não ha que dizer, é um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em que o vi voltar de Herm com a peça de artilheria. Agora volta das Douvres, com a sua fortuna, e a minha, e a fortuna da terra; é um homem que hade dar que fallar; tu disseste: caso-me com elle; pois has de casar; e hão de ter filhos, e eu serei avô, e terás fortuna de ser a lady de um rapagão sério, que trabalha, que é util, que é sorprehendente, que vale por cem, que salva as invenções dos outros, que é uma providencia, e ao menos não casarás, como todas as raparigas ricas deste lugar, com um soldado ou um padre, isto é o homem que mata e o homem que mente. Mas que fazes ahi mettido no canto, Gilliatt? Ninguem te vê. Dôce! graça! todos! luzes! Illuminem o meu genro a giorno. Caso-os, meus filhos, e eis teu marido, e eis o meu genro, o Gilliatt da casa mal assombrada, o grande marinheiro, e eu não terei outro genro, e não terás outro marido, torno a dar a minha palavra de honra a Deos. Ah! Ah! é Vossa Reverendissima, senhor cura, ha de casar-me estes pequenos.
O olhar de mess Lethierry acabava de cahir no reverendo Ebeneser.
Doce e graça tinham obedecido. Duas velas postas na mesa illuminavam Gilliatt da cabeça aos pés.
—Como está bonito! gritou Lethierry.
Gilliatt estava hediondo.
Estava tal qual sahira, naquella manhã, do escolho Douvres, em frangalhos, os cotovellos rotos, a barba longa, os cabellos eriçados, os olhos queimados e vermelhos, a face esfolada, as mãos sangrentas; tinha os pés descalços. Algumas das pustulas da pieuvre estavam visiveis nos braços cabeludos.
Lethierry contemplava-o.
—É o meu verdadeiro genro. Como se bateu com o mar! está em frangalhos! Que hombros! que pés! Como és bello!
Graça correu a Deruchette, amparou-lhe a cabeça. Deruchette tinha desmaiado.
[II]
A MALA DE COURO
Desde madrugada Saint-Sampson estava de pé e Saint-Pierre Port começava a chegar. A ressurreição de Durande fazia na ilha um rumor comparavel ao que fez no meio dia da França a Salette. Havia multidão no caes para contemplar o cano que sabia da pança. Tinham vontade de ver e tocar na machina, mas Lethierry, depois de repetir, e á luz do dia, a inspecção triumphante da mecanica, tinha posto na pança dous marinheiros encarregados de impedir que ninguem se approximasse. O cano, porém, bastava á contemplação. A multidão pasmava. Só se fallava de Gilliatt. Commentava-se e acceitava-se a alcunha de engenhoso, a admiração acabava sempre por esta phrase: «Nem sempre é agradavel ter na ilha gente capaz de fazer cousas destas.»
De fóra via-se mess Lethierry assentado á mesa diante da janella e escrevendo, com um olho no papel, e outro na machina. Estava de tal modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se para gritar: Doce! e para pedir noticias de Deruchette. Doce respondeu: «A menina levantou-se e sahio.» Mess Lethierry disse: «Faz bem em tomar ar. Esteve incommodada de noite por causa do calor. Havia muita gente na sala. E depois a sorpreza, a alegria e as janellas fechadas. Vai ter um marido soberbo!» E tornou a escrever. Já tinha escripto e fechado duas cartas dirigidas aos mais notaveis constructores de Bremen. Acabava de fechar a terceira.
O rumor de uma roda no caes fez-lhe levantar a cabeça. Inclinou-se á janella, e vio desembocar do atalho que ia ter á casa de Gilliatt um rapaz empurrando um carrinho de mão. O rapaz dirigia-se para o lado de Saint-Pierre Port. Havia no carrinho uma mala de couro amarella com pregos de cobre e estanho.
Mess Lethierry fallou ao rapaz.
—Onde vás?
O rapaz parou, e respondeu:
—Ao Cashmere.
—Para que?
—Levar esta mala.
—Pois bem, levarás tambem estas tres cartas.
Mess Lethierry abrio a gaveta da mesa, e pegou num pedaço de barbante, enlaçou as tres cartas que acabava de escrever, e atirou o embrulho ao rapaz que o recebeu no ar entre as duas mãos.
—Dirás ao capitão do Cashmere que sou eu quem escrevo, e que elle tenha cuidado com ellas. É para a Allemanha. Bremen via London.
—Nào fallarei ao capitão, mess Lethierry.
—Porque?
—O Cashmere não está no cáes.
—Ah!
—Está na barra.
—É justo, por causa do mar.
—Só posso fallar ao patrão do escaler.
—Recommenda-lhe as minhas cartas.
—Sim, mess Lethierry.
—A que horas parte o Cashmere?
—Ao meio-dia.
—Ao meio-dia hoje, é a enchente da maré. Tem contra si a maré.
—Mas tem vento de feição.
—Rapaz, disse mess Lethierry pondo o dedo index no cano da machina, vês isto? isto zomba do vento e da maré.
O rapaz pôz as cartas na algibeira, pegou outra vez no carrinho, e continuou a viagem para a cidade.
Mess Lethierry chamou:—Doce! Graça! Graça entreabrio a porta.
—Que ha, mess?
—Entra e espera.
Mess Lethierry pegou n'uma folha de papel e começou a escrever; se Graça, de pé atraz delle, fosse curiosa e esticasse o pescoço, poderia ler por cima do hombro, isto:
«Escrevo a Bremen para ver madeira. Tenho de fallar durante o dia aos carpinteiros para a avaliação. Vai ter á casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se faça o mais cedo possivel, e já, será melhor. Estou tratando de Durande, trata tu de Deruchette.»
Datou e assignou Lethierry.
Não se deu ao trabalho de fechar a carta, dobrou-a simplesmente em quatro e deu-a a Graça.
—Leva isto a Gilliatt.
[LIVRO TERCEIRO]
A Partida do Cashmere
[I]
O ANGRAZINHA PROXIMA DA IGREJA
Saint-Sampson não póde estar apinhado de gente sem que Saint-Pierre Port fique deserto. Uma cousa curiosa n'um ponto dado é uma bomba aspirante. As noticias correm depressa nas terras pequenas; ir ver o cano da Durande debaixo da janella de mess Lethierry foi desde o romper do dia a grande occupação de Guernesey. Qualquer outro acontecimento desapparecia diante desse. Eclypse da morte do decano de Saint-Asaph; já ninguem curava do reverendo Ebeneser Caudray, nem da sua repentina riqueza, nem da sua partida no Cashmere. A machina da Durande trazida das Douvres estava na ordem do dia. Ninguem acreditava. O naufragio parecera extraordinario, mas o salvamento parecia impossivel. Todos queriam ver com os seus proprios olhos. Todas as occupações ficaram suspensas. Longas fileiras de burguezes em familia, desde o vesin até o mess, homens, mulheres, gentlemen, mais com filhos e filhos com bonecas, dirigiam-se por todas as estradas para ver a cousa, em Bravées, e davam-se as costas a Saint-Pierre Port. Muitas lojas de Saint-Pierre Port estavam fechadas; no Commercial Arcade, estagnação absoluta de venda e de negocio; toda a attenção estava voltada para a Durande; nenhum mercador estreou, excepto um ourives que se maravilhava de ter vendido um anel de ouro para casamento—«a uma especie de homem que parecia muito appressado e que lhe perguntou onde morava o Sr. decano.» As lojas que ficaram abertas eram os lugares de conversa onde se commentava ruidosamente o milagroso salvamento da machina. Ninguem passeava na Hyvresse, que se chama hoje, não se sabe por que, Cambridge-Park; ninguem em High-Street, que se chamava então a Rua Grande, nem era Smith Street, que se chamava a Rua das Forjas; ninguem em Hauteville; a propria Esplanada estava deserta. Dissera-se um domingo. Uma alteza real, que alli fosse de visita, e passasse em revista a milicia de Ancrese não despovoaria melhor a cidade. Todo aquelle abalo a proposito de uma cousa á tôa como Gilliatt fazia erguer os hombros aos homens graves e ás pessoas correctas.
