VICTOR HUGO

traduzido por Machado de Assis

2° TOMO

RIO DE JANEIRO
TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.

[PRIMEIRA PARTE]

O Sr. Clubin.


[NOTA]

O Diario do Rio de Janeiro obteve do editor Lacroix (de Pariz e Bruxellas), por meio de um contracto celebrado entre esse editor e o correspondente do Diario do Rio, em Pariz, o direito de publicar a tradução portugueza deste romance, nas suas collumnas, começando mesmo antes que o 1° volume apparecesse em Pariz. O romance começou a ter a publicidade no Diario do Rio no dia 16 de Março de 1866.


[LIVRO SEXTO]

O timoneiro ebrio e o capitão sobrio


[I]

OS ROCHEDOS DOUVRES

Cerca de cinco leguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plainmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, ha um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.

Esta denominação, Douvre, Dover, pertence a muitos cachopos e rochedos. Ha especialmente perto das costas do Norte uma rocha Douvre na qual se construe agora mesmo um pharol, escolho perigoso, mas que não deve ser confundido com este.

O ponto de França mais proximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira ilha do archipelago normando. A distancia deste escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbière tomo sobre um eixo, a ponta de Santa Catharina iria quasi bater nos Douvres. É uma distancia de quasi quatro leguas.

Nesses mares da civilisação os rochedos mais selvagens são raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfandega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos em Cesambre, ilha de Cesar, apanhadores de caraguejos em Brecqhou, pescadores de rêde em Minquiers e Ecrehou. Nos rochedos Douvres, ninguem.

As aves marinhas estão alli em sua casa.

Não ha peor encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Preel que torna tão angustiosa a entrada de Merquel e que obriga a deitar a umas vinte braças a balisa vermelha, as proximidades perfidas de Étables e de Plouha, as duas druidas de granito do Sul ds Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recommendada ao medo por este proverbio:—Quando passares o Ras, se não morreres, tremerás;—as Mortes-Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mauvais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal afamados. Vale mais affrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só vez.

Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeo do occidente, o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o escolho Pater Noster, entre Guernesey e Serk.

E ainda no Pater Noster póde-se fazer um signal: quem está ali em perigo póde ser soccorrido. Vê-se ao Norte a ponta Dicard ou de Icaro, ao Sul, o Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.

O vento, a agua, a nuvem, o illimitado, o inhabitado. Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inhospitalidade do abysmo.

É mar alto. A agua é profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, attrahe e abriga os animaes que precisam affastar-se dos homens. É uma especie de vasta madrepora submarinha. É um labyrintho afogado. Ha alli, em profundezas que difficilmente alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pollulam as especies monstruosas. Devoram-se umas ás outras. Os carangueijos comem os peixes, e são devorados tambem. Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquella obscuridade. Vagos lineamentos de guellas, antennas, tentaculos, barbatanas, bocas abertas, escamas, garras, unhas, fluctuam, tremem, engrossam, decompõe-se, e desfazem-se na transparencia sinistra. Tremendos nadadores andam alli na labutação. É uma colmêa de hydras.

Alli o horrivel é ideal.

Imagina, se podes, um formigueiro de holothurias.

Vêr o interior do mar, é vêr a imaginação do Ignoto. É vêl-a do lado terrivel. O golphão é analogo á noite. Tambem ahi ha somno, somno apparente ao menos, da consciencia da creação. Commettem-se alli em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida, phantasmas quasi, completos demonios, vagam alli, em medonha paz, nas sombrias occupações da sombra.

Ha quarenta annos, duas rochas de forma extraordinaria assignalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticaes e recurvadas, tocando-se quasi no cume. Parecia vêr-se irrompendo do mar dous dentes de um elephante engulido. Mas eram dentes do tamanho de torres que só poderiam pertencer a elephantes do tamanho de uma montanha. Essas duas torres naturaes da obscura cidade dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados de comprimento, parecia ura pedaço de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gemeas chamava-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre, uma tinha sessenta pés de altura, a outra quarenta. O vai-vem das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do equinocio de 26 de Outubro de 1859, derrubou uma dellas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.

Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No seculo passado alguns pescadores, perdidos naquelles cachopos, acharam um cadaver. Ao pé do cadaver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado alli um homem, refugiou-se naquelles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. Veio dahi chamar-se Homem ao rochedo.

São singulares as solidões da agua. É o tumulto e o silencio. O que ahi se faz já nada tem com o genero humano. É a utilidade desconhecida. Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o immenso tormento das vagas.


[II]

COCNAC INESPERADO

Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do Tamaulipas, a Durande partio para Guernesey.

Deixou Saint-Malo ás 9 horas.

Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.

As preocupações do Sr. Clubin fez com que embarcasse pouco carregamento. Apenas metteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre Port, tres caixas para o hospital de Guernesey, uma de sabão amarello, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordavão fino. Levava tambem, da precedente viagem, uma caixa de assucar Arushed e tres caixas de chá conjou, que a alfandega franceza não quiz receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.

Haviam a bordo seis passageiros: um guernesiano, dous maloenses vendedores de animaes, um tourista, como já se dizia nesse tempo, um parisiense meio burguez, provavelmente tourista do commercio, e um americano distribuidor de Biblias.

A Durande, sem contar Clubin, tinha sete homens de tripolação; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dous trabalhadores da machina e um grumete. Um dos penultimos era tambem mecanico. Era um valente e intelligente negro hollandez, evadido das fabricas de assucar de Surinam; chama-se Imbrancam. O negro Imbrancam comprehendia e servia admiravelmente a machina. Nos primeiros tempos, contribuio elle não pouco, quando apparecia na fornalha, para dar um ar diabolico á Durande.

O timoneiro, jerseyano de nascimento, originario da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.

É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, paizes hierarchicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas idéas, que são os seus dentes. Essas idéas são as mesmas em toda a parte, na India, como na Allemanha. A nobreza conquista-se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer cousa alguma, é viver fidalgamente; quem não trabalha é reverenciado. Officio faz decahir. Na França de outr'ora só se exceptuavam os operarios de vidro. Sendo gloria para os fidalgos esvasiar garrafas, fazel-as não era deshonra alguma.

Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quizer ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Inda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende do cavalheiros e é apenas marujo. Ha trinta annos, em Aurigny, um Gorges authentico que, ao que parece tinha direitos á senhoria de Gorges confiscada por Philippe Augusto, apanhava sargaço com os pés nús. Ha em Serk um Carteret que é carreiro. Existe em Jersey um mercador de pannos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Contances, mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No decimo quinto seculo Johan de Heroudeville, bésteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre comsigo justilhos e arnezes. Em Maio de 1371, em Tontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cabe em pobreza é logo eliminado da fidalguia. Basta uma mudança de nome. De Tangroville faz Taugouille, e tudo se arranja.

Foi o que aconteceu ao timoueiro da Durande.

Ha em Saint-Pierre Port, no Bordage, um mercador de ferros velhos chamado Ingrouille, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luiz o Gordo, os Ingroville possuiam tres parochias em Valognes. Fez um padre Trigan a Historia ecclesiastica da Normandia. Este chronisla Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se cahisse no populacho, chamar-se-ha Digouille.

Tangrouille, Tancarville provavel e Montmorency possivel, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave n'um timoneiro; embriagava-se.

O Sr. Clubin teimava em conserval-o. Respondia por elle a mess Lethierry.

O timoneiro Tangrouille não sahia nunca do navio e dormia a bordo.

Na vespera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bebado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava dispensa. A dispensa secreta de Tangrouille era no porão onde se guardava a agua. Pol-a ahi para tornal-a inverosimil. Estava certo de que só elle conhecia aquelle esconderijo. O capitão Clubin era severo, porque era sobrio. O pouco rhum e gin que o timoneiro podia subtrahir á vigilancia do capitão, punha de reserva naquelle mysterioso cantinho, no fundo de uma celha de sonda, e quasi todas as noites tinha entrevista amorosa com aquella dispensa. Era rigorosa, a vigilancia, pobre devia ser a orgia, e de ordinario os excessos nocturnos de Tangrouille limitavam-se a dous ou tres goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a dispensa estava vasia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de aguardente inesperada. Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que céos lhe cahio aquella garrafa? Não pôde lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a immediatamente. Em parte fêl-o por prudencia: tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte quando tomou a cana do leme Tangrouille tinha certa oscillação.

Todavia governou o barco quasi como nos outros dias.

Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na pousada João.

Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns vinte guinéos, e que só tirava á noite. No interior do cinto estava escripto o nome delle, escripto por elle mesmo no couro bruto com tinta lithographica, que é indelevel.

Ao levantar, antes de partir, poz no cinto a caixinha de ferro contendo os setenta e cinco mil francos em notas do banco, depois atou o cinto, como costumava, á roda do corpo.


[III]

PALESTRA INTERROMPIDA

Foi alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatoria, tal é o costume. Dous passageiros, o tourista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça por peça, e quasi fio por fio, na coberta e entreponte, todos os apparelhos maritimos, argolas, ganchos, fateixas, cylindros, que á força de precisão e justeza são uma especie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourada com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, «com uma corrente de cão de sentinella,» observou o tourista, e «coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipações» accrescentou o parisiense. Affastando-se de terra, trocaram-se as observações do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emittio o axioma de que as perspectivas do mar illudem, e que, a uma legua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunkerque. Completou-se o que havia a dizer de Dunkerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se,—um Ruyttngue e o outro Mardyck.

Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.

O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quasi sem torsão a perder de vista.

Guernesey está no centro de uma linha recta tirada de Saint-Malo em França, e Exeter em Inglaterra. A linha recta no mar nem sempre é a linha logica. Entretanto os vapores tem, até certo ponto, o poder de seguir a linha recta que não podem seguir os navios de vela.

O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de machinas. As forças são machinas infinitas, as machinas são forças limitadas. Entre os dous organismos, um inexgotavel, outro intelligente, trava-se o combate que se chama navegação.

Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Tambem o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não ha força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerario.

Emquanto se não descobre a lei, prosegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma especie de victoria perpetua que o genio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admiravel porque disciplina o navio. Diminue a obdiencia ao vento e augmenta a obdiencia ao homem.

Nunca a Durande trabalhou no mar como naquelle dia. Andava maravilhosamente.

Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Minquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e bello estava o céo. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.

A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.

Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume. A tripulação não se preoccupava com isso, era absoluta a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das onze horas, o capitão rectificou a direcção e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um bello sol de Fevereiro.

Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços firmes. Resultava dahi que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrazava a marcha.

O vento ia amainando.

O passageiro guernesiano, que tinha um oculo na mão, firmava-o de tempos a tempos para um froco de espuma coada pelo vento no extremo horisonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado em roda.

O capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de attenção.

Tudo estava calmo e quasi risonho a bordo da Durande; os passageiros conversavam.

Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo tremolo da conversa. A plena liberdade de espirito dos passageiros corresponde á perfeita tranquillidade da agua.

É impossivel, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que não fosse calmo.

—Veja aquella bonita mosca verde e encarnada.

—Perdeu-se no mar e descança no navio.

—As moscas não se cançam muito.

—Pudera! são tão leves. Carrega-as o proprio vento.

—Já se pezou uma onça de moscas, e contadas depois vio-se que eram seis mil duzentas e sessenta e oito.

O guernesiano do oculo tinha-se chegado aos maloenses mercadores de gado, e a conversa delles era pouco mais ou menos esta:

—O boi de Aubrac tom o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pello amarello. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.

—Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.

—Vi dous magnificos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nadegas largas, bom comprimento da nuca á garupa, boa altura no garrote, manejo facil, pelle boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os signaes da um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pelle branca e vermelha, alcatra cahida.

—Isso é raça da costa.

—Sim, mas com certa semelhança com o touro angus ou o touro suffolk.

—Acredite se quer, no meio-dia ha concurso de bestas.

—De bestas?

—De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são bonitas.

—Então são como as jumentas. As feias é que são boas.

—Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.

—A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.

—A belleza dos animaes não é como a belleza dos homens.

—É sobretudo das mulheres.

—Justo.

—Eu cá quero que a mulher seja bonita.

—Prefiro-a bem trajada.

—Sim, limpa, asseiada, esticadinha.

—Ares de mocidade. Uma rapariga deve parecer que sahe do joalheiro.

—Volto aos bois. Vi vender os taes bois no mercado de Thouars.

—Conheço o mercado. Os Boniau de la Rochelle, e os Babu, os mercadores de trigo de Marans, não sei se ouvio fallar delles, devem ter ido a esse mercado.

O tourista e o parisiense conversavam com o americano das Biblias; a conversação ahi era como nos outros grupos.

Dizia o tourista:

—Eis a tonellagem fluctuante do mundo civilisado; França, sete centas e dezeseis mil tonelladas; Allemanha, um milhão; Estados-Unidos, cinco milhões; Inglaterra, cinco milhões e quinhentos mil. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total; doze milhões nove centos e quatro mil tonelladas distribuidas por cento e quarenta e cinco mil navios na agua do globo.

O americano interrompeu.

—Os Estados-Unidos é que tem cinco milhões e quinhentos mil.

—Convenho, disse o tourista. O senhor é americano?

—Sim, senhor.

Houve um silencio; o americano missionario perguntou a si mesmo se era occasião de offerecer uma Biblia.

—Será verdade, continuou o tourista, que os senhores lá na America gostam tanto das alcunhas, a ponto de as pôr em todos os seus homens celebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomaz Benton, a velha barra de ouro?

—Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor, o velho Zach?

—E o general Harrison, o velho Tip? e o general Jackson o velho Hickory?

—Sim, porque Jackson é duro como pão hickory, e Harrison bateu os Pelles Vermelhas em Tippecauve.

—É um costume bysantino esse.

—É costume nosso. Chamamos Van Buren o feiticeirinho, Seward, que mandou fazer bilhetes miudos do banco, o bilhete miudo, e Douglas, o senador democrata do Illinois, que tem quatro pés de altura e uma grande eloquencia, o gigantinho. Percorra do Texas ao Maine, não encontrará ninguem que diga este nome: Cass; todos dizem: o grande Michigantier; nem este nome: Clay; dizem todos: o rapaz do moinho acutilado. Clay é filho de um moleiro.

—Eu prefiro, Clay ou Cass, observou o parisiense, é mais curto.

—Pois estaria fóra do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretario do thesouro o rapaz da carreta. Daniel Webster é o negro Dan. Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira idéa, depois de bater os inglezes em Chippeway, foi assentar-se á mesa, chamamo-lo Da-cá-um-prato-de-sopa-depressa.

Tinha-se agigantado o froco de neve. Occupava no horisonte um segmento de cerca de 15 gráos. Dissera-se uma nuvem arrastada á flôr d'agua por falta de vento. Não havia um sopro de brisa se quer. Embora fosse apenas meio dia, o sol ia empallidecendo. Allumiava, mas já não aquecia.

