VICTOR HUGO

traduzido por Machado de Assis

RIO DE JANEIRO
TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.

[Indice]


[PRIMEIRA PARTE]

O Sr. Clubin.


Dedico este livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade, a este canto da velha terra normanda onde vive o nobre e pequeno povo do mar, á ilha de Guernesey, severa e branda, meu actual asylo, meu provavel tumulo.

V. H.


A religião, a sociedade, a natureza: taes são as tres lutas do homem. Estas tres lutas são ao mesmo tempo as suas tres necessidades; precisa crer, dahi o templo; precisa crear, dahi a cidade; precisa viver, dahi a charrua e o navio. Mas ha tres guerras nestas tres soluções. Sahe de todas a mysteriosa difficuldade da vida. O homem tem de lutar com o obstaculo sob a forma superstição, sob a fórma preconceito e sob a fórma elemento. Triplice ananke pesa sobre nós, o ananke dos dogmas, o ananke das leis, o ananke das cousas. Na Notre Dame de Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miseraveis, mostrou o segundo; neste livro indica o terceiro.

A estas tres fatalidades que envolvem o homem junta-se a fatalidade interior, o ananke supremo, o coração humano.

Hauteville-House, março de 1866.


[LIVRO PRIMEIRO]

Elementos de uma má reputação


[I]

PALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCA

O christmas (Natal) de 182* foi notavel em Guernesey. Cahio neve naquelle dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que ha neve, é memoravel: a neve é um acontecimento.

Naquella manhã de christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre Port au Valle assemelhava-se a um lençol branco: nevára desde a meia noite até o romper do dia.

Pelas nove horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda occasião dos anglicanos irem á igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos á capella Eldad, o caminho estava quasi deserto. Na parte da estrada comprehendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas tres viandantes, um menino, um homem e uma mulher.

Estes tres viandantes, caminhando separados, uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito annos parára e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atras da mulher, uns cem passos, dirigia-se como ella, para o lado de Saint-Sampson.

Era elle moço ainda e parecia ser operario ou marinheiro. Vestia as roupas ordinarias, isto é, uma grossa camisa de panno escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apezar da festa, não iria á igreja. Os grossos sapatos de couro crú e solas taixadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.

A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir á igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listas brancas e côr de rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomal-a-hiam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquella graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescencia, a mistura dos dous crepusculos, o principio de uma mulher e o fim de uma menina.

O homem não reparava nella.

De subito, perto de uma mouta de azinheiras, que fórma o angulo de uma horta rustica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a attenção do homem.

Parou, pareceu reparar nelle um instante, abaixou-se, e o homem julgou vêl-a escrever com o dedo alguma cousa na neve. Levantou-se e poz-se de novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desappareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao castello de Lierre. O homem, quando ella se voltou pela segunda vez, reconheceu Deruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentio necessidade alguma de appressar o passo.

Alguns instantes depois estava junto á mouta de azinheiras no angulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provavel que se nessa occasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente tinha os olhos baixos, e assim os levou machinalmente ao lugar em que parára a menina. Dous pésinhos ahi estavam impressos e ao lado delles a palavra escripta por ella: Gilliatt.

Era este o nome delle.

Chamava-se Gilliatt.

Ficou por muito tempo immovel, contemplando o nome, os pésinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.


[II]

O TUTÚ DA RUA

Gilliatt residia na parochia de Saint-Sampson, onde não era estimado e havia razões para isso.

Em primeiro lugar, morava em uma casa mal assombrada.

Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e até na cidade, que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada, vê-se uma casa, cuja entrada está obstruida. O azevinho cresce á porta, as janellas do rez do chão estão fechadas por feios emplastros de taboas pregadas; as dos andares superiores estão fechadas e abertas ao mesmo tempo: ha ferrôlhos, mas não ha vidros. No pateo, se o ha, alastra-se a herva e cahem os muros; se ha jardim, nascem a ortiga, o espinheiro, a cicuta; raros insectos esvoaçam. Racham-se as chaminés, o tecto se abate; o que se vê dos quartos está arruinado, a madeira podre, a pedra carcomida; cahe o papel das paredes. Pode-se estudar ahi os antigos gostos do papel pintado, os gryphos do imperio, as sanefas em fórma de crescente do Directorio, os balaustres e cippos de Luiz XVI. A espessura das téas de aranha, cheias de moscas, indicam a profunda tranquillidade em que vivem aquelles insectos. Algumas vezes vê-se um pucaro quebrado sobre uma taboa.

É uma casa mal assombrada. O diabo apparece lá durante a noite.

A casa, como o homem, pode tornar-se cadaver; basta que uma superstição a mate. Então é terrivel.

Essas casas mortas não são raras nas ilhas da Mancha.

As populações campesinas e maritimas não vivem tranquillas a respeito do diabo. As da Mancha, archipelago inglez e littoral francez, tem a respeito delle noções muito precisas. O diabo possue delegados por todo mundo. É certo que Belphegor é embaixador do inferno em França, Hutgin na Italia, Belial na Turquia, Thamuz na Hespanha, Martinet na Suissa e Mammon na Inglaterra. Satanaz é um imperador, como outro qualquer. Satanaz Cesar. A casa delle é muito bem servida: Dagon é o saquetario; Succor Benoth, chefe dos eunuchos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal, director do theatro; Verdelet, grão-mestre de ceremonias e Nybbas bobo. Wiérus, homem de sciencia, bom estrygologo e demonographo distincto, chama Nybbas—o grande parodista.

Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andam no mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se que S. Maclou habitava o grande rochedo quadrado Ortach, situado ao largo entre Aurigny e Casquets, e muitos velhos marinheiros de outros tempos affirmavam tel-o visto não poucas vezes sentado e lendo um livro. Por isso os maritimos, quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diante do rochedo Ortach, até que um dia dissipou-se a fabula e esclareceu-se a verdade. Descobrio-se e sabe-se hoje que quem habita aquelle rochedo não é um santo, mas sim um diabo, chamado Jochmus, que por muitos seculos teve a malicia de fazer-se passar por S. Maclou. Demais, a propria igreja cahe em taes enganos. Os diabos Raguhel, Oribel e Tobiel foram santos, até que em 745 o papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro, deitou-os fóra. Para fazer taes expulsões, que são muito uteis, é necessario ser muito conhecedor de diabos.

Conta a gente velha da terra, mas estes casos pertencem ao seculo passado, que a população catholica do archipelago normando estivera outr'ora, bem a seu pezar, mais em communicação com o diabo do que a população huguenote. Ignoramos a razão, mas a verdade é que a minoria catholica andou outr'ora muito incommodada por elle.

Affeiçoára-se aos catholicos e procurava frequental-os, o que leva a crer que o diabo é antes catholico que protestante.

Uma de suas mais insupportaveis liberdades era visitar á noite os leitos conjugaes catholicos, quando os maridos dormiam de todo, e as mulheres, a meio. Disto resultavam equivocos. Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. Não é inverosimil. É caso perfeitamente conhecido e descripto nos formularios de exorcismo sob o titulo de erroribus nocturnis et de semine diabolorum.

O diabo fez violencias destas especialmente em Saint-Hélier, em fins do seculo passado: é provavel que para punição dos crimes da revolução. As consequencias dos excessos revolucionarios são incalculaveis. Fosse como fosse, essa apparição possivel do demonio durante a noite, quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres orthodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é cousa agradavel. Uma dellas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer-se em tempo o quiproquo. O confessor respondeu: para saber se está com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabeça e se encontrar pontas, pode estar certa....—de que? perguntou a mulher.

A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal assombrada e já não era; portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que, quando um feiticeiro vem habitar uma casa visitada pelo diabo, este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de não voltar, salvo o caso de ser chamado, como medico.

Chamava-se a casa 0 tutú da rua. Era situada na ponta de uma lingua de terra ou antes de rochedo, que formava uma pequena angra de bastante profundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sósinha nessa ponta, quasi fora da ilha, tendo apenas a terra sufficiente para um pequeno jardim ás vezes inundado por occasião das aguas vivas.

Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis ha uma grande coluna, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e de hera chamado o castello do Valle ou do Archanjo, de sorte que de Saint-Sampson não se via o tutú da rua.

Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a profissão em certas parochias, apezar de vivermos no seculo dezenove. Praticam acções verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem hervas á meia noite. Olham de travez para o gado. Consultam-n'os; elles mandam buscar em garrafas a agua dos doentes, e dizem em voz baixa: a agua parece bem triste. Affirmou um feiticeiro em Março de 1857, que na agua de um doente havia sete diabos. São temidos e temiveis. Ha pouco tempo um delles enfeitiçou um padeiro e mais o forno. Outro tem a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas, sem haver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma taboa, tres garrafas com um B em cada uma. Estes factos monstruosos são conhecidos. Alguns feiticeiros são complacentes, e por dous ou tres guinéos incumbem-se de soffrer as nossas molestias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto elles se estorcem diz o doente: «E esta! já estou bom!» Outros curam todas as molestias amarrando um lenço ao redor do corpo do doente. É um remedio tão simples que admira não se ter ainda ninguem lembrado delle.

No seculo passado o tribunal real de Guernesey collocava-os sobre uma porção de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condemna-os a oito semanas de prisão, quatro a pão e agua e quatro no segredo, alternando. Amant alterna catenœ.

A ultima queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo theatro do espectaculo a praça de Bordage, que de 1565 a 1700 vio queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela tortura.

A praça de Bordage prestou serviços á sociedade e á religião. Queimaram-se ahi os hereticos. No tempo de Maria Tudor, entre outros huguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava gravida e teve o successo sobre o brazeiro.

A chronica diz: Arrebentou-lhe o ventre. Sahio desse ventre um menino vivo; o recem-nascido rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. O bailio, Helier Grosselin, bom catholico, mandou atirar a criança ao fogo.


[III]

PARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARES

Voltemos a Gilliatt.

Contava-se na terra que uma mulher, tendo comsigo um menino, viera em fins da revolução habitar Guernesey. Era ingleza, ou talvez franceza. O nome della, qualquer que fosse, a pronuncia guernesiana e a orthographia dos camponezes transformaram em Gilliatt. Vivia sosinha com o menino, que, diziam uns, era seu sobrinho, outros, filho, outros neto e, outros, cousa nenhuma. Possuia um dinheirinho, de que vivia pobremente. Comprara um pedaço de terra na Sergentée e outro em Roque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa tutú da rua, estava nesse tempo mal assombrada. Havia mais de trinta annos que ninguem morava nella. Cahia aos pedaços. O jardim sempre innundado pelo mar, já nada produzia.

Além dos ruidos nocturnos e das luzes, a casa era particularmente atterradora por isto: se á noite se deixava sobre a lareira um novello de lã, agulhas e um prato cheio de sopa, no dia seguinte de manhã encontrava-se a sopa comida, o prato vasio e um par de luvas feito. Poz-se á venda aquelle pardieiro com o diabo, que estava dentro, por algumas libras esterlinas. Aquella mulher comprou-o, evidentemente tentada pelo diabo. Ou pela barateza.

Fez mais do que compra-lo, foi morar lá com o filho, e desde então a casa socegou. Esta casa achou o que queria, dizia a gente da terra. Cessaram as apparições. Já se não ouvia gritos ao romper do dia. Já não havia outra luz além do sebo acendido á noite pela boa mulher. Vela de feiticeira vale a tocha do diabo.

Esta explicação satisfez o publico.

A mulher utilisava o quarto de geira de terra que possuia. Tinha uma boa vacca de cujo leite fazia manteiga. Colhia frutas e batatas Golden Drops. Vendia como qualquer outra pessoa, hervas, cebolas e favas. Não costumava ir ao mercado vender a sua colheita, mandava-a por Guilbert Falliot. O registro de Falliot mostra que elle vendeu para ella uma vez doze alqueires de batatas chamadas de tres mezes, das mais temporãs.

Fizeram-se na casa apenas os reparos necessarios para se poder habitar nella. Só chovia nos quartos quando fazia muito máo tempo. Compunha-se de dous pavimentos, um rez do chão, e um celleiro. No terreo havia tres salas; dormia-se em duas, comia-se na terceira. Subia-se ao celleiro por uma escada. A mulher cozinhava e ensinava a lêr ao filho. Nunca ia á igreja, e isto, depois de muito considerado, sendo para que a declarassem franceza. Não ir a parte alguma, é cousa grave.

Em summa, era gente que nada inculcáva.

É provavel que fosse franceza. Os vulcões arrojam pedras, as revoluções homens. Espalham-se familias a grandes distancias, deslocam-se os destinos, separam-se os grupos disperos ás migalhas; cahe gente das nuvens, uns na Allemanha, outros na Inglaterra, outros na America. Pasmam os naturaes dos paizes. Donde vem estes desconhecidos? Foi aquelle vesuvio, que fumega além, que os expellio de si. Dam-se nomes a esses aerolithos, a esses individuos expulsos e perdidos, a esses eliminados da sorte; chamam-nos emigrados, refugiados, aventureiros. Se ficam, toleram-nos: alegram-se quando elles vão embora. Algumas vezes são entes absolutamente inoffensivos, estranhos, as mulheres ao menos, aos acontecimentos, que os proscreveram, não tendo rancores nem colera, projectis contra a vontade, espantadissimos de o serem. Enraizam-se como podem. Não faziam mal a ninguem e não comprehendem o que lhes acontece. Vi um dia uma pobre mouta de hervas atirada aos ares pela explosão de uma mina. A revolução franceza, mais do que nenhuma explosão, fez desses jactos longinquos.

A mulher, que em Guernesey era conhecida pela Gilliatt, foi talvez aquella mouta de herva.

Envelheceu a mulher. Cresceu o menino. Viviam ambos sós; todos fugiam delles mas elles bastavam-se a si proprios. Loba e filhote lambem-se mutuamente. Foi esta uma das formulas que lhes applicou a benevolencia da visinhança.

O menino tornou-se adolescente, o adolescente homem, e então, devendo cahirem sempre as velhas crostas da vida, a mãe veio a fallecer. Constava a herança das terras da Sergentée e da Roque-Crespel, da casa mal assombrada, e mais, diz o inventario official, de cem guinéos de ouro, dentro de um pé de meia. A casa estava mobiliada com duas arcas de carvalho, duas camas, seis cadeiras, uma mesa e os utensilios necessarios. Havia em cima de uma taboa uns poucos de livros, e a um canto uma canastra, que nada tinha de mysteriosa, e que devia ser aberta na occasião do inventario. A canastra era de couro ruivo, cheio de arabescos de pregos de cobre e estrellas de estanho, e continha um enxoval de mulher, novo e completo, de excellente linho de Dunkerque, camisa e saia, cortes de vestidos de seda e em cima de tudo um papel escripto pela finada:—Para tua mulher quando te casares.

A morte da mãe acabrunhou o filho. Era rustico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vacuo. Quando ha duas creaturas, a vida é possivel. Havendo uma só, parece que nem se póde arrasta-la. Renuncia-se a ella. É a primeira fórma do desespero. Mais tarde comprehende-se que o dever é uma serie de acceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na ultima. Mas é um consentimento que sangra.

Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturou-se á natureza em redor delle, tornou-se uma especie de encanto, attrahio-o para perto das cousas e longe dos homens, e amalgamou cada vez mais aquella alma e a solidão.


[IV]

IMPOPULARIDADE

Já o dissemos. Gilliatt não era estimado na parochia. Antipathia natural. Sobravam motivos. O primeiro acabamos de explica-lo, era a casa em que morava. Depois, a origem delle. Quem era aquella mulher? E este menino? A gente não gosta de enigmas a respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa de operario, tendo aliás com que viver, embora não fosse rico. Depois, o jardim, que elle conseguia cultivar e donde colhia batatas apezar dos ventos do equinoxio. Depois, os alfarrabios que elle lia.

Outras razões ainda.

Porque motivo vivia solitario? A casa mal assombrada era uma especie de lazareto; conservavam Gilliatt em quarentena; deste modo era muito simples que o seu isolamento causasse espanto, e o responsabilisassem pela solidão, em que o deixavam.

Nunca ia á igreja. Sahia muitas vezes á noite. Fallava aos feiticeiros. Uma vez viram-n'o sentado sobre a relva com ar espantado. Frequentava o dolmen do Ancresse e as pedras fatidicas que existem espalhadas pelo campo. Havia quasi certeza de terem-n'o visto comprimentar polidamente a Rocha que canta. Comprava todos os passaros, que lhe levavam, e soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas de Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para não passar por lá. Pescava muitas vezes e sempre: apanhava peixe. Trabalhava no jardim aos domingos. Tinha um bug-pipe (especie de samphona) que comprara a uns soldados escossezes, ao passarem por Guernesey, e tocava nella sobre os rochedos, á beira do mar, ao cahir da noite. Gesticulava como um semeador. Que virá a ser uma terra com um homem destes?

Quanto aos livros, que haviam pertencido á mulher finada, esses eram assustadores. Quando o reverendo Jaquemin Herodes, cura de Saint-Sampson, entrou na casa para encommendar a mulher, leu no lombo desses livros os titulos seguintes: Diccionario de Rosier, Candido, por Voltaire; Aviso ao povo acerca da sua saude, por Tissot. Dissera um fidalgo francez, emigrado, retirado em Saint-Sampson que aquelle Tissot devia ser o que carregou a cabeça da princeza à Lamballe.

O reverendo notou n'um dos livros este titulo verdadeiramente extravagante e ameaçador: De Ruibarbaro.

Cumpre observar que, sendo a obra escripta em latim, como indica o titulo, era duvidoso que Gilliatt, que não sabia latim, lesse aquella obra.

Mas são exactamente os livros que a gente não lê, os que mais condemnam. A inquisição de Hespanha julgou esse caso, e pô-lo fora de duvida.

Demais, o livro era o tratado do doutor Tilingius sobre o ruibarbo, publicado na Allemanha em 1679.

Não havia certeza de que Gilliatt não fizesse bruxarias, philtros e sortilegios. Tinha frascos em casa.

Porque motivo ia elle passear, e ás vezes até á meia-noite, nos penhacos da costa? era evidentemente para conversar com a gente maligna que anda á noite nas praias, no meio das exhalações.

Ajudou elle uma vez a feiticeira de Torteval a desatolar a carroça. Era uma velha, por nome Moutonne Gahy.

Tendo-se feito um recenceamento na ilha, perguntou-se-lhe a profissão, e elle respondeu: pescador quando ha peixe. Vejam lá se a gente da ilha podia gostar de taes respostas.

Pobreza e riqueza são relativas. Gilliatt tinha terras e uma casa, e comparado aos que não possuem cousa nenhuma, não era pobre. Um dia, para experimenta-lo, e talvez para inculcar-se, por que ha mulheres que estariam promptas a desposar o diabo rico, disse uma rapariga a Gilliatt: Quando se casa? A resposta delle foi: Casar-me-hei quando se casar a Rocha que canta.

A Rocha que canta era uma grande pedra collocada a pique n'uma horta rustica perto do Senhor Lemezurier de Fry. Esta pedra inspira desconfiança. Não se sabe o que ella faz ali. Ouve-se cantar um gallo invisivel, cousa extremamente desagradavel. Verificou-se que a pedra foi posta ali por uns fantasmas.

De noite, quando troveja, se apparecem homens a voar entre as nuvens avermelhadas, são os taes fantasmas. Ha uma mulher que mora no Grande Mielles e que os conhece. Uma noite, em que havia fantasmas n'uma encruzilhada, essa mulher vendo um carroceiro que não sabia por onde seguir, gritou-lhe: Pergunte-lhes o caminho; é gente benefica, e bem educada, com quem se póde conversar. Aquella mulher é com certeza feiticeira.

O judicioso e sabio rei Jaques I mandava ferver ainda vivas as mulheres dessa especie, provava o caldo, e pelo gosto, dizia: É feiticeira; ou: não é feiticeira.

É para lamentar que os reis hoje não tenham daquelles talentos, que faziam comprehender a utilidade da instituição.

Gilliatt, não sem motivos serios, tinha fama de feiticeiro. Num temporal, á meia-noite, estando Gilliatt sozinho no mar, dentro de uma lancha do lado da Soumeilleuse, ouviram-n'o perguntar:

—Ha lugar para passar?

Respondeu-lhe uma voz de cima dos penhascos:

—Pois não! animo!

A quem fallaria elle senão a alguem que lhe respondia? Parece-nos que isto é uma prova.

Outra noite de temporal, tão negro que nada se via, pertinho da Catiau-Roque, que é uma dupla fileira de rochedos onde os feiticeiros e as cabras vão dansar á sexta-feira, houve quem reconhecesse a voz de Gilliatt no meio deste terrivel dialogo:

—Como está Vésin Brovard? (Era um pedreiro que tinha cahido de um telhado).

—Vai sarando.

—Devéras! pois cahio de um lugar tão alto como aquelle estaca. Admira não ficar despedaçado.

—Bom tempo foi a semana passada para a colheita das praias.

—Melhor do que hoje.

—De certo! não haverá muito peixe no mercado.

—O vento é rijo.

—Não se podem deitar as redes.

—Como vai a Catharina?

—Está embruxada.

A Catharina era evidentemente alguma feiticeira.

Gilliatt, ao que parecia, trabalhava de noite. Ao menos, ninguem duvidava disso.

Viam-n'o algumas vezes, espalhar pelo chão a agua de um pucaro. Ora a agua espalhada pelo chão traça a forma dos diabos.

Existem na estrada de Saint-Sampson, tres pedras dispostas em forma de escada. Na plataforma houve em outro tempo uma cruz, e se não foi cruz, era forca. Aquellas pedras são malignas.

Muita gente experta, e digna de credito, affirmava ter visto, perto dessas pedras, Gilliatt conversando com um sapo. Ora, não ha sapos em Guernesey; Guernesey tem todas as cobras, e Jersey todos os sapos. Aquelle sapo veio naturalmente de Jersey, a nado, para fallar a Gilliatt. A conversa era amigavel.

Todos estes factos estavam averiguados; e a prova disso é que as tres pedras lá estão. Quem duvidar póde ir vel-as, e mesmo á alguma distancia, ha uma casa em cuja esquina lê-se isto: mercador de gado morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e fumo de mascar; é prompto na paga e na attenção.

Só de má fé se póde contestar a existencia daquellas pedras e daquella casa. Tudo isso fazia mal a Gilliatt.

Só os ignorantes não sabem que o maior perigo dos mares da Mancha é o que se chama rei dos Auxcriniers. Não ha personagem maritimo mais temivel. Quem o vê naufraga logo entre uma e outra Saint Michel. É pequeno e surdo, por ser anão e rei. Sabe o nome de quantos morreram no mar, e em que lugar estão. Conhece a fundo o cemiterio Oceano. Cabeça larga em baixo, e estreita em cima, corpo cheio, barriga viscosa e disforme, nodosidades no craneo, pernas curtas, braços compridos, barbatanas em vez de pés, garras em vez de mãos, cara larga e verde, tal é aquelle rei. As garras são achatadas, as barbatanas tem unhas. Imaginem um peixe, com cara de homem, e fórma de espectro. Para vencel-o, é preciso exorcismal-o ou pescal-o. Fóra disso, é sinistro. Vel-o é perigoso. Descobre-se acima das ondas e do marulho, atravez da espessura do nevoeiro, umas feições de gente; testa curta, nariz esborrachado, orelhas chatas, boca immensa e sem dentes, beiços esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e grandes. O rei torna-se vermelho quando o relampago é livido, descorado quando o relampago é vermelho. Tem barba gotejante e rigida, cortada em quadro, que lhe cahe sobre uma membrana em fórma de mantéo de peregrino; o mantéo é adornado de quatorze conchas, sete na frente, sete nas costas. As conchas são extraordinarias para os que conhecem conchas. O rei só é visivel no mar violento. É o dansarino lugubre da tempestade. Vê-se a fórma delle esboçada no nevoeiro e na chuva. O umbigo é hediondo. Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris á semelhança de collete. O rei levanta-se de pé, sobre as vagas que irrompem á pressão dos ventos e vão rolar-se como os cavacos que sahem do rabote do marcineiro. Conserva-se todo fora da espuma, e quando avista ao longe navios em perigo, entra a bailar, descorado na sombra, com a face illuminada por um vago sorriso, feio e demente no aspecto. Máo encontro esse.

Na epocha em que Gilliatt era uma das preoccupações de Saint-Sampson, as ultimas pessoas que tinham visto o rei da Mancha, declaravam que já não havia no mantéo mais de treze conchas. Treze; era mais perigoso ainda. Mas onde foi parar a outra concha? Deu-a a alguem? A quem seria? Ninguem podia dizel-o, todos se limitavam ás conjecturas. O que é certo é que o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem de posição, proprietario taxado em quatorze bairros, estava prompto a jurar que vira uma vez, nas mãos de Gilliatt, uma concha muito exquisita.

Não raras vezes se ouviam os camponios conversarem entre si:

—Visinho, não é verdade que este boi é magnifico?

—Inchado, visinho.

—Homem, é verdade.

—Tem mais sebo do que carne.

—Devéras!

—Estaes certo de que Gilliatt não lhe pôz os olhos em cima?

Gilliatt parava nos campos, ao pé dos lavradores, e nos jardins ao pé dos jardineiros, e dizia-lhes palavras mysteriosas:

—Quando florecer a scabiosa, semea o centeio.

—O freixo enfolha, acaba-se a neve.

—Solsticio de verão, cardo em flôr.

—Se não chover em Junho, o trigo ha de espigar. Tomem cuidado com as plantas nocivas.

—A cerejeira está dando fructos, desconfia da lua cheia.

—Se o tempo, no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto dia ou como no quinto, ha de ser o mesmo em toda a lua, nove vezes em doze no primeiro caso, e onze vezes em doze no segundo.