A igreja de Saint-Pierre Port, triplice carreta sobreposta com trancepto e flecha, fica situada á beira da praia no fundo do porto quasi sobre o desembarque. Dá a saudação aos que chegam e o adeus aos que sabem. Aquella igreja é a maiuscula de uma longa linha que faz a fachada da cidade sobre o oceano.
É ao mesmo tempo a parochia de Saint-Pierre Port o chefe de toda a ilha. Tem por parocho o subrogado do bispo, clergyman com plenos poderes.
O ancoradouro de Saint-Pierre Port, hoje largo e magnifico porto, era naquella época, e ainda ha dez annos, menos consideravel que o ancoradouro de Saint-Sampson. Eram duas grossas paredes cyclopicas curvas partindo da praia a estibordo e bombordo e ligando-se quasi na extremidade, onde havia um pharolsinho branco. Debaixo daquelle pharol uma garganta, que ainda tinha as duas argolas da corrente que a fechava na idade média, dava passagem aos navios. Imaginem uma unha de lagosta aberta, era o ancoradouro de Saint-Pierre Port. Aquella tenaz tomava ao mar um pouco de agua que obrigava a ficar tranquilla. Mas com vento d'Este, havia marulho na entrada, o porto ficava agitado, e era acertado não penetrar lá. Foi o que fez nesse dia o Cashmere, que ficou fóra.
Os navios, quando soprava o Este, faziam isso que, no fim das contas, economisava as despezas do porto. Nesses casos, os bateleiros da cidade, tribu valente de marinheiros que o novo porto destituira, iam tomar em seus barcos os viajantes, ou no cáes, ou nas estações da praia, e os transportavam, a elles e ás bagagens, muitas vezes com marés agitadas e sempre sem accidente, aos navios que deviam sahir. O vento d'Este é um vento de flanco muito bom para ir á Inglaterra; o mar é agitado sem que o navio estremeça.
Quando o navio ficava no porto, todos embarcavam no porto; quando estava fóra, podia-se escolher uma das costas visinhas do ancoradouro do navio. Achava-se em todas as angras bateleiros á vontade.
A Angrazinha era dessas. Aquelle cáes ficava proximo á cidade, mas tão solitario, que parecia longe. Devia a solidão ás duas grandes penedias do forte de S. Jorge que dominavam aquelle sitio discreto. Chegava-se á Angrazinha por caminhos diversos. O mais directo ia pela praia; tinha a vantagem de ir dar á cidade e á igreja em cinco minutos, e o inconveniente de ser coberto pela maré duas vezes por dia.
Outros caminhos, mais ou menos abruptos, mergulhavam nas anfractuosidades dos rochedos. A Angrazinha, mesmo em pleno dia, ficava numa penumbra. Grandes pedras amontoadas pendiam de todos os lados. Haviam espessuras de espinhos, fazendo uma especie de noite suave naquella desordem de rochas e vagas; nada mais aprazivel do que aquella angra em tempo calmo, nada mais tumultuoso nas grossas aguas. Haviam pontas de galhos perpetuamente molhados pela escuma. Na primavera ficava cheia de flôres, ninhos, perfumes, aves borboletas e abelhas. Graças aos trabalhos recentes, essa selvageria já não existe; foi substituida por bellas linhas rectas; ha obras de pedreiro, cáes, jardins; tudo foi derrubado; o gosto destruio as extravaganeias da montanha e a incorrecção dos rochedos.
[II]
O DESESPERO DIANTE DO DESESPERO
Era pouco menos de dez horas da manhã: o quarto de hora antes, como se diz em Guernesey.
O povo, segundo todas as apparencias, ia engrossando em Saint-Sampson. A população febricitante de curiosidade, ia toda para o norte da ilha, de maneira que a Angrazinha, que fica ao sul, estava mais deserta que nunca.
Comtudo, via-se ahi um bote e um remador. No bote havia um sacco de viagem. O bateleiro parecia esperar.
Via-se ao largo o Cashmere ancorado, que devendo partir lá para o meio dia, não fazia nenhum movimento de apparelho.
O viandante que, do qualquer dos caminhos-escadas tivesse prestado o ouvido, ouviria um murmurio de palavras na Angrazinha, e inclinando-se por cima, veria, a alguma distancia do bote, n'um recanto de pedra e galhos onde não podia penetrar o olhar do bateleiro, duas pessoas, um homem e uma mulher, Ebeneser e Deruchette.
Esses asylos obscuros das praias, que tentam as banhistas, não são tão solitarios como se pensa. Ás vezes espreita-se e ouve-se de fóra. Os que se refugiam podem ser facilmente acompanhados atravez das espessuras das vegetações, e graças á multiplicidade e entravamento dos atalhos. Os granitos e arvores que escondem o refugiado, podem esconder tambem uma testemunha.
Deruchette e Ebeneser estavam de pé diante um do outro, com o olhar no olhar; tinham as mãos presas. Ebeneser estava calado. Uma lagrima engrossada e presa entre os seus cilios hesitava em cahir, e não cahia.
A desolação e a paixão estavam impressas na fronte religiosa de Ebeneser. Havia tambem uma resignação pungente, hostil á fé, embora derivasse della. Naquelle rosto, simplesmente angelico até então, havia um começo de expressão fatal. Aquelle que até então só meditara sobre o dogma, entrava a meditar sobre a sorte, meditação nociva ao padre. Nessa meditação decompõe-se a fé. Nada perturba tanto o espirito como curvar-se ao peso do ignoto. O homem é o paciente dos acontecimentos. A vida é um perpetuo successo, imposto ao homem. O homem não sabe de que lado virá a brusca descida do acaso. As catastrophes e as felicidades, entram e sahern como personagens inesperadas. Tem a sua fé, a sua orbita, a sua gravitação fóra do homem. A virtude não traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a consciencia tem uma logica, a sorte tem outra; nenhuma coincidencia. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropello. A consciencia é a linha recta, a vida é o turbilhão. O turbilhão atira á cabeça do homem cachos negros e céos azues. A sorte não tem a arte das transições. Ás vezes a vida anda tão depressa que o homem mal distingue o intervallo de uma peripecia á outra e o laço de hontem a hoje. Ebenezer era um crente mesclado de raciocinio e um padre mesclado de paixão. As religiões celibatarias sabem o que fazem. Nada desfaz tanto o padre como amar uma mulher. Todas as especies de nuvens ensombravam Ebeneser.
Contemplava demasiado Deruchette.
Aquellas duas creaturas idolatravam-se.
Havia na palpebra de Ebeneser a muda adoração do desespero.
Deruchette dizia:
—Não hade partir. Não tenho força para vêl-o ir-se embora. Eu acreditava poder despedir-me, e não posso. Ninguem é obrigado a poder. Porque foi hontem ao jardim? Não devia ir, se queria ir-se embora. Nunca lhe fallei. Amava-o, mas não o sabia. Somente, quando o Sr. Herodes leu a historia de Rebecca, e que os seus olhos encontraram os meus, senti as faces em fogo, e disse comigo: Oh! como Rebecca devia ter corado! Hontem se me dissessem que eu amaria o cura, ria-me. É o que ha de terrivel neste amor. Foi uma especie do traição. Não me acautelei. Ia á igreja, via-o, acreditei que todos eram como eu. Não lhe faço censura alguma, nada fez para que eu o ame, não se deu a nenhum trabalho, olhava-me, não é culpa sua se olha para as outras pessoas, e o resultado é que eu o adoro. Eu nem reparava. Quando as suas mãos pegavam n'um livro, era uma luz; quando os outros pegavam nelle, era apenas um livro. Ás vezes levantava os olhos para mim. Fallava dos archanjos, e era o archanjo. O que dizia, pensava-o eu logo. Antes de vêl-o não sei se acreditava em Deos. Depois que o vi, tornei-me uma mulher que faz as suas orações. Eu dizia a Doce: veste-me depressa, não quero faltar ao officio. E corria á igreja. Estar apaixonada por um homem, é isto. Eu não o sabia. Dizia comigo: Como estou devota! Depois de vêl-o é que soube que eu não ia á igreja por causa de Deos. Ia vêl-o é verdade. É formoso, falla bem, quando levanta os braços para o céo parece que tem o meu coração entre as suas duas mãos brancas. Eu estava louca. Ignorava-o. Quer que lhe diga a sua culpa? foi entrar hontem no jardim e fallar-me. Se nada me dissesse, eu nada saberia. Partiria, eu ficava triste, mas agora morrerei. Agora que eu sei que o amor não é possivel que se vá embora. Em que pensa? Parece que não me ouve.