—Creio, disse o tourista, que o tempo vai mudar.

—Talvez haja chuva, disse o parisiense.

—Ou nevoeiro, disse o americano.

—Na Italia, continuou o tourista, o lugar em que cahe menos chuva é Molfetta, e onde cahe mais é em Tolmezzo.

Ao meio-dia, segundo o uso do archipelago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quiz. Alguns passageiros levavam comida comsigo e comeram no convez. Clubin não jantou.

Ao jantar, a palestra continuou.

O guernesiano, tendo o faro das Biblias, approximou-se do americano. O americano disse-lhe:

—Conhece este mar?

—Sem duvida, sou filho delle.

—E tambem eu, disse um dos maloenses.

O guernesiano adherio com um comprimento, e continuou:

—Agora estamos ao largo, mas não me agradava nada ter nevoeiro emquanto estavamos ao pé dos Minquiers.

O americano disse ao maloense.

—Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.

—É exacto, nós os filhos da costa, temos apenas metade do mar.

—Que cousa é essa dos Minquiers? continuou o americano.

O maloense respondeu:

—São umas pedras ruins.

—Ha tambem os Grelets, disse o guernesiano.

—Ora! disse o maloense.

—E os Chouas, accrescentou o guernesiano.

O maloense deu uma gargalhada.

—Dessa fórma, disse elle, temos tambem os Sauvages.

—E os Maine, observou o guernesiano.

—E o Canard, disse o maloense.

—O senhor tem resposta para tudo, disse o guernisiano com rapidez.

—Maloense, malicioso.

Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.

O tourista interpoz uma pergunta.

—Dar-se-ha caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores fallam?

—Qual! Deixamol-a a sudoeste. Já ficou atraz de nós.

E o guernesiano continuou:

—Entre grandes e pequenos, os Grelets têm cincoenta e sete pontas de rocha.

—E os Minquiers quarenta e oito, disse o maloense.

Aqui o dialogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.

—Parece-me, Sr. de Saint-Malo, que ha tres rochedos que o Sr. deixou de contar.

—Contei tudo.

—A Derée da Maitre-Ile?

—Sim.

—E Maisons tambem?

—Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.

—Já vejo que conhece os cachopos.

—Quem não os conhece não é de Saint-Malo.

—Causa gosto ouvir o raciocinio dos francezes.

O maloense comprimentou, e disse:

—Sauvages são tres rochedos.

—E Maines são dous.

—Canard é um.

—Basta dizer Canard; já se sabe que é um.

—Não, por que a Suarde são quatro rochedos.

—Que é a Suarde? perguntou o guernesiano.

—Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.

—Não é bom passar entre Chouas e Canard.

—Só os passaros podem passar ahi.

—E os peixes.

—Nem sempre. Quando ha máo tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.

—Ha arêa em Minquiers.

—Á roda de Maisons.

—Veem-se oito rochedos de Jersey.

—Da praia de Asette, é justo. Náo são oito, são sete.

—Nas vasantes póde-se passear entre os Minquiers.

—Sem duvida, ha espaço.

—E Dirouilles?

—Dirouilles não tem nada com Minquiers.

—Quero dizer que é perigoso.

—É do lado de Granville.

—Vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.

—Sim, disse o maloense, com a differença de que nós dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem: gostamos.

—São bons marinheiros os senhores.

—Eu sou mercador de gado.

—Quem é que foi tambem de Saint-Malo?

—Surcouf.

—Não, outro.

—Duguay-Trouin.

Aqui o viajante parisiense interrompeu.

—Duguay-Trouin? foi apanhado pelos inglezes. Era tão amavel quão valente. Agradou a uma joven ingleza. Foi ella quem lhe quebrou os ferros.

Neste momento uma voz tremenda gritou:

—Estás bebado!


[IV]

MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN

Voltaram-se todos.

Era o capitão Clubin que interpellava o timoneiro.

O Sr. Clubin não tratava ninguem por tú. Para que elle atirasse a Tangrouille semelhante apostrophe, era preciso que estivesse colerico ou quizesse mostrar-se assim.

Uma expressão de colera, vindo a proposito, demitte a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.

O capitão, de pé no lugar do commando, entre as caixas, das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetio entre dentes: Beberrão! O honesto Tangrouille abaixou a cabeça.

Desenvolvia-se o nevoeiro. Já occupava metade do horisonte. Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia elle apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ella pela prôa. Era um vasto penedio movediço e vago. Cortava-se no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a agua immensa entrava por baixo do nevoeiro e desapparecia.

Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia legua de distancia. Se o vento mudasse, podia-se evitar a immersão na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia legua de intervallo enchia-se e diminuia a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro tambem. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.

Clubin mandou augmentar o vapor e obliquar a leste.

Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas elle avançava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.

Perdia-se o tempo naquellas manobras que difficilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em Fevereiro.

O guernesiano comtemplava a bruma. Disse aos maloenses:

—É atrevido este nevoeiro.

—Desaceio do mar, observou um dos maloenses.

O outro accrescentou:

—Isto atraza a viagem.

O guernesiano aproximou-se de Clubin.

—Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.

Clubin respondeu:

—Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.

—Quem?

—Veteranos do mar.

—Fez bem em partir, continuou o guernesiano. Quem sabe senão haverá tempestade amanhã? Nesta estação espera-se o peior.

Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.

Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na pôpa ficou de repente sem ver a gente que ia na prôa. Tenue tabique cinzento cortou o navio ao meio.

Depois todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Subito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quasi sem uma dobra, tinha a fria ameaça da tranquillidade. Parece que ha conluio neste excesso da calma. Tudo estava pallido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.

A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo sobre Guernesey e augmentou o vapor.

O passageiro guernesiano, andando á roda da machina, ouvio o negro Imbrancam que fallava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:

—Quando havia sol iamos devagar; agora que ha nevoeiro, vamos depressa.

O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.

—Capitão Clubin, não ha cuidado; mas não acha que vamos depressa demais?

—Que quer senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquelle bebado.

—É verdade, capitão Clubin.

E Clubin accrescentou.

—Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite ficariamos aceiados.

O guernesiano foi ter com os maloenses e disse-lhes:

—Temos um excellente capitão.

De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapparecia mais pallido, e como que enfermo. O pouco céo que se via assemelhava-se ás fachas de ar sujas e manchadas de uma velha decoração de theatro.

A Durande passou junto de um cuter que tinha ancorado por prudencia. Era o Shealtiel, de Guernesey. O patrão do cuter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exacto; affigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquelle navio, andando a todo o vapor no meio do novoeiro, o homem pasmou.

Pelas duas horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiára; tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma especie de escuridão branca. Navegava-se na pallidez diffusa. Já se não via nem o céo nem o mar.

Não ventava.

A ancoreta da therebentina suspensa em uma argola ao pé da caixa das rodas já não tinha oscillação.

Os passageiros tornaram-se silenciosos.

Comtudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de Béranger Un jour le bon Dieu s'éveillant.

Um dos maloenses dirigio-lhe a palavra.

—O senhor vem de Paris?

—Sim senhor. II mit la tête à la fenêtre.

—Que se faz por lá?

Leur planète a péri peut-être. Lá em Paris tudo anda mal.

—Então é tanto lá em terra como aqui no mar.

—Realmente, este nevoeiro é o diabo.

—E póde causar desgraças.

O parisiense exclamou:

—Mas, porque desgraças! a proposito de que? de que servem desgraças? É o caso do incendio do Odeon! Ficou uma porção de familias reduzidas á miseria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou contente.

—Nem eu, disse o maloense.

—Tudo o que se passa neste mundo, continuou o parisiense, parece um desconcerto. Creio que Deos não entra nisto.

O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura comprehender. O parisiense continuou.

—Deos está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obriga-lo a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa comnosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que Deos já não está no governo, está em ferias, e é o vigario, algum anjo seminarista, algum bocio com azas de pardal, quem dirige os negocios.

O capitão Clubin, que se aproximara, pôz a mão no hombro do parisiense.

—Silencio, disse elle. Cuidado nas palavras. Estamos no mar.

Ninguem mais fallou.

No fim de cinco minutos, o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes.

—É um capitão religioso.

Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o navio descrevia por uma especie de máo-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emmudece o oceano, adormenta a vaga e supita o vento. Naquelle silencio, o rumor da Durande tinha um não sei que de inquieto e lamentoso.

Já se não encontravem navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fóra do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visivel, e a sua longa fumaça, presa a cousa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céo branco.

De repente Clubin exclamou:

—Com seiscentos! estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco! Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bebado!

E tomou a canna do leme.

O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da prôa.

Disse o guernesiano:

—Estamos salvos.

A marcha continuou rapida.

Pelas tres horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e vio-se o mar.

—Máo! disse o guernesiano.

Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol é bom signal; quando é o vento, não é tão bom signal. Era tarde já para ser o sol. Ás tres horas, em Fevereiro, o sol está fraco. Não era cousa desejavel a volta do vento naquella situação critica. Muitas vezes annuncia o furacão.

Verdade seja, que, se havia brisa, mal se sentia.

Clubin, com o olhar na bitacula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos:

—Não ha tempo a perder. Aquelle bebado demorou a viagem.

O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.

O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas. Luzes geladas fluctuavam na agua. Essas placas de clarão nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cahir mais densa. As vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquelle circulo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horisonte, e fechava-se depois.

O guernesiano, armado de um oculo, estava como uma vedeta, na frente do navio.

Clareou, depois escureceu outra vez.

O guernesiano voltou-se assustado:

—Capitão Clubin!

—Que é?

—Vamos direito aos cachopos de Hanois.

—É engano, disse Clubin friamente.

O guernesiano insistio:

—Estou certo.

—Impossivel.

—Vi uma pedra no horisonte.

—Onde?

—Alli?

—É ao largo. Impossivel.

E Clubin continuou a pôr o navio no ponto indicado pelo passageiro.

O guernesiano travou do oculo.

Minutos depois correu para o capitão.

—Capitão!

—Que é?

—Vire de bordo.

—Por que?

—Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.

—Ha de ser algum nevoeiro mais escuro.

—É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céo!

Clubin deu uma volta á canna do leme.


[V]

CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CUMULO

Ouvio-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lugubres que se póde imaginar. A Durande parou.

Com o choque muitos passageiros cahiram e rolaram no tombadilho.

O guernesiano levantou as mãos para o céo.

—Nos Hanois! eu bem dizia!

Longo grito soou no navio.

—Estamos perdidos.

A voz de Clubin, secca e breve, dominou o grito.

—Ninguem está perdido! E silencio!

O corpo negro de Imbrancam, nú até a cintura, sahio do espaço da machina.

O negro disse com calma:

—Capitão, a agua está entrando. A machina vai apagar-se.

Terrivel foi o momento.

O choque assemelhava-se a um suicidio. Se fosse de proposito não seria mais terrivel. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma pontada rocha penetrou no navio como um prego. Mais de uma toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de prôa, fracassou a quilha, partio-se o gurupés, o casco aberto bebia agua aos borbotões. Era uma chaga por onde entrava o naufragio. A reacção foi tão violenta que quebrou na pôpa a caixa do leme que ficou solto e oscillante. O cachopo arrancara o fundo, e á roda do navio, não se via nada, além do nevoeiro espesso e compacto e agora quasi negro. Chegava a noite.

A Durande mergulhava pela prôa. Era o cavallo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.

Sentia-se no mar a hora da maré.

Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguem fica bebado em um naufragio; desceu abaixo, subio e disse:

—Capitão, a agua enche o porão. Dentro de dez minutos está nos embornaes.

Os passageiros corriam no tombadilho fóra de si, torcendo os braços, inclinando-se na amurada, olhando para a machina, fazendo todos os movimentos inuteis do terror. O tourista desmaiou.

Clubin fez um signal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam:

—Quanto tempo pode a machina trabalhar ainda?

—Cinco ou seis minutos.

Depois interrogou o passageiro guernesiano:

—Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos nós?

—Na Mauve. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.

—Sendo a Mauve, continuou Clubin, temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a uma milha de terra.

A equipagem e os passageiros escutavam, tremulos de anciedade e de attenção, com os olhos fixos no capitão.

Allijar o navio era inutil, e demais, impossivel. Para pôr a carga ao mar, era preciso abrir as portinholas e augmentar as probabilidades de entrar agua. Atirar a ancora era inutil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava avariada a machina, e continuando á disposição do navio emquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns minutos, podia-se á força de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo immediatamente. O rochedo até certo ponto tapava o rombo e tolhia a passagem da agua. Servia de obstaculo. Desobstruida a abertura, seria impossivel impedir a entrada da agua. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido. Sahir do cachopo era ir ao fundo.

Os bois, atacados pela agua, começavam a mugir.

Clubin ordenou.

—A chalupa ao mar.

Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulação olhava petrificado.

—Todos á obra, gritou Clubin.

Desta vez obdeceram todos.

Clubiu, impassivel, continuou a dar ordens, naquella velha lingua do mar, que os marinheiros de hoje não comprehenderiam.

A chalupa estava no mar.

No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de agua.

Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enxarcias, deixavam-se antes cahir que descer na chalupa. Imbrancam apanhou o tourista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subio ao navio.

Os marinheiros atiravam-se apoz os passageiros. O grumete rolou; elles pisavam o rapaz.

—Ninguem antes do moço, disse elle.

Afastou com os braços negros os marinheiros, apanhou o grumete, e estendeu-o ao passageiro guernesiano, que, de pé na chalupa, recebeu o rapaz.

O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse:

—Passem.

Entretanto, o Sr. Clubin, foi ao seu camarote e fez um embrulho dos papeis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bussola da bitacula. Entregou os papeis e os instrumentos a Imbrancam e a bussola a Tangrouille, e disse-lhes:

—Desçam á chalupa.

Elles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quasi rasa.

—Agora, disse Clubin, vão embora.

—E o senhor, capitão?

—Fico.

As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de internecer-se. Entretanto os que estavam na chalupa, e relativamente com segurança, tiveram uma commoção que não era por elles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo.

—Venha comnosco, capitão.

—Fico.

O guernesiano, que conhecia o mar, replicou:

—Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado ha apenas uma milha até Plainmont. Mas na chalupa só se póde abordar na Roquaine, e são duas milhas. Ha cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega á Roquaine antes de duas horas. Não tarda a anoitecer. Enchendo á maré refresca o vento. Está proxima a borrasca. É nosso desejo vir buscal-o depois, mas se romper o temporal, não será possivel. Se fica está perdido. Venha.

O parisiense interveio:

—A chalupa está cheia, e cheia de mais, é verdade, e um homem de mais seria ainda peior. Mas nós somos treze, é máo numero para a barça, e é melhor sobrecarregal-a de um homem que de um algarismo.