—Vigia o teu visinho com quem andas em processo. Cautella com as espertezas. Porco que bebe leite quente, estoira. Vacca que leva alho nos dentes, não come.

—O peixe está gerando, guarda-te das febres.

—As rãs apparecem, semea os melões.

—A anemona enflora, semea a cevada.

—A tilia enflora, ceifa os campos.

—O choupo enflora, fecha as estufas.

E, cousa terrivel, quem seguisse os seus conselhos acha-los-hia muito bons.

Uma noite de Junho, em que elle tocava o bug pipe, sobre os cabedellos da praia, do lado da Damie de Fontenelle, não se pode pescar uma só cavalla.

Outra noite, vasando a maré, aconteceu tombar na praia, em frente da casa mal assombrada, uma carreta cheia de sargaço. Gilliatt receiou naturalmente ser chamado á justiça, pois atirou-se a levantar a carreta, pondo-lhe outra vez toda a carga que se espalhara no chão.

Uma menina da visinhança tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a Saint-Pierre Port, trouxe de lá um unguento e esfregou a cabeça da pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova que foi elle quem lh'os deitou.

Sabe toda a gente que ha feitiço para fazer criar piolhos na cabeça dos outros.

Dizia-se que Gilliatt olhava para os poços, o que é perigoso quando é máo olhado; e o caso é que um dia, nos Arculons, a agua de um poço tornou-se doentia. A dona do poço disse a Gilliatt: veja esta agua. E apresentou-lhe um copo cheio. Gilliatt confessou. A agua está grossa, disse elle; é exacto. A boa mulher que desconfiava disse-lhe. Pois cure-a. Gilliatt perguntou-lhe se ella tinha algum curral, se o curral tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do poço. A boa mulher disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o rego do esgoto, e a agua do poço ficou boa. Ora, pensava a gente da terra, nenhum poço fica insalubre, nem é curado depois, sem motivo; a doença do poço não é natural; é difficil não acreditar que Gilliatt tenha enguiçado a agua.

De uma vez, tendo ido a Jersey, foi alojar-se em S. Clemente, em uma rua cujo nome quer dizer almas do outro mundo.

Nas aldeâs, colhem-se os indicios, comparam-se: o total faz a reputação de um homem.

Aconteceu um dia que Gilliatt foi sorprehendido a deitar sangue pelo nariz. Cousa grave. Um patrão de lancha, grande viajante, que fez quasi a volta do mundo, afirmou que havia uma terra, onde todos os feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um homem deita sangue pelo nariz, já toda a gente sabe como se haver com elle. Todavia algumas pessoas de juizo observaram que aquillo que caracterisa os feiticeiros em uma terra, pode não caracterisa-los em outra.

Nos arredores de Saint-Michel, vio-se Gilliatt parado em uma horta dos Huriaux, ao pé da estrada real de Videclins. Gilliatt assobiou, e pouco depois veio um corvo, e depois uma pega. O facto foi attestado por um homem notavel que pertenceu depois a uma commissão encarregada de fazer um novo livro de medidas.

No Hamel, ha mulheres velhas que diziam estar certas de ter ouvido, ao romper da manhã, umas andorinhas chamando por Gilliatt.

A isto deve accrescentar-se que Gilliatt não era bom.

Um dia um pobre homem battia um asno, que tinha empacado. Deu-lhe algumas tamancadas na barriga, o animal cahio. Gilliatt correu para levanta-lo; estava morto. Gilliatt esbofeteou o pobre homem.

N'outra occasião, vendo um rapaz descer de uma arvore com um ninho de passarinhos ainda implumes, Gilliatt tirou o ninho ao rapaz, e levou a crueldade ao ponto de restitui-lo ao seu lugar na arvore.

Uns viandantes censuraram-no por isso; Gilliatt não fez mais do que apontar para o pai e a mãe dos passarinhos que guinchavam por cima da arvore e voltavam para o ninho. Tinha queda pelos passaros. É um signal este que faz conhecer geralmente os bruxos.

Os rapazes gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelandos no penedio das costas. Trazem comsigo grande porção de ovos azues, amarellos, e verdes, para armar com elles a frente das lareiras. Como os penedos estão a pique, acontece-lhes ás vezes escorregarem, cahirem e morrerem. Nada mais lindo que uma varanda adornada com ovos de passaros do mar. Gilliatt já não sabia que inventar para fazer mal aos rapazes. Trepava, com risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava ahi molhos de feno, com chapéos velhos em cima, e tudo quanto pudesse servir de espantalho, para arredar os passaros, e por consequencia as crianças.

Por tudo isto Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por todos. Não precisava tanto para se-lo.


[V]

OUTROS PONTOS AMBIGUOS DE GILLIATT

Não estava fixa a opinião acerca de Gilliatt.

Geralmente era tido por marcou. Outros acreditavam mesmo que fosse filho do diabo.

Quando uma mulher, tem do mesmo homem, sete filhos machos consecutivos, o setimo é marcou. Mas para isso, é necessario, que nenhuma filha venha interromper a serie dos rapazes.

O marcou,—tem uma flôr de liz impressa em uma parte do corpo, donde resulta que aproveita tanto aos escrophulosos como aos reis de França. Em França ha marcous em toda a parte, especialmente na provincia de Orleans. Cada aldêa do Gatinais tem o seu marcou. Para curar os doentes basta que o marcou sopre nas chagas ou lhes faça tocar a flôr de liz. O remedio é efficaz, principalmente quando applicado na noite de sexta-feira maior. Ha uma dezena de annos, o marcou d'Ormes, no Gatinais, appellidado o Formoso Marcou, e consultado por toda a Beauce, era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavallo e carruagem. Para pôr cobro aos seus milagres foi preciso intervir a policia. Tinha elle a flôr de liz embaixo do peito esquerdo. Outros marcous têm-n'a em lugar diverso.

Ha marcous em Jersey, em Aurigny, e em Guernesey. Parece que isto procede dos direitos que tem a França sobre o ducado da Normandia. A não ser assim, porque haveria ali a flôr de liz?

Como ha tambem nas ilhas da Mancha muitos escrophulosos, os marcous são necessarios.

Em um dia estando Gilliatt a banhar-se no mar, diante de algumas pessoas, julgaram estas ter-lhe visto no corpo a flôr de liz. Interrogado a esse respeito, por unica resposta pôz-se a rir. Gilliatt ria ás vezes como os outros homens. Mas desde esse dia nunca mais o viram tomar banho. Começou então a banhar-se em lugares solitarios e perigosos. Provavelmente á noite, e em noites de luar; o que, hão de convir, é cousa um tanto suspeita.

Os que se obstinavam em crê-lo filho do diabo (cambiou), enganavam-se evidentemente. Deviam saber que só os ha na Allemanha. Mas o Valle e Saint-Sampson eram ha cincoenta annos paizes ignorantes.

Acreditar em Guernesey que alguem é filho do diabo, por força que ha nisso exageração.

Por isso mesmo que Gilliatt inquietava o populacho era muito consultado. Os camponios aterrorisados iam conversar com elle acerca dos seus achaques. Aquelle terror equivalia a meia confiança, e no campo, quanto mais suspeito é o medico mais efficaz é o remedio que elle dá. Gilliatt tinha medicamentos propriamente seus, herdados da finada velha. Dava-os a quem lh'os pedia, e não recebia dinheiro. Curava os panaricios com applicações de hervas; o liquido de um dos seus frascos cortava a febre; o chimico de Saint-Sampson, que chamariamos pharmaceutico em França, pensava que era uma decocção de quina. Os menos benevolos convinham em que Gilliatt era excellente diabo para os doentes, quando se tratava de seus remedios ordinarios; mas, como marcou não queriam ouvir nada; se algum escrophuloso pedia-lhe para tocar a flôr de liz, a resposta de Gilliatt era fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer milagres, cousa ridicula em um feiticeiro. Não sejas feiticeiro, mas se o és, faze o teu officio.

Havia uma ou duas excepções nesta antipathia universal. O Sr. Landoys, do Clos-Landés, era escrivão da parochia de Sain-Pierre Port, encarregado das escripturas, e guarda dos registros dos nascimentos, casamentos e obitos. Jactava-se o escrivão de descender do thesoureiro da Bretanha, Pedro Landoys, enforcado em 1485.

Estando uma vez a banhar-se, o Sr. Landoys affastou-se da praia, e quasi se affogou; Gilliatt atirou-se á agua, affogou-se quasi, mas salvou Landoys. Desde esse dia Landoys não fallou mal de Gilliatt. Aos que se admiravam disso, respondia elle: Como hei de aborrecer um homem que não me fez mal, e até me prestou um serviço? O escrivão chegou mesmo a ser amigo de Gilliatt. Não era homem de preconceitos. Não acreditava em feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro mundo.

Tinha uma canôa, pescava nas horas de descanço para divertir-se, e nunca vio cousa alguma extraordinaria, a não ser, em certa noite de luar, um vulto branco de mulher, que pulava na agua, e ainda assim não estava muito certo. Moutonne Gahy, feiticeira de Torteval, dera-lhe um saquinho para atar debaixo da gravata, afim de afugentar os espiritos; Landoys zombava do sacco, e não sabia o que havia dentro; mas sempre andava com elle, e sentia-se assim mais seguro.

Algumas pessoas audazes, acompanhando o Sr. Landoys, arriscaram-se a reconhecer em Gilliatt certas circumstancias attenuantes, algumas apparencias de qualidades, a sobriedade, a abstinencia do gin e do tabaco, e chegavam ás vezes a fazer delle este bello elogio. Não bebe, não fuma, nem masca.

Mas a sobriedade é uma qualidade, quando o individuo possue outras.

Gilliatt inspirava a aversão publica.

Fosse o que fosse, como marcou, Gilliatt podia prestar serviços. Em uma sexta-feira maior, á meia noite, dia e hora usados para esses curativos, todos os escrophulosos da ilha, por inspiração, ou combinação, foram em massa á casa mal assombrada, e com as mãos postas, pediram a Gilliatt que os curasse. Gilliatt recusou. Reconheceu-se nisto a sua perversidade.


[VI]

A PANÇA

Tal era Gilliatt.

As raparigas achavam-n'o feio.

Gilliatt não era feio. Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do barbaro antigo. Quieto, parecia um Dacio da columna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admiravel forma acustica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem audacioso e perseverante. Cahiam-lhe os dous cantos da boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar sahia-lhe firme de dentro da palpebra franca, posto que elle tivesse aquelle piscar d'olhos que os pescadores adquirem com a reverberação das vagas. O riso era pueril e delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus dentes. Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quasi negro. Não se affronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta annos, mostrava quarenta e cinco. Tinha a sombria mascara do vento e do mar.

Puzeram-lhe a alcunha de Finorio.

Diz uma fabula da India: Um dia Brahma perguntou á Força: quem é mais forte que tu? A Força respondeu: É a Astucia. Diz um proverbio chinez: Quanto não poderia o leão, se fosse macaco?

Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as cousas que elle fazia apoiavam o proverbio chinez e a fabula indiana. De estatura commum e força ordinaria, Gilliatt, tão inventiva e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar prodigios de athleta.

Era um pouco gymnasta; servia-se tanto da mão direita como da esquerda.

Não caçava, pescava. Poupava os passaros, não os peixes. Ai dos que são mudos!

Era nadador excellente.

A solidão faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dous aspectos. Ás vezes mostrava o ar espantado, de que fallámos, e dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma certa profundidade no olhar. A antiga Chaldea teve homens assim: a certas horas, a opacidade do pastor tornava-se transparente e deixava vêr o mago.

Em summa, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. É provavel que estivesse no limite que separa o sonhador do pensador. O pensador impõe, o sonhador obedece. A solidão domina os animos simplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A sombra em que entrava o espirito de Gilliatt compunha-se, em partes quasi iguaes, de dous elementos, obscuros ambos, mas differentes; dentro delle, a ignorancia,—enfermidade; fóra delle, o mysterio,—immensidade.

Á força de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar no archipelago, qualquer que fosse o tempo, de manobrar a primeira embarcação que apparecesse, de arriscar-se dia e noite nos canaes mais difficeis, tornou-se, sem tirar lucro disso, e só por fantasia e satisfação, um admiravel homem do mar.

Nasceu piloto. O verdadeiro piloto é o marinheiro que navega mais no fundo que na superficie. A vaga é um problema exterior, continuamente complicado pela configuração sub-marina dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos baixios e atravez dos arrecifes do archipelago normando, que elle tinha debaixo da aboboda do craneo um mappa do fundo do mar. Sabia tudo e affrontava tudo.

Conhecia as balisas melhor do que os corvos marinhos que lá se vão empoleirar. As differenças imperceptiveis que distinguem as quatro balisas do Creux, do Alligande, de Tremies e da Sardrette eram perfeitamente claras para elle, ainda no meio do nevoeiro. Não hesitava sobre a estaca de cabeça oval, de Anfré, nem o chuço tridente, de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de Longue-Pierre, e não havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada fincada no chão, de Platte, nem a balisa-martello, de Barbées com a balisa cauda de andorinha, de Moulinet.

Mostrou singularmente a sua rara sciencia de maritimo num dia em que houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam regatas.

A questão era esta: ir só em uma embarcação de quatro velas; leval-a de Saint-Sampson á ilha de Herm, distante uma legua, e trazel-a de novo de Herm a Saint-Sampson. Manobrar sosinho um barco de quatro velas, não ha pescador que o não faça, e a differença não é grande; mas eis o que aggravava o caso; primeiramente, a embarcação era uma dessas chalupas de outro tempo, com grande bojo, á moda de Rotterdam, que os marinheiros do seculo passado appellidavam panças hollandezas. Acha-se ainda algumas vezes no mar essa velha construcção da Hollanda, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas azas que se vão abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha. A segunda difficuldade, era a volta de Herm, volta complicada por um pesado lastro de pedras.

O premio da justa era a chalupa. De antemão estava dada ao vencedor. A pança servira de barco-piloto; o piloto que navegara nella durante vinte annos era o mais robusto marinheiro da Mancha; quando morreu não houve ninguem que quizesse governar o barco e decidiram fazer delle um premio de regata. A pança, embora não tivesse coberta, tinha qualidades boas e podia tentar um manobrista. Era mastreada na frente, o que augmentava a força de tracção do velame. Outra vantagem, o mastro não impedia a carga. Era uma concha solida; pesada, mas vasta, e supportando bem o mar. Houve empenho em disputal-a; a luta era rude, mas o premio era magnifico. Apresentaram-se sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram um por um; nenhum delles pôde ir a Herm. O ultimo que luctou era conhecido por ter passado a remos, com tempo máo, o terrivel redomoinho, que ha entre Serk e Brecq-Hou. Escorrendo em suor, trouxe elle a pança e disse: É impossivel. Foi então que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e depois a grande escota, e fez-se ao largo. Depois, sem atar a escota, o que seria imprudencia, e sem largal-a, o que lhe dava o dominio da vela grande, deixando a escota rolar á feição do vento sem descahir, segurou com a mão esquerda a cana do leme. Dentro de tres quartos de hora estava em Herm. Tres horas depois, posto que soprasse então um forte vento do sul, atravessando a barra, a pança, governada por Gilliatt, entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt trouxe, por luxo e bravata, além do carregamento, um pequeno canhão de bronze de Herm, com que a gente da ilha salvava todos os annos, a 5 de Novembro, em regosijo pela morte de Guy Fawkes.

Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu ha duzentos e sessenta annos; foi uma grande satisfação.

Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o canhão na barca, e o vento sul na vela, voltou a Saint-Sampson.

Vendo isto, mess Lethierry exclamou: ora aqui está um marinheiro atrevido!

E estendeu a mão a Gilliatt.

Tornaremos a fallar de mess Lethierry.

A pança foi entregue a Gilliatt.

Esta aventura não lhe destruio a alcunha de Finorio.

Algumas pessoas declararam que a cousa não era para admirar, visto que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira sylvestre. Mas ninguem pôde provar isso.

Desde esse dia, Gilliatt não teve outra embarcação. Naquella pesada chalupa é que elle ia á pesca. Amarrava-a no excellente ancoradourosinho que tinha só para seu uso, debaixo do muro da casa mal assombrada. Ao cahir da noite, atirava a rede ás costas, atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras seccas, rolava de rochedo em rochedo, e saltava na barca. Dahi fazia-se ao mar.

Pescava muito peixe, mas affirmava-se que o galho de nespereira estava sempre atado á chalupa. Ninguem o vio nunca, mas toda a gente acreditava.

Não vendia, dava o peixe que lhe sobrava.

Os pobres acceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa do ramo embruchado. Não se deve trapacear com o mar.

Era pescador, mas não era só isso. Tinha aprendido por instincto ou por distrahir-se, tres ou quatro officios. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate e até um pouco mecanico. Ninguem concertava uma roda como elle. Fabricava de um modo especial, todos os seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja e uma bigorna, e, não tendo a chalupa mais que uma ancora, fez-lhe outra, elle só. Excellente ancora era essa; a argola tinha a força requerida, e Gilliatt, sem que ninguem lh'o ensinasse, achou a dimensão exacta que devia ter o cepo da ancora para que ella não voltasse.

Substituio com toda a paciencia, os pregos das bordas por cavilhas, tornando assim impossivel a ferrugem.

Deste modo augmentou muito as boas qualidades da pança. Aproveitava-se della para ir de quando em quando passar um ou dous mezes em alguma ilhota solitaria como Chousey ou Casquets. Dizia-se então: Olhem, Gilliatt está fóra. Ninguem se incommodava por isso.


[VII]

CASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONARIO

Gilliatt era o homem do sonho. Vinham dahi as suas audacias e as suas hesitações. Tinha idéas propriamente suas.

Havia talvez nelle a ligação do allucinado e do illuminado. A allucinação entra na cabeça de um camponio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz sorprezas ao espirito do homem. Rasga-se bruscamente a sombra, deixa ver o invisivel; depois fecha-se. Taes visões são ás vezes transfiguradoras; de um conductor de camellos faz Mahomet, de uma cabreira faz Joanna d'Arc. A solidão desprende uma certa quantidade de desvario sublime. É o fumo da sarça ardente. Resulta dahi um mysterioso extremecer de idéas: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o propheta; resulta Horeb, Cédron, Ombos, a embriaguez do louro mastigado da Castalia, as revelações do mez Busion; resulta Peleia em Dodona, Phemonoë em Delphos, Trophonius em Lebadéa, Ezequid no Kebar, Jeronymo na Thebaida. Na maior parte dos casos o estado visionario abate o homem, e o embrutece. O embrutecimento sagrado existe. O fakir carrega a sua visão, como o habitante alpino a sua papeira. Luthero fallando aos diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o biombo do seu gabinete, o abi negro dialogando com o deos branco, chamado Bossum, é o mesmo phenomeno, diversamente produzido, segundo a força e a dimensão de cada cérebro. Luthero o Pascal são e ficam sendo grandes; o abi negro é imbecil.

Gilliatt não era tanto, nem tão pouco. Era um pensativo. Nada mais.

Contemplava a natureza de um modo singular.

Tinha visto algumas vezes na agua do mar, completamente limpida, animaes inexperados, de grandes dimensões, de formas diversas, os quaes fóra d'agua assemelhavam-se a crystal molle, e tornados á agua, confundiam-se com ella, pela identidade de transparencia e de côr; disto concluia elle que, se a agua era habitada por transparencias vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparencias igualmente vivas. Os passaros não são os habitantes, são os amphibios do ar. Gilliatt não acreditava no ar deserto. Dizia elle: se o mar está cheio de creaturas, porque motivo a atmosphera será vasia creaturas côr do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que essas creaturas não existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os peixes do ar serão talvez diáphanos, beneficio da providencia creadora, tanto a nosso favor, como a favor delles; deixando passar a luz atravez da sua forma, e não fazendo sombra, ficam ignorados de nós, e nada poderemos saber. Gilliatt imaginava, que, se se podesse esvaziar a atmosphera, pescando-se no ar como num tanque, achar-se-hia uma porção de creaturas sorprehendentes. E, accrescentava elle, na sua scisma, muitas cousas se explicariam.

A scisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o somno, e preoccupa-se a respeito delle, como de sua propria fronteira. O ar habitado por transparencias vivas, seria o começo do Desconhecido; além, abre-se a vasta porta do possivel. Outros seres e outros factos. Nada sobrenatural; mas a continuação occulta da natureza infinita. Gilliatt, no ocio laborioso que compunha a sua existencia, era um observador extranho e phantastico. Chegava a observar o somno. O somno está em contacto com o possivel, que tambem chamamos o inverosimil. O mundo nocturno é um mundo. A noite é um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma columna atmospherica de quinze leguas de altura, chega á noite fatigado, cahe de fraqueza, deita-se, repousa; fecham-se os olhos da carne; então, naquella cabeça adormecida, menos inerte do que se crê, abrem-se outros olhos, apparece o Desconhecido. As cousas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhas do homem, ou porque haja verdadeira communicação, ou porque as distancias do abysmo tenham crescimento visionario; parece que as creaturas invisiveis do espaço vem contemplar-nos curiosas a respeito da creatura da terra; uma creação fantasma sobe ou desce para nós, no meio de um crepusculo; ante a nossa contemplação spectral, uma vida que não é a nossa, aggrega-se e dissolve-se, composta de nós mesmos e de um elemento estranho; e aquelle que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente, entrevê as animalidades extranhas, as vegetações extraordinarias, as cores lividas, terriveis ou risonhas, as larvas, as mascaras, os rostos, as hydras, as confusões, os luares sem lua, as obscuras decomposições do prodigio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada, a fluctuação de fórmas nas trevas, todo esse mysterio que chamamos sonho, e que não é mais do que a approximação de uma realidade invisivel. O sonho é o aquarium da noite.

Assim sonhava Gilliatt.


[VIII]

A CADEIRA GILD-HOLM-'UR

Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt, não a encontraria, nem o jardim, nem a enseada onde elle guardava a chalupa. A casa mal assombrada já não existe. A peninsula onde essa casa estava edificada cahio ao picarete dos demolidores, e foi conduzida, ás carradas, para os navios dos alborcadores de rochedos e commerciantes de granito. A peninsula fez-se caes, igreja e palacios na capital. Toda aquella crista de rochedos partio ha muito para Londres.

Aquelles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas e recortes, são verdadeiras cadêas de pequenas montanhas; vendo-as, recebe-se a mesma impressão que teria um gigante contemplando as cordilheiras. O idioma local chama-os bancos. Ha-os de diversas figuras. Uns assemelham-se a uma espinha dorsal; cada rochedo é uma vertebra; outros a uma espinha de peixe; outros a um crocodillo bebendo agua.

Na extremidade da peninsula da casa mal assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Corne de la Bête. Essa rocha, especie de pyramide, assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pinaculo de Jersey. Nas marés cheias, o mar separava-a da peninsula, e a Corne de la Bête ficava isolada. Nas vazantes ia-se até lá por um isthmo de rochas praticaveis. A curiosidade do rochedo era, do lado do mar, uma especie de cadeira natural cavada pelas aguas e polida pela chuva. Era perfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada até ali pela belleza da vista; parava por amor da perspectiva, como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horisontes retinha, lá o observador curioso.

A cadeira offerecia-se logo aos olhos delle; era uma especie de nicho na fachada a pique do rochedo; trepar áquelle nicho era cousa facil; o mar que o talhara tinha feito em baixo uma especie de escada de pedras chatas, commodamente disposta; o abysmo tem destas attenções, desconfia sempre da sua cortezia; a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela escuma, e por braços duas anfractuosidades que pareciam feitas de proposito; por encosto toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de escalal-a; era simples esquecer-se sentado naquella poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sahir, podia-se acompanhar com os olhos uma vela até mergulhar-se além dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gosava-se; sentia-se o afago da briza e do mar; ha em Cayenna um vespertilio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de azas; o vento é esse morcego invisivel; quando não devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o letargo do extase. Quando os olhos se enchem de um excesso de belleza e de luz, fechal-os é voluptuosidade. Acordava-se de subito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A agua cingia o rochedo.

Estava-se perdido.

Tremendo bloqueio é o mar que sobe!

A maré cresce insensivelmente ao principio, depois com violencia. Chegando ás rochas, encolerisa-se, escuma. Nem sempre se póde nadar junto aos cachopos. Excellentes nadadores morreram affogados naquelle lugar.

Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, ás vezes, olhando para uma mulher.

Os antiquissimos habitantes de Guernesey chamavam outr'ora aquelle nicho talhado na rocha pela vaga a cadeira Gild-Holm-'Ur, ou Kidormur. Palavra celtica, dizem, não entendida pelos que sabem celtico, e entendida pelos que sabem francez Quem-dorme-morre. (Qui dort-meurt.) Tal é a traducção rustica.

Póde-se escolher entre esta traducção, Quem-dorme-morre, e a traducção dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr. Athenas. Segundo este conhecedor da lingua celtica, Gild-Holm-'Ur quer dizer-Alta-dos-bandos-de-passaros.

Ha em Aurigny outra cadeira deste genero que se chama Cadeira do Frade, tambem aranjada pelo mar, e com uma saliensia de pedra ajustada tão a proposito que se póde dizer que o mar teve a complacencia de pôr um tamborete debaixo dos nossos pés.

Nas marés cheias, não se podia ver a cadeira Gild-Holm-'Ur. A agua cobria-a inteiramente.

A cadeira-Gild-Holm-'Ur era visinha da casa mal assombrada. Gilliatt ia lá sentar-se muitas vezes, Meditava? Não. Já o dissemos, Gilliatt sonhava. Não se deixava sorprehender pela maré.