Ebeneser respondeu:
—A senhora ouvio o que se disse hontem.
—Ai, sim!
—Que posso fazer?
Calaram-se um momento. Ebeneser continuou:
—Só uma cousa devo fazer agora. Partir.
—E eu, morrer. Oh! eu quizera qne não houvesse mar, e só houvesse o céo! Parece-me que isto arranjaria tudo, e a nossa partida seria a mesma. Não devia fallar-me. Porque me fallou? Que será agora de mim? Digo-lhe que hei de morrer. Ha de ter ganho muito quando eu estiver no cemiterio. Oh! tenho o coração despedaçado. Desventurada que sou! E meu tio não é máo, comtudo.
Era a primeira vez na sua vida que Deruchette dizia fallando de mess Lethierry, meu tio. Até então sempre dizia meu pai.
Ebeneser recuou um pouco e fez um signal ao bateleiro. Ouvio-se o ruido de um croque nas pedras e o passo de um homem no bote.
—Não! não! gritou Deruchette.
Ebeneser approximou-se della.
—É preciso, Deruchette.
—Não, nunca! Por uma machina! Será possivel? Vio hontem aquelle homem horrivel? Não deve abandonar-ine. Tem intelligencia, ha de achar um meio. Não é possivel que me dissesse para vir aqui hoje, com a idéa de partir. Não lhe fiz nada. Não tem motivos de queixa de mim. É naquelle navio que quer ir? Não quero. Não me deixe. Não se abre o céo para tornal-o a fechar. Digo-lhe que ha de ficar. Demais ainda não bateu a hora. Oh! eu te amo!
E unindo-se a elle, cruzou-lhe os dez dedos por traz do pescoço, como para fazer com os seus braços enlaçados em Ebeneser e com as suas mãos juntas uma oração a Deos.
Elle deslaçou aquella cadêa delicada, que resistio emquanto pôde.
Deruchette cahio assentada n'uma ponta de rocha coberta de hera, levantando com um gesto machinal a manga do vestido até o cotovello, mostrando o seu delicioso braço nú, com uma luz afogada e pallida nos olhos fixos. O bote approximava-se.
Ebeneser segurou-lhe a cabeça nas mãos; aquella virgem tinha o ar de uma viuva e aquelle mancebo tinha o ar de um avô. Tocou-lhe os cabellos com uma especie de precaução religiosa; fitou os olhos nella durante alguns instantes, depositou-lhe na fronte um desses beijos debaixo dos quaes parece que deveria abrir uma estrella, e com uma voz que tremia na suprema angustia e onde se sentia a dilaceração da alma, disse-lhe esta palavra, a palavra das profundezas: Adeos!
Deruchette rompeu em soluços.
Neste momento ouviram uma voz lenta e grave que dizia:
—Porque motivo não se casam?
Ebeneser voltou a cabeça. Deruchette levantou os olhos.
Gilliatt estava diante delles.
Acabava de entrar por um atalho lateral.
Gilliatt já não era o mesmo homem da vespera. Tinha penteado os cabellos, fez a barba, calçou os sapatos, vestio camisa branca de marinheiro com grandes collarinhos cabidos, vestio a roupa de marinheiro mais nova. Via-se um annel de ouro no dedo minimo. Parecia profundamente calmo. Estava livido.
Bronze que soffre, tal era aquelle rosto.
Os dous olharam para elle estupefactos. Embora não se podesse reconhecel-o, Deruchette reconheceu-o. Quanto ás palavras que elle acabava de pronunciar, estavam tão longe do que elles pensavam nesse momento, que resvalaram-lhe no espirito.
Gilliatt continuou:
—Que necessidade é essa de se dizerem adeos? Casem-se. Embarquem depois.
—Deruchette estremeceu da cabeça aos pés.
Gilliatt continuou:
—Miss Deruchette tem vinte e um annos. É senhora de sua vontade. Seu tio é apenas seu tio. Amam-se...
Deruchette interrompeu docemente.
—Como é que o senhor está aqui?
—Casem-se, continuou Gilliatt.
Deruchette começava a perceber o que lhe dizia aquelle homem. Murmurou:
—O meu pobre tio...
—Recusaria se o casamento estivesse por fazer, disse Gilliatt, e consentirá quando o casamento estiver concluido. Demais vão embarcar ambos. Quando voltarem, elle os perdoará.
Gilliatt accrescentou com um tom amargo:
—E depois, elle já não pensa senão em construir o vapor. Isso o distrahirá durante a sua ausencia. Tem Durande para consolal-o.
—Eu não quizera, balbuciou Deruchette n'um espanto misturado de alegria, não quizera deixar pesares indo-me embora...
—Não durarão muito tempo os pesares, disse Gilliatt.
Ebeneser e Deruchette tiveram uma especie de deslumbramento. Tranquillisaram-se. Na sua decrescente perturbação, iam entendendo as palavras de Gilliatt. Ainda havia alguma nuvem, mas a obrigação delles dous não era resistir ao conselho. Quem salva domina sempre. Fracas são as objecções quando se trata de voltar ao Eden. Havia na attitude de Deruchette, imperceptivelmente apoiada em Ebeneser, alguma cousa que fazia causa commum com o que dizia Gilliatt. Quanto ao enigma da presença daquelle homem e das suas palavras que, no espirito de Deruchette em particular, produziam muitas especies de assombro, eram questões á parte. Aquelle homem dizia-lhes: Casem-se. Era claro. Se houvesse uma responsabilidade era elle quem a tomava sobre si. Deruchette sentia confusamente que, por diversas razões, elle tinha o direito de faze-lo. O que elle dizia de mess Lethierry era verdade, Ebeneser pensativo murmurou:
—Um tio não é um pai.
Ebeneser sentia a corrupção de uma peripecia subita e feliz. Os escrupulos provaveis do padre fundiam-se e dissolviam-se naquelle pobre coração apaixonado.
A voz de Gilliatt tomou-se breve e dura; sentia-se nella umas pulsações de febre:
—Immediatamente. O Cashmere parte daqui a duas horas. Tem tempo, mas não de sobra; venham ambos.
Ebeneser examinava-o attentamente.
De subito exclamou:
—Conheço-o. Foi o senhor quem me salvou a vida.
Gilliatt respondeu:
—Não creio.
—Lá adiante, na ponta dos Bancos.
—Não conheço esse lugar.
—No mesmo dia em que cheguei.
—Não percamos tempo, disse Gilliatt.
—E não me engano, o senhor é o homem de hontem á noite.
—Talvez.
—Como se chama?
Gilliatt alçou a voz:
—Ó do bote, espere-nos. Já voltamos. Miss, a senhora perguntou-me porque motivo estava eu aqui, é simples, eu acompanhei-os. A senhora tem vinte e um annos. Nesta terra quem chega a maioridade e depende de si casa-se em um quarto de hora. Tomemos o caminho da praia. Está praticavel, a maré ha de encher lá para o meio dia. Mas vamos já. Venham comigo.
Deruchette e Ebeneser pareciam consultar-se com o olhar. Estavam de pé, juntinhos, sem mecher-se; pareciam ébrios. Ha dessas tentações extranhas á beira desse abysmo que se chama felicidade. Comprehendiam sem comprehender.
—Elle chama-se Gilliatt, disse Deruchette baixinho a Ebeneser.
Gilliatt continuou com uma especie de autoridade:
—Que esperam? Já lhes disse que me acompanhassem.