Trangouille accrescentou:

—A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.

—Fico, disse Clubin. O navio será despedaçado pela tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão. Dir-se-ha de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.

E crusando os braços gritou:

—Attenção ás ordens. Larguem a banda da amarra. Partam!

Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: Hourrah para o capitão Clubin!

—Eis um homem admiravel, disse o americano.

—É o mais honrado homem do mar, respondeu o guernesiano.

Trangouille chorava.

—Eu devia ter ficado com elle.

A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desappareceu.

Não se vio mais nada.

O rumor dos remos diminuio e perdeu-se.

Clubin estava só.


[VI]

ALLUMIA-SE O INTERIOR DE UM ABISMO

Quando aquelle homem achou-se naquelle rochedo, debaixo daquella nuvem, no meio daquella agua, longe do contacto humano, deixado por morto, sósinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo jubilo.

Alcançara o que queria.

Realisara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo praso que elle saccou sobre o destino.

Para elle, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a uma milha de terra; tinha setenta e cinco mil francos. Nunca se realisou mais acertado naufragio. Nada falhou; é verdade que tudo estava previsto. Desde a juventude Clubin teve uma idéa; fazer da honestidade uma parada no jogo da roulette da vida, passar por homem probo, e partir dahi, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atraz os papalvos. Assentava que devia alcançar de uma vez aquillo que os larapios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, emquanto estes vão ter á forca, elle iria á fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construio immediatamente o plano: obrigar Rantaine á restituição; quanto ás suas revelações possiveis, annulal-as desapparecendo; passar por morto, que é a melhor desapparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufragio era necessario. Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua existencia uma obra prima. Quem podesse ver Clubin naquelle naufragio acreditaria ver um demonio feliz.

Viveu toda a sua vida naquelle minuto.

Toda a sua pessoa exprimia esta palavra; Emfim! Tremenda serenidade empallideceu aquella fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quaes parecia haver um tabique, tornou-se profundo e terrivel. O abrasamento interno daquella alma reverberou-se nelles.

O foro intimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elastica. Uma idéa é um meteóro; no momento do triumpho, entreabrem-se as meditações acumuladas que o preparam, e jorra uma faisca; ter em si uma garra do mal, e sentir nella uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; máo pensamento que triumpha illumina o rosto daquelle que o concebeu; certas combinações triumphantes, certos desejos realisados, certas felicidades ferozes, fazem apparecer e desapparecer nos olhos dos homens, lugubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sahe da consciencia, que se faz sombria e ennevoada.

Foi esse fulgor que illuminou aquelles olhos.

Relampago que não se parecia com cousa alguma do que se póde ver no céo e na terra.

O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.

Clubin fitou a immensa obscuridade, e não pôde reter uma gargalhada baixa e sinistra.

Estava livre! estava rico!

Achara a incognita. Resolvera o problema.

Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte sustentava a Durande, e afinal devia pol-a a nado. Mas o navio adheria solidamente ao rochedo; não havia perigo de sossobrar. Além disso, era preciso deixar á chalupa o tempo de affastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.

De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquelle abandono nas trevas.

A hypocrisia pesou áquelle homem durante trinta annos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um odio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera homem, trazia aquella armadura rigida, a apparencia. Era monstro internamente; vivia em uma pelle de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade; estava fechado naquelle caixão de mumia, a innocencia; tinha nas costas azas de anjo, esmagadoras para um velhaco. Pesava-lhe de mais a estima publica. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilibrio, pensar mal e fallar bem, que labutação! Clubin era o phantasma da rectidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino delle. Era-lhe preciso mostrar ares apresentaveis, escumar por baixo do nivel, sorrir em vez de ranger. A virtude para elle, era cousa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquella mão que lhe tapava a boca.

E querendo mordel-a, foi obrigado a beijal-a.

Ter mentido, é ter soffrido. O hypocrita é um paciente na dupla accepção de palavra; calcula um triumpho e soffre um supplicio. A premeditação indefinida de uma acção ruim acompanhada por dóses de austeridade, a infamia interior temperada de excellente reputação, enganar continuadamente, não ser jámais quem é, fazer illusão, é uma fadiga. Compôr a candura com todos os elementos negros que trabalham no cerebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compôr o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma belleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cocegas com o punhal, pôr assucar no veneno, velar na franqueza do gesto e na musica da voz, não ter o proprio olhar, nada mais difficil, nada mais doloroso. O odioso da hypocrisia começa obscuramente no hypocrita. Causa nauseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astucia disfarça a malvadeza repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e ha momentos de enjôo em que o hypocrita vomita quasi o seu pensamento. Engulir essa saliva é cousa horrivel. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hypocrita se estima. Ha um eu desmedido ao impostor. O verme resvala como o dragão e como elle retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um despota tolhido que não póde fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hypocrita é um titão-anão.

Clubin imaginava de boa fé que tinha sido opprimido. Porque razão não nascèra rico? O que elle queria era que os paes lhe houvessem deixado cem mil libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa delle. Porque motivo, não lhe dando todos os gosos da vida, forçaram-n'o a trabalhar, isto é, a enganar, a trahir, a destruir? Porque motivo condemnaram-n'o assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não ere delle? Dissimular é uma violencia imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soára emfim a hora. Clubin vingava-se.

De quem? De todos e de tudo.

Lethierry não lhe fez senão bem: queixa de mais; vingava-se de Lethierry.

Vingava-se de todos aquelles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem delle, era seu inimigo, porque elle foi captivo desse homem.

Clubin achava-se livre. Realisára-se a fuga. Estava fóra dos homens. O que se tinha por morte, era vida; elle ia começar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry á ruina, a justiça humana ás trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.

Quanto a Deos, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.

Passou como religioso. Que importa?

Ha cavernas no hypocrita ou antes, o hypocrita é uma caverna.

Quando Clubin ficou só, abrio-se-lhe o antro. Teve um instante de delicias; arejou a alma.

Respirou largamente o seu crime.

O fundo do mal tornou-se visivel naquelle rosto. Clubin abrio-se. Nesse momento, o olhar de Rantaine ao pé daquelles olhos pareceria um olhar de recem-nado.

Arrancar a mascara, que livramento! A consciencia de Clubin alegrou-se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignobil no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gosto violento á impudencia. Chega-se a uma certa lascivia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas moraes tão pouco sondadas, uma não sei que ostentação atroz e agradavel que é a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá appetite de vergonha. Desdenha-se os homens a ponto tal que se deseja o despreso delles. Ser estimado, aborrece. Admira-se a franquesa da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gosto na ignominia. Os olhos obrigados a baixar-se, tem muitas vezes destes olhares obliquos. Nada se approxima tanto de Messalina como Maria Alacope. Vede Capiere e a religiosa de Louviers.

Clubin vivera debaixo do véo. O descaramento foi sempre a sua ambição. Invejava a mulher publica e a fronte de bronze do opprobrio aceito; sentia-se mais mulher publica do que ella e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tantalo do cynismo. Emfim naquella solidão, podia ser franco; era-o. Que volupia não é sentir-se sinceramente abominavel! Todos os extasis possiveis no inferno, teve-os Clubin naquelle momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hypocrisia é um adiantamento; Satanaz embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento, pois que os homens tinham desapparecido e apenas ficara o céo. Disse comsigo: Sou um picaro! e ficou satisfeito.

Jamais houve cousa igual em uma consciencia humana.

Erupção de um hypocrita, não ha rompimento de cratera igual a esse.

Achava-se feliz por não haver ali ninguem, e não desgostaria que alguem o visse. Teria prazer em ser medonho á vista de uma testemunha.

Teria prazer em dizer ao espirito humano: és idiota!

A ausencia de homens assegurava-lhe o triunpho, mas diminuia-o.

Só elle era o espectador da sua gloria.

Ha certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.

Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé, sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o despota de todos os olhares que elle obriga a voltarem-se para si. Aquelle cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais bello triumpho do que esse de ficar no centro de convergencia para a attenção geral? Obrigar o olhar publico é uma das formas da supremacia. Os que tem o mal por ideal acham no opprobrio uma auréola. Domina-se dahi. Olha-se de cima de alguma cousa. Mostra-se com soberania. Um poste, á vista de todo o universo, tem alguma analogia com um throno.

Estar exposto, é ser contemplado.

Um máo reinado tem evidentemente jubilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luiz XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicoláu assassinando a Polonia em face da civilisação, deviam sentir um pouco daquella volupia sonhada por Clubin. A immensidade do despreso parece grandesa ao despresado.

Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma victoria. É a ebridade, é a impudencia insolente e satisfeita, é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.

Estas ideas em um hypocrita parecem contradição, e não são. Toda a infamia é consequente. O mel é fel. Escobar confina no marquez de Sade. Prova: Leotade. O hypocrita, sendo o perverso completo, tem em si os dous polos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortezão. O seu sexo de demonio é duplo. O hypocrita é o horrivel hermaphrodita do mal. Fecunda-se a si proprio; gera-se, transforma-se. Queres vel-o formoso? olha-o; queres vel-o horrivel? vira-o.

Clubin tinha em si toda esta sombra de idéas confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.

Uma porção de faiscas do inferno attravessando a noite, era a successão dos pensamentos naquella alma.

Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pelle que despio.

Toda a gente acreditou naquella honestidade, elle proprio acreditou um bocadinho nella.

Deu segunda gargalhada.

Iam pensar que elle estava morto, e estava vivo. Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçoada á tolice universal!

E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdem sem limites. Desdem da fuinha para com o tigre. Tinha conseguido o que falhára a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triumphante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua má acção, e foi elle quem teve a boa fortuna.

Quanto ao fucturo, Clubin não tinha plano. Possuia os bilhetes do banco na boceta de ferro atada á cintura; bastava-lhe esta certeza. Mudaria de nome. Ha paizes onde sessenta mil francos valem seiscentos mil. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negocio, engrossar o capital, tornar-se seriamente millionario, também não era máo.

Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande commercio do café, podia ganhar toneis de ouro. Veria isso.

Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas cousas. O mais difficil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstaculo possivel. Nada de temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria á casa mal assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e viveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas de Hespanha, Blasquito provavelmente; por alguns guineos, far-se-hia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para illudir, mas a Pasages ou a Bilbáo. Dahi iria a Vera-Cruz ou a Nova-Orleans. Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era cousa nenhuma para Clubin, só uma milha o separava de terra, pois que estava no Hanois.

Neste ponto dos seus calculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro. O formidavel rochedo Douvres surgio aos seus olhos.


[VII]

INTERVEM O INESPERADO

Clubin olhou espantado.

Era o medonho escolho isolado.

Não era possivel a illusão a respeito daquella configuração disforme. As duas Douvres gemeas campeavam horriveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que fallámos. Dissera-se um quebra-costas do oceano.

Estavam perto delle as rochas Douvres; o nevoeiro, como cumplice, escondera-as.

Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apezar de toda a attenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dous grandes navegadores, a Gonzalez que descobrio o Cabo Branco, e a Fernandez que descobrio o Cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excellente para a execução do projecto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

A Durande arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das duas Douvres apenas por algumas centenas de braças.

A duzentas braças mais longe via-se um massiço cubo de granito. Descobria-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgal-a.

Os cantos rectilinios dessas rudes muralhas de angulo recto faziam presentir no cume uma planura.

Era o Homem.

A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessiveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade architectural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranquillas toalhas, nas faces quadradas daquelle enorme rochedo negro, especie de pedestal para os espectros immensos do mar e da noite.

Tudo aquillo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquella superficie muda da agua advinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.

Convenceu-se bem que era ali as Douvres.

Não podia duvidar.

Subita e terrivel mudança. As Douvres em vez dos Hanois. Em vez de uma milha, cinco leguas do mar! o impossivel. A rocha Douvres, para o naufrago solitario, é a presença, visivel e palpavel dos ultimos momentos. É impossivel chegar á terra.

Clubin estremeceu. Tinha se mettido no goela da sombra. Não havia outro refugio além do rochedo Homem. Era provavel que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa de Durande sobrecarregada sossobrasse. Nenhum aviso do naufragio chegaria a terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus setenta e cinco mil francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto elle construira deu em resultado aquella cilada; foi elle proprio o architecto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possivel. O triumpho fazia-se precipicio. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro prospero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edificio. O paraizo sonhado por aquelle demonio retomou a sua verdadeira figura; o sepulchro.

Entretanto soprava o vento. O nevoeiro, saccudido, furado, repuxado, desfazia-se no horisonte em grandes lanhos informes. Reappareceu o mar.

Os bois cada vez mais invadidos pela agua, continuavam a berrar no porão.

Approximava-se a noite; provavelmente a tempestade.

A Durande a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, degois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio, e o levaria agua abaixo.

Havia menos obscuridade do que no momento do naufragio. Apezar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou comsigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepusculo é um vasto céo branco. Essa vasta claridade allumiava o mar.

A Durande naufragara em plano inclinado de pôpa a prôa. Clubin trepou á prôa que estava quasi fóra da agua. Fitou no horisonte os olhos.

É proprio da hypocrisia ater-se á esperança. O hypocrita é o homem que espera. A hypocrisia é uma esperança horrivel: o fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.

Cousa estranha de dizer, ha confiança na hypocrisia. O hypocrita confia-se a certa indifferença do desconhecido, que consente no mal.

Clubin olhava para a extensão.

A situação era desesperada: aquella alma sinistra não desesperou.

Dizia comsigo que depois daquelle longo nevoeiro os navios conservados na bruma, á capa ou ancorados; iam continuar viagem, e algum passaria no horisonte.

E com effeito appareceu uma véla.

Vinha de leste e ia para oeste.

Appoximando-se desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quasi horisontal.

Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.

Clubiu disse comsigo: estou salvo.

Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.

O cuter era quasi estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não sómente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, appressando a conclusão, supprimindo a espera na casa mal assombrada, dando desfecho á aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.

Toda a certeza do bom exito entrou freneticamente naquelle espirito sombrio.

Extranha cousa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem succedidos.

Cumpria fazer apenas uma cousa.

A Durande, mettida nos rochedos, misturava a sua configuração á delles; confundia-se com os seus recortes, sobre os quaes parecia apenas um lineamento, ficava indistincta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para attrahir a attenção da embarcação que ia passar.

Mas uma figura humana desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo signaes de perigo, seria vista, sem duvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o naufrago.

O rochedo Homem ficava a duzentas braças. Era simples attingil-o a nado, facil trepar por elle.

Não havia tempo a perder.

Estando a prôa da Durande sobre a rocha, era do alto da pôpa e do ponto em que estava, que Clubin devia atirar-se ao mar.

Começou por deitar um sonda, e reconheceu que havia ao pé da pôpa muito fundo. As conchas microscopicas de foraminiferos e de polydistineas que a sonda trouxe comsigo estavam intactas, o que indicava que havia alli profundas cavas de rocha, onde a agua, qualquer que fosse a agitação da superficie, era sempre tranquilla.