[LIVRO SEGUNDO]

Mess Lethierry


[I]

VIDA AGITADA E CONSCIENCIA TRANQUILLA

Mess Lethierry, o homem notavel de Saint-Sampson, era um marinheiro terrivel. Tinha navegado muito. Foi grumete, gageiro, timoneiro, contra-mestre, mestre de equipagem, piloto, arraes. Agora era armador. Ninguem conhecia o mar como elle. Era intrepido para salvar gente. Quando havia temporal mess Lethierry ia passear á praia, com os olhos no horisonte. Que é aquillo lá ao longe? é alguem que está em perigo. É um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o hiate de um lord, é um inglez, um francez, um pobre, um rico, é o diabo, fosse quem fosse, elle saltava dentro da lancha, chamava dous ou tres homens valentes, dispensava-os quando não tinha, equipava elle só, desatava a amarra, travava do remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no furacão, ia ao perigo. Viam-n'o assim de longe, no meio das lufadas do vento, de pé sobre a embarcação, gotejante de chuva, confundido com os relampagos, face de leão e juba de espuma. Passava assim ás vezes um dia inteiro no perigo, e nas vagas, á saraiva e ao vento, costeando os navios que sossobravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava á noite para casa, e tecia um par de meias.

Passou esta vida cincoenta annos, desde os dez até os sessenta, emquanto foi moço. Aos sessenta annos, vio que já não podia levantar com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava aquella bigorna trezentas libras; foi atacado repentinamente, do rheumatismo. Teve de deixar o mar. Passou da idade heroica á idade patriarchal. Já não era mais que um bonachão.

Mess Lethierry alcançou a um tempo o rheumatismo e a abastança. Estes dous productos do trabalho acompanham-se voluntariamente. Quem chega a ser rico, fica inutilisado. É a corôa da vida.

Diz-se então: vamos gozar agora.

Nas ilhas como Guernesey, a população é composta de homens que passaram a vida a andar á roda do campo, e de homens que passaram a vida a viajar á roda do mundo. São duas especies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos ultimos. Conhecia, porém, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.

Fallámos nas viagens á roda do mundo; Mess Lethierry viajou a França toda como carpinteiro. Trabalhou nos apparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comté. Aquelle honrado homem teve uma vida de aventureiro. Em França aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez extrahio a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A agua lhe pertencia. Os peixes estão em minha casa, dizia elle. Em summa toda a sua existencia, com excepção de dous ou tres annos, foi consagrada ao oceano; atirada á agua, dizia elle. Navegara nos grandes mares, no Atlantico e no Pacifico; mas preferia a Mancha. Aquelle é que é rude, exclamava elle com amor. Nasceu alli, alli queria morrer. Depois de ter feito duas ou tres vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey, e não se mecheu dalli. As suas viagens, então, eram Granville e Saint-Malo.

Mess Lethierry era guernesiano, isto é, normando, inglez, francez. Tinha essa patria quadrupla, immersa e como que afogada na sua grande patria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda a parte, conservou os costumes de pescador normando.

Isso, porém, não tolhia que elle abrisse de quando em quando um alfarrabio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos philosophos e poetas, e taramellar em vasconço um poucochinho de cada lingua.


[II]

UMA PREFERENCIA DE MESS LETHIERRY

Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.

Este, porém, era um selvagem elegante.

Era exigente a respeito de mãos de mulheres.

Ainda moço, quasi menino, estando entre marinheiro e grumete, ouvio dizer ao bailio de Suffren: Bonita rapariga, mas que grandes mãos vermelhas que ella tem! Um dito de almirante impõe, em qualquer assumpto que seja. Acima de um oraculo está uma senha. A exclamação do bailio de Suffren fez com que Mess Lethierry se tornasse delicado e exigente acerca de mãos alvas. A delle era uma larga spatula, escura na côr; na agilidade era uma clava, nas caricias uma torquez; quebrava um seixo com um socco.

Não era casado. Não quiz ou não encontrou mulher. Naturalmente o marinheiro queria mãos de duqueza. Não se encontram mãos dessas nas pescadoras de Port-Bail.

Conta-se entretanto que, em Rochefort (Charente) achou elle um dia uma grisette que realisava o seu ideal. Linda moça e lindas mãos. Detrahia e arranhava. Affrontal-a era perigoso. As suas unhas, extremamente asseiadas, tornavam-se garras destemidas, quando era necessario. Tão bellas unhas encantaram Mess Lethierry; mas depois, receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu não levar aquelle namorico á presença do senhor maire.

De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. Já cuidava dos esponsaes, quando um residente do lugar lhe disse: Dou-lhe os meus parabens. Leva uma boa esterqueira. Lethierry pedio explicações deste elogio. Em Aurigny ha uma moda. Apanha-se esterco de vacca e deita-se ás paredes. Depois de secco, cahe o esterco e serve para aquecer a gente. Ninguem casa com uma rapariga, senão quando é boa esterqueira. Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.

De mais, em assumpto de amor ou de namoro, tinha elle uma boa philosophia rustica, uma sciencia de marinheiro apanhado sempre, encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. O que hoje se chama crinolina, chamava-se então vasquinha. Significa mais e menos que uma mulher.

Os rudes marinheiros do archipelago normando são intelligentes. Quasi todos sabem ler. Vê-se ao domingo rapazitos de oito annos, assentados em um grande rolo de cabos, com um livro na mão. Os marinheiros normandos foram sempre sardonicos, e sabem dizer cousas chistosas. Foi um delles, o atrevido piloto Queripel quem atirou a Montgomery refugiado em Jersey depois da funesta lançada contra Henrique II, esta apostrophe: cabeça douda ferio a cabeça vasia. Outro marinheiro, por nome Touzeau, arraes em Saint-Brelade, fez o trocadilho philosophico attribuido ao bispo Camus: Après la mort les papes deviennent papillons et les sires deviennent cirons. (Depois da morte tornam-se os papas borboletas, e os reis ouçãos).


[III]

A VELHA LINGUA DO MAR

Os marinheiros das Channel-Islands são puros gaulezes. Estas ilhas que se vão fazendo inglezas, conservaram-se muito tempo autocthones. O camponez de Serk falla a lingua de Luiz XIV.

Ha quarenta annos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey e de Aurigny o idioma maritimo classico. Fazia crer que estavamos em plena marinha do seculo XVII. Um archeologo especialista poderia ir estudar alli a antiga linguagem de manobra e de batalha esbravejada por Jean Bart naquelle porta-voz que aterrava o almirante Hidde.

O vocabulario maritimo dos nossos paes, quasi inteiramente renovado hoje, era ainda usado em Guernesey, em 1820. O navio que supporta o vento era bon boulinier (bom de bolina); dizia-se do navio que se affeiçoa ao vento, por si mesmo, apezar das velas de prôa e do leme, vaisseau ardent (navio que se aguça): entrar em movimento era prendre aire (tomar o vento); pôr-se á capa era capeyer (capear); apanhar o vento por cima, era faire chapelle (tocar em vento); aguentar bem sobre a amarra, era faire teste; estar em confusão a bordo, era être en pantenne; ter o vento nas vellas era porter-plain, (levar em cheio).

Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje: louvoyer (bolinar), dizia-se: leauvoyer, diz-se: naviger (navegar), dizia-se nager, diz-se: virer vent devant (virar por d'avante), dizia-se: vidonner vent devant, diz-se: aller de l'avant (seguir avante), dizia-se: tailler de l'avant, diz-se: tirer d'accord (allar á uma), dizia-se: haller d'accord, diz-se: déraper, (arrancar o ferro), dizia-se: déplanter, diz-se: embraquer (tezar), dizia-se: abraquer, diz-se: taquets (cunhos), dizia-se: billons, diz-se: burins (passadores), dizia-se; tappes, diz-se: balancines (amantilhos), dizia-se: valancines, diz-se: tribord (estibordo), dizia-se: stribordo, diz-se: les hommes de quart à bâbord (homens de quarto a bombordo), dizia-se: les basbourdis.

Tourville escrevia a Hoequincourt: Nous avons singlé (singrámos). Em vez de la rafale (a lufada), le raffal; em vez de bossoir (tureos), boussoir: em vez de drosse (bossa) drousse; em vez de loffer (arribar), faire une olofée; em vez de elonger (alongar) alonger; em vez de forte brise (vento fresco), survent; em vez de sout (paiol) fosse; em vez de jouail (cepo d'ancora) jas; tal era, no começo deste seculo, a lingua de bordo nas ilhas da Mancha. Ouvindo fallar um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Emquanto no resto do mundo as velas faseyaient (pannejavam), barbeyaient nas ilhas de Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era folle-vente. Só alli se empregavam os dous modos gothicos de amarração, a valturre e a portugueza. Só alli se davam ordens destas: Tour-et-choque!—Bosse et Bitte!—Já um marinheiro de Granville dizia le clan (o gorne), e ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia le canal de pouliot. O que era bout-d'alonge (postura) em Saint-Malo, era em Saint-Hélier oreille d'âne. Mess Lethierry, como o duque de Vivonne, chamava o tozado do convez la tonture.

Foi com este idioma estravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou Argel. Hoje é lingua morta. A giria do mar é outra. Duperré não poderia entender Suffren.

Não menos se transformou a lingua dos signaes; e ha grande distancia entre as flamulas encarnada, branca, azul e amarella de Labourdonnaye e os dezoito pavilhões de hoje, que, arvorados dous a dous, tres a tres, e quatro a quatro, dão para as necessidades da combinação distante, setenta mil combinações, suprem tudo, e por assim dizer, preveem o imprevisto.


[IV]

VULNERABILIDADE POR AMOR

Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração grande. O defeito delle era a admiravel qualidade da confiança. Tinha uma maneira especial de contrahir uma obrigação; era solemne: Dou a minha palavra de honra a Deos. Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em Deos, e nada mais. Ia poucas vezes á igreja, e isso mesmo por cortezia. No mar, era supersticioso.

Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que elle era pouco accessivel á contradicção. Não a tolerava, nem num homem, nem no occeano. Queria ser obedecido; tanto peor para o mar se resistia; tinha de luctar com elle. Mess Lethierry não cedia nunca. Vaga que se impinasse, visinho que contendesse, nada lhe detinha a mão. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. Não se curvava, nem diante de uma objecção, nem diante de uma tempestade. Não, para elle, era palavra que não existia, nem na bocca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se lhe recusasse nada. Dahi vinha a sua pertinacia na vida e a sua intrepidez no occeano.

Era elle proprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que porção de sal, pimenta e hervas era preciso, e gostava tanto de fazel-a como de comel-a.

Creatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabellos soltos, a Jean Bart, e, com chapéo redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e temivel no mar, espadua de carregador, sem imprecações, quasi sem colera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em trovão, camponio que lêo a Encyclopedia, guernesiano que vio a revolução, ignorante, instruido, ermo de carolice, dado ás visões, mais fé na Dama Branca que na Santa Virgem, logica de ventoinha, vontade de Christovão Colombo, um tanto de touro e um tanto de criança, nariz quasi rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta annos, ar de tempestade na fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe agora um olhar bom neste rosto agreste, e terás mess Lethierry.

Mess Lethierry tinha dous amores: Durande e Deruchette.


[LIVRO TERCEIRO]

Durande e Deruchette.


[I]

GARRULICE E EFFLUVIOS

O corpo humano é talvez uma simples apparencia, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma mascara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma sorpreza haveria se se podesse vel-o agachado e escondido debaixo da illusão que se chama carne. O erro commum é ver no ente exterior um ente real. Tal creaturinha, por exemplo, se podessemos vel-a como realmente é, em vez de moça, mostrar-se-hia passaro.

Passaro com fórma de moça, que ha ahi de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Suppõe que é Deruchette. Deliciosa creatura! Dá vontade de dizer: Bom dia, mademoiselle arveloa. Não se lhe veem as azas, mas ouve-se-lhe o gorgeio. Canta ás vezes. Na tagarellice, está abaixo do homem; no canto, está acima delle. Tem mysterios aquelle canto; uma virgem é o involucro de um anjo. Feita a mulher, desapparece o anjo; volta, porém, depois, trazendo uma alma de criança á mãe. Esperando a vida, aquella que hade ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se ao vel-a: que boa que ella é em não bater as azes para ir-se embora!

A meiga e familiar creatura acommoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sahe, acerca-se, afasta-se, alisa as pennas ou pentea os cabellos, faz toda a especie de rumores delicados, murmura um não sei que de inneffavel aos teus ouvidos. Quando ella interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorgeia. Tagarella-se com ella. A tagarellice serve para descançar de fallar. Ha uma porção celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por vel-a tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisivel, ella, que poderia, creio eu, ser impalpavel. Neste mundo o lindo, é o necessario. Ha mui poucas funcções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exhalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das cousas sombrias unia transudação de luz, ser o doirado do destino, a harmonia, a gentilesa, a graça, é favorecer-te. A belleza basta ser bella para fazer bem. Ha creatura que tem comsigo a magia de fascinar tudo quanto a rodea; ás vezes nem ella mesma o sabe, e é quando o prestigio é mais poderoso; a sua presença illumina, o seu contacto aquece; se ella passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplal-a é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenisar o lar domestico; de todos os poros sahe-lhe um paraiso; é um extase que ella distribue aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé delles. Ter um sorriso que,—ninguem sabe a razão,—diminue o peso da cadêa enorme arrastada em commum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Deruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o proprio sorriso. Ha alguma cousa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa physionomia; e outra mais parecida que a nossa physionomia, é o nosso sorriso. Deruchette risonha, era Deruchette.

É particularmente seductor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas sobretudo, teem uma belleza florida e candida. É a combinação da alvura saxonia com a frescura normanda. Faces rosadas e olhos azues. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação ingleza amortece-os. Serão irresistiveis aquelles olhos limpidos no dia em que tiverem a profundesa do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez ingleza, felizmente. Deruchette não era parisiense, mas tambem não era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre Port, mas mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

Deruchette tinha o olhar indolente, e aggressivo sem que o soubesse. Não conhecia talvez o sentido da palavra amor, e fazia com que a gente se apaixonasse por ella. Mas era sem má intenção. Deruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fôra residir em Saint-Sampson, dizia: Esta rapariga seduz a matar.

Deruchette tinha as mais lindas mãosinhas deste mundo, e pés iguaes ás mãos, quatro pésinhos de mosca, dizia mess Lethierry. Tinha em si a bondade e a doçura: o tio Lethierry era toda a sua familia e riqueza: o trabalho della, era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por sciencia a belleza, por espirito a innocencia, por coração a ignorancia; tinha a graciosa indolencia creoula, mesclada de travessura e de vivesa, a jovialidade traquinas da infancia com um pendor á melancolia, vestuarios um pouco insulares, elegantes, mas incorrectos, chapéos de flôres todo o anno, fronte ingenua, pescoço flexivel e tentador, cabellos castanhos, pelle branca com alguns toques arruivados no verão, bocca grande e sã, e nessa bocca o adoravel e perigoso explendor do sorriso. Eis o que era Deruchette.

Algumas vezes, á noite, após o pôr o sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, á hora em que o crepusculo dá uma especie de terror as vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas uma certa massa informe, uma cousa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um volcão, uma especie de hydra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atirando-se sobre a cidade com um horrivel movimento de barbatanas e uma goela donde as chammas irrompiam. Era Durande.


[II]

A ETERNA HISTORIA DA UTOPIA

Era uma prodigiosa novidade o apparecimento de um navio a vapor nas aguas da Mancha em 182... Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horisonte do mar, sem attrahir os olhos de ninguem! Quando muito, algum observador especialista distingue pela côr da fumaça, se o carvão que consome o navio é de Galles ou de Newcastle. Passam; é quanto basta. Se partem:—Boa viagem! se chegam:—Welcome!

Não era tão grande a calma a respeito de taes invenções no primeiro quarto do nosso seculo, e estas machinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha. Neste archipelago puritano, onde a rainha de Inglaterra foi censurada por violar a Biblia[1] narcotisando-se para dar á luz, o navio a vapor teve como primeiro comprimento, o ser baptisado com este nome: Devil Boat—Navio-Diabo.

A esses bons pescadores de então, outr'ora catholicos, agora calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquillo o inferno fluctuante. Um pregador da terra tratou da questão:—Temos nós o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a agua que Deos separou?[2] Aquelle animal de ferro e fogo não era a imagem de Leviathan? não era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo cahos? Não é a primeira vez que acontece qualificar a ascensão do progresso de retrogradação ao cahos.

Idéa louca, erro grosseiro, absurdo: tal foi o veredicto da academia das sciencias consultada por Napoleão no começo deste seculo, acerca do vapor. Os pescadores de Saint-Sampson teem desculpa de se acharem, em materia scientifica, ao nivel dos geometras de Paris; e em materia religiosa, uma pequena ilha como Guernesey não tem obrigação de ser mais illustrada que um grande continente como a America. Em 1807 quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da machina de Wat mandada da Inglaterra, e tripulado, além da equipagem, por dous francezes sómente, André Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de New-York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de Agosto. Esta coincidencia deu origem a que o methodismo tomasse a palavra, e em todas as capellas os pregadores amaldiçoaram a machina, declarando que o numero dezesete era o total das dez antenas e das sete cabeças da besta do Apocalipse. Na America invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do Genesis. Nisto consistia toda a differença.

Os sabios havião rejeitado o vapor como impossivel; os padres, a seu turno, rejeitavão-n'o como impio. A sciencia condemnava; a religião anathematisava. Fulton era uma variante de Lucifer. Os habitantes simplorios das costas e dos campos adheriam á reprovação pelo incommodo que lhes causava a novidade. Na presença do vapor, o ponto de vista religioso era este:—a agua e o fogo são um divorcio. Este divorcio é ordenado por Deos. Não se deve desunir o que Deos unio, nem unir o que elle desunio. O ponto de vista do camponez era:—isto mette-me medo.

Para commetter, naquella época remota, a empreza de uma navegação a vapor entre Guernesey e S. Malo, nada menos era preciso que um homem como mess Lethierry. Só elle podia concebê-la na qualidade de livre pensador, e realiza-la na qualidade de marinheiro atrevido. O seu eu francez concebeu a idéa; o seu eu inglez executou-a.

Em que occasião? Digamo-lo.

[1] Genesis, cap. 3.°, v. 16: Parirás com dôr.

[2] Genesis, cap. 1.°, v. 4.


[III]

RANTAINE

Quarenta annos antes da época em que se passam os factos que narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre a Fosse-aux-Loups e a Tombe-Issoire, um albergue suspeito. Era uma casinha isolada e baixa. Morava ahi com a mulher e o filho, uma especie de burguez bandido, antigo escrevente de tabellião no Chatelet, e ao depois ladrão descarado. Já havia figurado no tribunal criminal. O appellido da familia era Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma commoda de mogno, viam-se duas chicaras de porcelana pintada: em uma dellas lia-se em letras douradas o seguinte distico—lembrança de amizade; na outra—signal de estima. A criança vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pae e a mãe pertenciam á burguezia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A mãe pallida, quasi esfarrapada, dava machinalmente—educação—a seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a Cruz de Jesus, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao pé do livro o menino pensativo.

O pae e a mãe presos em algum flagrante delicto, desappareceram na noite penal. A criança desappareceu tambem.

Lethierry, em suas excursões, encontrou um aventureiro como elle, livrou-o, não se sabe de que aperto, prestou-lhe serviços, affeiçoou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o intelligente para a navegação costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.

Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabeça robusta, espaduas largas e possantes, e quadris de Hercules Farnese. Lethierry e elle tinham o mesmo ar e a mesma apparencia; Rantaine era mais alto. Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro, dizia: lá estão os dous irmãos. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circumspecto. Rantaine era esgrimista, tocava harmonica, espivitava uma vela com uma balla, a vinte passos, dava um soco magnifico, recitava versos da Henriada, e adivinhava os sonhos. Sabia de cór os Tumulos de S. Diniz, por Treneuil; dizia ter tido amizade com o sultão de Calicut—a quem os portuguezes chamam Camorim. Se se podesse folhear a carteira de lembranças que andava sempre no bolso delle, ter-se-hia encontrado entre outras notas, algumas do genero desta:—em Lyão, n'uma das frestas da parede do calabouço de S. José, ha uma lima escondida. Fallava com uma lentidão discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de S. Luiz. A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciaes differentes. Ninguem mais susceptivel em cousas de honra. Batia-se e matava.

A força servindo de envolucro á astucia, tal era Rantaine.

A belleza de um sôco applicado por elle, n'uma feira, sobre uma Cabeza de moro, conquistara-lhe outr'ora a sympathia de Lethierry.

Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos teem um traje, o destino de Rantaine vestia á moda de arlequim. Tinha visto o mundo; tinha trabalhado muito. Era um circumnavegador. Teve innumeraveis officios. Foi cozinheiro em Madagascar, creador de passaros em Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas de Gallapagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro livre no Haiti. Neste ultimo emprego, pronunciara no Grande Goave uma oração funebre de que os jornaes locaes conservaram este fragmento: ... «Adeus, pois, bella alma! na abobada azulada dos céos onde agora desferes o vôo, encontrarás sem duvida o bom padre Leandro Crameau do Pequeno Goave. Dize-lhe que, graças a dez annnos de esforços gloriosos, terminaste a igreja de Anse-à-Veau! Adeos! genio transcendente, maçon modelo!» A mascara de pedreiro-livre não lhe impedia, como se vê, trazer o nariz catholico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de raça pura, odiava os negros: apezar disso teria admirado a Soluque. Em Bordeaux, em 1815, foi elle verdet. Naquella época a fumaça do seu realismo sahia-lhe pela cabeça fora, na forma de um immenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses, apparecendo, desapparecendo e tornando a apparecer. Era um velhaco a gyrar como uma rodinha de fogo. Sabio o turco: em vez de guilhotinado dizia: neboissé. Fora escravo em Tripoli, na casa de um thaleb e ahi aprendera o turco á força de bengaladas; tinha por obrigação ir á noite á porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fieis o Alkorão, escripto em pranchas de madeira ou em omoplatas de camello. Provavelmente era renegado.

Era capaz de tudo e mais alguma cousa.

Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia: Em politica, só estimo as pessoas inaccessiveis ás influencias. Dizia: Sou pelos costumes. Dizia: É preciso repor a piramide na base. Era mais alegre e cordial que outra cousa. A forma da bocca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encrusilhada de rugas onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista. Ahi é que se podia decifrar o segredo da physionomia delle. Assemelhavam-se as taes rugas a uma garra de abutre. O craneo era chato em cima e largo nas temporas. A orelha disforme e embrenhada de cabellos parecia dizer: não falles ao animal que está aqui neste antro.

Rantaine desappareceu um dia de Guernesey.

O socio de Lethierry raspou-se deixando vasia a caixa da sociedade.

Havia dinheiro delle na caixa, é certo; mas havia tambem cincoenta mil francos de Lethierry.

Lethierry, ganhara uns cem mil francos em quarenta annos de industria e de probidade, no seu officio de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.

Lethierry, meio arruinado, não cedeu, e tratou immediatamente de levantar-se. Aos homens de boa tempera arruina-se a fortuna, não a coragem. Começava-se então a fallar do vapor. Lethierry teve a idéa de tentar a machina de Fulton, tão contestada, e ligar por meio de um vapor o archipelago normando á França. Jogou tudo nessa idéa. Applicou-lhe os restos da fortuna. Seis mezes depois da fuga de Rantaine a gente de Saint-Sampson vio estupefacta sahir daquelle porto um navio deitando fumo, e produzindo o effeito de um incendio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as aguas da Mancha.

Aquelle navio, alcunhado Galeola de Lethierry, pelo desdem e odios de todos, foi annunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo.


[IV]

CONTINUAÇÃO DA HISTORIA DA UTOPIA

Comprehende-se que a cousa fosse muito mal recebida. Todos os proprietarios de navios de carreira entre a ilha guernesiana e a costa francesa clamaram immediatamente. Denunciaram aquelle attentado feito ás Santas Escripturas e ao monopolio. Alguns templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao vapor uma libertinagem. O barco á vela foi declarado orthodoxo. Vio-se distinctamente que eram pontas do diabo as pontas dos bois que o vapor trazia e desembarcava. Durou o protesto um bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os taes bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a carne mais tenra; que tambem para os homens eram menores os riscos do mar; que a passagem, menos dispendiosa, era segura e mais curta; que eram fixas as horas da sahida e da chegada; que o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se podia levar aos mercados francezes as sobras das grandes pescas, tão frequentes em Guernesey; que a manteiga das admiraveis vaccas de Guernesey fazia mais rapidamente o trajecto no Devil-Boat que nas chalupas á vela, e não perdia na qualidade, de maneira que affluiam as encommendas de Dinan, de Saint-Brieuc e de Rennes; finalmente que, graças ao que se chamava Galeota de Lethierry, havia segurança de viagem, regularidade de communicação, trafego facil e prompto, augmento de circulação, multiplicação de mercados, extensão de commercio; em summa que era preciso approveitar o Devil-Boat que violava a Biblia e enriquecia a ilha. Alguns espiritos fortes arriscaram-se a approvar o vapor com certa precaução. O Sr. Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era imparcialidade, porque elle não gostava de Lethierry: primeiro, porque, Lethierry era mess, e Landoys era apenas senhor; depois, porque, embora escrevente em Saint-Pierre Port, Landoys era parochiano de Saint-Sampson; ora, na parochia, só havia dous homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que podia acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do mesmo navio, distanceam-se duas creaturas.

Comtudo o Sr. Landoys teve o cavalherismo de approvar o vapor. Outras pessoas o imitaram. Insensivelmente o facto foi subindo; os factos são como as marés; e com o tempo, com o successo continuado e crescente, com a evidencia do serviço prestado, o augmento da commodidade publica, lá veio um dia em que, á excepção de alguns homens de juizo, toda a gente admirou a Galeota de Lethierry.