—Aonde? perguntou Ebeneser.
—Alli.
E Gilliatt mostrou com o dedo a torre da igreja.
Os dous acompanharam-n'o.
Gilliatt ia adiante. O seu passo era firme. Os dous vacillavam.
Á proporção que se approxiraavam da torre, via-se despontar naquelle puros e bellos rostos de Ebeneser e Deruchette alguma cousa que seria dentro de pouco tempo o sorriso. A proximidade da igreja illuminava-os. Nos olhos fundos de Gilliatt haviam trevas.
Dissera-se um espectro levando duas almas ao paraiso.
Ebeneser e Deruchette não comprehendiam muito o que se estava passando. A intervenção daquelle homem era o ramo a que se agarra o affogado. Elles acompanhavam Gilliatt com a docilidade que o desespero tem para com a primeira pessoa que lhe apparece. Quem se sente morrer não é difficil em aceitar os incidentes. Deruchette, mais ignorante, era mais confiante. Ebeneser pensava. Deruchette era maior. As formalidades do casamento inglez são simplissimas, sobretudo nos paizes autochthones onde os parochos tem quasi um poder discricionario; mas o decano celebraria o casamento sem saber se o tio consentia? Havia uma questão nisto. Comtudo, podia-se tentar. Em todo o caso era uma delonga.
Mas quem era aquelle homem? e se era elle quem na vespera, foi declarado genro de mess Lethierry, como explicar o que estava fazendo? Elle, que era o obstaculo, tornava-se a providencia. Ebeneser prestava-se a tudo, mas dava ao que se estava passando o consentimento tacito e rapido do homem que se sente salvo.
O caminho era desigual, ás vezes molhado e difficil. Ebeneser absorto não prestava attenção aos charcos de agua e ás pedras. De quando em quando, Gilliatt, voltava-se e dizia a Ebeneser: Cuidado com essas pedras, dê-lhe a mão.
[III]
PREVIDENCIA DA ABNEGAÇÃO
Soavam dez horas e meia quando elles entravam na igreja.
Por causa da hora, e tambem por causa da solidão da cidade naquelle dia, a igreja estava vasia.
No fundo, porém, perto da mesa que, nas igrejas reformadas, substitue o altar, haviam tres pessoas; eram o decano, o seu evangelista, e mais o lançador dos registros. O decano, que era o reverendo Jaquemin Herodes, estava assentado; o evangelista e o lançador estavam de pé.
O Livro, aberto, estava sobre a mesa.
Ao lado havia outro livro, era o registro da parochia, igualmente aberto, e no qual um olhar attento poderia notar uma pagina escripta de fresco. Uma penna e um tinteiro ficavam ao lado do registro.
Vendo entrar o reverendo Ebeneser Caudray, o reverendo Jaquemin Herodes levantou-se.
—Esperava-o, disse elle. Tudo está prompto.
O decano, com effeito, estava com o habito de officiante.
Ebeneser olhou para Gilliatt.
O reverendo Herodes continuou:
—Estou ás suas ordens, meu collega.
E fez-lhe uma cortezia.
A cortezia não foi nem para a esquerda nem para a direita. Era evidente, pela direcção do raio visual do decano, que, para elle, só Ebeneser existia. Ebeneser era clergyman e gentleman. O decano não comprehendia no seu comprimento nem Deruchette que estava ao lado, nem Gilliatt que estava atraz. Havia no seu olhar um parenthesis em que só Ebeneser era admittido. A manutenção destas distincções faz parte da boa ordem e consolida as sociedades.
O decano continuou com uma amenidade graciosamente altiva:
—Meu collega, faço-lhe o meu duplo comprimento. Morreu-lhe o tio, e o senhor casa-se; fica rico por um lado e feliz por outro. Demais, agora, graças a este vapor que vai ser restabelecido, miss Lethierry tambem é rica, o que eu approvo. Miss Lethierry nasceu nesta parochia, verifiquei a data do nascimento no livro dos assentos. Miss Lethierry é maior e dispõe de si. Depois, seu tio, que é toda a sua familia, consente. Querem casar-se já por causa da viagem, comprehendo, mas sendo este casamento o do cura da parochia, eu quizera mais alguma solemnidade. Abrevio para fazer-lhes o gosto. O essencial póde fazer-se no summario. O acto já está escripto no livro do registro que está aqui, e falta só pôr os nomes. Nos termos da lei e do costume, o casamento pode ser celebrado logo depois da inscripção. A declaração necessaria para a licença já foi feita. Tomo a responsabilidade de uma pequena irregularidade, porque o pedido de licença devia ser previamente registrado sete dias antes; mas eu reconheço a necessidade e a urgencia da partida, Seja. Vou casal-os. O meu evangelista, será a testemunha do esposo; quanto á da esposa...
O decano voltou-se para Gilliatt.
Gilliatt fez um signal de cabeça.
—Basta, disse o decano.
Ebeneser ficara immovel. Deruchette era o extasis petrificado.
O decano continuou:
—Ha porém um obstaculo.
Deruchette fez um movimento.
O decano continuou:
—O enviado de mess Lethierry, que aqui está presente, e pedio a licença e assignou a declaração no registro,—e com o polegar da mão esquerda o decano indicou Gilliatt, o que o isentava de articular nenhum nome,—o enviado de mess Lethierry disse-me esta manhã que mess Lethierry, por muito occupado, não podia vir, e desejava que o casamento se fizesse incontinenti. Esse desejo, verbalmente expresso, não é sufficiente. Não posso, por causa das dispensas e da irregularidade que tomo sobre mim, ir além disto sem imformar-me de mess Lethierry, a menos que não me mostrem a assignatura delle. Qualquer que seja a minha boa vontade, não posso contentar-me com uma palavra que me repetem. Preciso de um escripto.
—Não sirva isso de empecilho, disse Gilliatt.
E apresentou ao decano um papel.
O decano pegou no papel, percorreu com um olhar, pareceu passar algumas linhas, sem duvida, inuteis, e leu alto:
—«...Vai ter á casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se faça o mais cedo possivel, e já, será melhor.»
Poz o papel em cima da mesa e continuou:
—Assignado Lethierry. A cousa seria mais respeitosa se fosse dirigida a mim. Mas como se trata de um collega, não exijo mais.
Ebeneser olhou de novo para Gilliatt. Ha almas que se entendem. Ebeneser sentia naquillo uma fraude; e não teve força, não teve mesmo idéa, de denuncial-a. Ou fosse obediencia a um heroismo latente que elle antevia, ou fosse que se lhe aturdisse a consciencia pela ventura subita, Ebeneser não teve palavras.
O decano tomou a penna e encheu, com auxilio do lançador dos assentos, os claros da pagina escripta no livro, depois levantou-se, e com o gesto, convidou Ebeneser e Deruchette, a aproximar-se da mesa.
Começou a ceremonia.
Ebeneser e Deruchette estavam ao pé um do outro diante do ministro. Quem tiver sonhado que se está casando saberá o que elles sentiam.
Gilliatt estava a alguma distancia na obscuridade dos pillares.
Deruchette ao levantar-se da cama, desesperada, pensando no tumulo e no sudario, vestira-se de branco. Esta idéa de morte veio a proposito para as nupcias. O vestido branco fez della uma noiva. Tambem os tumulos são esponsaes.
Deruchette irradiava. Nunca foi o que era naquelle instante. Deruchette tinha o defeito de ser demasiado linda e não bastante formosa. A sua belleza peccava, se é peccar, por excesso de graça. Deruchette em repouso, isto é, fóra da paixão e da dôr, já o dissemos, era sobretudo gentil. A transfiguração da moça encantadora é a virgem ideal. Deruchette, engrandecida pelo amor e pelo soffrimento, tinha tido esse progresso, deixem passar a palavra. Tinha a mesma candura, com mais dignidade, a mesma frescura com mais perfume. Era uma especie de bonina que se torna lyrio.
Tinha no rosto signaes de lagrimas estanques. Havia ainda talvez uma lagrima no canto do sorriso. As lagrimas estanques, vagamente visiveis, são um sombrio e doce ornato da felicidade.