Despio-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cuter.

Conservou apenas o cinto de couro.

Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direcção que devia seguir no meio dos parceis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.

Como cahio de alto mergulhou muito.

Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinhas, depois fez um movimento para subir á superficie.

Nesse momento sentio-se aggarrado pelo pé.


[LIVRO SETIMO]

Imprudencia de interrogar um livro


[I]

A PEROLA NO FUNDO DO PRECIPICIO

Minutos depois do curto colloquio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.

Gilliatt ia inquieto até á anciedade. Que teria acontecido?

Saint-Sampson tinha um rumor de colmêa assustada. Toda a gente estava ás portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma cousa, fazendo gestos; as outras agrupavam-se á roda dessas. Ouviam-se estas palavras: que desgraça! Alguns sorriam.

Gilliatt não interrogou ninguem. Não era proprio delle fazer perguntas. Demais, ia demasiado commovido para fallar a indifferentes. Desconfiava das narrações, preferia saber logo tudo; foi á casa de Lethierry.

A sua anciedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquella casa.

Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; elle entrou.

Entrando, achou encostado á porta o Sr. Landoys que lhe disse a meia voz:

—Então, já sabe do successo?

—Não.

—Eu não quiz dizer-lh'o ha pouco do meio da rua. Pareceria correio de desgraças.

—Que foi então?

—Perdeu-se a Durande.

Havia muita gente na sala.

Os grupos fallavam baixo, como no quarto de um doente.

Os assistentes, que eram os visinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao pé da porta, com uma especie de receio, e deixavam vasio o fundo da sala onde estava, ao lado de Deruchette lacrimosa e assentada, mess Lethierry de pé.

Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O bonet de marujo cahia-lhe nas sombrancelhas; uma mecha de cabellos grisalhos prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços não tinham movimento, a boca parecia não ter alento. Parecia uma cousa encostada á parede.

Ao vê-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha razão de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer. Que faria elle agora? Levantar-se de manhã, deitar-se de noite. Já não podia esperar a Durande, nem vê-la partir, nem voltar. O que é um resto de existencia sem objecto? Beber, comer, e depois? Aquelle homem tinha corôado os seus trabalhos com uma obra prima, e as dedicações com um progresso. Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra prima. Para que viver ainda alguns annos vasios? Não tinha mais nada que fazer. Naquella idade não é possivel recomeçar; de mais a mais estava arruinado. Pobre velho!

Deruchette, assentada ao pé delle, e chorando, tinha entre as suas duas mãos a mão de mess Lethierry. As della estavam postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a differença daquelles dous abatimentos. As mãos postas ainda tem esperança: a apertada, nenhuma.

Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistencia. Estava passivo. Tinha em si apenas aquella porção de vida que póde haver depois do raio.

Ha certas descidas ao fundo do abysmo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e indistinctas; acotovelam-n'o e não lhe chegam. De parte a parte ficam inacessiveis. A ventura e o desespero não são os mesmos centros respiraveis; o desesperado assiste á vida dos outros, mas de muito longe; ignora quasi a sua presença; perde o sentimento da propria existencia; que importa ser de carne e osso, o desesperado já se não sente real; já não é elle proprio, é apenas um sonho.

Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.

Cochichavam os grupos.

Cada qual dizia o que sabia.

Eis as noticias:

A Durande perdera-se na vespera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do pôr do sol. Á excepção do capitão, que não quiz deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma borrasca, vinda do sudueste, depois do nevoeiro, quasi fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo além de Guernesey. De noite tiveram os naufragos a boa fortuna de encontrar o Cashmere, que os recolheu elevou a Saint-Pierre Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnanimo.

Os pilotos que abundavam nos grupos, pronunciavam estas palavras escolho Douvres, de um modo particular.—Má hospedaria aquella! dizia um delles.

Via-se na mesa uma bussola e um masso de registros e notas; eram sem duvida a bussola de Durande e os papeis de bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magnifica abnegação desse homem, salvando até os papeis no momento em que ia morrer; minuciasinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si proprio.

Todos eram unanimes em admirar Clubin, e igualmente unanimes em julga-lo salvo. O cuter Shealtiel chegára poucas horas depois do Cashmere, e esse cuter trazia as ultimas informações. Esteve vinte o quatro horas nas mesmas aguas da Durande. Parou e bordejou durante o nevoeiro e a tempestade. O patrão do Shealtiel estava tambem na sala do Lethierry.

No momento em que Gilliatt entrou, acabava elle de fazer a sua narração a mess Lethierry. Era um verdadeiro relatorio. De manhã, tendo cessado a borrasca o acalmado o vento, o patrão do Shealtiel ouvio mugido de bois em pleno mar. Este rumor proprio das campinas, ouvido alli nas vagas, surprendeu o patrão. Descobrio a Durande nos rochedos Douvres. A calma era sufficiente para que elle podesse acercar-se dos rochedos. Chamou o navio á falla. Só lhe respondeu o mugido dos bois que se afogavam no porão. O patrão do Shealtiel estava certo de que não havia ninguem á bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais violenta que fosse a borrasca; devia ter passado a noite á bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava á bordo, logo estava salvo.

Muitos sloops e lugars de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fóra de duvida que deviam ter costeado as Douvres. Evidentemente algum delles recolheu o capitão Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um homem poderia fazel-a sossobrar, e foi isso sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande: mas, cumprido esse dever, se apparecesse um navio salvador, Clubin, não teria difficuldade de aproveitar-se delle. Deve-se ser heróe, não se deve ser pascacio. Um suicidio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portára-se com dignidade. O culpado era Tangrouille, não Clubin. Tudo isto era consequente; o patrão do Shealtiel tinha razão, e toda a gente esperava vêr Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebel-o em triumpho.

Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.

Quanto a Durande estava decidido que a catastrophe era irremediavel. O patrão do Shealtiel assistira á ultima phase do naufragio. O grandissimo rochedo em que naufragara a Durande, resistira ao choque da tempestade, como se quizesse guardar comsigo o navio; mas de manhã, no momento em que o Shealtiel, verificando que não havia ninguem para salvar affastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os ultimos arrancos da colera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a rectidão de uma flexa disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouvio-se um estalo «diabolico» dizia o patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, metteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou ahi deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.

A Durande, no dizer da equipagem do Shealtiel já estava quasi toda despedaçada. Teria sossobrado, com certeza, de noite, se o cachopo não a sustivesse. O patrão do Shealtiel com o seu oculo estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão maritima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes dos ovens quasi todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente possivel desde o meio do mastro até acima; o lugar dos viveres arrombado, os cavaletes da chalupa destruidos, a arvore do leme rôta, os cabos despregados, os pavezes arrasados, as abitas levadas pelo vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação frenetica da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de prôa, já não existia, não havia noticia delle, completamente limpo, levaram-n'o os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava deslocada; a agua começava agora a sargal-a. Dentro de alguns dias nada mais restaria della.

E comtudo a machina, cousa notavel, e que provava a sua perfeição, soffreu pouco com a tempestade. O patrão do Shealtiel affirmava que a manivella não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da machina resistio. Os baluartes de ferro do lugar do com mando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas soffreram, mas as rodas pareciam não ter um só raio de menos. A machina estava intacta. Era a convicção do patrão do Shealtiel. O machinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquelle negro, mais intelligente que muitos brancos, era o admirador da machina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: meu amo, a machina está viva.

O salvamento de Clubin parecia cousa segura; o casco da Durande estava sacrificado; a conversação dos grupos recahio sobre a machina. Interessavam-se por ella, como se fosse uma pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da machina.—Solida comadre aquella, dizia um marinheiro francez.—É magnifica! exclamava um pescador guernesiano.—Deve ter sido muito astuciosa, accrescentava o patrão, para escapar apenas com alguns arranhões.

A pouco e pouco tornou-se a machina a preoccupação unica. Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cuter de vela, e esperava apanhar a freguezia da Durande, alegrou-se por vêr o escolho Douvres fazer justiça á nova invenção. O cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era com tudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do silencio sepulcral de Lethierry.

Do colloquio havido em todos os pontos resultava isto:

A machina era o essencial. Refazer o navio era possivel, não a machina. Era unica. Para fabricar outra faltava o dinheiro e o fabricante. Lembram-se que o constructor tinha morrido. Custou quarenta mil francos. Ninguem arriscaria agora aquelle capital naquella eventualidade; tanto mais quando acabava de provar-se que os vapores naufragam como navios de vela; o accidente actual da Durande mettia á pique o seu passado succedimento. E era doloroso pensar que naquelle momento a machina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Emquanto existia a machina, podia dizer-se que não havia naufragio. Só a perda da machina era irremediavel. Salvar a machina era reparar o desastre.

Salvar a machina, é facil dizel-o. Mas quem ousaria? era acaso possivel? Fazer e executar, são cousas differentes, e a prova é que é facil formular uma aspiração e difficil executal-a. Ora, se houve jámais um sonho impraticavel e insensato era este; salvar a machina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquellas rochas um navio e uma equipagem seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação dos temporaes: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nos pontos submarinhos e o navio despedaçava-se. Era mandar um naufragio em soccorro do primeiro. Na especie de buraco da planura superior onde se abrigára o naufrago legendario morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso pois que, para salvar essa machina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, só naquelle mar, só naquelle deserto, só a cinco leguas da costa, naquelle medo, só durante semanas inteiras, só diante do previsto e do imprevisto, sem vitualhas nas angustias da privação, sem soccorro nos incidentes da desgraça, sem outro vestigio humano que o do antigo naufrago morto alli, sem outro companheiro além daquelle finado.

E como salvaria elle a machina? Era preciso que fosse, não sómente marujo, senão tambem ferreiro. E quantas difficuldades! O homem que o tentasse seria mais que um heróe. Seria um louco. Porquanto, em certos commettimentos desproporcionados, onde parece necessario o sobrehumano, a bravura tem acima de si a demencia. E com effeito, sacrificar-se por um pouco de ferro não era estravagante? Não, ninguem iria aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar á machina do mesmo modo que ao navio. O salvador que era preciso não apparecia. Onde encontrar esse homem?

Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquella multidão.

O patrão do Shealtiel que era um antigo piloto, resumio o pensamento de todos, exclamando em alta voz:

—Não! está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a machina!

—Se eu não vou, disse Imbrancam, é que é impossivel ir.

O patrão do Shealtiel sacudio a mão esquerda com aquelle arrebatamento que exprime a convicção do impossivel, e repetio:

—Se existisse...

Deruchette voltou a cabeça.

—Casava-me com elle.

Houve um silencio.

Um homem pallido sahio do meio dos grupos e disse:

—A senhora casava-se com elle, miss Deruchette?

Era Gilliatt.

Entretanto todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endireitou-se. Tinha nos olhos uma luz estranha.

Tirou o boné e lançou-o ao chão, depois olhou solemnemente para a frente sem vêr pessoa alguma e disse:

—Deruchette casava-se com esse homem. Dou a minha palavra de honra a Deos.


[II]

GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE

A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de luar. Todavia, qualquer que fosse a boa apparencia da noite, do vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sahir nem de Hongue la Perre, nem do Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port Grat, nem da bahia Vason, nem de Perrelle Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da bahia dos Santos, nem de Petit Bô, nem de nenhum outro porto ou angra de Guernesey. E isto por uma razão simples; o gallo tinha cantado ao meio dia.

Quando o gallo canta a uma hora extraordinaria não ha peixe.

Nesse dia, pois, ao cahir da tarde, um pescador que voltava a Omptolle teve uma sorpreza. Na altura de Houmet Paradis, além de Brayges e Gunes, tendo á esquerda a balisa de Plattes Fougères, que representa um funil virado, e á direita a balisa de Saint-Sampson, que representa uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira balisa. Que balisa era essa? quando foi posta alli? que banco indicava ella? A balisa respondeu logo a estas interrogações; mexeu-se; era um mastro. Não diminui o o espanto do pescador. Balisa era para admirar; mastro ainda mais. Não havia pesca possivel. Quando todos voltavam, porque sahia aquelle? Quem era? porque?

Dez minutos depois, o mastro caminhando lentamente, chegou a pouca distancia do pescador de Omptolle. Este não pôde reconhecer o barco. Ouvio remar. O ruido era de dous remos. Provavelmente era um homem só. O vento era norte; o homem navegava evidentemente para ir tomar o vento além da ponta Fontenelle. Ahi era natural que abrisse a vela. Contava pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquillo?

O mastro passou; o pescador foi para terra.

Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores de occasião, disseminados e isolados fizeram alguns reparos a horas diversas e em diversos pontos.

O pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um conductor de sargaço, a meia milha distante, chicoteando os animaes na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos arredores dos martellos 6 e 7, vio no mar, um tanto longe, em lugar pouco frequentado, porque é preciso conhece-lo bem, do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um barco içando uma vela. Deu pouca attenção, pois que era homem de carro e não de barco.

Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e contornava a lagôa de Pelée, achou-se repentinamente quasi em face de um barco que penetrara audaciosamente entre as rochas do Quenon, da Roune de Mer, e da Gripe de Roune. A noite era negra, mas o mar estava claro; effeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes. Só havia no mar aquelle barco.

Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as suas tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, não comprehendeu o que faria um barco que passava entre a Boue Cornelle e a Moncrette. Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a algum lugar para arriscar-se a passar alli.

Sendo oito horas no Catel, o taverneiro de Cobo Bay observou, com algum espanto, uma vela além da Boue do Jardin e das Grunettes, mui perto da Susanna, e dos Grunes do Oeste.

Não longe de Cobo Bay, na ponta solitaria do Houmet da bahia Vason, estavam dous namorados a despedir-se e a reter-se um ao outro; foram distrahidos do ultimo beijo por um vasto barco que passou por perto delles e dirigia-se para as Menellettes.

O Sr. Le Peyre des Norgiots, morador em Catellon Pipet, estava examinando, ás 9 horas da noite, um buraco feito por larapios na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os estragos, não pode deixar de observar um barco dobrando temerariamente o Croce-Point áquella hora.

No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agitarão que sempre fica no mar, aquelle itinerario era pouco seguro, a menos que se não saiba de cór todos os passos.

Ás nove horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre Colombellee Soufleresse alguma cousa que devia ser um barco, e que se expunha muito ao tempo. Ha ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.

Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solitario da ilha de Li-Hou, assustou-se ao ver passar entre a lua e elle uma longa forma negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das especies de paredes que formam os bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.

A Dama Branca habita o Tau de Pez d'Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse ao norte do Banc-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacré ao este de Li-Houmet. Ao clarão da lua todas essas damas sahem e encontram-se ás vezes.

Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quaes parecia que a vela andava podiam com effeito esconder o casco de um barco vogando a traz de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou á si proprio que barco ousaria arriscar-se aquellas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angullieres e Lerée Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provavel que fosse a Dama Negra.

Estando a lua já acima da torre de Saint-Pierre du Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadiça, e distinguio na foz da bahia, mais perto que a Sambule, um barco á vela que parecia descer do norte a sul.

Existe na costa sul de Guernesey, atraz do Plainmont, no fundo de uma bahia, toda precipicios e muralhas, cortada a pique na onda, um porto singular que um francez residente na ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, baptisou com o nome de porto do quarto andar, nome geralmente adoptado hoje. Esse porto que então se chamava a Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de quarenta pés de altura acima d'agua, e communicando com as vagas por duas grandes pranchas parallelas em plano inclinado. Os barcos, içados á força de braços por correntes e roldanas, sahem ao mar e descem ao longo dessas pranchas que são dous trilhos. Para os homens ha uma escada. Esse porto era então muito frequentado pelos contrabandistas. Sendo pouco praticavel, era lhes commodo.

Pelas onze horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; elles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela desembocando repentinamente além das linhas negras do Cabo Plainmont. O luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receiando que fosse algum guarda-costa collocar-se de emboscada atraz do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois, deixou atraz de si a noroeste a Boue Blondi, e mergulhou-se ao largo nas brumas lividas do horisonte.

Onde diabo vai aquella barca? disseram os contrabandistas?

Na mesma noite, pouco depois de pôr o sol, ouvio-se alguem bater na porta da casa mal assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarellas, o que indicava ser sacristão. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de fructas do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz, e trocaram-se estas palavras entre elles:

—Que quer você?

—O homem d'aqui.

—Não está em casa.

—Onde está?

—Não sei.

—Virá amanhã?

—Não sei.

—Foi-se embora d'aqui?

—Não sei.

—É que o novo cura da parochia, o reverendo Ebenezer Caudray, queria fazer-lhe uma visita.

—Não sei.

—O reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanhã de manhã.

—Não sei.


[III]

NÃO TENTEIS A BIBLIA

Nas vinte e quatro horas que se seguiram, mess Lethierry não dormio, nem comeu, nem bebeu, beijou a testa de Deruchette, informou-se de Clubin do qual ainda não havia noticias, assignou um papel declarando que não pretendia dar queixa, e fez soltar Tangrouille.

Ficou todo o dia seguinte, meio encostado a mesa do escriptorio da Durande, nem assentado nem de pé, respondendo com brandura a quem lhe fallava. Demais, estando satisfeita a curiosidade, ficou solitaria a casa de Lethierry. Ha muito desejo de observar na solicitude de lamentar. Fechara-se a porta; deixava-se Lethierry com Deruchette. O relampago que passára nos olhos de Lethierry estava extincto; voltara-lhe o olhar lugubre do começo da catastrophe.

Deruchette assustada, foi calladinha, a conselho de Graça e Doce, collocar ao lado delle, na mesa, um par de meias que Lethierry tecia quando a triste noticia chegou.

Lethierry sorrio amargamente e disse:

—Então pensam que não tenho juizo?

Depois de um quarto de hora de silencio, accrescentou:

—Estas manias são boas quando a gente é feliz.

Deruchette tirou o par de meias, e aproveitou a occasião para tirar tambem a bussola e os papeis de bordo, que mess Lethierry contemplava demasiadamente.

De tarde, um pouco antes da hora do chá, a porta abrio-se, e entraram dous homens, vestidos de preto, um velho, e outro moço.

O moço já foi visto no curso desta narração.

Tinham ambos um ar grave, mas de gravidade differente; o velho tinha aquillo que se póde chamar gravidade de profissão; o mancebo tinha a gravidade da natureza. A primeira vem do habito, a segunda nasce do pensamento.

Eram, como indicava o traje, dous padres, pertencendo ambos á religião estabelecida.

O que se notava desde logo no mancebo, era que a gravidade, profunda no olhar, e resultando do espirito, não nascia absolutamente da pessoa. A gravidade admitte a paixão, exalta-a purificando-a, mas aquelle mancebo era, antes de tudo, lindo. Sendo padre devia ter ao menos vinte e cinco annos; parecia ter desoito. Apresentava uma harmonia e um contraste, isto é, tinha uma alma que parecia feita para a paixão o um corpo que parecia feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco, delicado e flexivel, apezar do vestuario severo, com faces de donzella e mãos delicadas; embora reprimido, tinha o gesto vivo e natural. Tudo nelle era encanto, elegancia, e quasi volupia. A belleza do seu olhar corrigia esse excesso de graça. O sorriso sincero, que deixava ver uns dentes de criança, era pensativo e religioso. Era a gentileza de um pagem e a dignidade de um bispo.

Debaixo dos espessos cabellos louros, tão dourados que pareciam garridos, tinha elle um craneo elevado, candido e bem feito. Uma leve ruga de inflexão dupla, entre as duas sobrancelhas, despertava confusamente a idéa da ave do pensamento pairando, com as azas abertas, no meio daquella fronte.

Sentia-se ao vel-o, uma dessas creaturas benevolas, innocentes e puras, que progridem em sentido inverso da humanidade vulgar, a quem a illusão torna sabios e a experiencia enthusiastas.

A mocidade transparente deixava vêr a maturidade interior. Comparado ao padre dos cabellos grisalhos que o acompanhava, á primeira vista, parecia filho, reparando-se bem, parecia pai.

Era este o Dr. Jaquemin Herodes. O Dr. Jaquemin Herodes pertencia á alta igreja, que é pouco mais ou menos um papismo sem papa. O anglicanismo nessa época era agitado pelas tendencias que depois se affirmaram e condensaram no puleysmo. O Dr. Jaquemin Herodes era desse matiz anglicano, que é quasi uma variação romana. Era alto, correcto, delgado e superior. O raio visual interior mal se distinguia de fóra. O seu espinto era cingir-se á letra. Demais a mais era altivo. Enchia com a sua pessoa o lugar que occupava. Parecia menos um reverendo que um monsenhor. A casaca era talhada a moda de sotaina. Em Roma é que elle estaria bem. Nascera para ser prelado da camara. Parecia ter sido creado expressamente para ser ornamento do papa, e ir atraz da cadeira gestatoria, com toda a côrte pontificia, in abitto paonazzo. O accidente de ter nascido inglez, e uma educação theologica mais voltada para o Antigo Testamento que para o Novo, fizera com que lhe falhasse esse destino. Todos os seus explendores resumimiu-se nisto: ser cura de Saint-Pierre Port, decano da ilha de Guernesey e subrogado do bispo de Winchester. Não ha duvida que era gloria tudo isso.

Essa gloria não impedia que o Sr. Jaquemin Herodes fosse um bom homem.

Como theologo, dispunha da estima dos conhecedores, e fazia quasi autoridade em Arches, que é a Sorbonna da Inglaterra.

Tinha um ar douto, um piscar d'olhos apto e exagerado, narinas cabelludas, dentes visiveis, o labio inferior fino e o labio superior expesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda, amigos barões, a confiança do bispo, e continuamente trazia uma biblia na algibeira.

Mess Lethierry estava tão completamente absorto que tudo quanto pôde produzir nelle a entrada dos dous padres, foi um imperceptivel enrugar de sobrancelhas.

O Sr. Jaquemin Herodes approximou-se, cumprimentou, recordou em poucas palavras sobriamente altivas, a sua recente promoção, e disse que vinha, segundo o uso, apresentar aos notaveis, e a mess Lethierry especialmente, o seu successor na parochia, o novo cura de Saint-Sampson, o reverendo Joe Ebenezer Caudray, que dahi em diante seria o pastor de mess Lethierry.

Deruchette levantou-se.

O padre moço, que era o reverendo Ebenezer, inclinou-se.

Mess Lethierry olhou para o Sr. Ebenezer Caudray, e mastigou entre dentes estas palavras: mão marinheiro.

Graça apresentou cadeiras. Os dous reverendos assentaram-se perto da mesa.

O Dr. Herodes começou um speech. Tinha sabido de um acontecimento. Naufragara o Durande. Vinha, como pastor, trazer consolação e conselho. O naufragio era uma desgraça, mas era tambem uma felicidade. Sondemo-nos; não nos inchava a prosperidade? As aguas da felicidade são perigosas. Não se deve tomar as desgraças á má parte. Os caminhos do Senhor são desconhecidos. Mess Lethierry estava arruinado. Pois ser oppulento, é estar em perigo. Apparecem amigos falsos. A pobresa affasta-os. Fica-se isolado. Solus eris. A Durande dizem que dava mil libras esterlinas por anno. Era demais para um philosopho. Fujamos ás tentações, desdenhemos o ouro. Aceitemos com reconhecimento à ruina e o abandono. O isolamento dá fructos. Ganha-se nelle as graças do Senhor. Foi na solidão que Aia achou as aguas quentes, conduzindo os asnos de Sebeão, seu pai. Não nos revoltemos contra os impenetraveis decretos da providencia. O santo homem Job, depois da sua miseria, cresceu em riquezas. Quem sabe se a perda de Durande não teria compensações, mesmo temporaes? Tambem elle, Herodes, empregára capitaes em uma magnifica operação que se realizava em Sheffleld; se mess Lethierry, com os fundos que lhe restavam, quizesse entrar nessse negocio, podia refazer a fortuna; era um grande fornecimento de armas ao czar para reprimir a Polonia. Ganharia trezentos por cento.

A palavra czar pareceu despertar Lethierry, que interrompeu o Dr. Herodes:

—Não quero nada com o czar.

O reverendo Herodes respondeu:

—Mess Lethierry, os principes são acceitos por Deos. Deos escreveu: Dai a Cesar o que é de Cesar. O czar é Cesar.

Lethierry, meio absorto na scisma, murmurou:

—Quem é Cesar? Não conheço.

O reverendo Herodes continuou a exhortação. Não insistio por Sheffield. Não aceitar Cesar era ser republicano. O reverendo comprehendia que um homem fosse republicano. Nesse caso, comprehendia que mess Lethierry se voltasse para uma republica. Mess Lethierry podia estabelecer a fortuna nos Estados-Unidos, melhor do que em Inglaterra. Se quizesse desculpar o que lhe restava, bastava-lhe tomar acções na grande companhia de exploração das plantações do Texas, que empregava mais de vinte mil negros.

—Não quero nada com a escravidão, disse Lethierry.

—A escravidão, replicou o reverendo Herodes, é de instituição sagrada. Está escripto: «Se o senhor bater o escravo, nada lhe será feito, porque bate o seu dinheiro.»

Graça e Doce, na soleira da porta, ou viam com uma especie de extase as palavras do reverendo doutor.

O reverendo continuou. Era, em summa, como dissemos um bom homem; e quaesquer que podessem ser os seus dissentimentos de casta ou de pessoa com mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente dar o auxilio espiritual, e mesmo temporal, de que dispunha.

Se mess Lethierry estava arruinado ao ponto de não poder cooperar, com fructo, numa especulação qualquer, russa ou americana, porque não entrava no governo e nas funcções assalariadas? São nobres empregos esses, e o reverendo estava prompto a introduzir mess Lethierry. Vagára em Jersey o lugar de deputado-visconde. Mess Lethierry era amado e estimado, e o reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para mess Lethierry o emprego de deputado-visconde de Jersey. O deputado visconde é um funccionario consideravel; assiste, como representante de Sua Magestade aos actos juridicos, aos debates da plebe, e ás execuções de sentenças.

Lethierry fixou os olhos no Dr. Herodes.

—Não gosto de enforcamentos, disse elle.

O Dr. Herodes, que até então pronunciára todas as palavras com a mesma inflexão, teve um assento de severidade e uma inflexão nova:

—Mess Lethierry, a pena de morte é ordenada por Deus. Deus entregou a espada ao homem. Está escripto: olho por olho, dente por dente.

O reverendo Ebenezer approximou imperceptivelmente a sua cadeira da cadeira do reverendo Jaquemin, e disse-lhe de modo que não fosse ouvido senão por elle:

—O que este homem diz é-lhe dictado.

—Por quem? perguntou no mesmo tom o reverendo Herodes.

—Pela consciencia.

O reverendo Herodes metteu a mão no bolso, tirou um grosso volume em 18° encadernado com fechos, pô-lo na mesa e disse em voz alta:

—A consciencia é isto.

O livro era a Biblia.

Depois foi-se abrandando o Dr. Jaquemin. O seu desejo era ser util a mess Lethierry, que considerava ser um homem forte. Como pastor, tinha elle direito e dever de aconselhar; todavia mess Lethierry tinha a liberdade de acceitar ou recusar o conselho.

Mess Lethierry, cahindo outra vez na absorpção e no abatimento, já não ouvia. Deruchette, assentada ao pé delle, e pensativa tambem, não levantava os olhos, e dava áquella pratica pouco animada a porção de acanhamento que resulta de uma presença silenciosa. Uma testemunha que não diz palavra é uma especie de peso indefinivel. Mas o Dr. Herodes não parecia sentil-o.

Como Lethierry não respondia, o Dr. Herodes deu largas á palavra. O conselho vem do homem, a inspiração vem de Deus. Ha inspiração no conselho do padre. É bom aceitar os conselhos, e perigoso regeita-los. Sochoth foi agarrado por onze diabos por ter desdenhado das exhortações de Nathaniel. Tiburiano foi atacado de lepra por ter posto fóra de casa o apostolo André. Barjesus, apezar de magico, ficou cégo por ter zombado das palavras de S. Paulo. Elxai, e suas irmãs Martha a Marthena estão no inferno a esta hora por terem desprezado as advertencias de Valencianus que lhes provava claro como o dia, que o Jesus Christo delles, de trinta e oito leguas de comprimento, era um demonio. Rolibana, que tambem se chama Judith, obedecia aos conselhos. Ruben e Theniel, ouviam os conselhos do céo; basta os nomes delles para indica-los; Ruben significa filho da visão, e Theniel significa face de Deus.

Mess Lethierry deu um socco na mesa.

—Mas a culpa é minha!

—Que quer dizer? perguntou Jaquemin Herodes.

—Digo que a culpa é minha.

—Culpa de que?

—Por ter mandado vir a Durande á sexta-feira.

O Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao ouvido do Sr. Ebenezer Caudray:

—Este homem é supersticioso.

Continuou depois, e em tom de mestre:

—Mess Lethierry, é pueril acreditar na sexta-feira. Não se deve acreditar em fabulas. A sexta-feira é um dia, como qualquer outro. Ás vezes é data feliz. Melendez fundou a cidade de Santo Agostinho em sexta-feira; foi n'uma sexta-feira que Henrique VII deu a sua commissão a John Cabot; os perigrinos de Mayflower chegaram a Province-Town em sexta-feira. Washington nasceu na sexta-feira, 22 de Fevereiro de 1732; Christovão Colombo descobrio a America na sexta-feira 12 de Outubro de 1492.