Hoje seria menos admirada. Aquelle vapor de ha quarenta annos faria sorrir os nossos actuaes constructores. Era uma maravilha disforme, um prodigio rachitico.

Entre os nossos grandes paquetes transatlanticos de hoje e o navio de rodas e fogo que Dionysio Papin fez manobrar na Fulde em 1707, não ha menor distancia que entre a náo Montebello, de 200 pés de comprimento, 50 de largura, com uma verga de 115 pés, arqueando 2,000 toneladas, levando 1,100 homens, 120 peças, 10,000 balas e 160 volumes de metralha, deitando 3,300 litros de ferro por banda e desenrolando ao vento em viagem, 5,600 metros de lona, e o drouwn dinamarquez do 2.° seculo, que se achou cheio de pedras, arcos, e clavas, nos atoleiros de Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de Flensburgo.

Cem annos justos, 1707—1807, separam o primeiro barco de Papin do primeiro navio de Fulton. A Galeota de Lethierry era de certo um progresso sobre aquelles dous esboços, mas era esboço tambem. Nem por isso deixava de ser uma obra prima. Todo embryão de sciencia tem este duplo aspecto; monstro, como fecto; maravilha, como germen.


[V]

O NAVIO-DIABO

A Galeota de Lethierry não era mastreada no ponto velico, e não era isso defeito, porque é uma das leis da construcção naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o velame era simplesmente accessorio; um navio de rodas é quasi insensivel ao velame que se lhe põe. A Galeota era demasiado curta e arredondada; grande bochecha e largos quadris; Lethierry não teve a ousadia de faze-la mais ligeira. A Galeota tinha alguns dos inconvenientes e das qualidades da pança: arfava pouco, mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga da coberta era maior de que comportava o comprimento. A machina, que era massuda, atravancava o navio, e para torna-lo capaz de um grande carregamento, foi preciso levantar muito a amurada, o que deu á Galeota, mais ou menos, o defeito das náos de 74, que, só arrasando-as, podem navegar e combater.

Sendo curta, devia gyrar depressa, visto que o tempo empregado em uma evolução está na razão do comprimento do navio; mas o peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de ser curta. O pontal era muito largo, o que lhe atrazava a marcha, porque a resistencia da agua é proporcional á maior secção immergida e á velocidade do navio. A proa era vertical, o que não seria defeito hoje, mas naquelle tempo era uso inclina-la uns quarenta e cinco gráos. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas, mas não eram sufficientemente longas para a obliquidade e parallelismo com o lume da agua, que deve ser rechassada lateralmente. No máo tempo, callava muita agua, ora na proa, ora na popa, o que mostrava ter vicio de construcção no centro de gravidade. Não estando o carregamento no lugar proprio, por causa do peso da machina, acontecia que o centro de gravidade passava ás vezes para traz do mastro grande, e então era preciso contar só com o vapor, e desconfiar da vela grande, porque o effeito da vela grande nesses casos fazia antes arribar que sustentar o vento. O recurso era, ao approximar-se do vento, soltar a grande escota; deste modo o vento fixava-se na proa, pela amurada, e a vela grande fazia o effeito de uma vela de popa. A manobra era difficil. O leme era o leme antigo, não de roda como hoje, mas de cana, voltando sobre os eixos firmados no cadaste, e movido por uma trave horisontal que passava por cima da cava da culatra.

Tinha duas falúas suspensas. O navio era de quatro ancoras, a ancora grande, a segunda ancora, que é a que trabalha, working-anchor, e duas ancoras de amarra. Essas quatro ancoras, atadas por correntes, eram manobradas, segundo as occasiões, pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da proa. Tendo apenas duas ancoras de amarra, uma a estibordo, outra a bombordo, o navio não podia ancorar em cruz, o que o desarmava quando sopravam certos ventos. Mas neste caso podia usar da segunda ancora. As boias eram normaes, e construidas da maneira a supportar um cabo de ancora, ficando sempre á flôr da agua. A chalupa tinha as dimensões uteis. A novidade do navio é que era, em parte, apparelhado com correntes; o que não lhe diminuia a mobilidade nem a tenção das manobras.

A mastreação, posto que secundaria, não era incorrecta; era facil o manejo dos ovens. As peças de madeira eram solidas, mas grosseiras, pois que o vapor não exige madeiras tão delicadas como exigem as velas. Tinha aquelle navio uma velocidade de duas leguas por hora. Quando pannejava affeiçoava-se bem ao vento. A Galeota de Lethierry supportava bem o mar, mas não tinha boa quilha para dividir o liquido, nem se podia dizer que fosse airosa. Via-se que em occasião de perigo, cachopo ou tromba, não poderia ser bem manobrada. Tinha o ranger de uma cousa informe. Fazia na agua o ruido que fazem as solas novas.

Era navio de commercio e não de guerra, e por isso mais exclusivamente disposto para a arrumação das cargas. Admittia poucos passageiros. O transporte do gado tornava difficil e especial a arrumação das cargas. Punham-se os bois no porão, o que complicava muito. Hoje os bois ficão no convés. As caixas das rodas do Devil-Boat Lethierry eram pintadas de branco, o casco até o lume d'agua de vermelho, e o resto de preto, segundo o uso, assaz feio, deste seculo.

Vasio calava sete pés; carregado, quatorze.

Quanto á machina era poderosa. Tinha a força de um cavallo por tres toneladas, o que é quasi a força de um rebocador. As rodas estavam bem collocadas, um pouco adiante do centro de gravidade do navio. A machina tinha a pressão maxima de duas athmospheras. Gastava muito carvão. O ponto de apoio era instavel, mas remediava-se como ainda hoje se faz, por meio de um duplo apparelho alternado de duas manivelas fixas nas extremidades da arvore de rotação, e disposta de maneira que uma estivesse no ponto forte quando a outra estava no ponto inerte: Toda a machina repousava em uma só placa fundida; de modo que mesmo em caso de grande avaria, nenhum lanço do mar lhe tirava o equilibrio, e o casco disforme não podia deslocar a machina. Para torna-la ainda mais solida, puzeram a redouça principal perto do cylindro, o que transportava do meio á extremidade o centro da oscilação do pendulo. Inventaram-se depois os cylindros oscilantes que suprimem a redouça antiga; mas naquelle tempo parecia que o systema usado era a ultima palavra da mecanica.

A caldeira era dividida, e tinha a bomba competente. As rodas eram grandes, o que diminuia a perda de força, e o cano alto, o que augmentava a extracção da fornalha; mas o tamanho das rodas dava azo ás vagas, e a altura do cano dava azo ao vento. Raios de páo, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que eram as rodas bem construidas, e (o que admira) podendo ser desmontadas. Haviam sempre tres rodisios mergulhados; a velocidade, do centro da roda não passava de um sexto da velocidade do navio, era esse o defeito. Além disso, a trave da manivela era muito comprida, e o vapor era distribuido no cylindro com demasiado atrito. Naquelle tempo a machina parecia e era admiravel.

Foi ella feita em França, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry delineou-a; o machinista que a construio, morreu; de modo que aquella machina era unica e impossivel de ser substituida. Existia o desenhista, mas faltava o constructor.

Custou a machina quarenta mil francos.

Lethierry construio a Galeota ua grande estiva coberta que fica ao lado da primeira torre entre Saint-Pierre Port e Saint-Sampson. Empregou nessa construcção tudo o que sabia em carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na construcção do costado, cujas costuras eram estreitas e iguaes, untadas de sarangousti, betume da India, melhor que alcatrão. O forro estava bem pregado. Para remediar a rotundidade do casco, ajustou elle um botaló ao gurupés, o que lhe permittia accrescentar á cevadeira uma cevadeira falsa. No dia do lançamento ao mar, disse Lethierry: estou na agua! E realmente a Galeota foi bem succedida.

Por acaso ou de proposito, a Galeota cahio ao mar no dia 14 de Julho. Nesse dia Lethierry, de pé sobre o convés, entre as duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar e exclamou: Agora tu! os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamos-te nós!

A Galeota de Lethierry fazia uma vez por semana a viagem de Guernesey a Saint-Malo. Partia na quinta-feira e voltava na sexta á tarde, vespera do mercado que era no sabbado. Era uma massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas costeiras do archipelago, e, sendo a sua capacidade na razão das dimensões, uma só das suas viagens valia por quatro viagens de um cuter ordinario. Tirava por isso grandes lucros. A reputação de um navio depende da sua arrumação de cargas, e Lethierry era admiravel neste mister. Quando ficou impossibilitado de trabalhar no mar, ensinou um marinheiro para substitui-lo. No fim de dous annos, o vapor dava liquidas umas setecentas e cinco libras sterlinas por anno. A libra sterlina de Guernesey vale vinte e quatro francos, a de Inglaterra vinte e cinco, e a de Jersey vinte e seis. Estas phantasmagorias são menos phantasmagoricas do que parecem; os bancos é que lucram com ellas.


[VI]

LETHIERRY ENTRA NA GLORIA

Prosperava a Galeota. Mess Lethierry via chegar o dia em que elle seria gentleman. Em Guernesey não se pode ser gentleman da noite para o dia. Ha uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degráo é o nome simplesmente, Pedro, supponhamos; depois, visinho Pedro; terceiro degráo, pai Pedro; quarto degráo, senhor (sieur) Pedro; quinto degráo, mess Pedro; ultimo degráo, gentleman (monsieur) Pedro.

Esta escada, que sahe da terra, interna-se pelo céo acima. Entra nella toda a hierarchia ingleza. Eis os degráos mais luminosos: acima de senhor (gentleman) ha esq., (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sir vitalicio) depois o baronet (sir hereditario), depois o lord, laird na Escocia, depois o barão, depois o visconde, depois o conde, (earl na Inglaterra, jarl na Noruega), depois o marquez, depois o duque, depois o par de Inglaterra, depois o principe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo á burguesia, da burguesia ao baronato, do baronato ao pariato, do pariato a realesa.

Graças aos seus triumphos, ao vapor, ao Navio-Diabo, mess Lethierry já era alguem. Para construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen, e em Saint-Malo, mas ia amortisando a divida todos os annos.

Lethierry comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e cal, novasinha, entre o mar e o jardim; no angulo estava este nome: Bravées. A casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era notavel por duas fileiras de janellas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flôres, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as rosas.

As fachadas pareciam feitas para os dous moradores: mess Lethierry e miss Deruchette.

Era popular a casa de Lethierry, porque elle proprio acabou sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educação e da coragem delle, parte dos homens que elle salvara de perigos imminentes, em grande parte do bom exito da Galeota, e tambem por ter dado ao porto de Saint-Sampson, o privilegio das partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o Devil-Boat era um bom negocio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal. Daqui é que eu fui lançado ao mar, dizia elle. Tinha por isso grande popularidade local.

A qualidade de proprietario e contribuinte fazia delle o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degráos, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quasi gentleman, e quem sabe mesmo se não passaria dahi? Quem sabe se algum dia não se havia de ler no almanack de Guernesey, no capitulo Gentry and Nobility esta inscripção inaudita e soberba: Lethierry, esq.

Mess Lethierry, porém, desdenhava ou antes ignorava o que era a vaidade das cousas. Sentia-se util, era a satisfação delle; ser popular commovia-o menos que ser necessario. Já o dissemos, tinha dous amores, e por consequencia, duas ambições: Durande e Deruchette.

Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.

A sorte grande, era Durande navegando.


[VII]

O MESMO PADRINHO E A MESMA PADROEIRA

Depois de crear o vapor, Lethierry baptisou-o, deu-lhe o nome de Durande. Não lhe daremos daqui em diante se não este nome. Seja-nos licito igualmente, qualquer que seja o uso typographico, escrever Durande sem ser em gripho, conformando-nos nisto ao pensamento de mess Lethierry para quem Durande era quasi uma pessoa.

Durande e Deruchette é o mesmo nome. Deruchette é o diminutivo. É muito usado esse diminutivo no oeste da França.

No campo, os santos têm muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e augmentativos. Parece que ha muitas pessoas e é só uma. Esta identidade de padroeiros e padroeiras com differentes nomes, não é rara, Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é Elisabeth. É provavel que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo. Mas não fazemos cabedal disso.

Santa Durande é uma santa de Angoumois e da Charente. Será correcta? Isso é lá com os bolandistas. Correcta ou não, esta santa tem muitas igrejas.

Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquella santa, provavelmente na pessoa de alguma formosa Charenteza, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação bastante para dar aquelle nome ás duas cousas que elle amava; Durande á Galeota, Deruchette á menina.

Lethierry era pae de uma e tio da outra.

Deruchette era filha de um irmão que elle teve. Morreram-lhe os paes. Lethierry adoptou a criança, e substituio o pae e a mãe.

Deruchette não era sómente sobrinha, era tambem afilhada de Lethierry. Foi elle quem a levou á pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome Deruchette.

Deruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre Port. Estava inscripta no registro da parochia.

Emquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguem se importou com o nome Deruchette; mas quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentleman, Deruchette começou a desagradar a todos. Perguntavam a mess Lethierry:

—Porque lhe dá esse nome?

—É um nome assim, respondia elle. Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry não quiz.

Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a mess Lethierry:

—Daqui em diante chamarei Nancy á sua filha.

—Porque não lhe chamará Lons-le-Saulnier? disse elle.

A bella senhora não desistio, e no dia seguinte disse-lhe:

—Decididamente não queremos que ella se chame Deruchette. Achei um lindo nome: Marianne.

—Lindo nome realmente, disse mess Lethierry, mas composto de dous animaes bem ruins, um mari (marido) e um ane (asno).

Lethierry manteve o nome de Deruchette.

Enganar-se-hia aquelle que concluisse pelas ultimas palavras de Lethierry que elle não queria casar a sobrinha. Queria casa-la, de certo, mas ao seu modo. Queria um marido da sua tempera, muito trabalhador, de maneira que Deruchette não fizesse nada. Gostava das mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher. Para que Deruchette não estragasse as lindas mãos que tinha, dava-lhe occupações elegantes, mestre de musica, piano, bibliotheca e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha de costura.

Deruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais que o encanto a fascinação. Educou-a mais para ser flôr do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros ha de comprehender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que mess Lethierry comprehendia perfeitamente. A machina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia dotar Deruchette.


[VIII]

A MELODIA BONNY DUNDEE

Deruchette occupava o mais lindo quarto da casa, com duas janellas, mobilia de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a coluna onde está o castello do Valle. Do outro lado desta collina é que estava o tutú da rua.

Deruchette tinha no quarto a musica e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a canção da sua preferencia, a melancolica melodia escosseza Bonny Dundee; a noite encerra-se toda naquella aria, a aurora encerrava-se toda naquella voz; isto produzia insolito contraste. Dizia-se: miss Deruchette está ao piano; e os que passavam ao sopé da collina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir aquelle canto tão fresco e aquella canção tão triste.

Deruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo alli uma eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de mess Lethierry aquella princeza de uma canção de soldados e marujos, tão bella—que passava por tal no regimento.

—Deruchette tem um cabo de cabellos, dizia mess Lethierry.

Era lindissima desde a infancia. Receiou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que não adquirio deffeito algum até tornar-se moça; o nariz nem ficou comprido nem curto; e chegando á juventude, Deruchette conservou-se encantadora.

Dava o nome de pai ao tio.

Mess Lethierry concedia-lhe algumas funcções de jardineira e mesmo de dona de casa. A moça regava os canteiros de malvaisco, de verbasco, de phlox e herva benta; cultivava oxalida rosada; utilisava o clima da ilha de Guernesey, tão hospitaleira ás flores. Tinha, como toda a gente, aloes plantado no chão, e, o que é mais difficil, fazia pegar a potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve flôr da Hollanda e a couve de Bruxellas; transplantava-as em Julho; nabos para Agosto, chicoria para Setembro, pastinaca para o outomno, e rapuncio para o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, comtanto que não trabalhasse muito com a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ella propria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas, uma chamada Graça, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam o serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as mãos vermelhas.

O quarto de mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era contiguo á sala grande do rez do chão, onde havia a porta de entrada e aonde iam ter as diversas escadas da casa. A mobilia do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um chronometro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. O tecto, construido com vigas, era caiado, bem como as paredes á direita da porta estava pregado o archipelago da Mancha, bella carta maritima onde se lia a seguinte inscripção: W. Faden, 5, Churing Cross. Geographer to His Majesty; e á esquerda estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que trazem figurados os signaes de todas as marinhas do globo, tendo nos quatro cantos os estandartes da França, da Russia, de Hespanha e dos Estados-Unidos da America, e no centro a Union-Jack da Inglaterra.

Doce e Graça eram duas creaturas ordinarias, devendo tomar-se esta palavra á boa parte. Doce não era má, e Graça não era feia. Não lhes ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a cousa. As duas criadas faziam o serviço com uma especie de lentidão propria á domesticidade normanda no archipelago. Graça, faceira e bonita, contemplava constantemente o horisonte com uma inquietação de gato. Era porque, tendo tambem o seu amante, tinha de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receiava. Mas nós não temos nada com isto. A differença entre Graça e Doce é que, n'uma casa menos austera e menos innocente, Doce ficaria criada de servir e Graça subiria á posição de criada grave. Os talentos possiveis de Graça eram nullos para uma moça candida como Deruchette. Demais, os amores de Doce e Graça eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de mess Lethierry, nada salpicava sobre Deruchette.

A sala baixa do rez do chão, com chaminé é rodeada de bancos e mesas, servira no seculo passado para as reuniões de um conventiculo de refugiados francezes protestantes. A parede de pedra núa não tinha ornamento algum a não ser um quadro de madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proesas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquelle genio, perseguidos por elle na occasião da revocação do edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquelle quadro na parede como um testemunho.

Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarellada, lia naquelle cartaz os seguintes factos pouco conhecidos;—«A 29 de Outubro de 1685, demolição dos templos de Morcef e de Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. bispo de Meaux.»—«A 2 de Abril de 1686, prisão de Cochard pai e filho por motivo de religião, a requerimento do Sr. bispo de Meaux. Foram soltos por terem abjurado.»—«A 28 de Outubro de 1699 o Sr. bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memoria expondo a necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de Neuville, donzellas da religião reformada, para a casa das Novas-Catholicas de Paris.»—«A 7 de Julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua mulher, mãos catholicos, de Fublaines.»

No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de mess Lethierry, havia uma pequena divisão de taboas, que tinha sido tribuna huguenote, e era então graças a uma grade arranjada, o office do vapor, isto é, o escriptorio da Durande occupado por mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as paginas cotadas, Deve e Hade Haver—substituia a Biblia.


[IX]

O HOMEM QUE ADVINHOU QUEM ERA RANTAINE

Mess Lethierry governou a Durande emquanto pode navegar, e nunca teve outro piloto nem outro capitão; mas lá chegou um dia em que elle foi obrigado a deixar o mar. Escolheu para substitui-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin tinha em toda a costa fama de severa probidade. Era o alter ego e o vigario de mess Lethierry.

O Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabelião que de marinheiro, era um maritimo capaz e raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo perpetuamente transformado. Era arrumador habil, gageiro meticuloso, contramestre desvelado e perito, timoneiro robusto, piloto instruido, e atrevido capitão. Era prudente e algumas vezes levava a prudencia ao ponto de ouzar, o que é uma grande qualidade na vida maritima. Tinha o receio do provavel temperado pelo instincto do possivel. Era um desses marinheiros que affrontam o perigo em uma proporção conhecida delles, sabendo triumphar em todas as aventuras. Toda a certeza que o mar póde deixar a um homem, elle a tinha. Era além disso nadador de fama; pertencia a essa raça de homens exercitados na gymnastica da vaga, que se conservam n'agua o tempo que se quer, e que partindo do Havre-des-Pas, dobram a Collete, fazem a volta da Ermitage e a do castello Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado, o temivel trajecto desde Manois até á ponta de Plaintmont.

Uma das cousas, que mais recommendaram o Sr. Clubin a mess Lethierry, foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assignalou a mess Lethierry a improbidade daquelle homem, e disse-lhe:—Rantaine ha de roubal-o. Verificou-se a profecia. Mais de uma vez, em negocios pouco importantes, é verdade, mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr. Clubin e descançava nelle. Mess Lethierry dizia: Consciencia quer confiança.


[X]

NARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSO

Mess Lethierry, que se não accomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro, á japona de piloto. Deruchette torcia o nariz por isso. Nada é tão bello como uma caretazinha da formosura em colera. Deruchette ralhava e ria—Bom paisinho, dizia ella, está cheirando a alcatrão. E dava uma palmadinha na larga espadua do marinheiro.

Aquelle velho heróe do mar trouxe das suas viagens, narrativas maravilhosas. Vio em Madagascar plumas de passaro das quaes bastavam tres para cobrir uma asa. Vio na India hastes de azedinhas, de nove pés de altura. Vio na Nova Hollanda bandos de perús e de patos dirigidos e guardados por um cão de pastor, que naquella terra é um passaro, e chama-se galinha silvestre. Vio cemiterios de elephantes. Vio em Africa uma especie de homens-tigres de sete pés de altura. Conhecia os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco barbado. No Chile vio uma bugia commover os caçadores apresentando-lhes o filho.

Vio na California um tronco de arvore ouco, no interior do qual um homem a cavallo podia andar cento e cincoenta passos. Vio em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se com matraks e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados de kelb, que quer dizer cães, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Vio na China cortar em pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harh-Quoi, por ter assassinado o Ap de uma aldêa. Ern Thudanmot, vio um leão arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade. Assistio á chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon, para celebrar na pagode de Cho-len, a festa de Quan-nam, deosa dos navegantes. Contemplou na terra dos Moi, o grande Quan-Su.

No Rio de Janeiro, vio as senhoras brasileiras collocarem nos cabellos pequenas bollas de gaze contendo cada uma dellas um vagalume, o que lhes fazia uma coifa de estrellas. Destruio no Uruguay os formigueiros, e no Paraguay um certo bichinho, que occupa com as patas um diametro de um terço de vara, e ataca o homem, por meio dos proprios pellos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne produzindo pustulas. No rio Arinos, affluente do Tocantins, nas mattas virgens do norte da Diamantina, verificou a existencia do terrivel povo-morcego, os morcilagos, homens que nascem com os cabellos brancos e os olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dormem de dia, accordam de noite, e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor de que quando ha lua.

Perto de Beirouth, no acampamento de uma expedição de que fazia parte, foi roubado de uma tenda um pluviometro; então um feiticeiro vestido de duas ou tres fachas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os proprios suspensorios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que appareceu logo uma hyena trazendo o pluviometro. A hyena é que o tinha roubado.

Estas historias verdadeiras, assemelhavam-se tanto a historias da carochinha que divertiam Deruchette.

A boneca de Durande era o élo entre o vapor e a moça. Chama-se boneca nas ilhas normandas a figura talhada na prôa, estatua de madeira mais ou menos esculpida. Dahi vem que para dizer navegar, a gente das ilhas usa desta locução; estar entre popa e boneca (poupe et poupée.)

A boneca de Durande tinha as predilecções de mess Lethierry. Elle encommendára ao carpinteiro que a fizesse parecida com Deruchette. Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha de lenha esforçando-se por ser moça bonita.

Mas a cousa, embora disforme, illudia mess Lethierry. Contemplava-a como um crente. Estava de boa fé diante daquella figura. Reconhecia nella a imagem de Deruchette. É mais ou menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o idolo com Deos.

Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na terça-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir Durande; segunda alegria, vê-la chegar. Encostava-se á janella, contemplava a sua obra, era feliz. Ha alguma cousa assim no Genesis. Et vidit quod esset tonum.

Na sexta-feira, a presença de mess Lethierry na janella era um signal. Quem o via chegar á janella da casa de Bravées, acender o cachimbo, dizia logo: Ah! o vapor está a chegar.

Uma fumaça annunciava a outra.

A Durande, entrando no porto, atava a amarra debaixo das janellas de mess Lethierry, n'uma grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry, gozava um admiravel somno na sua maca, sentindo de um lado Deruchette adormecida, do outro Durande amarrada.

O ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de Lethierry havia um pequeno cáes.

O cáes, a casa, o jardim, as marinhas orladas de sebes, a maior parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A exploração do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquelle lugar está hoje occupado por estancias de quebradores de pedra.


[XI]

LANCE DE OLHOS AOS MARIDOS EVENTUAES

Deruchette ia crescendo e não se casava.

Mess Lethierry fel-a uma moça de mãosinhas alvas, mas tornou-a exigente. Educações daquellas voltam-se sempre contra os pais.

Elle proprio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido para Deruchette que fosse tambem marido de Durande. Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o companheiro de uma fosse piloto da outra. Que é um marido? É o capitão de uma viagem. Porque motivo não dar um só capitão ao navio e á filha? O casal obedece ás marés. Quem sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas são sujeitas á lua e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze annos menos que mess Lethierry, não podia ser para Durande senão um capitão provisorio; era preciso um piloto moço, um capitão definitivo, um verdadeiro successor do inventor, do creador. O piloto de Durande seria o genro de mess Lethierry. Porque motivo não fundir os dous genros em um só?

Lethierry affagava esta idéa. Via apparecer-lhe em sonhos um noivo. Um gageiro possante e tostado, athleta do mar, eis o seu ideal. Não era esse o ideal de Deruchette, o sonho da moça era mais côr de rosa.

Fôsse como fôsse, o tio e a sobrinha pareciam estar de accordo em não terem pressa. Qnando viram Deruchette tornar-se herdeira provavel, apresentaram-se pedidos aos centos. Estas sollicitudes nem sempre são de boas qualidade. Mess Lethierry sentia isso, e dizia entre dentes: moça de ouro, noivo de cobre. E despedia os pretendentes. Esperava. Ella tambem.