O decano, de pé perto da mesa, poz um dedo na Biblia aberta e perguntou em voz alta:
—Ha opposição?
Ninguem respondeu.
—Amen, disse o decano.
Ebeneser e Deruchette deram um passo para o Rev. Jaquemin Herodes.
O decano disse:
—Joë Ebeneser Caudray, queres esta mulher por tua esposa?
Ebeneser respondeu:
—Quero.
O decano contiunou:
—Durande Deruchette Lethierry, queres este homem por teu marido?
Deruchette na agonia da alma demasiado feliz, como a da lampada demasiado cheia de oleo, murmurou em vez de pronunciar:
—Quero.
Então, segundo o bello rito do casamento anglicano, o decano olhou em roda de si, e fez na sombra da igreja esta solemne pergunta:
—Quem dá esta mulher a este homem?
—Eu, disse Gilliatt.
Houve um momento de silencio. Ebeneser e Deruchette sentiram uma vaga oppressão atravez da sua felicidade.
O decano poz a mão direita de Deruchette na mão direita de Ebeneser, e Ebeneser disse a Deruchette:
—Deruchette, tomo-me por minha mulher, quer sejas melhor ou peior, mais rica ou mais pobre, doente ou com saude, para amar-te ate á morte, e dou-te a minha fé.
O decano pôz a mão direita de Ebeneser na mão direita de Deruchette, e Deruchette disse a Ebeneser:
—Ebeneser, tomo-te por meu marido, quer sejas melhor ou peior, mais rico ou mais pobre, doente ou com saude, para amar-te e obedecer-te até á morte, e dou-te a minha fé.
O decano continuou:
—Onde está o annel?
Isto era o imprevisto. Ebeneser não tinha annel.
Gilliatt tirou o annel de ouro que tinha no dedo minimo e apresentou ao decano. Era provavelmente o annel de casamento comprado de manhã ao ourives de Commercial—Arcade.
O decano pôz o annel no livro, depois entregou-o a Ebeneser.
Ebeneser pegou na mãosinha esquerda, tremula, de Deruchette, metteu o annel no quarto dedo, e disse:
—Desposo-te com este annel.
—Em nome do Padre, do Filho e do Espirito-Santo, disse o decano.
—Assim seja, disse o evangelista.
O decano alçou a voz:
—Estaes casados.
—Assim seja, disse o evangelista.
O decano continuou:
—Oremos.
Ebeneser e Deruchette voltaram-se para a mesa e ajoelharam-se.
Gilliatt que estava de pé inclinou a cabeça.
Elles ajoelhavam-se diante de Deos, Gilliatt curvava-se ao destino.
[IV]
«PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES»
Sahindo da igreja viram o Cashmere que começava a apparelhar.
—Chegam a tempo, disse Gilliatt.
Seguiram pelo caminho da Angrazinha.
Os dous iam adiante, Gilliatt agora caminhava atraz.
Eram dous somnambulos. Mudára apenas o atordoamento. Não sabiam nem onde estavam nem o que faziam; apressavam-se machinalmente, não se lembravam da existencia de cousa alguma, sentiam-se um outro, não podiam ligar duas idéas. Não póde pensar quem está em extasis, como não póde nadar quem está n'uma torrente. Pareciam ir penetrando n'um paraiso. Não se fallavam, conversavam com a alma. Deruchette apertava contra si o braço de Ebeneser.
O passo de Gilliatt atraz delles fazia-lhes ver que elle estava presente. Iam profundamente commovidos, mas sem dizer palavra; o excesso da commoção transforma-se em estupefacção. A delles era deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto, esperavam voltar, o que Gilliatt fez era bem feito, eis tudo. O fundo desses dous corações agradecia-lhe ardente e vagamente. Deruchette dizia comsigo que havia alguma cousa para deslindar, mais tarde. Entretanto, aceitavam o facto. Sentiam-se á discrição daquelle homem decisivo e subito, que, por autoridade, fazia a felicidade delles dous. Fazer-lhes perguntas, conversar com elle, era impossivel. Eram de sobejo as impressões que se lhes precipitavam em cima ao mesmo tempo. Estavam engolphados; era perdoavel.
Os factos são ás vezes uma saraiva. Crivam a creatura. Ensurdecem. A precipitação dos incidentes, cahindo em existencias habitualmente calmas, tornam logo inintelligiveis os acontecimentos aos que os soffrem ou delles se aproveitam. Não se póde conhecer a sua propria ventura. Fica-se esmagado sem adivinhar, venturoso sem comprehender. Deruchette, em particular, desde algumas horas recebera todas as commoções; primeiramente a fascinação, Ebeneser no jardim; depois o pesadelo, aquelle monstro declarado seu marido; depois a desolação, o anjo abrindo as azas e prestes a partir; agora era a alegria, uma alegria inaudita, com um fundo indecifravel; o monstro dava-lhe o anjo; o casamento sahia da agonia; o Gilliatt, catastrophe de hontem, salvação de hoje. Deruchette não comprehendia nada. Era evidente que desde manhã Gilliatt não teve outra occupação se não a de casal-os; fez tudo; respondeu por mess Lethierry, fallou ao decano, pedio licença, assignou a declaração necessaria; eis-ahi como se realisou o casamento. Mas Deruchette não comprehendia nada; de mais, mesmo quando ella comprehendesse o como, não comprehenderia o porque.
Fechar os olhos, agradecer mentalmente, esquecer a terra e a vida, deixasse levar para o céo por aquelle bom demonio, eis o que lhe cumprir fazer. Esclarecer seria longo, agradecer não seria bastante. Deruchette calava-se naquelle doce embrutecimento da ventura.
Restava-lhe ainda algum pensamento, sufficiente para guial-a. Debaixo d'agua ha pedaços de esponja que ficam brancos. Elles tinham a somma de lucidez necessaria para distinguir o mar da terra e o Cashmere de qualquer outro navio.
Dentro de poucos minutos estavam elles na Angrazinha.
Ebeneser foi o primeiro a entrar no bote. No momento em que Deruchette ia acompanhal-o, sentio a sua manga docemente puxada. Era Gilliatt que tinha posto um dedo numa dobra do vestido.
—Senhora, disse elle, não esperava partir. Eu cuido que naturalmente ha de precisar de vestidos e roupa. Achará a bordo do Cashmere um caixotinho com objectos de mulher. Foi minha mãe quem m'o deu. Era destinado á mulher com quem eu casasse. Consinta que lh'o offereça. Deruchette accordou a meio do sonho em que estava. Voltou-se para Gilliatt. Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia, continuou:
—Agora, não é para demoral-a, mas, olhe, eu creio que devo explicar-lhe uma cousa. No dia em que houve aquella desgraça, a senhora estava assentada na sala baixa, e disse umas palavras. Não se lembra disso, é natural. Ninguem é obrigado a lembrar-se das palavras que diz. Mess Lethierry soffria muito. A verdade é que era um bello navio e prestimoso. O desastre aconteceu; a terra estava alvoroçada e compungida, são cousas que naturalmente se esquecem. Só havia aquelle navio perdido na costa. Não se pode pensar sempre em um accidente. Sómente o que eu queria dizer é que, como se dizia que ninguem era capaz de lá ir, eu fui. Diziam elles que era impossivel; não era impossivel aquillo. Agradeço-lhe o prestar-me attenção por alguns instantes. Comprehende a senhora que se eu lá fui ao escolho, não foi para offendel-a. Demais, a cousa data de longe. Eu sei que está com pressa. Se houvesse tempo, fallariamos, recordariamos, mas isso de nada serve. A cousa data de um dia em que cahio neve. E depois eu passei uma vez, e cuido tel-a visto sorrir. É assim que tudo se explica. Quanto ao que se passou hontem, eu não tive tempo de ir á casa, acabava do trabalho, estava todo rasgado, metti-lhe medo, a senhora desmaiou, fiz mal, não se entra assim na casa dos outros, peço-lhe que me perdôe. É isto mais ou menos o que eu queria dizer-lhe. Vai partir. Tem um bello tempo. Acha justo que eu lhe fallo, não? é o ultimo minuto.