Dizendo isto levantou-se.

Ebenezer, que tinha ido com elle, levantou-se tambem.

Graça e Doce advinhando que os reverendos iam despedir-se, abriram as portas.

Mess Lethierry não via nem ouvia nada.

O Sr. Jaquemin Herodes disse em aparte ao Sr. Ebenerez Caudray:

—Nem nos comprimenta. Não é tristeza, é embrutecimento. Devemos crer que elle está doudo.

Entretanto pegou na Biblia, e collocou-a entre as mãos abertas, como quem segura um passaro com receio que fuja. Esta attitude creou entre os personagens presentes uma certa espera. Graça e Doce esticaram a cabeça.

A voz de Herodes fez quanto pede para ser magestosa.

—Mess Lethierry, não nos separemos sem ler uma pagina do livro santo. As situações da vida são esclarecidas pelos livros; os profanos tem as sortes virgilianas, os crentes tem as advertencias biblicas. O primeiro livro, apanhado ao acaso, aberto ao acaso, dá um conselho; a Biblia, aberta ao acaso, faz uma revelação. É sobretudo boa para os afflictos. O que a Santa Escriptura respira indubitavelmente é um lenitivo ás dôres. Diante dos afflictos, deve-se consultar o santo livro sem escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. O que o homem não escolhe, escolhe-o Deus. Deus sabe o que precisamos. O seu dedo invisivel aponta o passo inesperado que nós lemos. Qualquer que seja a pagina, rebenta-lhe luz. Não busquemos outra. É a palavra do céo. O nosso destino é revelado mysteriosamente no texto evocado com confiança e respeito. Ouçamos e obedeçamos. Mess Lethierry, o senhor tem uma afflicção, este é o livro da consolação; está enfermo, este é o livro da saude.

O reverendo Jaquemin Herodes abrio a mola do fecho, metteu o dedo ao acaso entre duas paginas, poz a mão no livro aberto, e concentrou-se; depois abaixando os olhos com autoridade leu em alta voz.

Eis o que elle leu:

«Isaac passeava no caminho que vai ter ao poço chamado Poço daquelle que vive e vê.

«Rebecca, vendo Isaac, disse: Quem é este homem que vem andando para mim.

«Então Isaac fel-a entrar na sua tenda, e tomou-a por mulher, e grande foi o amor que lhe teve».

Ebenezer e Deruchette olharam um para o outro.

FIM DA PRIMEIRA PARTE.


[SEGUNDA PARTE]

O engenhoso Gilliatt


[LIVRO PRIMEIRO]

O escolho


[I]

INCOMMODA CHEGADA, DIFFICIL SAHIDA

Já os leitores terão adivinhado que o barco, visto em muitos pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas diversas, era a pança. Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho directo. Tomar o mais curto foi o cuidado delle. Os naufragos não esperara. O mar é cousa urgente, uma hora de demora podia ser irreparavel. Queria chegar depressa para soccorrer a machina.

Sahindo de Guernesey, uma das preoccupações de Gilliatt era não despertar a attenção. Sahio como quem fugia. Tinha ares de pessoa que se esconde. Evitou a costa d'Este como se achasse inutil passar á vista de Saint-Sampson e Saint-Pierre Port; resvalou silenciosamente ao longo da costa opposta que é relativamente inhabitada. Nos bancos teve de remar: mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hydraulica: tomar a agua sem choque e impeli-la devagar; desse modo pôde nadar, na obscuridade com a maior força e o menor rumor possiveis. Parecia que ia commetter uma acção feia.

A verdade é que, atirando-se de olhos fechados a um commettimento que parecia impossivel, e arriscando a vida com todas as probabilidades contra elle, receiava a concurrencia.

Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão talvez abertos no espaço, puderam ver no meio do mar, num ponto em que ha mais solidão e ameaça, duas cousas entre as quaes ia diminuindo o intervallo, sendo que uma approximava-se da outra. Uma, quasi imperceptivel no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca havia um homem; era a pança levando Gilliatt. A outra immovel, collossal, negra, tinha, sobranceira ás vagas, uma sorprehendente figura. Dous altos pilares amparavam acima d'agua, no vacuo, uma especie de travessão horisontal que era como que uma ponte entre as duas cumiadas. O travessão, tão informe de longe que seria impossivel advinhar o que era, fazia corpo com os dous pilares. Parecia uma porta. Porque, haveria uma porta naquella abertura de todos os lados do mar? Dissera-se um dolmen titanico plantado alli, em pleno oceano, por uma phantasia magistral, e construido por mãos que leem o habito de apropriar ao abysmo as suas construcções. Aquella medonha forma levantava-se na claridade do céo.

A luz da manhã ia crescendo a leste; a alvura do horisonte augmentava a negridão do mar. Do lado opposto, declinava a lua.

Os dous pilares eram as Douvres. A especie de massa apertada entre elles como uma architrave era a Durande.

Apertando assim a sua victima, e deixando-a ver, o escolho era horrivel. A atitude daquelles rochedos era uma especie de repto. Parecia esperar.

Nada mais altivo e arrogante como tudo aquillo; o navio vencido, o abysmo victorioso. Os dous rochedos, ainda gotejantes da tempestade da vespera, pareciam dous combatentes em suor. Tinha acalmado o vento, o mar dobrava-se placidamente; advinhava-se que havia á flôr d'agua alguns bancos onde os penachos de escuma cahiam com graça; de longe vinha um murmurio semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um nivel, menos as duas Douvres, levantadas e tezas como duas collunas negras. Os flancos escarpados tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta. Comprehendia-se que ellas nasciam de montanhas submarinas. Havia em tudo aquillo uma especie de omnipotencia tragica.

De ordinario, o mar occulta os seus lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incommensuravel sombra guarda tudo para elle. É raro que o mysterio renuncie ao segredo. Ha um quê de monstro na catastrophe, mas em quantidade ignota. 0 mar é patente e secreto; esconde-se, não quer divulgar as suas acções. Produz um naufragio, e abafa-o; engolir é o seu pudor. A vaga é hypocrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois abranda-se.

Nada semelhante nas Douvres. Os dous rochedos, levantando acima das ondas o cadaver da Durande, tinham um ar de triumpho. Dissera-se dous braços sahindo do golphão, e mostrando ás tempestades, o cadaver daquelle navio. Era uma cousa igual ao assassino que se vangloria do crime.

A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada tem uma grandeza mysteriosa que se compõe de um resto de sonho e de um começo de pensamento. Nesse momento turvado, como que fluctua ainda um pouco de espectro. A especie de immenso H maiusculo formado pela duas Douvres com a Durande no centro, apparecia no horisonte no meio de uma certa magestade crepuscular.

Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de lã, meias de lã, sapatos taixeados, japona de lã, calça de panno grosso mal tecido, com bolsos, e na cabeça um daquelles barretes de lã vermelha usados então na marinha, e que se chamavam no seculo passado galeriennes.

Reconheceu o escolho e avançou.

A Durande estava ao contrario de um navio deitado a pique; era um navio pendurado no ar.

Não havia mais estranho commettimento que o de salvar a machina daquelle navio.

Era dia claro quando Gilliatt chegou ás aguas do escolho.

Como dissemos, havia pouco mar. A agua tinha apenas a quantidade de agitação que lhe dava a estreiteza entre os rochedos. Ha sempre marulho nos espaços d'agua como aquelle, quer sejam grandes, quer pequenos. O interior de um estreito espuma sempre.

Gilliatt não abordou ao Douvres sem precaução.

Deitou a sonda muitas vezes.

Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de matalotagem.

Affeito ás ausencias, tinha sempre prompta em casa a matalotagem. Era um sacco de biscouto, um sacco de farinha de centeio, uma cesta de stok-fisch e de carne fumada, um grande pichel de agua doce, uma caixa norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas de lã, grevas alcatroadas, e uma pelle de carneiro que elle punha de noite em cima da japona. Tinha posto tudo isso, ás carreiras, na pança, e mais um bocado de pão fresco. Com a pressa, não levou outra ferramenta mais que o martello da forja, o machado e a picareta, uma serra, e uma corda de nós armada de fateixa. Com uma escada desta ordem, e a maneira de servir della, as subidas escabrosas tornam-se praticaveis nos mais rudes declives.

Póde-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do Havre Gosselin tiram de semelhante corda.

As rêdes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na barca. Pôl-os dentro por costume, e machinalmente, porquanto, tendo de tentar até o ultimo esforço, talvez se demorasse algum tempo no archipelago de cachopos, e o apparelho da pescaria é inutil em taes sitios.

No momento em que Gilliatt abordou o escolho, o mar baixava, circumstancia favoravel. As vagas decrescentes descobriam ao pé da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas, á semelhança de harpéos carregando um pavimento. Essas superficies, umas estreitas, outras largas, encadeando e elevando-se, com espaços desiguaes, ao longo do monolitho vertical, prolongava-se em cornija até debaixo da Durande, que abarcava o espaço entre os dous rochedos. Estava apertada ali como n'um tomilho.

Eram commodas aquellas plataformas para desembarcar e observar. Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o carregamento da pança. Mas era preciso apressar-se, porque ellas estariam fóra d'agua pouco tempo. Quando a maré enchesse ficariam outra vez cobertas.

Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que Gilliatt impellio e fez parar a pança.

Uma espessura de sargaço, humida e escorregadia cobria essas rochas, e a obliquidade de algumas dellas mais escorregadias as tornava.

Gilliatt descalçou-se, saltou sobre o limo, e amarrou a pança em uma ponta de rochedo.

Depois approximou-se o mais devagar que pôde sobre a estreita cornija de granito, chegou debaixo da Durande levantou os olhos e contemplou-a.

A Durande estava preza, suspensa, e como que ajustada entre os dous penedos, vinte pés acima das vagas. Era preciso que fosse atirada ali por uma furiosa violencia do mar.

Tão impetuoso empurrão não faz pasmar a gente do mar. Para citar apenas um exemplo, a 25 de Janeiro de 1840, no golpho de Itora, uma tempestade, já espirante, fez saltar um brigue, de um só pulo, por cima do casco naufragado da corveta La Marne, e incrustou-o com o gurupés á frente, entre dous penedios.

Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.

O navio arrancado ás vagas foi de algum modo desenraisado da agua pelo furacão. O turbilhão do vento tinha-o torcido, o turbilhão do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso pelas duas mãos da tempestade, quebrou-se como se fôra uma ripa. O pedaço da popa, com a machina e as rodas, arrebatado das aguas e impellido por toda a furia do cyclone para a garganta das Douvres, lá ficou. O vento foi acertado; para metter aquelle casco entre os dous rochedos o furacão transformou-se em massa. A proa, levada e rolada pelo vento, deslocou-se nos bancos de pedra.

O porão, que estava arrombado, esvasiara no mar os bois, mortos.

Um grande pedaço da amurada da proa, ainda estava preso ao casco, mas pendurada nas caixas das rodas por algumas lascas, faceis de quebrar com um machado.

Via-se aqui e ali, nas anfractuosidades longinquas do escolho, barrotes, taboas, pedaços de vela, pedaços de correntes, todos os destroços, tranquillos nos rochedos.

Gilliatt comtemplava com attenção a Durande. A quilha era o tecto que lhe ficava sobre a cabeça.

O horisonte, onde a agua illuminada apenas se mechia, estava sereno. O sol sahia explendidamente daquella vasta massa azul.

De tempos a tempos uma gota de agua destacava-se do navio e cahia no mar.


[II]

AS PERFEIÇÕES DO DESASTRE

As Douvres eram differentes de fórma como de altura.

Na pequena Douvre, recurvada e aguda, via-se ramificar-se, da base ao cimo, longas veias de uma rocha côr de tijolo, relativamente tenra, que fechava com as suas laminas o interior do granito. Nessas laminas avermelhadas havia, de espaço a espaço, fendas próprias para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada pelos arremeços do mar, que tornou-se uma especie de nicho, onde podia guardar-se uma estatua. O granito da pequena Douvre era arredondado na superficie e macio como pedra de toque, o que não lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava om ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um só jacto e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ella era impossivel: não podia servir nem á fuga de um criminoso, nem ao ninho de um passaro. No cume havia como no rochedo Homem, uma plata-fórma; era porém inaccessivel.

Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá, podia-se ficar na grande Douvre, mas não se podia subir.

Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquillo voltou á pança, descarregou-a na mais larga das cornijas á flôr d'agua, fez de todo o carregamento, aliás pequeno, uma especie de pacote, atou-o n'um panno alcatroado, depois içou-o por meio de um cabo até um ponto da rocha onde o mar não podia chegar; feito isto, abraçou-se á pequena Douvre, e com pés e mãos, de fenda em fenda, trepou por ella até a Durande que estava no ar.

Chegando a altura das caixas das rodas saltou dentro.

O interior do navio era lugubre.

A Durande apresentava todos os vestigios de um arrombamento medonho. Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um attentado que um naufragio. Nuvens, trovão, chuva, vagas, tufões, rochedos, horrivel multidão de cumplices é esta.

No meio daquelles destroços, pensava-se em alguma cousa semelhante ao tripudio furioso dos espiritos do mar. Tudo eram vestigios de raiva. As torções estranhas de certos ferros, indicavam a acção impectuosa dos ventos. O convéz assemelhava-se á célula de um louco; tudo estava despedaçado.

Nenhum animal estrangula uma pedra como o mar. A agua regorgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É um sacar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual á pata do leão.

O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma especie de terrivel descascamento. Muitas cousas pareciam feitas de proposito. Que maldade! podia dizer-se. As fracturas das amuradas eram feitas com arte. Este genero de destruição é proprio do cyclone. Retalhar e adelgaçar tal é o capricho desse desvastador enorme. O cyclone usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres parecem supplicios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufragio, vinga-se, diverte-se; é mesquinhamente cruel.

Raros são os cyclones em nossos climas, e tanto mais terriveis quanto que são inesperados. Um rochedo encontrado póde fazer andar á roda a tempestade. É provavel que a borrasca tivesse feito espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que esplicava o salto do navio a tamanha altura naquellas rochas. Quando o cyclone sopra, um navio peza tanto como a pedra de uma funda.

A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de destroços semelhante a entranhas. O cordoame fluctuava e estremecia; as correntes balançavam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nús e pendiam no ar. O que não estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a fórma de ruina; uma barra de pé de cabra não era menos que um simples pedaço de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma drissa era apenas uma ponta de canhamo; uma tralha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentavel da destruição; nada havia que não estivesse despregado, desenganchado, rachado, roido, recurvado, aniquilado; nenhuma adhesão naquelle feio montão de destroços; em tudo o deslocamento e a ruptura, esse aspecto de inconsistente e liquido que caracteriza todas as confusões, desde as refregas dos homens que se chamam batalhas, até ás refregas dos elementos que se chamara cahos. Tudo esboroava, tudo cahia, e uma torrente de taboas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava daquella poderosa carena tão triumphante outr'ora, toda aquella parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cahir, tudo estava roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.