Cousa singular, Lethierry não fazia cabedal da aristocracia. Por esse lado era um inglez inverosimil. Difficilmente se acreditará que elle chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse affirmar, mas nós não acreditamos, que elle recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido de um membro da familia Edou, que evidentemente descende de Edou-ard o Confessor.


[XII]

EXCEPÇÃO NO CARACTER DE LETHIERRY

Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma pessoa, mas uma cousa, o padre. Lendo um lia, em Voltaire,—costumava ler e lia Voltaire,—estas palavras «os padres são gatos,» mess Lethierry poz o livro de parte, e ouviram-n'o murmurar baixinho: sinto-me cão.

Cumpre não esquecer que os padres lutheranos, calvinistas, e catholicos, atacaram-n'o vivamente, e pereguiram-n'o docemente, por causa da construcção do Devil-Boat local. Ser revolucionario em navegação, tentar introduzir um progresso no archipelago normando, impor à pobre ilha de Guernesey os esboços e uma invenção nova, era, conforme dissemos, uma temeridade condemnavel. Lethierry não escapou a uma certa condemnação. Não se esqueçam que fallamos do clero antigo differente do clero actual, que, em quasi todas as igrejas locaes, tem uma tendencia liberal para o progresso. Pearam-n'o de todos os modos; oppuzeram-lhe toda a somma de obstaculos que póde haver nas predicas e nos sermões. Odiado pelos homens da igreja, Lethierry aborrecia-os tambem. O odio dos outros era a circumstancia attenuante do odio delle.

Mas a sua aversão pelos padres era idiosyncratica. Para odial-os não precisava de ser odiado. Como elle proprio dizia, era o cão daquelles gatos. Era contra elles pela idéa, e, o que é mais irreductivel, pelo instincto. Sentia as garras latentes dos padres, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, confessemol-o, o nem sempre a proposito. É erro não distinguir. Não são bons os odios absolutos. Nem mesmo o vigario saboyano mereceria as sympathias de Lethierry. Não é certo que para elle houvesse um bom padre. Á força de philosophar ia perdendo a circumspecção. Existe a intolerancia dos tolerantes, como existe o furor dos moderados. Mas Lethierry era tão boa alma que não podia ser odiento. Antes repellia que atacava. Fugia dos homens da igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não querer-lhes bem. A differença entre o odio dos outros e o delle, é que o dos outros era animosidade, e o delle antipathia.

Guernesey, apezar de ilha pequena, tem lugar para duas religiões. Existem nella a religião catholica e a religião protestante. Devemos accrescentar que ahi não entram as duas religiões na mesma igreja. Cada culto tem a sua capella ou o seu templo. Na Allemanha, em Heidelberg, por exemplo, a cousa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja; metade para S. Pedro, metade para Calvino; entre as duas ha um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguaes; os catholicos têm tres altares; os huguenotes tem tres altares; como as horas do officio são sempre as mesmas, o sino commum chama na mesma occasião para os dous serviços. Convoca a um tempo os fieis para Deos e para o diabo. Simplificação.

O fleugma allemão accommoda-se com estas propinquidades. Mas em Guernesey, cada religião tem casa propria. Ha parochia orthodoxa e parochia heretica. Póde-se escolher. Nem uma nem outra, foi a escolha de mess Lethierry.

Aquelle marinheiro, aquelle operario, aquelle philosopho, aquelle parvenu do trabalho, simples na apparencia, não n'o era em substancia. Tinha lá as suas contradições e pertinacias. Era inabalavel a respeito do padre. Daria quináos a Montlosier.

Costumava a dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões proprias delle, extravagantes, mas sem eixar de ter um sentido. Ir a confessar-se era para elle: pentear a consciencia. Os poucos estudos que tinha, pouquissimos, feitos aqui e alli, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de orthographia. Tinha tambem erros de pronuncia, nem sempre ingenuos. Quando se fez a paz entre a França de Luiz XVIII e a Inglaterra de Wellington, mess Lethierry disse: Bourmont foi o traitre d'union (traidor por traço) entre os dous campos. Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (papauté) do seguinte modo: pape ôté (papa arrancado). Não acreditamos que elle fizesse isto de proposito.

Este antipapismo não o conciliava com os anglicanos. Os presbyteros protestantes não o estimavam mais que os curas catholicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quasi sem reserva a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno pregado pelo reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnifico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os supplicios, os tormentos, as condemnações, os castigos inexoraveis, os fogaréos sem fim, as maldições inextinguiveis, as coleras do Omnipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, cousas incontestaveis. Lethierry ouvio o sermão e ao sahir com um dos fieis, disse-lhe baixinho: Ora, quer ver? eu cá tenho uma idéa ratona. Supponho que Deos é bom.

Adquirio este germen de atheismo quando residio em França.

Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-n'o na ilha—o francez, por causa do seu espirito improper. Nem elle o occultava; estava impregnado de ideas subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil-Boat, provava bem isto.

Lethierry costumava dizer: eu mamei o leite 89. Máo leite.

E que despropositos fazia! É difficil viver intacto nos lugares pequenos. Em França, guardar as apparencias, na Inglaterra, ser respeitavel, é quanto basta para passar a vida tranquilla. Ser respeitavel, é cousa que implica uma immensidade de observancias, desde o domingo bem santificado até á gravata bem atada. «Não te faças apontar com o dedo» eis uma lei terrivel. Ser apontado é o diminutivo do anathema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, são eximias nesta malignidade isoladora, que é a maldição vista ao invez do oculo. Os mais intrepidos arreceiam-se disto. Affronta-se a metralha, affronta-se o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que logico. Mas debaixo dessa pressão dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava agua no vinho, locução prenhe de concessões latentes e ás vezes inconfessaveis. Affastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava resolutamente a porta. Nas occasiões officiaes e nas épocas das visitas pastoraes, recebia attenciosamente tanto o presbytero lutherano como o capellão papista. Acontecia-lhe, de quando em quando acompanhar á parochia, anglicana a menina Deruchette, que aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do anno.

Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-n'o, e longe de inclinal-o para os homens da igreja, augmentavam o seu pendor interno. Aquella creatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de emendal-a.

De facto, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.

Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverencia revolucionaria. Distinguia pouco entre duas fórmas de culto. Nem mesmo fazia justiça a este grande progresso: Não acreditar na presença real. A sua myopia nestas cousas chegava ao ponto de não ver a differença entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. Wesley não vale mais que Loyola, dizia elle. Quando via passar uni pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos. Padre casado! dizia elle, com o accento absurdo que essas duas palavras tinham em França naquella época. Contava que na sua viagem á Inglaterra tinha visto a bispa de Londres. A sua revolta contra essas uniões, iam até á colera.—Vestido não casa com vestido! exclamava elle. O sacerdote fazia-lhe effeito de um sexo. Não teria duvida em dizer: «Nem homem nem mulher; padre.» Applicava com máo gosto, tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos epithetos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma phraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a proposito de padres, quaesquer que fossem, catholicos ou lutheranos, as methonymias soldadescas usadas naquelle tempo.

—Casa-te com quem quizeres, dizia elle a Deruchette comtanto que não seja com algum padreco.


[XIII]

O DELEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA

Dita uma cousa, mess Lethierry não a esquecia mais; dita uma cousa, miss Deruchette esquecia-a logo. Esta era a differença entre o tio e a sobrinha.

Deruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Ha mais de um perigo latente n'uma educação tomada muito ao sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, talvez uma imprudencia.

Deruchette acreditava, que, estando ella contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ella estava alegre. As suas idéas eram pouco mais ou menos as mesmas de mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo á parochia quatro vezes por anno. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia cousa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Emquanto não chegava esse dia era menina folgazã.

Deruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdadade ingleza. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescencia vai á redéa solta. Taes são os costumes. Mas tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem a boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

Deruchette acordava todos os dias com a inconsciencia das suas acções da vespera. Bem embaraçado ficaria que lhe perguntasse o que ella havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ella tivesse em certas horas turvas, uma indisposição mysteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade. Ha nuvens dessas nos céos como aquelle. Mas passavam depressa. Deruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem porque estivera triste, nem porque estava serena. Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o proprio diabo se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão innocente que abusava de si propria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto peior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de hontem não existia para ella; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquella moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.


[LIVRO QUARTO]

O bug-pipe.


[I]

PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE INCENDIO

Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Deruchette. Conheci-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrella da manhã.

Na época em que Deruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre Port au Valle e fez-lhe a sorpreza de traçar na neve o nome delle, tinha 16 annos. Exactamente na vespera mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

—Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.

O nome Gilliatt, escripto por aquella menina, cahio em uma profundidade desconhecida.

Que eram as mulheres para Gilliatt? nem mesmo elle poderia dize-lo. Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na ultima extremidade fallava ás mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponeza. Quando se achava só em um caminho e ansiava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou mettia-se em uma mouta e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naquelles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortunios: «Estou muito massada, cahiram-me uns choviscos no chapéo, esta côr é muito sujeita a ficar manchada.»

Tendo encontrado tempos depois entre as folhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toilette, pregou-a na parede como lembrança desta apparição. Nas noites de estio escondia-se atraz das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponezas banharem-se no mar. Um dia, atravez de uma cerca, vio a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha cabido. Provavelmente, Gilliatt era virgem.

Naquella manhã de Natal em que Deruchette escrevera rindo o nome delle, Gilliatt voltou para casa não sabendo já porque motivo tinha sabido. Não dormio de noite. Pensou em mil cousas;—que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim;—que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma cousa;—que tinha visto erva pinheiro em flôr, cousa rara naquella estação.

Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre elle e a velha que morrera em casa; disse comsigo que devia ser sua mãe e pensou nella com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Rev. Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre Port, e que a parochia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria vigesimo setimo dia da lua, e que por consequencia a maré enchente seria ás 3 horas e 21 minutos, a média ás 7 horas e 15 minutos, a vasante ás 9 horas e 36 minutos. Recordou, até nas menores particularidades, o vestuario de highlander que lhe vendera o bug-pipe (especie de sanfona), bonet enfeitado com um cardo a claymore, a casaca de ábas curtas e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escosseza, os dous cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dous cairgorums, e os joelhos nús do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquillo tornou-se espectro, perseguio-o, deu-lhe febre até que elle adormeceu.

Gilliatt acordou quando o sol já ia alto, e o seu primeiro pensamento foi Deruchette.

Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escossez. Sonhou tambem com o velho cura Jaquemin Herodes. Quando acordou pensou outra vez em Deruchette e teve contra ella uma violenta colera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.

Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe e entrou a chorar.

Projectou ir passar uns tres mezes em Chausey ou em Minquirs, mas não partio.

Não tornou a pôr os pés na estrada de Saint-Pierre Port au Valle.

Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra, e que todos os viandantes deviam olhar para elle.


[II]

GILLIATT VAI ENTRANDO PASSO A PASSO NO DESCONHECIDO

Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia de proposito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de Deruchette.

Estando um dia naquetle caminho, ouvio a uma nulher do mercado, que fallava a outra, e vinha da casa de Lethierry: Miss Lethierry gosta muito de sea kales.

Gilliatt fez no jardim da casa mal assombrada uma fossa de sea kales. O Sea kale é uma couve que tem o sabor do espargo.

O muro do jardim da casa de Deruchette era baixinho; podia-se pular facilmente. Esta idéa pareceu terrivel a Gilliatt. Mas quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que fallavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt não escutava, mas ouvia. De uma vez ouvio disputar as duas criadas, Graça e Doce. Como o rumor vinha daquella casa, soou-lhe como se fosse musica.

De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de Deruchette. Deitou a correr.

As palavras que ouvio á moça ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram: Faz favor de me dar a vassoura?

Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar parado. Aconteceu uma vez que Deruchette, que não podia ser vista de fora, embora estivesse a janella aberta, estava ao piano e cantava. Cantava a canção Bonny Dundee. Gilliattt empallideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.

Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abrio-se o céo. Gilliatt vio Deruchette regando uns pés de alface.

Dahi a pouco já elle fazia mais do que parar. Observava os habitos da moça, notava as horas em que ella aparecia, e esperava.

Tinha cuidado de não ser visto por ella.

A pouco e pouco, ao tempo em que as moutas se enchem de borboletas e de rosas, immovel e mudo horas inteiras, sem ser visto por ninguem, retendo a respiração, Gilliatt acostumou-se a ver Deruchette andar pelo jardim. É facil acostumar-se ao veneno.

Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Deruchette conversar com mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distinctamente aos ouvidos.

Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar ouvido. Ah! o coração humano é um velho espião!

Havia outro banco visivel e proximo, no fim de uma alameda. Deruchette assentava-se alli algumas vezes.

Pelas flôres que elle via Deruchette colher e cheirar, adivinhou as preferencias da moça a respeito de perfumes.

A moça preferia antes de tudo a campanula, depois o cravo, depois a madresilva, depois o jasmim. A rosa estava em quarto lugar. Quanto aos lyrios, olhava para elles, mas não os cheirava.

Á vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento. Cada cheiro significava para elle uma perfeição.

Só a idéa de fallar a Deruchette fazia-lhe arripiar os cabellos.

Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes á rua que costeava o muro do jardim de Deruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquelle muro e a sua devoção por aquelle lugar deserto. Ligaria ella a presença daquelle homem á possibilidade de uma mulher que estivesse atraz do muro? Descobriria esse vago fio invisivel? Restava-lhe acaso na sua decrepitude mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma cousa dos bellos tempos, e saberia ella já no inverno e na noite, que cousa é o alvor da madrugada? Ignoramol-o, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinella, dirigio para o lado delle toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz, e murmurou entre as gengivas: aquece, aquece!

Gilliatt ouvio a palavra que lhe fez impressão, e murmurou com um ponto de interrogação interior; Aquece? Que quer dizer a velha?

Repetio machinalmente a palavra durante todo o dia, mas não chegou a comprehendel-a.

Estando um dia á janella da casa mal assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se, por pagode na angra de Houmet Paradis. Brincavam ingenuamente na agua, a cem passos delle. Gilliatt fechou violentamente a janella. Reparou então que uma mulher núa causava-lhe horror.


[III]

A CANÇÃO BONNY DUNDEE ACHA UM ECHO NA COLLINA

Atraz do muro do jardim, em um angulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de ortigas, com um pé de malva sylvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quasi todo o verão. Ficava alli inexprimivelmente pensativo. As lagartixas que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O verão foi luminoso e suave. Gilliatt tinha sobre a cabeça as nuvens que perpassavam no céo. Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumurejar de passaros. Punha a cabeça nas mãos e perguntava a si próprio: «Mas porque escreveu ella o meu nome na neve?

O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longinquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das arvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo; «É isso. Comprehendo. Deruchette ama-me.» Sentia-se profundamente triste. Dizia elle: «Mas tambem ella pensa em mim; faz bem.» Pensava em que Deruchette era rica, e elle pobre. Pensava que o vapor era uma invenção execravel. Não podia lembrar nunca em que dia do mez estava. Contemplava vagamente os grandes zangãos negros, de lombo amarello e azas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.

Deruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Approximou-se da janella para fechal-a. A noite estava escura. De repente, Deruchette applicou o ouvido. Havia uma musica no meio daquella noite profundo. Alguem que provavelmente estava na vertente da collina, ou ao pé das torres do castello do Valle, ou talvez mais longe, executava uma canção n'um instrumento. Deruchette raconheceu a sua melodia favorita Bonny Dundee tocada em bug-pipe. Não comprehendeu nada.

Desde então, ouvio ella muitas vezes a mesma cousa, á mesma hora, especialmente nas noites escuras.

Deruchette não gostava muito daquillo.


[IV]

Pour l'oncle et le tuteur, bons hommes taciturnes,
Les sérénades sont des tapages nocturnes.
(Verso de uma comedia inedita.)

Passaram quatro annos.

Deruchette approximava-se dos vinte e um annos e conservava-se solteira.

Já alguem escreveu algures:—Uma idéa fixa é uma veruma. Vai-se enterrando de anno para anno. Para extirpal-a no primeiro anno é preciso arrancar os cabellos; no segundo rasga-se a pelle; no terceiro anno quebra o osso; no quarto sahem os miolos.

Gilliatt estava no quatro anno.

Não tinha trocado uma só palavra com Deruchette. Pensava nella; era tudo.

Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Deruchette conversando com mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a approximar-se della. Cuidava estar certo de que sorrira quando elle passou. Não era cousa impossivel.

Deruchette continuava a ouvir de tempos em tempos o bug-pipe.

Tambem mess Lethierry ouvia o bug-pipe, e notou a persistencia desta musica perto da janella de Deruchette. Musica terna, circumstancia aggravante. Não lhe agradavam namorados nocturnos. Queria casar Deruchette com dia claro, quando ella e elle quizessem, e simplesmente, sem romance e sem musica. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Metteu as unhas na barba em signal de colera, e disse: por que motivo vem aquelle animal samphonear-me á porta? Ama Deruchette, é claro. Perdes o tempo. Quem quizer Deruchette deve vir fallar-me, e sem musica.

Previsto desde muito, veio a realisar-se um acontecimento importante. Annunciou-se que o reverendo Jacquemin Herodes fôra nomeado delegado do bispo de Winchester, décano da ilha e cura de Saint-Pierre Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de installar o seu successor.

Estava a chegar o novo cura. Era elle gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.

A respeito delle havia circumstancias que a benevolencia e a malevolencia commentavam em sentido inverso. Diziam qua era moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperança. Na lingua especial creada para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer de Caudray era bem aparentado; tinha quasi direito á qualidade de honorable. Quanto á sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a expressão do bispo Tilleston, era muito libertino, isto é, muito severo. Repudiava o pharisaismo; ligava-se antes ao presbyterio que ao episcopado. Sonhava com a igreja primitiva, onde Adão tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hieropolis, raptava uma moça para ser mulher delle, dizendo aos paes: Ella quer e eu quero, já não sois nem pae nem mãe, eu sou o anjo de Hieropolis, e esta é minha esposa. O pae é Deos. A dar credito aos boatos, o Sr. Ebenezer Caudray subordinava o texto: Honrai pae e mãe, ao texto, segundo elle superior: A mulher é a carne do homem. A mulher deixará pae e mãe para acompanhar o marido. Mas a final de contas, esta tendencia para circumscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o vinculo conjugal, é propria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra, e singularmente na America.


[V]

JUSTA VICTORIA É SEMPRE MALQUISTA

Eis o balanço de mess Lethierry no tempo em que occorria isto. Durande comprio o que promettera. Mess Lethierry pagou as dividas, reparou os prejuizos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que morava das hypothecas, comprou todas as rendas locaes inscriptas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital productivo, a Durande. O rendimento liquido do navio era então de mil libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna delle. Era tambem a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumação a bordo, e facilitar a entrada e sahida do gado, supprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprudencia. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade que a chalupa era excellente.

—Já havia dez annos que Rantaine tinha roubado mess Lethierry.

A prosperidade da Durande tinha um lado fraco, é que não inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A situação de mess Lethierry era aceita como excepção. Dizia-se que elle fizera uma loucura feliz. Quiz alguem fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve máo exito na tentativa. A tentativa arruinou os accionistas. Dizia Lethierry: É que a machina foi mal construida. Mas os outros abanavam a testa. As novidades tem contra si o odio de todos; o menor erro compromette-as.

Consultado ácerca de um negocio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos oraculos commerciaes do archipelago normando: É uma conversão o que me propondes. Conversão de dinheiro em fumo. Entretanto os navios de vela achavam sempre quantas commanditas fossem precisas. Os capitães teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira. Em Guernesey a Durande era um facto, mas o vapor não era um principio. Tal era a pertinacia da negação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: Fez cousa boa, mas não ha de metter-se em outra. Longe de animar, o exemplo delle causava medo. Ninguem ousaria arriscar segunda Durande.


[VI]

FORTUNA DOS NAUFRAGOS ENCONTRANDO A CHALUPA

Cedo annuncia-se o equinoxio na Mancha. É um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde Fevereiro começam ali os ventos do Oeste saccudindo as aguas em todos os sentidos. A navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de signal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar apparece como uma emboscada; invisivel clarim trôa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; é terrivel o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade entumece as bochechas.

O vento é um perigo; o nevoeiro outro.

Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Ha nevoeiros que trazem suspensos prismas microscopicos de gelo, aos quaes Mariotti attribue as auréolas, os parhelios e os paraselenes. Os nevoeiros tempestuosos são compositos; vapores diversos de peso especifico desigual combinam-se com o vapor da agua e superpõem-se em uma ordem que devide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira formação.

Em baixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o phosphoro.

Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão electrica e magnetica, explica muitos phenomenos, o santelmo de Colombo e de Magalhães, as estrellas volantes de que falla Seneca, as duas chammas, Castor e Pollux, de que falla Plutarcho, a legião romana que a Cesar pareceu ver arderem os dardos, a lança do castello do Duino no Frioul, que a sentinella acendia tocando com o ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os antigos chamavam relampagos terrestres de Saturno.

No equador, immensa bruma permanente parece cingir o globo, é o Cloud-ring, annel de nuvens.

O Cloud-ring resfria o tropico, do mesmo modo que o Gulf-Stream aquece o polo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é fatal. São essas as latitudes dos cavallos, Horse latitude; os navegadores dos ultimos seculos quando passavam ali atiravam os cavallos ao mar, em occasião de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economisar a agua.

Dizia Colombo: Nube abaxo es muerte. «Nuvem baixa, morte certa.» Os Etruscos, que são para a metereologia o que os Chaldeos são para a astronomia, tinham dous pontificados—o pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam o relampago, outros o nevoeiro. O collegio dos augures de Tarquinas era consultado pelos Tyrios, Phenicios e Pelasgios, e de todos os navegadores primitivos da antiga Marinterne. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e a bem dizer, é o mesmo phenomeno. Existem no mesmo oceano tres regiões de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome—le pot au noir.

Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinoxio são mui perigosos. Fazem anoitecer de subito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da côr da agua resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parceis. O navegador approxima-se de um escolho sem ser advertido.

Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja pôr-se á capa ou ancorar. Ha tantos naufragios causados pelo nevoeiro como pelo vento.

Entretanto após uma violentissima borrasca que succedeu a um dia de nevoeiro, a chalupa Cashmere chegou perfeitamente da Inglaterra. Entrou em Saint-Pierre Port aos primeiros raios dos dia no momento em que o castello Cornet salvava o sol com um tiro. Illuminava-se o horisonte. A chalupa Cashmere era esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa espalhou-se o boato de que encontrara á noite no mar outra chalupa com uma equipagem naufragada.


[VII]

BOA FORTUNA DE APPARECER A TEMPO

Naquella noite Gilliatt, quando o vento amainou, sahio a pescar, sem affastar-se muito da costa.

Na volta, estando a maré a encher, pelas duas horas da tarde, e fazendo um sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de la Bette para entrar na angra, em que ficava a pança, pareceu-lhe ver na projecção da cadeira Gild-Holm'Ur uma sombra que não era a do rochedo. Deixou a pança chegar até alli, e reconheceu que um homem estava assentado na cadeira Gild-Holm'Ur. O mar já estava alto, a rocha estava cercada pela agua, não era possivel ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou immovel. Gilliatt approximou-se. O homem estava adormecido.

Tinha elle vestuario preto. Parece padre, pensou Gilliatt. Approximou-se ainda mais e vio um rosto de adolescente.

Não conheceu quem era.

A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava para que Gilliatt pondo-se de pé, sobre a pança, pudesse tocar os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se cahisse naquelle momento, é duvidoso que tornasse a apparecer. A vaga batia entre a pança e o rochedo era inevitavel ser esmagado.

Gilliatt puchou o pé do homem adormecido.

—Olá! que faz ahi?

O homem acordou.

—Estou olhando, disse elle.

Depois acordando de todo, continuou:

—Cheguei ha pouco á terra, vim passeiar aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cançado, adormeci.

—Dez minutos mais, afogar-se-hia, disse Gilliatt.

—Ah!

—Salte para a barca.

Gilliatt susteve a barca com o pé, pôz uma das mãos no rochedo, e estendeu a outra ao homem que pulou lestamente na barca. Era um bonito rapaz.

Gilliatt tomou o leme; em dous minutos, a pança chegou á angra da casa mal assombrada.

O moço tinha chapéo redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabellos louros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.

Entretanto a pança tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e vio a mão do moço que lhe apresentou um soberano de ouro.

Gilliatt repellio docemente a mão.

Houve um silencio. O moço fallou:

—Salvou-me a vida, disse elle.

—Talvez, respondeu Gilliatt.

A pança estava amarrada. Sahiram da barca.

O moço continuou:

Devo-lhe a vida, senhor.

—Que importa isso?

Esta resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silencio.

—É desta parochia o senhor? perguntou o mancebo.

—Não, respondeu Gilliatt.

—De que parochia é então?

Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céo e disse:

—Daquella.

O moço comprimentou e foi caminho.

Depois de alguns passos voltou, metteu a mão no bolso, tirou um livro, e voltou-se para Gilliatt.

—Consinta que lhe offereça isto.

Gilliatt tomou o livro

Era uma Biblia.

Instantes depois, Gilliatt encostado ao parapeito, olhava para o moço que voltava o angulo do caminho que ia ter a Saint-Sampson.

A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se existia a cadeira Gild-Holm'Ur, e tudo desappareceu na immersão sem fundo o scismar. Gilliatt tinha um abysmo, Deruchette. Tirou-o daquelle abysmo uma voz que lhe gritou:

—Olá, Gilliatt!

Reconheceu a voz e ergueu os olhos.