—Penso na caixinha, respondeu Deruchette. Por que não hade guardal-a para sua mulher, quando se casar?
—Senhora, disse Gilliatt, provavelmente eu não me casarei nunca.
—Pois é pena, porque é uma boa alma. Obrigada.
E Deruchette sorrio. Gilliatt retribuio-lhe com outro sorriso.
Depois ajudou Deruchette a entrar no escaler. Menos de um quarto de hora depois, o escaler onde iam Ebeneser e Deruchette atracava ao Cashmere.
[V]
A GRANDE TUMBA
Gilliatt seguio pela praia, parou rapidamente em Saint-Pierre Port, depois caminhou para Saint-Sampson ao longo do mar, fugindo aos encontros, evitando as estradas cheias de caminhantes, por culpa delle.
Desde muito tempo, como se sabe, Gilliatt tinha um modo de atravessar a terra em todos os sentidos sem ser visto por ninguem. Conhecia os atalhos, fez para si itinerarios isolados e em zig-zags: tinha o habito feroz do ente que não se julga estimado; andava de longe. Ainda criança, vendo pouco agasalho no rosto dos homens, tomou o costume, que depois tornou-se-lhe instincto, de andar sempre affastado.
Passou a Esplanada, depois a Saleria. De tempos a tempos, voltava-se e olhava para o Cashmere na barra, que lhe ficava por traz; e o Cashmere abria as velas. Havia pouco vento, Gilliatt ia mais depressa que o Cashmere. Gilliatt caminhava nas rochas extremas da praia, com a cabeça baixa. A maré começava a subir.
Em certo momento parou, e voltando as costas para o mar, contemplou durante alguns minutos, além dos rochedos que escondiam a estrada do Valle, uma moita de carvalhos. Eram os carvalhos do lugar chamado Baisses Maisons. Foi alli, debaixo daquellas arvores, que outrora o dedo de Deruchette escreveu o nome de Gilliatt na neve. Havia muito tempo que essa neve estava desfeita.
Proseguio no caminho.
O dia estava mais bello que nenhum outro naquelle anno. A manhã tinha um quê de nupcial. Era um desses dias vernaes em que Maio ostenta-se todo inteiro; a creação parecia não ter outro fim que dar uma festa e fazer a propria felicidade. Sob todos aquelles rumores, da floresta como da aldêa, da vaga como da athmosphera, sentiam-se uns sons de arrulho. As primeiras borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo era novo na natureza, as hervas, os musgos, as folhas, os perfumes, os raios. Parecia que o sol nunca tinha sorvido. Os seixos estavam lavados de fresco. A profunda canção das arvores era cantada por aves nascidas na vespera. Era provavel que a casquinha do ovo quebrada pelo biquinho dessas aves, ainda estivesse no ninho. Ensaios de azas romurejavam nas folhas tremulas. Cantavam o primeiro canto, davam o primeiro vôo. Era uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos, pintasilgos, barbiruivos, pardaes. Os lilases, os lyrios, os daphnes, as glycinas, compunham nas moitas uma deliciosa variedade de côres. Uma linda lentilha aquatica que ha em Guernesey cobria as lagôas de uma toalha de esmeralda. Banhavam-se as arveloas nas lagôas, onde costumam fazer tão graciosos ninhos. Via-se o céo atravez de todas as falhas da vegetação. Algumas nuvens lascivas perseguiam-se no ar ondeando como nymphas. Como que se sentia a passagem de beijos mandados por bocas invisiveis. Nenhum velho muro deixava de ter, como um noivo, o seu ramalhete de gyrofleas. Os abrunheiros sylvestres e os codeços estavam em flôr; viam-se aquelles montinhos brancos luzindo e aquelles montinhos amarellos fulgurando atravez do cruzamento dos ramos.
A primavera atirava toda a sua prata e ouro no immenso cesto rasgado dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes de fresco. Ouvia-se no ar um grito de saudação. Estio hospitaleiro abria a porta aos passaros longinquos. Era a hora da chegada das andorinhas. Os thyrsos dos juncos orlavam os caminhos cavados, esperando os thyrsos dos pilriteiros. O bello e o lindo faziam boa visinhança: o soberbo completava-se pelo gracioso; o grande não tolhia o pequeno; não se perdia nenhuma nota do concerto; as magnificencias microscopicas estavam em plano proprio naquella vasta belleza universal; distinguia-se tudo como n'uma agua limpida. Por toda a parte uma divina plenitude e um entumecimento mysterioso faziam advinhar o exforço panico e sagrado da seiva em acção. O que brilhava, brilhava mais; o que amava, amava melhor. Havia um hymno na flôr e uma irradiação no ruido. Escutava-se a grande harmonia diffusa. O que começava a despontar procurava o que começava a surdir. Uma turvação, que surgia debaixo, e vertia tambem de cima, agitava vagamente os corações, corruptiveis á influencia espessa e subterranea dos germens. A flôr promettia obscuramente o fructo, todas as virgens scismavam, a reproducção dos seres, premeditada pela immensa alma da sombra, esboçava-se na irradiação das cousas. Era o universal noivado. A vida, que é a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo. O dia estava claro, formoso, e ardente; atravez das sebes, nas cercas, viam-se rir as crianças Algumas jogavam a palheta. As macieiras, os pecegueiros, as cerejeiras, as pereiras, cobriam os vergeis com os seus grossos tuffos pallidos ou vermelhos. Na relva, as primaveras, as pervincas, as mil-folhas, as margaridas, os amaryles, os jacinthos, as violetas e as veronicas. As borragens azues, os iris amarellos, pululavam, com as bollas estrellinhas côr de rosa que florecem sempre aos bandos e que por esse motivo chamam-se as companheiras. Animaculos dourados corriam por entre as pedras. O sayão florescente purpureava os tectos das cabanas. As operarias das colmeas andavam por fóra. A abelha trabalhava. A extensão estava cheia do murmurio dos mares e do zumbido das moscas. A natureza, permeavel na primavera, estava humida de voluptuosidade.
Quando Gilliatt chegou a Saint-Sampson, ainda a maré não enchera e elle pôde atravessar a praia a pé secco, desapercebido por traz dos cascos de navios no estaleiro. Um cordão de pedras chatas, postas de espaço a espaço, auxiliava a passagem.
Gilliatt não foi observado. O povo estava do outro lado do porto, perto da sahida, junto á casa de Lethierry. Ahi andava o nome delle, de boca em boca. Fallava-se tanto delle que o não chegavam a ver. Gilliatt passou escondido de algum modo pelo proprio rumor que causava.
Vio de longe a pança no lugar onde a amarrára, com o cano da machina entre as quatro correntes, com um movimento de carpinteiros trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que iam e vinham de um para outro lado, e ouvio a voz tonante e alegre de mess Lethierry dando ordens.
Metteu-se pelas ruelas dentro.
Não havia ninguem por traz de Bravées, toda a curiosidade convergia para a frente. Gilliatt tomou o atalho que costeava o muro baixinho do jardim. Parou no angulo onde estava a malva sylvestre; tornou a ver a pedra onde costumava sentar-se; tornou a ver o banco de Deruchette. Olhava para o chão da alameda onde vio abraçarem-se as duas sombras, que tinham desaparecido.
Foi caminho. Galgou a collina do castello do Valle, deceu-a, e dirigiu-se para a casa mal assombrada, onde morava.
O Houmet-Paradis estava solitario.
A casa estava tal qual elle a deixara de manhã depois de vestir-se para ir a Saint-Pierre Port.
Havia uma janella aberta. Via-se por ella o bug-pipe pendurado em um prego da parede.
Via-se na mesa a pequena Biblia dada em agradecimento a Gilliatt por um desconhecido, que era Ebeneser.
A chave estava na porta. Gilliatt approximou-se, poz a mão na chave, fechou a porta com duas voltas, poz a chave no bolso, e affastou-se.