Debaixo cuspia a espuma sobre aquella cousa miseravel.


[III]

SÃ, MAS NÃO SALVA

Gilliatt não esperava achar sómente metade do navio. Nas indicações, aliás tão precisas, do capitão do Shealtiel, nada fazia presentir aquella divisão do casco pelo meio. Foi talvez na occasião em que o navio partio-se, debaixo da immensa espessura da espuma, que houve aquelle estallo diabolico ouvido pelo capitão do Shealtiel. O capitão affastava-se sem duvida no momento do ultimo sopro do vento, e não vio que era uma tromba que impellia o navio. Mais tarde, approximando-se para observar o desastre, vio apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe escondido pelo rochedo o lado fracturado donde se rompera metade do navio.

Excepto isto, o patrão do Shealtiel disse tudo exacto. O casco estava perdido, a machina estava intacta.

São frequentes estes acasos nos naufragios como nos incendios. Não se pode comprehender a logica do desastre.

Os mastros quebrados tinham cahido; o cano nem mesmo envergou; a grande placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o intacto e completo. O revestimento de taboas das rodas estava destruido como as laminas de uma persiana; mas atravez das fendas viam-se as rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns raios.

Além da machina, tinha resistido o grande cabrestante da popa. Tinha ainda a corrente, e graças ao seu robusto encaixe em um quadro de tabuões, ainda podia prestar serviços, uma vez que se não rompesse a prancha. O pedaço do casco mettido entre as Douvres estava firme, já o dissemos, e parecia solido.

A conservação da machina tinha um que de irrisorio e acrescentava a ironia á catastrophe. A sombria malicia do desconhecido mostra-se ás vezes nessas especies de zombarias amargas. A machina estava salva, o que não impedia que estivesse perdida.

O oceano guardava-a para demolil-a aos poucos. Divertimento de gato.

A machina ia agonisar e desfazer-se peça por peça. Ia diminuir dia a dia, e por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco ás selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquelle pesado montão de mecanismos e encaixes, massiço e delicado a um tempo, condemnado á immobilidade por seu peso, entregue na solidão ás forças demolidoras, posto pelo cachopo a discrição do vento e do mar, podesse, sob a pressão daquelle lugar, implacavel, escapar á destruição lenta, era até loucura imaginal-o.

A Durande estava prisioneira das Douvres.

Como tiral-a dali?

Como libertal-a?

A evasão de um homem é difficil; mas que problema não é este: a evasão de uma machina!


[IV]

PREVIO EXAME LOCAL

Gilliatt estava cercado de urgencias. O mais urgente era achar ancoradouro para a pança, e depois abrigo para si.

A Durande, estava mais carregada a bombordo que a estibordo, e por isso a roda da direita ficava mais elevada que a da esquerda.

Gilliatt subiu á caixa das rodas da direita. Dahi dominava a parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em angulos por traz das Douvres, fizesse muitos cotovellos, Gilliatt pôde estudar o plano geometrico do escolho.

Começou por ahi.

As Douvres, como indicámos, eram duas altas pilastras marcando a entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na frente. Não é raro achar nas formações submarinhas primitivas, esses corredores singulares feitos como que a machado.

Aquelle, que era tortuoso, nunca estava a secco, mesmo nas marés baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A impetuosidade do rodomoinho era boa ou má, segundo o rumo do vento reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cahir; ora exasperava-a. Este ultimo caso era o mais frequente; o obstaculo encolerisa a vaga eleva-a aos excessos; a espuma é a exageração da vaga.

O vento da tempestade, naquelles estrangulamentos entre duas rochas, soffre a mesma compressão e adquire a mesma malignidade. É a tempestade no estado de estranguria. O sopro immenso fica immenso, mas faz-se agudo. É ao mesmo tempo massa e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o furacão fazendo-se vento coado.

As duas cadeias de rochedos, deixando entre si, essa especie de rua do mar, terminava em degráos mais baixos que as Douvres, gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma certa distancia. Havia ahi outra foz menos elevada que a das Douvres, porém mais estreita ainda e que era a entrada, a Este, daquella garganta. Advinhava-se que o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua debaixo da agua até o rochedo Homem collocado como uma cidadella quadrada na outra extremidade do escolho.

Nas marés baixas, e era nessa occasião que Gilliatt observava, as duas fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a secco, todos visiveis, e coordenando-se sem interrupção.

O Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.

Todo o escolho, visto a vôo de passaro, apresentava um rosario recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na outra o Homem.

O escolho Douvres, visto em seu conjuncto, era apenas a immersão de duas gigantescas laminas de granito tocando-se quasi e cahindo verticalmente, como uma crista de montes que estão no fundo do oceano. Ha fora do abysmo essas exfoliações immensas. A lufada e a onda tinham recortado essa cristã como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. O que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a tempestade tinha atirado a Durande, era o centro dessas duas laminas collossaes.

Essa viela, em zig-zag como o relampago, tinha quasi em todos os pontos a mesma largura. O oceano fel-a assim. O eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe d'agua uma geometria.

De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha faziam-se face paralellamente a uma distancia que a Durande media quasi com exactidão entre as duas Douvres; o esvasamento da pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar ás caixas das rodas. Em qualquer outro lugar as caixas ficariam quebradas.

A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na exploração do deserto de agua chamado Oceano, chega-se ás cousas ignotas do mar, torna-se tudo surprehendente e disforme. Aquillo que Gilliatt, do alto do casco, podia vêr na garganta fazia horror. Ha muitas vezes nas gargantas graniticas do oceano uma estranha imagem permanente do naufragio. A garganta das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os oxydos da rocha davam-lhes aqui e alli umas vermelhidões imitando placas de sangue coalhado. Era uma especie de transudação sangrenta de um matadouro. Havia um ar de açougue naquelles parceis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela decomposição dos amalgamas metalicos misturados á rocha, alli pelo bolor, ostentava vermelhidões hediondas, esverdeamentos suspeitos, despertando uma idéa de morte e de exterminio. Acreditava-se vêr uma parede ainda não enxuta do quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aquelles os vestigios de um despedaçamento de homens; a rocha ingreme tinha um cunho de agonias accumuladas. Em certos lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e parecia impossivel apoiar o dedo sem tiral-o sangrento. Por toda a parte apparecia uma ferrugem de morticinio. Ao pé do duplo declivio paralello, esparso á flôr d'agua ou debaixo da vaga, ou a secco nas excavações, monstruosos seixos redondos, uns escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhanças de visceras; acreditava-se vêr pulmões frescos ou figados putridos. Dissera-se que alli se tinham esvasiado ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por distillações funebres, riscavam o granito de alto a baixo.

Esses aspectos são frequentes nas cavernas do mar.


[V]

UMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLLABORAÇÕES SECRETAS DOS ELEMENTOS

A fórma de um escolho não é cousa indifferente para os que, nos riscos das viagens, podem ser condemnados á habitação temporaria de um escolho no oceano.

Ha o escolho pyramide, um cimo fóra da agua; ha o escolho circulo, cousa semelhante a uma roda de pedras grandes; ha o escolho corredor. O escolho corredor é o peior de todos. Não somente por causa da angustia das ondas entre as rochas e do tumulto das aguas apertadas, mas tambem por causa das propriedades meteorologicas que parecem desprender-se do paralellismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes rectas são um verdadeiro aparelho de Volta.

Orienta-se o escolho corredor, e isso é importante. Resulta dahi uma primeira acção sobre o ar e a agua. O escolho corredor actua na agua e no vento mecanicamente, pela forma, galvanicamente, pela attração diversa dos seus planos verticaes, massas sobrepostas e contrariadas umas pelas outras.

Esta especie de escolhos atrahe todas as forças furiosas esparsas no furação, e tem sobre a borrasca uma singular força de concentração.

Donde resulta que nas paragens desses cachopos, ha uma certa accentuação da tempestade.

Cumpre saber que o vento é composito. Acredita-se que o vento é simples; engano. Essa força não é sómente dynamica, é chimica; não é sómente chimica, é magnetica. Tem alguma cousa que é inexplicavel.

O vento é tão eletrico como aereo. Certos ventos coincidem com auroras boreaes. O vento do banco das Arguilles, rola vagas de cem pés de altura, espanto de Dumont d'Urville. A corveta, disse elle, não sabia a quem havia de attender.

Debaixo das lufadas austraes, verdadeiros tumores doentios sopram no oceano, e o mar torna-se tão horrivel que os selvagens fogem para não vêl-o.

As lufadas boreaes são outras; misturam-se de pontas de gelo, e esses furações irrespiraveis impellem para a neve os trenós dos esquimós. Outros ventos queimam. É o simoun da Africa, é o typhon da China e o samiel da India. Simoun, Typhon, Samiel; parece que são demonios estes nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulcão de Tulucea. Este vento quente, turbilhão côr de tinta atirando-se sobre as nuvens encarnadas fez dizer aos Vedas: Eis ahi o Deos negro que vem roubar as vaccas encarnadas. Sente-se em tudo isto a pressão do mysterio eletrico.

O vento é cheio desse mysterio. Do mesmo modo o mar. Tambem elle é complicado; debaixo das suas vagas de aguas, que se veem, ha outras vagas de forças, que se não veem. Compõe-se de tudo. De todas as misturas, a do oceano é a mais invisivel e a mais profunda.

Tentai conhecer esse cahos, tão enorme que vai ter ao nada. É o recepiente universal, reservatorio para as fecundações, cadinho para as transformações. Amassa, depois dispersa; accumula, depois semêa; devora, depois produz. Recebe todos os esgotos da terra, e aferrolha-os. É solido no banco, liquido na agua, fluido no eflluvio. Como materia é massa, e como força é abstracção. Iguala e consorcia os phenomenos. Simplifica-se no infinito pela combinação. É a força da mescla e da turvação que chega á transparencia. A diversidade soluvel prende-se na sua unidade. Tem tantos elementos diversos que é identico. Uma das suas gottas é todo elle. Como é cheio de tempestades, torna-se equilibrio. Platão via dansar espheras; cousa estranha, mas real na collossal evolução terrestre á roda do sol, o oceano, com o seu fluxo e refluxo, é o pendulo do globo.

No phenomeno do mar, todos os phenomenos estão presentes. O mar é aspirado pelo turbilhão como um siphon; uma tempestade é um corpo de bomba; o raio vem da agua como do ar; nos navios sentem-se abalos surdos, depois um cheiro de enxofre sahe do poço das correntes. O oceano ferve. O diabo poz o mar na sua caldeira, dizia Ruyter.

Em certas tempestades que caractensam os movimentos das estações e as entradas em equilibrio das forças genesiacas, os navios battidos de escuma parecem evaporar uma luz, e flammas de phosphoro corrêm pelo cordoame, tão misturadas aos cabos que os marinheiros estendem a mão e procuram apanhar esses passaros de fogo. Depois do terremoto de Lisboa, um halito de fornulha impellio para a cidade uma vaga de sessenta pés de altura. A oscillação liga-se ao estremecimento terrestre.

Essas energias incommensuraveis tornam possiveis todos os cataclysmas.

No fim de 1864, a cem leguas das costas de Malabar, sossobrou uma ilha, como se fôsse um navio. Os pescadores que tinhão sahido de manhã voltaram á noite e não acharam nada; apenas puderam ver as suas aldêas de baixo de agua; e desta vez foram os barcos que assistiram ao naufragio das casas.

Na Europa onde parece que a naturesa sente-se constrangida em respeito à civilisação, taes acontecimentos são raros até á impossibilidade presumivel.

Todavia, Jersey e Guernesey fizeram parte da Gallia; e, no momento em que escrevemos, um vento equinocio acaba de demolir na fronteira da Inglaterra e de Escossia o penedio da praia chamado Primeiro dos Quatro, First of the Fourth.

Em parte alguma essas forças panicas apparecem mais formidavelmente amalgamadas do que no sorprehendente estreito boreal chamado Lyse-Fiord. O Lyse-Fiord é o mais temivel dos escolhos-boreaes do oceano. Ahi a demonstração é completa. É o mar da Noruega, a visinhança do tremendo golpho Stavanger, o quinquagesimo nono gráo de latittude. A agua é pesada e negra com uma febre de tempestatade intermittente.

Nessa agua, no meio da solidão, ha uma grande rua sombria. Não é rua para pessoa alguma. Ninguem passa alli; nenhum navio se arrisca nesse lugar. Um corredor de dez leguas de comprido, entre duas muralhas de tres mil pés de altura: eis a entrada. Esse estreito tem cotovellos e angulos como todas as ruas do mar, que nunca são rectas pois que são feitas pela torção da vaga.

No Lyse-Fiord, a vaga é quasi sempre tranquilla; o céo é sereno; lugar terrivel. Onde está o vento? Não está em cima. Onde está o trovão? Não está no céo. O vento está debaixo do mar; o trovão está debaixo da rocha.

De tempos a tempos ha um estremecimento debaixo da agua. Em certas horas, sem que haja uma nuvem sequer no ar, no meio da altura do penedio vertical, a mil ou mil e quinhentos pés acima das vagas, mais do lado do sul, que do norte, o rochedo rebôa subitamente, rompe dahi um relampago, que fende o ar, e recolhe-se logo, como esses brinquedos que se alongam e contrahem nas mãos das crianças; tem contracções e ampliações esse relampago, fere a rocha opposta, entra outra vez, torna apparecer, recomeça, multiplica as suas cabeças e as as linguas, erriça-se, fere onde póde, recomeça ainda, até que se apaga sinistramente. Fogem os bandos de passaros. Nada é tão mysterioso como essa artilharia sahindo do invisivel. Um rochedo attaca outro. Fulminam entre si os cachopos. É uma guerra que nada tem com os homens. Odio de dous penedos no golphão.

No Lyse-Fiord o vento torna-se effluvio, a rocha desempenha as funcções de nuvem, e o trovão tem arrojos de volcão. É uma pilha aquelle estranho estreito; tem por elementos as suas duas fllas de rochas.


[VI]

CAVALLARIÇA PARA O CAVALLO

Gilliatt era sabedor de cachopos e não tomava as Douvres ao serio. Antes de tudo, já o dissemos, tratou elle de pôr a pança em segurança.

A dupla fileira de arrecifes que se prolongava sinuosamente por traz das Douvres, fazia grupo com os outros rochedos, e advinhava-se cavas e saccos sahindo da viela, e prendendo-se á garganta principal como ramos a um tronco.