—Que ha, Sr. Landoys?

Era com effeito o Sr. Landoys que passava na estrada a cem passos da casa, no seu phaeton, com um pequeno cavallo. Parou afim de chamar Gilliatt á falla, mas parecia atarefado e apressado:

—Ha novidade, Gilliatt.

—Onde?

—Na casa de mess Lethierry.

—O que ha?

—Estou longe para lhe contar o caso.

Gilliatt estremeceu.

—Casa-se miss Deruchette?

—Não. Mas ...

—Que quer dizer?

—Vá lá a casa delle, que ha de saber.

E o Sr. Landoys chicoteou o cavallo.


[LIVRO QUINTO]

O revolver.


[I]

A PALESTRA NA POUSADA JOÃO

O Sr. Clubin era o homem que espera a occasião.

Era baixo e amarello, com a força de um touro. O mar não podia com elle. Tinha uma carne que parecia cera. Era da côr de uma tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua memoria tinha um quê de imperturbavel e especial. Vêr um homem uma vez era conserval-o como se fosse uma nota em um registro. O olhar laconico apunhalava. A palpebra tirava a prova de um rosto, e conservava-o; não importava que o rosto envelhecesse depois, o Sr. Clubin não deixava de reconhecel-o. Era impossivel fugir áquella memoria tenaz. O Sr. Clubin era breve, sóbrio, e frio; não fazia gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas acreditavam-n'o simplorio; trazia no rosto uma certa, ruga que indicava uma espantosa estupidez. Não havia melhor marinheiro do que elle. Não havia reputação de religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade com o Sr. Rebuchet, cambista em S. Malo, rua de S. Vicente, ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a sua fabrica a Clubin. O Sr. Clubin era viuvo. A mulher foi tão honesta como elle. Morreu com a fama de uma virtude invencivel. Se o bailio lhe fizesse uma declaração ella iria conta-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ella iria contal-o ao padre vigario. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do epitheto inglez respectable. A Sra. Clubin era o cysne; o Sr. Clubin era o arminho. Morreria se lhe puzessem uma nodoa. Nunca achou um alfinete que não fosse logo á cata do proprietario. Era capaz de pôr em almoeda uma caixa de phosphoros se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: almocei aqui ha tres annos e você enganou-se na conta; e dizendo isto restituio ao taberneiro 75 centimos. Era uma grande probidade, mordendo attentamente os beiços.

Parecia estar sempre á espera. De quem? Provavelmente dos velhacos.

Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a S. Malo. Chegava a S. Malo na terça-feira á noite, demorava-se dous dias para fazer o carregamento, e voltava a Guernesey na sexta-feira de manhã. Havia então em S. Malo uma pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a pousada João.

A construcção dos cáes actuaes fez demolir a pousada. Naquella época vinha o mar até a porta S. Vicente e a porta de Dinan; S. Malo e S. Servan communicavam-se nas marés baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em secco, evitando as boias, as ancoras e os maçames, e arriscando-se às vezes a rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa. No intervallo de duas marés, os cocheiros fustigavam os cavallos, naquella mesma arêa, onde, seis horas depois, vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outr'ora os vinte e quatro cães, porteiros de S. Malo, que devoraram um official de marinha em 1770. Tamanho zelo fez suprimir os cães. Já não se ouve agora latidos nocturnos entre o pequeno e o grande Tallard.

O Sr. Clubin ia á pousada João. Era alli o escriptorio francez da Durande. Os guardas da alfandega e os guardas da costa ião comer e beber na pousada João. Faziam rancho á parte. Os guardas da alfandega de Binic encontravam-se, vantajosamente para o serviço, com os guardas da alfandega de S. Malo.

Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.

O Sr. Clubin assentava-se ora n'uma, ora n'outra, mas preferia a dos guardas á dos mestres. Era bem recebido em ambas.

As mesas eram bem servidas. Haviam as mais apuradas bebidas estrangeiras para os maritimos expatriados. Um marinheiro gamenho de Bilbáo acharia alli um copo de helada. Bebia-se stuol como em Greenwich, e gueuse, como em Anvers.

Capitães de longo curso e armadores tomavam ás vezes lugar na mesa dos mestres de navio. Trocavam-se ahi noticias:

—Como vai o assucar?

—Pequenos lotes. Vende-se bem o assucar bruto; tres mil saccas de Bombay e quinhentas barricas de Sagua.

—Ha de ver que o partido da direita ainda derruba o ministerio Villele.

—E o anil?

—Venderam-se apenas uns sete surrões de Guatemala.

—A Nanine Julie ancorou. Lindo navio de Bretanha.

—As duas cidades do Rio da Prata estão outra vez desavindas.

—Quando Montevidéo engorda, Buenos-Ayres emmagrece.

—Foi preciso deitar ao mar a carga do Regina Coeli condemnado em Calháo.

—O cacáo vai andando; os saccos Caracas são cotados a 234, e os saccos Trindade a 73.

—Parece que na revista do Campo de Marte ouvio-se gritar: abaixo os ministros.

—Os couros salgados saladeros vendem-se, os dos bois a 60 frs. e o das vaccas a 48.

—Já passaram o Balkan? O que faz Diebitsch?

—Em S. Francisco ha falta de anisette. O azeite Plagniol está calmo. O queijo de Gruyére está a 32 frs. o quintal.

—Com que então Leão XII morreu?

—Etc., etc., etc.

Todas estas cousas eram ditas e commentadas no meio de grande barulho. Á mesa dos guardas da alfandega e dos guardas da costa fallava-se menos.

A policia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza no dialogo.

A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era um homem, era um barometro. Os habitos do mar deram-lhe uma espantosa infallibilidade de prognostico. Elle decretava o tempo que devia haver no dia seguinte; ascultava o vento; tomava o pulso á maré. Dizia á nuvem; mostra-me a tua lingua. A lingua era o relampago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada. O oceano era o seu doente; fez uma viagem á roda do mundo como quem faz uma clinica, examinando todos os climas na sua boa e má saude; sabia a fundo a pathologia das estações. Enunciava factos como este:—o barometro desceu uma vez em 1796 a tres linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente a marinha ingleza para conhecer os seus lados fracos. Explicava em que ponto o Sovereign de 1637 differia do Royal William de 1670 e de Victory de 1755. Comparava os castellos de pôpa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de gavea afunilados do Great Harry de 1514, provavelmente no ponto de vista da bala franceza que se aninhava perfeitamente naquellas superficies. Para elle as nações só existião por suas instituições maritimas; fazia synonymias extravagantes. Chamava a Inglaterra Trinity House, a Escossia Northern Commissioners, e a Irlanda Ballast Board. Abundava de informações; era alphabeto e almanack. Sabia de cór a portagem dos pharoes, principalmente inglezes; um penny por tonelada ao passar diante deste, um farthing ao passar diante daquelle. Dizia: o pharol de Smalt Rock, que consumia apenas duzentos galões de azeite, consome agora quinhentos. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a tripulação que já o tinha por defunto, estava á roda de sua maca, quando elle interrompeu os soluços da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem relativa a um concerto do navio.

Era raro que o assumpto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos capitães e na mesa dos guardas. Apresentou-se, porém, o seguinte caso nos primeiros dias do mez de Fevereiro, em que se passam os factos que estamos contando. A gallera Tamaulipas, capitão Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a attenção das duas mesas. Na mesa dos mestres fallou-se do carregamento, e na mesa dos guardas fallou-se dos ares suspeitos do navio.

O capitão Zuela, de Copiapó, era chileno, um pouco columbiano; tinha feito com independencia as guerras da independencia, acompanhando, ora Bulivar, ora Morillo, conforme os lucros a haver. Tinha-se enriquecido obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais bourbonico, mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais atheu e mais catholico. Elle pertencia a este grande partido que se póde chamar o partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia apparições commerciaes em França; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou proscriptos politicos, fossem quem fossem, com tanto que pagassem. O meio de embarcal-os era simples. O fugitivo esperava n'um ponto deserto da costa, e no momento de apparelhar, Zuela destacava um escaler que ia buscal-o. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar pessoas compromettidas na questão da Bidassoa. A policia, já avisada, estava com o olho n'elle.

Era um tempo de fugas aquelle. A restauração era uma reacção; ora as revoluções trazem emigrações, e as restaurações arrastam proscripções. Durante os sete ou oito primeiros annos, depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finanças, na industria, no commercio, que sentiam tremer a terra e viam multiplicar-se as falencias. Havia um salve-se quem puder na politica. Lavalette fugira; Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira. Os tribunaes de excepção trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se á ponte de Saumur, á explanada de Reole, ao muro do observatorio de Paris, á torre de Taurias d'Avignon, tudo isso que se conserva de pé na historia, vestigios da reacção, aonde se distingue ainda a sua mão sanguinolenta.

Em Londres, o processo Thisthewood, ramificado em França, em Paris o processo Trogoff, ramificado na Belgica, na Suissa e na Italia, multiplicaram os motivos da inquietação e desapparecimento, e augmentaram essa profunda derrota subterranea, que deixava vasios os mais altos lugares da ordem social de então. Pôr-se em segurança, era a preoccupação universal. O espirito dos tribunaes prebostaes sobrevivera á instituição. As condemnações eram feitas por complacencia. Fugiam para o Texas, para o Perú, para o Mexico. Os homens da Loire, salteadores então, paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asylo. Dizia uma canção de Beranger:

Sauvages, nous sommes français;
Prenez pitié de notre gloire.

Expatriar-se era o recurso; porém, nada menos simples que fugir; este monosyllabo encerra abysmos. Tudo é obstaculo para quem se esquiva. Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e até illustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim sahiam-se mal. Eram inverosimeis. Os seus habitos de franqueza tornava-lhes difficil resvalar pelas malhas da evasão. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais correcto aos olhos da policia do que um general. Imaginem a innocencia constrangida a disfarçar-se, a virtude contrafazendo a voz, a gloria mascarando o rosto. Algum individuo que passasse com ar suspeito, era uma reputação á cata de um passaporte falso. O ar embaraçado de um fugitivo, não provava que elle deixasse de ser um heróe. Traços fugazes e caracteristicos dos tempos, que a historia regular esquece, mas que o verdadeiro pintor de um seculo deve rememorar. Atraz dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos. Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confusão, fazia parte dos proscriptos, e muitas vezes, graças a uma arte apurada, parecia naquelle crepusculo mais honesto que o honesto. Que ha ahi mais acanhado que a probidade diante da justiça? Nada entende, nada finge. Um falsario escapa-se mais facilmente que um convencional.

Cousa estranha! especialmente em relação aos tratantes, quasi se póde dizer, que a evasão fazia subir o individuo. A quantidade de civilisação que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe por dote nos paizes primitivos ou barbaros, recommendava-o e fazia delle um iniciador. Era facil que um aventureiro, escapando ao codigo, chegasse depois ao sacerdocio. Havia phantasmagoria na desapparição, e mais de uma evasão tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste genero levava ao desconhecido e ao chimerico. Tal bancarroteiro sahia de Europa e apparecia mais tarde grão-visir em Mogol ou rei na Tasmania.

Ajudar as evasões era uma industria, e, visto a frequencia do facto, uma industria lucrativa. Esta especulação completava certos generos de commercio. Quem queria fugir para Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas quem queria fugir para a America dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, taes como Zuela.


[II]

CLUBIN DESCOBRE ALGUEM

Zuela ia comer algumas vezes á pousada João. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.

E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava conhecer de vista um tratante. Ás vezes chegava mesmo a conhecel-os de facto, dando-lhes a mão em plena rua. Fallava inglez com o smogler e engrolava hespanhol com o contrabandista.

A este respeito tinha elle as seguintes maximas:

—Póde-se adquirir o bem, pelo conhecimento do mal.—O monteiro conversa proveitosamente com o ladrão de caça.—O piloto deve sondar o pirata; o pirata é um escolho.—Trato de provar um velhaco como o medico prova o veneno.

Não tinha replica. Todos davam razão ao capitão Clubin. Era approvado por não ter escrupulos tolos. Quem ousaria dizer mal delle? Tudo quanto fazia era para bem do serviço. Nelle tudo era simples. Nada podia compromettel-o. O crystal querendo manchar-se não pode. Esta confiança era a justa recompensa de uma longa honestidade e é essa a excellencia das reputações firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe viam malicia no sentido da virtude; tinha adquirido a impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou daquelle encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade sahia sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradicção alguma. Ingenuo habil é cousa que existe. É uma das variedades do homem honesto e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados em conversa intima com um larapio, ou um bandido, são recebidos, comprehendidos, e mais respeitados, e têm ainda por si o piscar de olhos satisfeito da estima publica.

O Tamaulipas tinha completado o carregamento. Estava proximo a partir e ia aparelhar.

Em uma terça-feira á tarde, ainda com sol, chegou a Durande a Saint-Malo. O Sr. Clubin de pé no passadiço e dirigindo a manobra da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dous rochedos, em um lugar muito solitario, dous homens conversando. Deitou-lhes o oculo e reconheceu um dos homens. Era o capitão Zuela. Parece que reconheceu tambem o outro.

O outro era alto, um pouco grizalho. Trazia o chapéo largo e o vestuario grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava os olhos com modestia.

Chegando á pousada João, o Sr. Clubin soube que o Tamaulipas ia aparelhar dentro de 10 dias.

Soube-se depois que elle tomara outras informações.

Á noite, entrou em casa do armeiro da rua de S. Vicente, e disse-lhe:

—Sabe o que é um revolver?

—Sei, respondeu elle, é americano.

—É uma pistolla que renova sempre a conversação.

—Na verdade, ella tem pergunta e resposta.

—E replica.

—É justo, Sr. Clubin. O cano é gyrante.

—E cinco ou seis balas.

O armeiro levantou o cantinho do beiço e fez ouvir aquelle estalo de lingua, que, acompanhado de um movimento de cabeça, exprime a admiração.

—A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que ha de vir a ser universal.

—Eu queria um revolver de seis tiros.

—Não tenho desses.

—Pois que, o Sr. não é armeiro?

—Mas ainda não tenho disso. Bem vê que é cousa nova. Em França só se fazem pistolas.

—Diabo!

—É cousa que ainda não está no commercio.

—Diabo!

—Tenho pistolas excellentes.

—Quero um revolver.

—Convenho que é melhor. Mas, espere Sr. Clubin.

—O que é?

—Creio que ha um em Saint-Malo.

—Revolver?

—Sim.

—Para vender?

—Sim.

—Onde?

—Creio que sei. Hei de informar-me.

—Quando me dá a resposta?

—O revolver é bom.

—Quando devo voltar?

—Se eu lhe arranjo um revolver, é porque é bom.

—Quando me dá a resposta?

—Na sua primeira viagem.

—Não diga que é para mim.


[III]

CLUBIN LEVA UNS OBJECTOS E NÃO OS TRAZ

O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o gado e alguns passageiros, e, como de costume, sahio de Saint Malo para Guernesey na sexta-feira de manhã.

Nesse mesmo dia quando o navio já estava ao largo o que permitte ao capitão ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou em um saco de viagem que tinha, metteu alguma roupa no compartimento elastico, biscoutos, latas de conserva, algumas libras de cacáo, um chronometro e um oculo no compartimento solido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para içal-o se fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no deposito dos cabos e viram-n'o subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no mar e aos ladrões em terra. Essas cordas facilitam a escalada.

Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou ahi trinta e seis horas. Levou o saco e a corda, mas não voltou com elles.

Diga-mol-o uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o antigo Guernesey que já não existe e seria impossivel achal-o hoje, a não ser no campo. É ahi que elle existe vivo, mas nas cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. St. Helier vale Dieppe; St. Pierre Port vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admiravel espirito de iniciativa daquelle valente povo insular, tranformou-se tudo em quarenta annos no archipelago da Mancha. Onde havia sombra ha luz. Dito isto, continuemos. Naquelles tempos que, pelo affastado, já são historicos, o contrabando activava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa de oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as minucias o que se passava ha quasi meio seculo, chegam a citar os nomes de muitos desses navios quasi todos asturianos. O que é fora de duvida é que não se passava semana, sem que apparecesse um ou dous, ora na bahia dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque era nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse commercio fallava-se na Mancha uma especie de lingua contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o hespanhol como o levantino para o italiano.

Em muitos pontos do littoral inglez e francez o contrabando estava em boa harmonia com o negocio licito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, ás escondidas, é verdade; e dilatava-se subterraneamente na circulação commercial e por todas vias de industria. Negociante em publico, contrabandista ás escondidas, eis a historia de muitas fortunas. Seguin dizia isto de Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez se calumniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei estava sem contestação muito aparentado no commercio. Carteava-se com a gema da sociedade. A caverna onde Maudrin acotovelava outr'ora o conde de Charolais, era honesta exteriormente e tinha uma fachada irreprehensivel para o lado da sociedade.

Daqui resultaram muitas connivencias necessariamente mascaradas. Taes mysterios exigiam sombra impenetravel. Um contrabandista sabia de muitas cousas e devia guardar segredo; a sua lei era uma fé inviolavel e rigida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não ha contrabando. Havia o segredo da fraude como ha o Segredo da confissão.

Esse segredo era imperturbavelmente guardado. O contrabandista jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguem inspirava mais confiança do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e poz-lhe a questão para obrigal-o a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista não confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dous cumplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia para cumprir a lei aos olhos de todos ordenar a tortura, á qual o segundo resistia para cumprir o juramento.

Os dous mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquella época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocayos. Parentesco hespanhol e catholico que consiste em ter o mesmo patrão no paraiso, cousa não menos digna de consideração que ter o mesmo pae na terra.

Quem estava pouco mais ou menos ao facto do furtivo itinerario do contrabando e queria fallar a esses homens, era isso a cousa mais facil e mais difficil. Bastava não ter preconceitos nocturnos, ir a Plainmont, e affrontar o mysterioso ponto de interrogação que alli se levanta.


[IV]

PLAINMONT

Plainmont, perto de Torteval, é um dos tres angulos de Guernesey. Ha, na extremidade do cabo, uma corôa de relva que domina o mar.

O cume é deserto.

Tanto mais deserto quanto ha alli uma casa.

Aquella casa augmenta o horror da solidão.

Dizem que é mal assombrada.

Assombrada ou não, o aspecto é medonho.

É feita de granito, tem um só andar, e está no meio da relva. Não tem aspecto de ruina. É perfeitamente habitavel. As paredes são grossas e o tecto solido. Não falta uma só pedra ás paredes, nem uma só telha ao telhado. Tem uma chaminé de tijolo. A casa está de costas para o mar. A fachada do lado do mar é apenas uma parede. Examinando bem essa parede vê-se uma janella murada. Ha tres trapeiras, uma a leste, duas a oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma só porta e janellas. A porta é murada e as duas janellas de baixo tambem. No primeiro andar, e é isso que espanta logo ao principio, ha duas janellas abertas; mas as janellas tapadas são menos assustadoras que as janellas abertas. Por estarem abertas, apparecem negras em pleno dia. Não tem vidros nem caixilhos. Abrem para as trevas do interior. Dissera-se umas orbitas vasias de olhos arrancados. Nada ha naquella casa. Vê-se pelas janellas abertas o descalabro de dentro. Nem retabulos, nem entalhos de madeira, pedra núa. Parece um sepulchro com janellas para deixar que os espectros olhem para fóra. As chuvas alluem os alicerces do lado do mar. Algumas ortigas agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No horisonte, nenhuma habitação humana. Aquella casa é uma cousa vasia e silenciosa. Mas quem pára e põe o ouvido á parede ouve confusamente um bater de azas assustadas. Por cima da porta tapada, na pedra que faz a architrava, estão gravadas estas letras; ELM—PBILG, e esta data 1780.

De noite o luar lugubre penetra na casa.

Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnifica, e por consequencia, sinistra. A belleza do lugar torna-se um enigma. Por que motivo aquella casa não é habitada por nenhuma familia humana? O lugar é bonito, a casa é boa. Donde procede esse abandono? Ás perguntas da razão ajuntam-se as perguntas da superstição. O campo é cultivavel, por que motivo está inculto? Não ha dono. A porta murada. Que tem pois este lugar? porque foge o homem? que se faz aqui? Se não ha nada, porque é que não ha ninguem? Quando todos dormem ha alguem acordado? A lufada tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animaes escondidos, os entes ignorados, apparecem ao pensamento e misturam-se aquella casa. A que passageiros serve ella de hospedaria? a gente imagina trevas de graniso e de chuva mettendo-se pela janella dentro. Ha na parte interior uns vagos signaes de chuva que gotejou: Os quartos fechados e abertos são visitados pelo furacão.

Commetter-se-hia algum crime alli? Parece que aquella casa, á noite, entregue ás trevas, deve chamar por soccorro. Será muda? Sahem vozes de dentro? Que faz ella na solidão? O mysterio das horas negras existe alli facilmente. A casa assusta ao meio dia: que será ella á meia noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se,—porque a superstição tem a sua logica e o possivel a sua inclinação,—o que será aquella casa entre o crepusculo da noite e o crepusculo da manhã. A immensa dispersão da vida extra-humana tem acaso naquelle cume deserto um vinculo em que ella pára, e que a obriga a fazer-se visivel e a descer? O esparso vai redomoinhar alli? o impalpavel vai alli condensar-se? Enigmas. Sahe daquellas pedras o horror sagrado. A treva que está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o desconhecido. Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra, calam-se os passaros, o cabreiro que está atraz do rochedo vai-se com as suas cabras, as fendas das pedras darão passagem aos reptis mais animados, as estrellas começarão a olhar, soprará o vento, far-se-ha plena escuridão, as duas janellas estarão alli escancaradas. Abrem-se para o sonho; e é por apparições, larvas, phantasmas mal distinctos, sombras cobrindo luzes, mystenosos tumultos de almas e espectros, que a crença popular, estupida e profunda, traduz as sombrias intimidades daquella casa com a noite.

A casa é mal assombrada, esta palavra explica tudo.

Os espiritos credulos dão a sua explicação; mas os espiritos positivos dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem elles. É um antigo posto de observação, do tempo das guerras da revolução e do imperio, e dos contrabandos. Foi construida para isso. Acabada a guerra, foi abandonado o posto. Não se demolio a casa por que pode tornar-se util. Taparam-se as portas e as janellas do rez do chão contra os stercorarios humanos, e para que ninguem podesse entrar; taparam-se as janellas do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento de oeste. Eis tudo.

Os ignorantes e os credulos insistem. Em primeiro lugar a casa não foi construida no tempo das guerras da revolução. Traz a data de 1780, anterior á revolução. Depois, não foi construida para ser posto; tem as letras ELM-PBILG que são o duplo monogramma de duas familias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi construida para algum joven casal. Portanto foi habitada. Porque não o é agora? Se se tapou a porta e as janellas para que ninguem entrasse, porque motivo deixaram-se abertas duas janellas? Deviam tapar tudo ou nada. Porque não ha vidros nem caixilhos, nem postigos? Porque fecha-las de um lado, sem fecha-las de outro? A chuva não entra pelo sul, mas entra pelo norte.

Os credulos não têm razão, e certo; mas os positivos também não a tem. O problema persiste.

O que é certo é que a casa, dizem ter sido mais util que nociva aos contrabandistas.

Quando o medo cresce os factos perdem a verdadeira proporção. Não ha duvida que muitos phenomenos nocturnos, entre aquelles de que a pouco e pouco se compoz o assombramento da casa, poderia explicar-se por presenças fugitivas e obscuras, curtas estações de homens logo embarcados, já pelas precauções, já pela ousadia de certos commerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.

Naquella época já remota, muitas audacias eram possiveis. A policia, sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é hoje.

Ajunte-se a isto que se a casa era commoda aos contrabandistas, as suas entrevistas alli deviam ser francas, exactamente porque a casa era mal vista. O ser mal vista impedia que fosse denunciada. Ninguem pede á policia soccorro contra os espectros. Os supersticiosos persignam-se, mas não fazem processos. Vêem ou acreditam vêr, fogem e calam. Existe uma convivencia tacita involuntaria, mas real, entre os que fazem medo e os que tem medo. Os assustados sentem que fizeram mal em se assustarem, imaginam ter sorprehendido um segredo, receiam aggravar a posição mysteriosa para elles, e enfadar as apparições. Isto fal-os discretos. E ainda fóra deste calculo, o instincto dos credulos é o silencio; o medo é mudo; os atterrorisados fallam pouco; parece que o horror diz: silencio!

Devem recordar-se que isto remonta á época em que os camponezes guernesianos acreditavam que o mysterio do presepio era repetido todos os annos pelos bois e pelos asnos; época em que ninguem, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria com receio de encontrar os animaes ajoelhados.

Se se deve acreditar nas legendas locaes e narrativas dos camponezes a superstição chegou a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem vestigios, ratos sem pés, morcegos sem azas, arcabouços de animaes mortos, sapos esmagados entre as paginas de uma Biblia, febras de tremoços amarellos, estranhos ex-voto pendurados por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma cousa, e por meio desses presente contavam obter perdão e conjurar o máo humor das stryges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em congressos de feitiçaria, e alguns desses credulos altamente collocados. Cesar consultava Sagana, e Napoleão mademoiselle Lenormand. Ha consciencias tão inquietas que chegam a procurar indulgencias de diabo. Faça-o Deos, mas não o desfaça Satanaz, era uma das orações de Carlos V.