Affastou-se, não para o lado de terra, mas para o lado do mar.
Atravessou diagonalmente o jardim, pelo lado mais curto, pisando os canteiros, mas tendo cuidado de poupar os seakales que plantara por serem do gosto de Deruchette.
Galgou o parapeito e desceu aos arrecifes.
Continuou a andar, indo sempre para a frente, pela longa e estreita linha de cachopos que ligava a casa delle áquelle grande obelisco de granito de pé, no meio do mar, que se chamava Corne de la Bête. Era alli que ficava a cadeira Gild-Holm'Ur.
Passava de um recife a outro como um gigante caminha nos cabeços. Andar em uma crosta de recifes assemelha-se a andar na borda de um telhado.
Uma pescadora de rede que andava com os pés descalços, nos charcos que ficavam proximos, e voltava para a praia, gritou-lhe:—Cuidado. A maré está enchendo.
Gilliatt continuou a andar. Chegando ao grande rochedo da ponta, que formava um pinaculo no mar, parou. Acabava a terra. Era a extremidade do pequeno promontorio.
Olhou.
Ao largo pescavam alguns barcos, com ancoras fóra. Via-se de quando em quando naquelles barcos um gotejar de prata: eram as redes que sahiam d'agua. O Cashmere ainda não estava na altura de Saint-Sampson; desenrolára a mesena. Estava entre Herm e Jethou.
Gilliatt torneou o rochedo. Chegou á beira da cadeira Gild-Holm'Ur, ao pé dessa especie de escada tosca, que, menos de tres mezes antes, Ebeneser descera ajudado por elle.
Gilliatt subio.
A maior parte dos degráos já estavam debaixo da agua. Apenas dous ou tres estavam a secco. Gilliatt escalou-os.
Os degráos iam ter á cadeira Gild-Holm'Ur. Chegou á cadeira, contemplou-a por um momento, apoiou a mão nos olhos e fêl-a passar de uma a outra sobrancelha, gesto com que parece que se apaga o passado, depois assentou-se na cava da rocha, com o grande declive por traz de si, e o oceano aos pés.
O Cashmere nesse momento passava pela grande torre arredondada e immersa, defendida por um sargento e um canhão, e que marca na bahia a metade do caminho entre Herm e Saint-Pierre Port.
Nas fendas do rochedo tremiam algumas flôres, por sobre a cabeça de Gilliatt. A agua estava toda azul. O vento era d'Este, havia pouca ressaca á roda de Serk, da qual em Guernesey só se vê a costa Occidental. Via-se ao longe a França como uma bruma e a longa facha amarella de arêas de Casteret. De quando em quando passava uma borboleta branca. As borboletas gostam de passeiar sobre o mar.
Fraca era a brisa. Todo aquelle azul, em baixo e em cima, estava immovel. Nenhuma tremura agitava aquellas serpentes de um azul mais claro ou mais carregado, que marcava na superficie do mar as torções latentes dos baixios.
O Cashmere, pouco impellido pelo vento, içou os cutellos para apanhar alguma brisa. Cobrio-se todo de pannos. Mas o vento era de travez, o effeito dos cutellos obrigava-o a costear de perto Guernesey. Já tinha passado a balisa de Saint-Sampson. Attingia a collina do castello do Valle. Estava quasi proximo ao promontorio da casa de Gilliatt.
Gilliatt via-o approximar-se.
O ar e o mar estavam como que adormecidos. A maré enchia, não por meio de ondas, mas por entumecimento. O nivel d'agua ia-se levantando sem palpitação. O vento do largo mar, extincto, assemelhava-se a um halito de infante.
Ouvia-se na direcção da porta de Saint-Sampson pequenos golpes surdos, que eram martelladas. Provavelmente eram os carpinteiros que levantavam guindastes e pranchas para tirar a machina da pança. Esse rumor mal chegava a Gilliatt, por causa da massa de granito a que elle estava encostado.
O Cashmere approximava-se com uma lentidão de phantasma.
Gilliatt esperava.
De subito uma agitação d'agua e uma sensação de frio obrigaram-n'o a olhar para baixo. A agua tocava-lhe os pés.
Gilliatt abaixou os olhos e levantou-os.
O Cashmere estava perto.
O rochedo onde as chuvas tinham cavado a cadeira Gild'-Holm'Ur, era tão vertical, e havia tanta agua naquelle sitio, que os navios podiam, em tempo de calma, passar alli a distancia de algumas braças.
O Cashmere chegou. Surgio, alçou-se. Parecia crescer sobre a agua. Foi como que um crescimento de sombra. Todo o apparelho destacou-se como massa negra, no céo azul, e no magnifico balanço do mar. As longas velas, por um instante sobrepostas ao sol, tornavam-se quasi côr de rosa e tiveram uma transparencia inefavel. As ondas tinham um murmurio indistincto. Nenhum rumor perturbava o resvalar magestoso daquella massa. De terra via-se o que se passava á bordo como se lá estivesse.
O Cashmere roçou quasi pela rocha.
O timoneiro estava no leme, um grumette trepava aos ovens, alguns passageiros, encostados á amurada, contemplavam a serenidade do tempo, o capitão fumava. Mas não era nada disso o que Gilliatt contemplava.
Havia no tombadilho um lugar cheio de sol. Era para alli que elle olhava. Alli* estavam Ebeneser e Deruchette. Estavam assentados debaixo daquella luz, elle juntinho della. Contrahiam-se graciosamente ao lado um do outro, como dous passaros que se aquecem a um raio do meio dia, n'um desses bancos cobertos de umi assento alcatroado que os navios bem preparados offerecem aos viajantes, e nos quaes costuma ler-se, quando o navio é inglez: For ladies only. A cabeça de Deruchette cahia sobre o hombro de Ebeneser, o braço de Ebeneser estava por traz da cintura de Deruchette, tinham as mãos aggarradas uma á outra e os dedos entrelaçados nos dedos. As differenças de um anjo a outro mostravam-se claramente naquelles dous delicados rostos feitos de innocencia. Um era mais virginal, o outro mais sideral. Era expressivo aquelle casto abraço, que encerrava o hymenêo e o pudor. Aquelle banco era já uma alcova e quasi um ninho. Ao mesmo tempo, era uma gloria; a doce gloria do amor fugindo n'uma nuvem.
O silencio era celeste.
O olhar de Ebeneser agradecia e contemplava; moviam-se os labios de Deruchette; e nesse silencio delicioso, como o vento vinha do lado opposto, no instante rapido em que o sloop resvalou a algumas toezas da cadeira Gild'-Holm'Ur, Gilliatt ouvia a voz terna e delicada de Deruchette que dizia:
—Olha! Parece que ha um homem no rochedo.
A apparição passou.
O Cashmere deixou a ponta do promontorio atraz de si, e mergulhou-se no franzido profundo das vagas. Em menos de um quarto de hora, mastros e velas assemelhavam-se a uma especie de obelisco branco diminuindo no horisonte. Gilliatt tinha agua até os joelhos.
Via o sloop affastar-se.
A brisa refrescava ao longe. Gilliatt pôde ver o Cashmere içar os cutellos baixos para aproveitar o augmento do vento. O Cashmere já estava fora das aguas de Guernesey. Gilliat não tirava os olhos do navio.
A agua chegava-lhe á cintura.
A maré levantava-se. O tempo corria.
As cotovias e os corvos marinhos esvoaçavam inquietos em roda delle. Dissera-se que procuravam advertil-o. Talvez houvesse naquelles bandos alguma gaivota ainda das Douvres que o reconhecia.
Decorreu uma hora.
O vento do largo não soprava no porto, mas a diminuição do Cashmere era rapida. O sloop, segundo as apparencias, ia a toda a força. Já estava quasi na altura de Casquets.
Não havia espuma á roda do rochedo Gild-Holm'Ur, nenhuma vaga batia no granito. A agua inchava vagarosamente. Já estava quasi na altura dos hombros de Gilliatt.
Decorreu outra hora.