Ha espiritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o mal pode ter razão contra elles. Ser irreprehensivel para com o demonio é uma das suas preoccupações. Dahi vem as praticas religiosas voltadas para a immensa malicia obscura. É uma carolice como qual quer outra. Os crimes contra o demonio existe ein certas imaginações doentias; violar a lei do inimigo é uma cousa que faz soffrer os estranhos casuitas da ignorancia; ha escrupulos para com as regiões das trevas. Crer na efficacia da devoção aos mysterios do Brocken e de Armuyr, imaginar que se pecca contra o inferno recorrendo a penitencias chimericas por infracções chimericas, confessar a verdade ao espirito da mentira, fazer o mea culpa diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou existio. Os processos de magia provam-no em cada uma de suas paginas. Vai até esse ponto o sonho humano. Quando o homem começa a assustar-se não pára mais. Sonha culpas imaginarias, sonha purificações imaginarias, e faz limpar a sua consciencia com a vassoura das feiticeiras.

Fosse como fosse, se aquella casa teve aventuras, é cousa que lá ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas excepções, ninguem subio a ver o que era; a casa ficou só; ninguem gosta de arriscar-se aos encontros infernaes.

Graças ao terror que a cerca e affasta dalli todo aquelle que pudesse observar e testemunhar, facil foi em todos os tempos entrar de noite naquella casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse nas hortas visinhas. Levava-se um rancho de viveres, o que dava lugar a esperar alli com toda a segurança a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradição que ha 40 annos um fugitivo, dizem uns que da politica, outros que do commercio, lá esteve algum tempo escondido, e dalli embarcou n'um barco de pesca para Inglaterra. De Inglaterra é facil passar á America.

A mesma tradição affirma que as provisões depositadas naquelle albergue lá se conservam sem que ninguem as toque, visto como Lucifer e os contrabandistas têm interesse em que a pessoa que lá as põem, vá buscal-as.

Do lugar em que existe aquella casa, vê-se ao sudueste, a uma milha da costa, o escolho de Hanois.

É celebre aquelle escolho. Fez todas as más acções que um rochedo pode fazer. Era um dos mais temiveis assassinos do mar. Esperava perfidamente os navios á noite. Entulhou os cemiterios de Torteval e de Rocquaine.

Em 1862 pôz-se alli um pharol.

Hoje o escolho de Hanois allumia a navegação que elle proprio extraviava outr'ora; a emboscada traz agora um archote na mão. Procura-se hoje como protector e guia o rochedo do qual fugia-se outr'ora como de um malfeitor. O escolho tranquilisa aquelles vastos espaços nocturnos onde outr'ora inspirava o medo. Assemelha-se a um salteador feito soldado de policia.

Ha tres Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mauve. No pequeno Hanois é que existe hoje o Light Red.

O escolho faz parte de um grupo de picos, uns submarinhos, outros acima d'agua. Domina-os. Como se fôra uma fortaleza, tem baterias avançadas; do lado do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte dous cachopos, Hautes-Fourquies e Aiguillons, e um banco d'arêa; Heronée; ao sul tres rochedos, Cat-Rock, Percée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue Mouet, e além disso em frente de Plainmont, á flor d'agua o Tas de Pois d'Aval.

Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é cousa incommoda, mas não impossivel. O leitor lembra-se que era essa uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios tem duas estações em que pode descançar, a Roque redonda, e mais longe obliquando um pouco á esquerda, a Roque vermelha.


[V]

OS FURTA-NINHOS

Pouco mais ou menos naquelle dia de sabbado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um facto singular, pouco assoalhado em principio e que só transpirou muito depois. Como dissemos, ha muitas cousas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspira ás suas proprias testemunhas.

Na noite de sabbado ao domingo, (precisamos o dia e cremol-o exacto) tres meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam á villa. Vinham do mar. Eram o que na lingua local chamam deniquoi-oiseaux; lêa-se deniche-oiseaux (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar ha furta-ninhos em abundancia. Já fallamos delles. O leitor lembra-se que Gilliatt preoccupava-se com isto, por causa dos passaros e por causa das crianças.

Os furta-ninhos, são especies de gaiatos do occeano, pouco timidos.

A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam o zenith. Tres horas da manhã soavam no sino de Torteval que é redondo e pontudo, semelhante a um chapéo de magico.

Porque voltavam tão tarde aquelles pequenos? Nada mais simples. Tinham ido á caça dos ninhos de cotovias no Tas de Pois d'Aval. Como a estação tinha sido amena, começaram cedo os amores dos passaros. Os pequenos, espreitando os machos e as femeas á roda dos ninhos, e distrahidos pela tenacidade da empreza tinham esquecido as horas. Foram cercados pela maré. Não poderam voltar a tempo para a canoa e tiveram de esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas do Tas de Pois. Tal foi o motivo da volta nocturna. Estas voltas são esperadas sempre pela febril inquietação das mães que, uma vez tranquillas, manifestam a alegria por meio da colera, e lacrimosas dissipam o terror a cachações. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.

Só um dos meninos nada receiava; era um orphão. Era francez e ia bem contente de não ter naquelle dia nem pae nem mãe. Não tendo ninguem que se interessasse por elle, escapava á bordoada. Os outros dous eram guernezianos e da parochia de Torteval.

Escaladas as rochas, os tres furta-ninhos, chegaram á planura onde estava a casa mal assombrada.

Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianças, aquella hora e naquelle lugar.

Quizeram fugir e quizeram parar afim de contemplar a casa.

Pararam.

Contemplaram a casa.

Era negra e formidavel.

Era, naquelle deserto, um montão escuro, uma escrescencia symetrica e hedionda, uma alta massa quadrada de angulos rectilinios, uma cousa semelhante a um enorme altar de trevas.

O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi approximar-se. Nunca tinham visto aquella casa áquella hora. A curiosidade de ter medo existe. Havia entre elles um francez, donde resultou que os pequenos approximaram-se da casa.

É sabido que os francezes não acreditam em cousa alguma.

Demais, quando são muitos todos se tranquillisam; o medo dividido por tres dá animação.

E depois, eram curiosos; eram crianças, sommada a idade dos tres não dava trinta annos; era a idade de prescrutar, de escavar, esquadrinhar as cousas occultas; deve-se acaso parar no meio? Mette-se a cabeça neste buraco, porque não mette-la no outro? a caça arrasta; andar em uma descoberta é o mesmo que metter-se em um moinho. Ter olhado para o ninho dos passaros dá vontade de olhar um pouco para o ninho dos espectros. Investigar o inferno, porque não?

De caça em caça, chega-se ao demonio. Depois dos pardáes os diabretes. Ha vontade de saber o que é esse medo inspirado pelos paes. Andar na pista dos contos de carocha é o que ha mais resvaladiço. Saber tanto como as contadeiras de historias é cousa que tenta.

Todo este amalgama de idéas no estado de confusão e instincto, na cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade delles. Caminharam para a casa.

Demais, o pequeno que lhes servia de apoio nesta bravura, era digno disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crianças que já são homens, dormindo no estaleiro em cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando ás arvores e ás paredes sem escrupulos a respeito das fructas que encontrava, tendo trabalhado em concertos de navios de guerra, filho do acaso e do bamburrio, orphão alegre, nascido em França, sem se saber em que ponto, duas razões para ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito máo, muito bom, louro rastejando a ruivo, tendo já fallado aos parisienses. Agora ganhava um scheling por dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha-se em férias e ia tirar os ninhos dos passaros. Tal era o francez.

A solidão do lugar tinha um não sei quê de funebre. Sentia-se a inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquella planura silenciosa e nua escondia no precipicio a sua curva declive. Embaixo callava-se o mar. Não havia vento. As ervas não se mechiam.

Os furta-ninhos avançavam de vagar com o francez á frente, contemplando a casa.

Um delles contando depois o facto ou o pouco que lhe restava na memoria, acerescentava: a casa não dizia nada.

Approximavam-se retendo a respiração, como quem se approxima de um animal feroz.

Tinham subido o comoro que fica atraz da casa, e que vai ter a um pequeno isthmo de rochedos pouco praticavel; estavam perto da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada; não tinham ousado voltar á esquerda, o que os teria exposto a ver a outra fachada em queha apenas duas janellas, o que é terrivel. Entretanto atreveram-se, por que o aprendiz de callafate disse-lhes baixinho: viremos de bombordo; daquelle lado é que é bonito; é preciso ver ás duas janellas negras.

Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.

As duas janellas estavam illuminadas.

Os meninos fugiram.

Qando estavam longe, voltou-se o francez.

—Olhem, disse elle, já não ha luz.

Com effeito, não havia luz nas janellas. A casa desenhava-se na lividez diffusa do céo.

O medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos approximaram-se.

De repente appareceram as luzes outra vez.

Os dous rapazes de Torteval tornaram a pôr sebo ás canellas. O pequeno Satanaz francez, não avançou, mas não reccuou.

Ficou immovel, em frente da casa, olhando para ella.

Extinguio-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrivel. O reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva humida pelo orvalho. Em certo momento, o clarão desenhou na parede interior da casa grandes perfis negros que se mechiam e sombras de cabeças enormes.

Demais, a casa não tinha tecto nem tabiques, e tendo apenas as quatro paredes e o telhado, uma janella não pode ser illuminada sem que a outra o seja.

Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dous voltaram tremulos, curiosos. O aprendiz de calafate, disse-lhes baixinho:—Ha almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma dellas.—Os dous pequenos agruparam-se atraz do francez, e levantando-se sobre a ponta dos pés, por cima do hombro, abrigados por elle, fazendo delle um escudo, oppondo-o á casa, tranquillisados por tel-o entre si e a visão, olharam tambem.

A casa a seu turno parecia olhar para elles. Tinha naquella vasta obscuridade muda, duas orbitas vermelhas. Eram as janellas. A luz eclipsava-se, reapparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes costumam fazer. Estas intermittencias sinistras representavam provavelmente as alternativas do inferno. Abre-se, fecha-se. O respiradouro do sepulchro tem effeitos de lanterna surda.

De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se em uma das janellas, como se viesse de fora, depois mergulhou no interior da casa. Parece que alguem chegava.

Entrar pela janella era o habito dos visitantes.

O clarão appareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não reappareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores. Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se vê, não se ouve; quando não se vê, ouve-se.

O mar tem á noite uma taciturnidade particular. O silencio da sombra é ahi mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não ha nem vento nem marulho, naquella agitada extensão de aguas, onde de ordinario não se ouvem as aguias voar, ouvir-se-hia voar uma mosca. Aquella paz sepulchral dava um relevo lugubre aos rumores que sahiam da casa.

—Vejamos, disse o francez.

—E deu um passo para a casa.

Os outros dous tinham tal medo que decidiram-se a acompanhal-o. Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquella solidão, quando de uma mouta voou uma coruja. As corujas tem uns vôos tortos, de assustadora obliquidade. Aquella passou de travez pelos rapazes, fixando nelles os olhos claros no meio da treva.

Houve um certo estremecimento no grupo atraz do francez.

O francez clamou contra a coruja.

—Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver. E avançou.

O ranger dos seus sapatos grossos e ferrados não lhes impedia ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a accentuação calma e a continuidade de um dialogo.

Momentos depois accrescentou o francez:

—Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.

A insolencia no perigo reune os retardados e impelle-os para a frente.

Os dous rapazes de Torteval puzeram-se a caminho atraz do aprendiz de calafate.

A casa mal assombrada fazia-lhes o effeito de crescer desmesuradamente. Nesta illusão de optica do medo, havia realidade. A casa crescia realmente por que elles approximavam-se della.

Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distinctas. Os rapazes ouviam. O ouvido tem os seus augmentos. Não era murmurio, era mais que um cochichar, menos que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas palavras claramente articuladas. Essas palavras, impossiveis de comprehender, soavam estranhamente. Os rapazes paravam, ouviam e depois continuavam a andar.

—É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em almas do outro mundo, disse o aprendiz de calafate.

Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atraz da lenha; mas já estavam longe, e o amigo francez continuava a andar para a casa. Temiam ir com elle, e não ousavam deixal-o.

Acompanhavam-n'o, a passo e passo e perplexos.

O aprendiz de calafate voltou-se para elles e disse-lhes:

—Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.

A casa tornava-se cada vez mais alta.

Approximavam-se.

Approximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada. Era um clarão vago, um desses effeitos de lanterna surda, indicados ha pouco, e que abundam na illuminação das feitiçarias.

Quando se acharam ao pé da casa pararam de todo.

Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:

—Não são almas do outro mundo, são fantasmas.

—Que é aquillo que pende alli á janella? perguntou o outro.

—Parece uma corda.

—É uma serpente.

—É corda de enforcado, disse o francez com autoridade. Serve-lhes. Mas eu não creio.

E mais em tres pulos que em tres passos, o francez estava ao pé da parede da casa. Havia febre naquelle atrevimento.

Os outros, tremulos, imitaram-n'o, e foram collocar-se ao pé delle, encostando-se um á direita, outro á esquerda. Os rapazes applicaram o ouvido á parede. Continuava-se a fallar dentro de casa.

Eis o que diziam os phantasmas: [1]

—Assim pois, está entendido?

—Entendido.

—Dito?

—Dito.

—Aqui esperará nm homem e partirá depois para a America com Blasquito?

—Pagando.

—Pagando.

—Blasquito tomará o homem na barca.

—Sem indagar de que terra elle é?

—Não temos nada com isso.

—Sem lhe perguntar o nome?

—Não se pede o nome, pede-se a bolsa.

—Bem. O homem esperará nesta casa.

—Tendo que comer.

—Terá.

—Onde?

—Neste sacco que trago.

—Muito bem.

—Posso deixar o sacco aqui?

—Os contrabandistas não são ladrões.

—E os senhores quando vão?

—Amanhã de manhã. Se o seu homem está prompto poderá vir comnosco.

—Não está prompto.

—É lá com elle.

—Quantos dias esperará aqui?

—Dous, tres, quatro, dias. Mais ou menos.

—É certo que Blasquito virá?

—Certo.

—Aqui? a Plainmont.

—A Plainmont:

—Em que semana?

—Na proxima.

—Em que dia?

—Sexta, sabbado ou domingo.

—Não pode faltar?

—É meu tocayo.

—Virá com qualquer tempo?

—Qualquer. Não tem medo. Eu sou Blasco, elle é Blasquito.

—Assim não deixará de ir a Guernesey?

—Eu venho n'um mez, elle virá n'outro.

—Entendo.

—A contar de sabbado proximo, de hoje a oito dias, não se passará cinco dias sem que venha Blasquito.

—Mas se o mar estiver muito máo?

—Máo tempo?

—Sim.

—Não virá tão depressa, mas virá.

—Donde virá?

—De Bilbao.

—Para onde irá?

—Para Portland.

—Bem.

—Ou para Tor Bay.

—Melhor.

—O seu homem póde ficar tranquillo.

—Blasquito não será traidor?

—Os covardes são traidores. Somos valentes. O mar é a igreja do inverno. A traição é a igreja do inferno.

—Ninguem nos ouve?

—É impossivel ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto deserto.

—Sei.

—Quem se atreveria a escutar?

—É verdade.

—Mesmo que escutassem não poderiam entender. Fallamos uma lingua que ninguem conhece. Desde que você a sabe, é dos nossos.

—Eu vim para arranjarmos os negocios.

—Bom.

—E agora vou-me embora.

—Pois sim.

—Diga-me cá, homem. Se o passageiro quizer que Blasquito vá a outro lugar que não Portland ou Tor Bay?

—Traga onças.

—Blasquito fará o que o homem quizer?

—Blasquito fará o que as onças quizerem.

—É preciso muito tempo para ir a Tor Bay?

—Depende do vento.

—Oito horas?

—Mais ou menos.

—Blasquito obedecerá ao passageiro?

—Se o mar obedecer ao Blasquito.

—Ha de ser bem pago.

—Ouro é ouro. Vento é vento.

—É justo.

—O homem faz o que pode com o ouro. Deos com o vento faz o que quer.

—O homem que quer ir com Blasquito aqui virá sexta-feira.

—Bem.

—A que horas chega Blasquito.

—Á noite. Chega-se á noite, sahe-se á noite. Temos uma mulher que se chama agua salgada, e uma irmã que se chama noite. A mulher pode enganar, a irmã nunca.

—Está dito tudo. Adeos, homens.

—Boas tardes. Um gole de aguardente?

—Obrigado.

—É melhor que xarope.

—Tenho a sua palavra.

—O meu nome é Pundonor.

—Deos seja comvosco.

—Se é fidalgo, eu sou cavalheiro.

Era claro que só diabos podiam fallar assim. Os rapazes não ouviram mais, e desta vez fugiram deveras, até o francez, que convencido então, corria mais depressa que os outros.

Na seguinte terça-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo trazendo a Durande.

O Tamaulipas continuava ancorado.

O Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da pousada João:

—Então, quando sahe o Tamaulipas?

—Depois de amanhã, quinta-feira, respondeu o estalajadeiro.

Nessa noite, Clubin ceou á mesa dos guardas das costas, e, contra o costume, sahio logo depois de cear. Resultou desta sahida que não pôde estar presente no escriptorio da Durande, e faltou ao carregamento. Foi isto reparado por ser elle um homem tão exacto.

Parece que elle conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.

Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino brasileiro sôa ás dez horas. Era, pois, meia-noite.

[1] No original vem este dialogo em hespanhol.


[VI]

A JACRESSARDE

Ha quarenta annos Saint-Malo possuia uma viela chamada viela Coutanchez. Essa viela já não existe: foi comprehendida nos melhoramentos da cidade.

Era uma dupla fileira de casas de páo inclinadas umas para as outras, e deixando no centro lugar sufficiente para correr um rego que se chamava rua. Andava-se alli com as pernas abertas dos dous lados da agua lamacenta, abalroando com a cabeça e o cotovello as casas da direita e da esquerda. As velhas choupanas da idade média normanda tem perfis quasi humanos. De albergue a feiticeiro a distancia não é grande. Os andares entrantes, as paredes inclinadas, os alpendres circumflexos, e o embrenhado de ferros velhos, simulam labios, queixos, nariz e sobrancelhas. A trapeira é o olho, zarolho. A face é a parede, rugosa e herpetica. Tocam-se as paredes como se conspirassem uma acção iniqua. Todos estes nomes da antiga civilisação, quebra-cabeças e quebra-ventas, prendem-se aquella architectura.

Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a mais afamada, chamava-se a Jacressarde.

A Jacressarde era a habitação daquelles que não têm habitação.

Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, ha, abaixo da população, um residuo. Vagabundos, aventureiros, vivendo de expedientes, chimicos de especie larapio, pondo sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existencias em bancarrota, as consciencias que já fizeram balanço, os que abortaram no assalto e no arrombamento de portas, (porque os ladrões trabalham por baixo e por cima) os operarios e as operarias do mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escrupulos rasgados e os cotovellos rotos, os tratantes chegados á indigencia, os malevolos mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, os ganha-pouco do crime, os miseraveis na dupla e lamentavel accepção da palavra, tal é o pessoal. Alli é bestial a intelligencia humana. É o montão de immundicies das almas. Ajunta-se tudo aquillo a um canto, onde passa de quando em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a Jacressarde.

O que se encontra nessas espeluncas não são os grandes criminosos, os bandidos, os grandes productos da ignorancia e da indigencia. Se o assassino é representado alli, é por algum bebado brutal; alli o roubo não vai além da ratonice. É antes o escarro que o vomito da sociedade. O vagabundo sim, o salteador não. Todavia não ha que fiar. Aquelle ultimo degráo dos bohemios póde ter extremidades malvadas. Um dia, lançando a rêde no Epi-Scié, que era em Paris, o que a Jacressarde é em Saint-Malo, a policia apanhou Lacenaire.

Tudo entra naquelles albergues. A queda é um nivelamento. Ás vezes a honestidade esfarrapada escoa-se por alli. A virtude e a probidade tem aventuras. Não se deve, á primeira vista, estimar os Louvres nem condemnar as galés. O respeito publico e a reprovação universal devem ser descascados. Quantas sorprezas não se dão! Um anjo no lupanar, uma perola no monturo,—não é impossivel este sombrio e deslumbrante achado.

A Jacressarde era mais páteo que casa, e mais poço que páteo. Não tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma porta baixa. Levantava-se o ferrolho, empurrava-se a porta, entrava-se em um páteo.

No meio desse páteo havia um buraco redondo, cercado de uma orla de pedra, ao nivel do chão. Era um poço. O páteo era pequeno, e o poço era grande. Em roda do bocal do poço o chão era mal calçado.

O páteo, quadrado, tinha construcções por tres lados. Do lado da rua, nada; mas diante da porta, á direita e á esquerda, haviam aposentos.

Quem, á noite, entrasse alli, um pouco arriscadamente, ouviria como que um rumor de respirações juntas, e se houvesse bastante luar ou estrellas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o que veria:

O páteo. O poço. Em roda do páteo, em frente á porta, uma palhoça figurando uma especie de ferradura quadrada, galeria carunchosa, toda aberta, com tecto de vigas, sustentada por pilares de pedra desigualmente espaçados; no centro, o poço; á roda do poço, em uma liteira de palha, e fazendo como que um rosario circular, viam-se solas de sapato, umas direitas, outras acalcanbadas, dedos apparecendo pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos nús, pés de homem, pés de mulher, pés de criança. Todos esses pés dormiam.

Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça, distinguiam-se corpos, fórmas, cabeças adormecidas, prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade no monturo, um sinistro jazigo humano. Era um quarto de dormir para todos. Pagava-se dous soldos por semana. Os pés tocavam no poço. Nas noites de tempestade, chovia sobre os pés; nas noites de inverno, cabia neve sobre os corpos.

Quem eram aquellas creaturas? Os desconhecidos. Iam alli de noite e sabiam de manhã. A ordem social anda misturada com aquellas larvas. Alguns esgueiravam-se alli de noite e não pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os vicios, todas as abjecções, todas as supposições, todas as miserias, o mesmo somno de prostração no mesmo leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa visinhança. Funebre entrevista em que se remechiam e se amalgamavam no mesmo miasma, os cançassos, os desfallecimentos, as borracheiras, incubadas as marchas e contra-marchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um bom pensamento, as noites lividas e somnolentas, remorsos, cobiças, cabellos immundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas da treva. A podridão humana fermentava naquella tina. Eram atiradas áquelle alvergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na vespera, por uma sahida de prisão, pelo acaso, pela noite. O destino vasava alli, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falhava quem ousava. Era proprio para cochichar. Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no somno, visto que não podiam perder-se na sombra. Tiravam á morte aquillo que podiam. Fechavam os olhos naquella agonia confusa que todas as noites começava. Donde sahiam? Da sociedade, porque eram a miseria; da vaga, porque eram a espuma.

Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava alli no chão; deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O poço sem parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha trinta pés de profundidade. Cahia alli a chuva, escorriam as immundicies, filtravam todos os escoamentos do pateo. A caçamba para tirar agua ficava a um lado. Quem tinha sede, bebia. Quem estava aborrecido, afogava-se. Do somno do monturo passava-se ao somno do poço. Em 1819 tirou-se dalli um menino de 14 annos.

Para não correr risco naquella casa era preciso ser da laia. Os estranhos eram mal vistos.

Conheciam-se acaso entre si, aquellas creaturas? Não; farejavam-se.

A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um barrete ornado de fitas, lavada ás vezes com agua do poço, e tendo uma perna de páo.

Desde madrugada esvasiava-se o pateo; iam-se embora os freguezes.

Havia no pateo um gallo e algumas gallinhas, que esgaravatavam no esterco durante o dia. O pateo era atravessado por um barrote horisontal, collocado sobre postes, figura de força, que não estava alli em terra estranha. Via-se ás vezes estendido no barrote, no dia seguinte ás noites chuvosas, um vestido de seda molhado e enlameado, pertencente á mulher da perna de páo.

Acima da palhoça, e, circulando o pateo, havia um andar superior e acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de madeira podre que furava o tecto; escada vacillante por onde subia com estrepito a mulher côxa.

Os locatarios de arribação, por semana ou por noite, moravam no pateo; os locatarios residentes moravam na casa.

Janellas, nem um caixilho; portas, nem uma hombreira; lareiras, nem um fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indifferentemente por um buraco quadrado e comprido que fôra porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas pilastras do tabique. A caliça cahida cobria o assoalho. Não se sabia como aquella casa estava em pé. O vento não a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta, e escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como agua em esponja. A abundancia das aranhas tranquillisava os moradores contra o desmoronamento immediato. Mobilia, nenhuma. Dous ou tres enxergões nos cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e alli uma bilha e um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro insipido e hediondo.

As janellas davam sobre o pateo. De cima o pateo assemelhava-se a um carro de lama. As cousas, aem contar os homens, que alli apodreciam e enferrujavam-se, eram indescriptiveis. Os destroços fraternisavam: cahiam paredes, cabiam creaturas. Os trapos semeavam entulhos.

Além da população fluctuante alojada no pateo, a Jacressarde tinha tres inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro. O carvoeiro e o trapeiro, occupavam dous enxergões no primeiro andar; o fabricante de ouro, chimico, morava nas aguas furtadas, que tambem se chamava sotão. Não se sabia em que lugar dormia a mulher. O fabricante de ouro era um tanto poeta. Habitava debaixo das telhas n'um quarto em que havia uma trapeira estreita e uma grande chaminé de pedra, golphão onde ia rugir o vento. A trapeira não tinha caixilhos; o fabricante de ouro pregou em cima um pedaço de ferro em folha, proveniente de um rasgão de navio. A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O carvoeiro pagava a casa com um sacco de carvão de quando em quando; o trapeiro pagava com um cestario de grãos para as gallinhas, cada semana; o fabricante de ouro não pagava nada. Entretanto ia queimando a casa. Já tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante tirava da parede, ou do tecto uma ripa para aquecer a caldeira do ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro, viam-se em duas columnas algarismos feitos com greda, escriptos pelo trapeiro todas as semanas, uma columna de tres e uma columna de cinco, conforme o cestario de grão custasse tres liards ou cinco centimos. A caldeira do chimico era uma velha bomba quebrada, promovida por elle ao cargo de caldeira, e que lhe servia para combinar os ingredientes. A transmutação absorvia-a. Algumas vezes fallava nisso aos maltrapilhos do pateo, que deitavam a rir. Dizia elle: aquella gente está cheia de preconceitos. Estava resolvido a não morrer sem atirar a pedra phylosophal ás vidraças da sciencia. O forno com que trabalhava comia muita lenha. Já o patamar da escada tinha desapparecido. Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia-lhe a hoteleira: Neste andar só me fica o casco. O chimico abrandava-lhe a colera fazendo-lhe versos.

Tal era a Jacressarde.

O criado da casa era um menino, talvez anão, contando doze annos ou sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo sempre uma vassoura na mão.

Os frequentadores entravam pela porta do páteo; o publico entrava pela porta da loja.

O que era a loja?

A alta parede que dava para a rua tinha á direita da entrada do páteo uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo porta e janella, tendo postigo e caixilhos; o postigo era o unico da casa que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o unico que tinha vidros. Por traz da janella que abria sobre a rua havia um pequeno quarto que tomava uma parte do telheiro de dormir. Lia-se na porta da rua este distico feito com carvão: Aqui encontram-se as curiosidades. A palavra já corria mundo. Sobre tres taboas que fingiam prateleiras collocadas por traz de vidraças, viam-se alguns potes de porcellana falsa, sem aza, um chapéo de sol chinez feito de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos pontos, impossivel de abrir e fechar, cadinhos de ferro, louça informe, chapéos de homem e mulher estragados, tres ou quatro conchas, alguns embrulhos de botões de osso e de cobre já velhos, uma boceta com o retrato de Maria Antoinette, e um volume trancado da algebra de Boisbertrand.

Tal era a loja. Aquelle sortimento era a curiosidade. A loja communicava por uma porta do fundo com o páteo onde estava o poço. Tinha uma mesa e um escabello. A mulher do perna de páo era a moça do balcão.


[VII]

COMPRADORES NOCTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO

Clubin não foi á pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na noite de quarta-feira.

Nesta noite, ao escurecer, dous homens entraram pela viella Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um delles bateu na vidraça. Abrio-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de páo deu-lhes o sorriso reservado aos burguezes. Havia uma vela sobre uma mesa.

Os dous homens eram effectivamente burguezes.

O homem que tinha batido na vidraça disse:

—Boa noite, mulher. Venho por aquillo.

A mulher da perna de páo sorrio segunda vez e sahio pela porta que dava para o páteo. Minutos depois abrio-se de novo a porta, e appareceu um homem pela fresta, trazendo bonet e blusa, debaixo da qual havia um objecto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.

O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.

—O senhor é o armeiro? disse elle.

O homem que tinha batido respondeu.

—Sim. O senhor é o Parisiense?

—Chamado Peaurouge. Sim.

—Deixe vêr.

—Aqui está.

O homem tirou debaixo da blusa um instrumento; muito raro na Europa naquella época, um revolver.

O revolver era novo e brilhante. Os dous burguezes examinaram-no. O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro, fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burguez, que parecia não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.

O armeiro perguntou:

—Quanto custa?

O homem da blusa respondeu.

—Venho da America. Ha pessoas que trazem macacos, papagaios, animaes, como se os francezes fossem selvagens. Eu trouxe isto. É uma invenção util.

—Quanto custa? perguntou de novo o armeiro.

—É uma pistola que faz molinete.

—Quanto custa?

—Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.

—Quanto custa?

—Tem seis canos.

—Mas quanto custa?

—Seis canos são seis luizes.

—Quer cinco luizes?

—Impossivel. Um luiz por cada bala. É o preço.

—Quer fazer negocio, seja razoavel.

—Já disse o preço. Examine-me esta obra, Sr. arcabuzeiro.

—Já examinei.

—O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam pôr este molinete no diccionario das ventoinhas. É uma joia.

—Já vi.

—Os canos são de fabrica hespanhola.

—Já reparei.

—São lavrados. A cousa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas...

—E velhas laminas de fouces.

—Ia dizel-o, Sr. armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de fogo, e sahe disto tudo um magnifico instrumento de ferro.

—Sim, mas póde ter gretas e buraquinhos; póde sahir esconço.

—Sim. Mas tudo se arranja.

—O senhor é do officio?

—Tenho todos os officios.

—Os canos são brancos.

—É belleza, Sr. armeiro. Faz-se isto com borra de antimonio.

—Diziamos nós que isto custa cinco luizes...

—Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer seis luizes.

O armeiro abaixou a voz.

—Ouça, Parisiense. Aproveite a occasião. Desfaça-se disto. Isto para vocês não vale nada. Chama a attenção.

—Na verdade, disse Parisiense, é um tanto vistoso. É melhor para um burguez.

—Quer cinco luizes?

—Não, seis. Um por cada buraco.

—Pois bem, seis napoleões.

—Quero seis luizes.

—Não é bonapartista. Prefere um luiz a um napoleão?

Parisiense sorrio.

—Napoleão é melhor, disse elle, mas luiz vale mais.

—Seis napoleões.

—Seis luizes. É para mim uma differença de oitenta francos.

—Então não fazemos nada.

—Pois sim. Guardo o revolver.

—Guarde.

—Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem menos de uma invenção destas!

—Então, boa noite.

—É um progresso sobre a pistola, que os indios chesapoakes chamam Nortay-u-Hoh.

—Cinco luizes á vista, é ouro.

—Nortay-u-Hoh, quer dizer espingarda pequena. Muitas pessoas ignoram isto.

—Quer cinco luizes e mais um escudo?

—Eu já disse que custa seis.

O homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha fallado, fazia mover o mecanismo. Approximou-se do armeiro e disse-lhe ao ouvido:

—A arma é boa?

—Excellente.

—Eu dou os seis luizes.

Cinco minutos depois emquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa, os seis luizes de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o revolver sahiram da viella Coutanchez.


[VIII]

CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA

No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distancia de Saint Malo, perto da ponta do Decolé, n'um lugar em que as rochas das praias são altas, e o mar profundo, passou-se uma cousa tragica.

Nada mais frequente na architectura do mar, que uma lingua de rochedos em fórma de lança, que se prende á terra por um isthmo estreito, prolonga-se na agua e acaba-se ahi bruscamente em forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida é ás vezes assaz difficil.

No alto de um rochedo desse genero, achava-se em pé, pelas quatro horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de uniforme, e provavelmente armado, o que era facil de reconhecer por certas dobras rectas e angulosas do manto. O sitio em que estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de cubos á semelhança de seixos immensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde brotava uma hervasinha estreita e curta, terminava do lado do mar por um espaço livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns sessenta pés de altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo. Entretanto, o angulo da esquerda ia-se arruinando e offerecia uma dessas escadas naturaes proprias aos granitos marinhos, cujos degraos pouco commodos exigem ás vezes pernas de gigante ou pulos de downs. Descia perpendicularmente ao mar e mergulhava nas aguas. Era um quebra-costas. Podia-se, comtudo, a rigor, ir por alli embarcar na muralha da lingua de rochas.

Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o cotovello direito na mão esquerda, piscava um olho e applicava ao outro um oculo. Parecia absorto em uma attenção séria. Approximou-se da borda do rochedo, e alli estava immovel com o olhar imperturbavelmente fito no horisonte. A maré estava cheia. A vaga batia por baixo delle no sopé do rochedo.

O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras singulares.

Esse navio, que apenas uma hora antes sahira de Saint-Malo, tinha parado por traz dos Banquetiers. Era uma galera. Não tinha deitado ancora, talvez porque o fundo não lh'o permittisse, e porque o navio teria prendido a ancora de baixo do gurupés. Limitou-se a pôr-se á capa.

O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente. O navio tinha atravessado: era o que indicava a vela ré alada a barlavento, e as de prôa largas por mão; tinha braceado o panno de ré o mais que lhe foi possivel, de forma que neutralisava a força dos de prôa. Deste modo, cahindo a sotavento, não perdia mais de milha e meia por hora.

O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas. Mas ao pé das costas começava a escurecer.

O guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente ao largo, não tinha pensado em examinar o rochedo ao lado e em baixo. Dava as costas para a escada pouco praticavel que punha em communicação a plataforma com o mar. Não reparou que alguma cousa andava alli em movimento. Havia nessa escada, por traz da anfractuosidade, alguma pessoa, um homem escondido alli, segundo parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos a tempos, na sombra, apparecia uma cabeça por baixo da rocha, olhava para cima e espiava o espião. Essa cabeça coberta por um largo chapéo americano, era a cabeça do quaker, que, uns dez dias antes, fallara nas pedras do Petit Bey, ao capitão Zuela.

De repente pareceu redobrar a attenção do guarda-costa.

Limpou rapidamente com a manga o vidro do oculo e firmou-o com energia sobre o navio.

Destacara-se um ponto negro.

O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaça.

A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripolada por alguns marinheiros que remavam vigorosamente.

Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decollé.

A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior gráo de fixidez. Elle não perdia nenhum dos movimentos da barcaça. Approvimou-se mais ainda da borda do rochedo.

Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgio por traz do guarda-costa, no alto da escada. O espião não via o quaker.

Parou este alguns instantes, com os braços cahidos, e os punhos crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as costas do espião.

Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um pé, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o unico movimento que fazia era andar, o resto do corpo era estatua; o pé firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo, e parou; estava quasi tocando o guarda-costa, sempre immovel, com o oculo fixo. O homem ajuntou as duas mãos fechadas na altura das suas claviculas, depois, bruscamente, abateram-se os antebraços, e os dous punhos, como que soltos por uma mola, bateram nos hombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Cahio de cabeça no mar. Viram-se-lhe os pés durante o tempo de um relampago. Foi uma pedra n'agua. A agua cerrou-se depois, descrevendo dous ou tres grandes circulos.

Ficou apenas o oculo escapo ás mãos do guarda-costa e cahido no chão.

O quaker inclinou-se á borda das rochas, vio acalmar-se a agua, esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os dentes:

Monsieur de la police est mort
En perdant la vie.

Inclinou-se outra vez. Nada reappareceu. Sómente no lugar onde o guarda-costa tinha cahido, formou-se na superficie da agua uma especie de espessura negra, que se alargava no movimento da vaga. Era provavel que o guarda-costa tivesse quebrado o craneo em alguma rocha sub-marinha. O sangue subira e fazia aquella mancha na espuma. O quaker, contemplando aquella mancha, continuou:

Un quart d'heure avant sa mort,
Il était encore....

Não acabou.

Ouvio atraz de si unia voz doce que lhe dizia:

—Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem.

Elle voltou-se, e vio a quinze passos, no intervallo de dous rochedos, um homem baixo que tinha um revolver na mão.

Respondeu:

—Como vê. Bom dia. Sr. Clubin.

O homem baixo estremeceu.

—Reconheceu-me?

—Não me reconheceu o senhor? disse Rantaine.

Entretanto ouvio-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça observada pelo guarda-costa que se approximava.

O Sr. Clubin disse a meia voz como se fallasse comsigo:

—A cousa foi rapida.

—Em que precisa de mim? perguntou Rantaine.

—Pouca cousa. Ha quasi dez annos que nos não vemos. O senhor ha de ter feito bons negocios. Como está de saude?

—Bem, disse Rantaine. E o senhor?

—Perfeitamente, respondeu Clubin.

Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.

Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin que armava o revolver.

—Rantaine, estamos a 15 passos. É uma boa distancia. Fique onde está.

—Ah! mas o que quer o Sr. de mim?

—Venho conversar.

Rantaine não se mecheu. O Sr. Clubin coutinuou:

—O senhor matou agora mesmo um guarda-costa, Rantaine levantou a aba do chapéo e respondeu:

—Já me fez a honra de dizel-o.

—Em termos menos precisos. Disse ha pouco: um homem; agora digo: um guarda-costa, O quarda-costa tinha o n. 619. Era um pai de familia. Deixa mulher e cinco filhos.

—Deve ser assim, disso Rantaine.

Houve um imperceptivel tempo de silencio.

—São homens escolhidos estos guarda-costas, disse Clubin, quasi todos antigos maritimos.

Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos. Clubin continuou:

—Advinhe quanto me custou este revolver.

—É um lindo instrumento, respondeu Rantaine.

—Quanto vale?

—Vale muito.

—Custou-me cento e quarenta e quatro francos.

—Comprou naturalmente na loja de armas da rua Contanchez.

Clubin continuou:

—O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.

—Sr. Clubin, hade ventar esta noite.

—Eu sou o unico que sei do segredo.

—Continúa a morar na pousada João?

—Sim. Vive-se bem alli.

—Já lá comi muito boa couve fermentada.

—Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espadua! Não seria eu quem lhe levaria um piparote. Era tão rachitico quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.

—Felizmente, criou-se.

—Sim, e continúo a morar na pousada João.

—Sabe porque motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me tinha reconhecido. Disse comigo: Só Clubin póde reconhecer-me.

E adiantou um passo.

—Fique onde estava, Rantaine.

Rantaine recuou e disse aparte:

—A gente torna-se criança diante destes instrumentos.

O Sr. Clubin continuou.

—Situação. Temos aqui á direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos passos, outro guarda-costa, numero 618, que está vivo, e á esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de alfandega. Sete homens armados que podem estar aqui dentro em cinco minutos. O rochedo ficará cercado. O desfiladeiro ficará guardado. Impossivel fugir. Ha um cadaver ao pé da rocha.

Rantaine deitou um olhar obliquo ao revolver.

—Como diz, Rantaine. É um lindo instrumento. Talvez esteja carregado com polvora secca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer correr a força armada. Tenho seis tiros.

O choque alternativo dos remos tornava-se mais distincto. A barcaça não estava longe.

O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. O Sr. Clubin fallava com um ar cada vez mais tranquillo e doce.

—Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que fez ha pouco, ajudar-me-hiam a prende-lo. O senhor paga 10,000 francos de passagem ao capitão Zuela. Entre parenthesis, a passagem ficaria mais barata se tratasse com os contrabandistas de Plainmont, mas estes só o levariam para Inglaterra, e demais o senhor não póde arriscar-se a ir a Guernesey onde ha quem tenha a honra de conhecel-o. Volto á situação. Se eu disparar prendem-n'o. Nesse caso pagará a Zuela 10,000 francos de fuga. Já lhe deu 5,000 mil francos; Zuela guardará esses 5,000 trancos e vai-se embora. É isto. Rantaine acho-o bem rebuçado. Esse chapéo, esse casaco, e essas polahias disfarçam-n'o. Esqueceram-lhe os oculos. Fez bem em deixar erescer as suisas.

Rantaine sorrio como quem range os dentes. Clubin continuou:

—Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas algibeiras. N'uma dellas tem o seu relogio. Guarde-o.

—Obrigado, Sr. Clubin.

—Na outra ha uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas. É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso, e atire-a para cá.

—Mas isto é um roubo!

—Póde chamar a guarda.

E Clubin fixou os olhos em Rantaine.

—Olhe, mess Clubin.... disse Rantaine dando um passo e estendendo a mão aberta.

Mess era uma lisonja.

—Fique onde está, Rantaine.

—Mess Clubin, arranjemos as cousas. Offereço-lhe metade.

Clubin executou um crusar de braços, mostrando a bocca do revolver.

—Rantaine, quem pensa que eu sou? Sou um homem honrado.

E acrescentou depois de uma pausa.

—Quero tudo.

Rantaine disse entre dentes:

—É temivel este.

Entretanto acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o aço. Disse elle:

—Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é Restituição. Ouça, Rantaine. Ha dez annos, sahio o senhor de Guernesey á noite tomando da caixa de uma sociedade cincoenta mil francos que lhe pertenciam, e esquecendo de lá deixar cincoenta mil francos que pertenciam a outro. Esses cincoenta mil francos roubados ao seu socio, o excellente e digno mess Lettierry, fazem hoje com os juros accumulados de dez annos oitenta mil seiscentos e sessenta e seis francos e sessenta e seis centimos. O senhor entrou hontem na casa de um cambista. Reluchet, chama-se elle, rua de S. Vicente. Deu-lhe setenta e seis mil francos em bilhetes de banco francezes, e em troca deu-lhe elle tres bank-notes de Inglaterra de mil libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor poz essas bank-notes na boceta de ferro, e a boceta de ferro na algibeira direita. As tres mil libras esterlinas fazem setenta e cinco mil francos. Em nome de mess Lethierry, contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e vou levar-lh'os. Rantaine, a galera que alli está á capa é o Tamaulipas. O senhor embarcou alli esta noite as malas misturadas com os saccos e canastras da equipagem. Quer sabir de França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A barcaça vem buscal-o. Está á espera della. Ella ahi vem. Já a estamos ouvindo. Depende de mim deixal-o partir ou obrigal-o a ficar. Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.

Rantaine abrio o bolso, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.

Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta, tendo dirigidos contra Rantaine os dous olhos e os seis canos do revolver.

Depois disse:

—Meu amigo, volte as costas.

Rantaine voltou as costas.

O Sr. Clubin poz o revolver debaixo do braço, e apertou a mola da caixinha. A caixinha abrio-se.

Havia dentro quatro bank-notes, tres de mil libras, e uma de dez libras.

Clubin dobrou as tres notas de mil libras, pol-as outra vez na caixinha, fechou-a, e metteo-a no bolso.

Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de dez libras e disse:

—Volte para cá.

Rantaine voltou-se.

O Sr. Clubin continuou;

—Disse-lhe que me contentava com as tres mil libras. Aqui vão as dez libras.

E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.

Rantaine com um pontapé deitou o bilhete e a pedra ao mar.

—Como queira, disse Clubin. Vamos lá, o senhor hade estar rico. Estou tranquillo.

O rumor dos remos que se tinha approximado durante o dialogo, cessou. Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.

—Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.

Rantaine dirigio-se para a escada e desceu.

Clubin foi com precaução até a borda do rochedo, e adiantando a cabeça, vio descer Rantaine.

A barcaça tinha parado ao pé do ultimo degráo do rochedo, no mesmo lugar em que tinha cahido o guarda-costa.

Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou:

—Bom numero seiscentos e desenove! Pensava que estava só. Rantaine pensava que eram apenas dous. Só eu sabia que eramos tres.

Clubin vio no chão o oculo do guarda-costa; apanhou-o.

Começou o ruido dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça, e esta tomava o largo.

Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o punho e gritou:

—Ah! o proprio diabo é um canalha!

Instantes depois, Clubin do alto das rochas, e fixando o oculo na barcaça, ouvio distinctamente estas palavras, articuladas por uma voz grossa, meio do rumor do mar:

—O Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva a Lethierry para participar-lhe o facto, e aqui vai nesta barcaça um marinheiro de Guernesey que é da equipagem do Tamaulipas, que se chama Ahier Tortevin, o que ha de voltar a Saint-Malo, na proxima viagem de Zuela, e que será testemunha de que eu lhe entreguei para mess Lethierry a somma de tres mil libras esterlinas.

Era a voz de Rantaine.

Clubin era o homem das cousas bem feitas. Immovel como estivera o guarda-costa, e no mesmo lugar, com o oculo no olho, não perdeu de vista a barcaça. Vio diminuir-se os remos, desapparecer, reapparecer, approximar-se a barcaça do navio; e pôde reconhecer a alta corpulencia de Rantaine no tombadilho do Tamaulipas.

Quando a barcaça foi içada, o Tamaulipas entrou a preparar-se. A brisa soprava de terra, o navio abrio as velas todas, o oculo de Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado, e, meia hora depois o Tamaulipas era apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no céo amarello do crepusculo.


[IX]

INFORMAÇÃO UTIL ÁS PESSOAS QUE ESPERAM, OU RECEIAM CARTAS DE ALEM-MAR

Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.

Uma das causas da sua demora, é que antes de recolher-se, foi elle até á porta Dinan onde haviam tavernas. Tinha comprado em uma dessas tavernas onde não era conhecido, uma garrafa de aguardente que pôz em uma larga algibeira da japona como se quizesse escondel-a; depois, devendo a Durande sahir no dia seguinte de manhã, foi a bordo para ver se tudo estava em ordem.

Quando o Sr. Clubin entrou ua pousada João, já não havia na sala baixa senão o velho capitão de longo curso, Gertrais-Gaboureau, bebendo e fumando cachimbo.

O capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.

—Good bye, capitão Clubin.

—Boa noite, capitão Gertrais.

—Com que então, lá se foi o Tamaulipas.

—Ah! disse Clubin, não reparei.

O capitão Gertrais-Gaboureau cuspio e disse:

—Raspou-se o Zuela.

—Quando?

—Esta noite.

—Onde vai?

—Vai ao diabo.

—Sim; mas onde?

—A Arequipa.

—Não sabia, disse Clubin.

Accrescentou:

—Vou dormir.

Accendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.

—Já foi a Arequipa, capitão Gertrais?

—Sim. Ha annos.

—Onde se costuma a arribar?

—Em diversos portos. Mas o Tamaulipas não arribará em parte alguma.

O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo, e continuou:

—Conhece o Cheval-de-Troie e o Trentemousin que foram a Cardiff. Não opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em bello estado. Cheval-de-Troie levava therebentina e abrio agua, e fazendo trabalhar as bombas, perdeu no meio da agua todo o carregamento. Quanto ao Trentemousin, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da ancora, o botalós, ovens; não soffreu o mastro de mesena, mas teve um forte abalo. Cahio o ferro do gurupés que aliás só ficou machucado, mas completamente nú. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.

Clubin tinha posto a vela na mesa, e pôz-se a pregar de novo uma porção de alfinetes que tinha na japona. Disse:

—Não dizia, capitão, que o Tamaulipas não arriba em porto algum?

—Não. Vai direito ao Chile.

—Neste caso não pode mandar noticia alguma em caminho.

—Perdão, capitão Clubin. Primeiramente póde entregar despachos a todos os navios que encontrar em caminho para a Europa.

—É justo.

—Depois, tem a caixa de cartas do mar.

—A que chama o Sr. caixa de cartas do mar?

—Não sabe, capitão Clubin?

—Não.

—É quando se passa pelo estreito de Magalhães.

—Que ha então?

—Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de tresentos diabos.

—Depois?

—Quando se dobra o cabo Monmouth.

—Bem. Depois?

—Depois dobra-se o cabo Valentin.

—E depois?

—Depois dobra-so o cabo Izidoro.

—E depois?

—Dobra-se a ponta Anna.

—Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar?

—Chegamos á caixa. Montanhas á direita, montanhas á esquerda. De todos os lados aves marinhas. Terrivel sitio! Ah! com um milhão de diabos! que chusma, e que matinada! A borrasca alli não precisa de auxilio. Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas! Da vela grande passava ao juanete! Lufada sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um vellame novinho em folha não nos fica senão o fio. Que dansa! furacões capazes de fazer saltar uma galera como se fosse uma pulga. Já vi n'um brigue inglez, o True Blue, um grumette occupado com o páo da giba ser levado por um milheiro de ventos, com páo e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contra-mestre da Revenue, ser arrancado do navio e morrer. A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as peças de madeira do convez ficaram despedaçadas. A gente sahe dalli com as velas comidas, até fragatas de cincoenta fazem agua como se fossem cestos. E a endiabrada costa! É o que ha de mais damnado. Rochedos retalhados como por criancice. Approxima-se a gente do Porto Fome. Ahi é peor que peor. São as laminas mais agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente vê-se estas duas palavras escriptas com tinta vermelha: Post-Office.

—Que quer dizer, capitão Gertrais?

—Quero dizer, capitão Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Anna vê-se em uma pedra de cem pés de altura um grande páo. É um poste com uma barrica no alto. Essa barrica é a caixa das cartas. Os inglezes escreveram em cima: Post-Office. Porque se metteram elles nisto? Aquillo é o correio do oceano; não pertence a esse honrado gentleman, o rei de Inglaterra. A caixa das cartas é commum. Pertence a todas as bandeiras. Post-Office, ha nada mais chinez! parece uma chicara de chá que o diabo offerece em pleno oceano. Eis como se faz o serviço. Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os seus despachos. O navio que vem do Atlantico envia cartas para Europa, e o navio que vem do Pacifico manda cartas para a America. O official que commanda o escaler põe na barrica o maço de cartas e tira o maço que lá encontra. Toma-se conta dessas á espera que o proximo navio tome conta das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contrario, o continente d'onde o senhor vem é aquelle para onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica está presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! O Tamoulipas ficará ahi. A barrica tem uma tampa, mas sem fechadura nem cadeado. Bem vê que se póde escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.

—É esquisito, murmurou Clubin pensativo.

O capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.

—Supponhamos que o bregeiro do Zuela me escreva, mette as suas garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro mezes tenho as cartas do patife. Diga-me lá, capitão Clubin, sahe amanhã?

Clubin absorto em uma especie de somnambulismo, não ouvio. O capitão Gertrais repetio a pergunta. Clubin despertou.

—Sem duvida, capitão Gertrais. É o dia marcado. Devo sahir amanhã de manhã.

—Pois olhe, eu não sahia. Capitão Clubin, os cães tem o pello molhado. As aves marinhas andam ha duas noites á roda do pharol. Máo signal. Tenho um storm-glass que faz das suas. Estamos no segundo, quarto da lua; é o maximum da humidade. Vi ha pouco pimpinellas que fechavam as folhas e um campo de trevo cujas hastes estavam retezadas. Os vermes sabem do chão, as moscas mordem, as abelhas não se affastam dos cortiços, os pardaes consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao pôr do sol havia muitas nuvens no horisonte. Amanhã hade haver grande nevoeiro. Não lhe digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furacão. Grande sonso é o nevoeiro.

FIM DO 1° TOMO.