O Cashmere estava já alem das aguas de Aurigny. O rochedo Ortach escondeu-o por um momento. Occultou-se atraz desse rochedo, e sahiu depois, como de um eclipse. O sloop fugia para o norte. Já entrava no mar alto. Era apenas um ponto, tendo por causa do sol, a scintillação de uma luz.
Os passaros soltavam pios a Gilliatt.
Já não se via mais que a cabeça delle.
O mar subia com uma brandura sinistra.
Gilliatt, immovel, olhava para o Cashmere que se desvanecia. A maré estava quasi cheia. Cahia a tarde. Por traz de Gilliatt, no porto, alguns barcos de pesca voltavam para terra.
Os olhos de Gilliatt, presos ao longe no sloop, estavam fixos.
Aquelles olhos lixos não se pareciam com cousa alguma que se possa ver na terra. Havia o inexprimivel naquella palpebra tragica e calma. O olhar continha toda a somma de tranquillidade que deixa o sonho abortado; era a aceitação lugubre de outro complemento. Uma fuga de estrella deve ser aconpanhada por olhares semelhantes. De quando em quando a obcuridade celeste apparecia naquella palpebra cujo raio visual estava fixo num ponto do espaço. Ao mesmo tempo em que a agua infinita subia a roda do rochedo Gild-Holm'Ur, ia subindo a immensa tranquillidade da sombra nos olhos profundos de Gilliatt.
O Cashmere, tornando-se imperceptivel, era já uma mancha misturada á bruma. Para distingui-lo era preciso saber onde elle estava.
A pouco e pouco, aquella mancha, que já não era uma forma, foi empallidecendo.
Depois diminuio.
Depois dissipou-se.
No momento em que o navio dissipava-se no horisonte, a cabeça desapparecia debaixo d'agua. Tudo acabou; só restava o mar.
FIM
INDICE
[PRIMEIRA PARTE]
O Sr. Clubin.
[LIVRO PRIMEIRO]
Elementos de uma má reputação
[I]
PALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCA
[II]
O TUTÚ DA RUA
[III]
PARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARES
[IV]
IMPOPULARIDADE
[V]
OUTROS PONTOS AMBIGUOS DE GILLIATT
[VI]
A PANÇA
[VII]
CASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONARIO
[VIII]
A CADEIRA GILD-HOLM-'UR
[LIVRO SEGUNDO]
Mess Lethierry
[I]
VIDA AGITADA E CONSCIENCIA TRANQUILLA
[II]
UMA PREFERENCIA DE MESS LETHIERRY
[III]
A VELHA LINGUA DO MAR
[IV]
VULNERABILIDADE POR AMOR
[LIVRO TERCEIRO]
Durande e Deruchette.
[I]
GARRULICE E EFFLUVIOS
[II]
A ETERNA HISTORIA DA UTOPIA
[III]
RANTAINE
[IV]
CONTINUAÇÃO DA HISTORIA DA UTOPIA
[V]
O NAVIO-DIABO
[VI]
LETHIERRY ENTRA NA GLORIA
[VII]
O MESMO PADRINHO E A MESMA PADROEIRA
[VIII]
A MELODIA BONNY DUNDEE
[IX]
O HOMEM QUE ADVINHOU QUEM ERA RANTAINE
[X]
NARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSO
[XI]
LANCE DE OLHOS AOS MARIDOS EVENTUAES
[XII]
EXCEPÇÃO NO CARACTER DE LETHIERRY
[XIII]
O DELEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA
[LIVRO QUARTO]
O bug-pipe.
[I]
PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE INCENDIO
[II]
GILLIATT VAI ENTRANDO PASSO A PASSO NO DESCONHECIDO
[III]
A CANÇÃO BONNY DUNDEE ACHA UM ECHO NA COLLINA
[IV]
Pour l'oncle et le tuteur,...
[V]
JUSTA VICTORIA É SEMPRE MALQUISTA
[VI]
FORTUNA DOS NAUFRAGOS ENCONTRANDO A CHALUPA
[VII]
BOA FORTUNA DE APPARECER A TEMPO
[LIVRO QUINTO]
O revolver.
[I]
A PALESTRA NA POUSADA JOÃO
[II]
CLUBIN DESCOBRE ALGUEM
[III]
CLUBIN LEVA UNS OBJECTOS E NÃO OS TRAZ
[IV]
PLAINMONT
[V]
OS FURTA-NINHOS
[VI]
A JACRESSARDE
[VII]
COMPRADORES NOCTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO
[VIII]
CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA
[IX]
INFORMAÇÃO UTIL ÁS PESSOAS QUE ESPERAM, OU RECEIAM CARTAS DE ALEM-MAR
[LIVRO SEXTO]
O timoneiro ebrio e o capitão sobrio
[I]
OS ROCHEDOS DOUVRES
[II]
COCNAC INESPERADO
[III]
PALESTRA INTERROMPIDA
[IV]
MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN
[V]
CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CUMULO
[VI]
ALLUMIA-SE O INTERIOR DE UM ABISMO
[VII]
INTERVEM O INESPERADO
[LIVRO SETIMO]
Imprudencia de interrogar um livro
[I]
A PEROLA NO FUNDO DO PRECIPICIO
[II]
GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE
[III]
NÃO TENTEIS A BIBLIA
[SEGUNDA PARTE]
O engenhoso Gilliatt
[LIVRO PRIMEIRO]
O escolho
[I]
INCOMMODA CHEGADA, DIFFICIL SAHIDA
[II]
AS PERFEIÇÕES DO DESASTRE
[III]
SÃ, MAS NÃO SALVA
[IV]
PREVIO EXAME LOCAL
[V]
UMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLLABORAÇÕES SECRETAS DOS ELEMENTOS
[VI]
CAVALLARIÇA PARA O CAVALLO
[VII]
QUARTO PARA O VIAJANTE
[VIII]
IMPORTUNAQUE VOLUCRES
[IX]
O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR DELLE
[X]
A FORJA
[XI]
DESCOBERTA
[XII]
O INTERIOR DE UM EDIFICIO DEBAIXO DO MAR
[XIII]
O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ
[LIVRO SEGUNDO]
O trabalho
[I]
OS RECURSOS DAQUELLE QUE NÃO TEM RECURSOS
[II]
DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCONTRAR-SE COM ESCHYLO
[III]
A OBRA PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA PRIMA DE LETHIERRY
[IV]
SUBRE
[V]
SUB UMBRA
[VI]
GILLIATT COLLOCA A PANÇA EM POSIÇÃO
[VII]
SURGE UM PERIGO
[VIII]
MAIS PERIPECIA QUE DESENLACE
[IX]
INTERROMPE-SE O EXITO
[X]
AS ADVERTENCIAS DO MAR
[XI]
PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA
[LIVRO TERCEIRO]
A luta
[I]
O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRARIO ANNUNCIA O CONTRARIO
[II]
OS VENTOS DO LARGO
[III]
EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT
[IV]
TURBA, TURMA
[V]
GILLIATT PÓDE ESCOLHER
[VI]
O COMBATE
[LIVRO QUARTO]
O forro do obstaculo
[I]
QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHA
[II]
O MONSTRO
[III]
OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABYSMO
[IV]
NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE
[V]
HA LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALLO QUE SEPARA SEIS POLLEGADAS DE DOUS PÉS
[VI]
DE PROFUNDIS AD ALTUM
[VII]
HA UM OUVIDO NO IGNOTO
[TERCEIRA PARTE]
Deruchette
[LIVRO PRIMEIRO]
Noite e lua
[I]
O SINO DO PORTO
[II]
AINDA O SINO DO PORTO
[LIVRO SEGUNDO]
Reconhecimento em pleno despotismo
[I]
ALEGRIA CERCADA DE ANGUSTIAS
[II]
A MALA DE COURO
[LIVRO TERCEIRO]
A Partida do Cashmere
[I]
O ANGRAZINHA PROXIMA DA IGREJA
[II]
O DESESPERO DIANTE DO DESESPERO
[III]
PREVIDENCIA DA ABNEGAÇÃO
[IV]
«PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES»
[V]
A GRANDE TUMBA