A parte inferior dos escolhos estava tapetado de sargaço e a parte superior de lichen. O nivel uniforme do sargaço em todas as rochas marcava a linha da flutuação da maré cheia. As pontas que a agua não attingia tinha o prateado e o dourado que dá aos granitos marinhos o lichen branco e o lichen amarello.

Cobria a rocha em certos pontos uma lepra de conchas corroidas.

Em outros pontos, nos angulos reentrantes, onde se accumulára uma arêa fina, ondeada na superficie antes pelo vento que pela vaga, havia tufas de cardo azul.

Nos redentes pouco batidos pela espuma, reconhecia-se as pequenas covas furadas pelos ursos do mar. Este urso-concha, que anda, bola viva, rolando-se nas pontas, e cuja couraça compõe-se de mais de dez mil peças artisticamente ajustadas e soldadas, o urso marinho, cuja boca se chama, ninguem sabe porque, lanterna de Aristoteles, cava o granito com os cinco dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas alveolas é que os pescadores de fructas do mar dão com elle. Cortam-n'o em quatro partes e comem-n'o crú como ostra. Alguns metem o pão naquella carne mólle. Dahi o nome de ovo do mar.

As cumiadas dos bancos descobertas pela maré que vasava iam ter mesmo debaixo do rochedo Homem a uma especie de angra murada quasi por todos os lados. Havia alli evidentemente um ancouradouro possivel. Gilliatt observou a angra a forma de uma ferradura, e abria-se de um ao vento Este, que é o menos máo daquellas paragens. O vento alli estava preso e quasi adormecido. Era segura aquella bahiazinha. Nem Gilliatt tinha muito onde escolher.

Se Gilliatt quizesse aproveitar a maré vasante devia apressar-se.

O tempo continuava a ser magnifico. Estava de humor aquelle insolente mar.

Gilliatt tornou a descer, calçou os sapatos, desatou a amarra, entrou na barea, e navegou para fóra. Costeava com o remo a parte externa do cachopo.

Chegando perto do Homem examinou a entrada da angra.

Um certo ondeado na mobilidade da agua, ruga imperceptivel a qualquer que não fosse marinheiro, desenhava aquelle passo.

Gilliatt estudou alguns instantes a curva, lineamento quasi indistincto na vaga, depois tomou ao largo, afim de virar a gosto, e entrar bem, e vivamente, de um só movimento de remo, entrou na angra.

Sondou.

Era excellente o ancouradouro.

A pança estaria protegida alli quasi contra todas as eventualidades da estação.

Os mais temiveis arrecifes teem desses recantos tranquillos. Os portos que se acham nos escolhos assemelhara-se á hospitalidade do beduino; são honestos e seguros.

Gilliatt arranjou a pança o mais perto do Homem que lhe foi possivel, em ponto que não podesse perder-se, e poz ao mar as duas ancoras.

Feito isto, cruzou os braços e reflectio.

A pança estava abrigada; era um problema resolvido; mas apresentava-se o segundo. Onde abrigar-se Gilliatt?

Offereciam-se dous pontos; o primeiro era a propria pança, com o seu camarote mais ou menos habitavel; o segundo era o cimo do rochedo Homem, facil de escalar.

De qualquer destes dous angulos podia-se ir a pé nas vasantes, saltando-se de rocha em rocha, até ás Douvres, onde estava a Durande.

Mas a vasante dura apenas um momento, e no resto do tempo ficava elle separado, ou do asylo, ou da Durande, por umas duzentas braças. Nadar no mar de um escolho é difficil; com qualquer agiatação é impossivel.

Era preciso desistir da pança e do Homem.

Nenhuma estação possivel nos rochedos visinhos.

Os cimos inferiores dasapparecem duas vezes por dia debaixo da enchente da maré.

Os cimos superiores eram constantemente cuspidos pelos saltos da espuma. Inhospita lavagem.

Restava o casco da Durande.

Podia-se viver alli?

Gilliatt teve essa esperança.


[VII]

QUARTO PARA O VIAJANTE

Meia hora depois, Gilliatt, de volta á Durande, subia e descia no interior, do tombadilho ao porão, aprofundando o exame summario de sua pequena visita.

Com auxilio do cabrestante, tinha elle içado á Durande o pacote que fez do carregamento da pança. O cabrestante comportára-se bem. Não faltava onde metter o carregamento, Gilliatt tinha, no meio daquelles destroços, muito onde escolher.

Achou entre as ruinas um escopro cahido sem duvida da celha do carpinteiro e com o qual augmentou elle a ferramenta.

Além disso, como tudo serve onde não ha abundancia, tinha comsigo a faca.

Gilliatt trabalhou todo o dia no casco, limpando, consolidando, simplificando.

Á tardinha se conheceu isto:

Todo o casco tiritava ao vento, tremia a cada passo de Gilliatt. Só era estavel e firme a parte do casco metida entre os rochedos, que continha a machina, e ficava poderosamente presa ao granito.

Instalar-se na Durande era imprudente. Era sobre posse; e, longe de dar pezo ao navio, cumpria tornal-o mais leve.

Carregar sobre o casco era o contrario do que cumpria fazer.

Aquella ruina queria melhores tratos. Era uma especie de doente que expira. Havia bastante vento para maltratal-a.

Já era máo ter de trabalhar nella. A porção de trabalho que o casco devia supportar naturalmente talvez o fatigasse mais do que comportavam as suas forças.

Além disso, se sobreviesse algum accidente nocturno durante o somno de Gilliatt, estar no navio era sossobrar com elle. Nenhum auxilio possivel: tudo ficava perdido. Para soccorrer o navio, era precizo estar fora delle.

Fóra delle e junto delle, tal era o problema.

Complicava-se a difficuldade.

Onde achar um abrigo em taes condições?

Gilliatt pensou.

Só restavam as duas Douvres. Pareciam pouco habitaveis.

Via-se debaixo, no plateau superior da grande Douvre uma especie de excrescencia.

As rochas em pé, com a parte superior chata, como a grande Douvre e o Homem, são penedos decapitados, abundam nas montanhas e no oceano. Certos rochedos, principalmente os que se encontram em mar largo, teem entranhas como se foram arvores golpeadas. Parecem ter recebido um golpe de machado. Com effeito, essas rochas andam sujeitas ao vae-vem do furacão, que é o lenhador do mar.

Existem outras causas de cataclysma mais profundas ainda. Dahi vem que ha tantas feridas em todos esses velhos granitos. Alguns desses collossos teem a cabeça cortada.

Ás vezes a cabeça, sem que se possa explicar, não cahe e fica mutilada, no cume do rochedo. Não é rara essa singularidade. A Roque-au-Diable, em Guernesey, e a Fable, no valle de Anweiler, apresentam nas mais sorprehendentes condicções esse estranho enigma geologico.

Provavelmente tinha acontecido á grande Douvre alguma cousa semelhante.

Se a tumescencia que havia no plateau não era natural, era necessariamente algum fragmento que ficaria da decapitação.

Talvez houvesse alguma exacavação nesse pedaço de rocha.

Buraco para metter-se um homem; era o que Gilliatt queria.

Mas como chegar até lá? como trepar por aquella columna vertical, densa e polida como um seixo, meio coberta de uns filamentos viscosos, tendo o aspecto escorregadio de uma superficie ensaboada?

Gilliatt tirou da caixa da ferramenta a corda de nós, prendeu-a á cintura, e poz-se a escalar a pequena Douvre. Á proporção que ia subindo, tornava-se mais difficil a ascenção. Esquecera-se de tirar os sapatos, o que augmentava a difficuldade. Não sem custo chegou á ponta. Chegando á ponta poz-se de pé sobre ella. Havia apenas lugar para os pés. Fazer disso um lugar para descançar e dormir era difficil. Um stylicte contentara-se, Gilliatt mais exigente queria cousa melhor.

A pequena Douvre curvava-se para grande, e de longe parecia comprimental-a, e o intervallo das duas Douvres, que era de uns vinte pés em baixo, era apenas de oito ou dez pés em cima.

Da ponta, onde trepara, Gilliatt vio mais distintamente a entumescencia que cobria a plataforma da grande Douvre.

Essa plataforma elevava-se umas tres toezas acima da cabeça delle.

Separava-o della um precipicio.

O declive da pequena Douvre desapparecia debaixo delle.

Gilliatt desprendeu da cintura a corda de nós, tomou rapidamente com o olhar as dimenções, e atirou a ponta da corda sobre a plataforma.

O gancho arranhou a rocha e resvalou. A corda de nós que tinha o gancho na extremidade, cahio aos pés de Gilliatt ao longo da pequena Douvre.

Gilliatt recomeçou, lançando, a corda mais longe e visando a protuberancia granitica onde via buracos.

O lanço foi tão destro e tão firme que o gancho segurou.

Gilliatt puxou.

Desprendeu-se a corda, e veio bater na columna abaixo de Gilliatt.

Gilliatt lançou a corda pela terceira vez.

Desta vez não cahio.

Gilliatt puxou a corda. Acorda resistio. O gancho estava seguro.

Ficara seguro em alguma anfractuosidade da plataforma que Gilliatt não podia ver.

Tratava-se de confiar a vida aquella desconhecida prisão do gancho.

Gilliatt não hesitou.

Urgia tudo. Era preciso ir quanto antes.

Além de que, descer ao tombadilho da Durande para procurar qualquer outro meio, era cousa impossivel. O resvalamento era provavel e a queda quasi certa. Sobe-se, não se desce.

Tinha Gilliatt, como todos os bons marinheiros, movimento de previsão. Nunca perdia força. Vinham dahi os prodigios de vigor que elle executava com musculos ordinarios; tinha as forças communs, mas uma grande coragem. Ao lado da força, que é physica, tinha a energia, que é moral.

Devia praticar alli um acto tremendo.

Galgar, suspenso áquelle fio, o intervallo das duas Douvres; tal era a questão.

São frequentes nos actos de dedicação ou de dever esses pontos de interrogação que parecem postos pela morte.

Farás isto? diz a sombra.

Gilliatt executou uma segunda tracção de ensaio sobre o gancho; o gancho resistio.

Gilliatt embrulhou a mão esquerda no lenço, apertou a corda com a mão direita coberta pela mão esquerda, depois tendo um pé adiante, e empurrando com o outro pé a rocha afim de que o vigor do impulso impedisse a rotação da corda, precipitou-se do do alto da pequena Douvre sobre a columna da grande.

Duro foi o choque.

Apezar da precaução tomada por Gilliatt, a corda volteou, e foi o hombro delle que bateu no rochedo.

Por sua vez os punhos bateram na rocha. Desatara-se o lenço. As mãos ficaram arranhadas; admirou que não ficassem esmagadas.

Gilliatt conservou-se algum tempo aturdido e suspenso.

Mas ainda assim bastante senhor de si para não largar a corda.

Decorreu algum tempo em oscilação e sobresaltos antes que pudesse agarrar a corda com os pés mas conseguio afinal.

Voltando a si e conservando a corda entre as mãos, Gilliatt olhou para baixo.

Não se assustava a respeito do comprimento da corda, que mais de uma vez lhe servira a maiores alturas. A corda com effeito arrastava na Durande.

Gilliatt, certo de poder descer, começou a trepar.

Em poucos momentos chegou ao cume.

Ninguem, a não serem os passaros, tinha posto alli o pé. A plataforma estava coberta de esterco de passaros. Era um trapezio irregular, lasca daquelle collosal granito chamado grande Douvre. No meio havia uma cava como uma bacia. Trabalho das chuvas.

Gilliatt conjecturara com exatidão. Via-se no angulo meridional do trapesio uma superposição de rochedos, de troços provaveis do descalabro do cimo. Esses rochedos, especie de monte de pedras desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que alli tivesse trepado para passar. Equilibravam-se no meio da confusão; tinha os intersticios de um montão de grabatos. Não havia grota nem antro, mas buracos como uma esponja. Um desses podia admittir Gilliatt.

O fundo desse buraco era de relva e musgo. Gilliatt estaria alli como se fosse em casa.

A alcova na entrada tinha dous pés de altura. Estreitava-se para o fundo. Ha tumulos de pedra que tem essa fórma. O monte de rochedos estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola de Gilliatt ficava garantida das aguas, mas aberta ao vento do norte.

Gilliatt achou que isso era bom.

Os dous problemas estavam resolvidos, a pança tinha um porto, elle tinha casa.

A excellencia da casa era ficar perto da Durande.

O gancho da corda tinha cahido entre dous pedaços de rocha e ficou solidamente preso. Gilliatt immobilisou-o pondo em cima uma grossa pedra.

Depois entrou immediatamente em livre pratica com a Durande.

Já estava em casa.

A grande Douvre era a casa, e Durande era a officina.

Ir e vir, subir e descer, nada mais simples.

Atirou-se vivamente pela corda abaixo até o tombadilho.

O dia foi bom, a cousa começava bem, Gilliatt estava satisfeito, reparou que tinha fome.

Desatou o cesto de provisões, abrio a faca, cortou um pedaço de carne fumada, trincou o pão de rala, bebeu um gole do pichel de agua doce, e ceou admiravelmente.

Trabalhar bem e comer bem, são duas alegrias. O estomago cheio assemelha-se a uma consciencia satisfeita.

Acabada a ceia, ainda havia sol. Gilliatt aproveitou a claridade para começar a alliviar o navio, que era urgente.

Tinha passado uma parte do dia a separar os destroços. Poz de lado, no compartimento solido, onde estava a machina, tudo o que podia servir, madeira, ferro, cordoame, velame. O que era inutil deitou ao mar.

O carregamento da pança, içado pelo cabrestante até o tombadilho, era, embora summario, um estorvo. Gilliatt vio a especie de nicho cavado na pequena Douvre, a uma altura que elle podia tocar com a mão. Vê-se muitas vezes nos rochedos esses armarios naturaes, não fechados, é verdade. Pensou que era possivel confiar o deposito aquelle nicho. Poz no fundo as duas caixas, a da ferramenta e a do vestuario, os dous saccos, o centeio e o biscouto, e na frente, demasiado chegado a borda, por não haver mais lugar, o cesto das provisões.

Teve cuidado de retirar da caixa das roupas a pelle dc carneiro, a japona e as grevas alcatroadas.

Para impedir que o vento desse na corda de nós prendeu a ponta em uma porca da Durande.

A porca era muito curva, e prendia a corda tão bem como se fôsse uma mão fechada.

Restava a parte superior da corda. Prender a extremidade de baixo era facil, mas no cimo da columna, no lugar onde a corda encontrava a borda da plataforma, era de esperar que fôsse a pouco e pouco gasta pelo angulo do rochedo.

Gilliatt investigou o montão de destroços que reservara, apanhou alguns pedaços de lona, e alguns fios de carreta achados entre os cabos, e meteu tudo nas algibeiras.

Qualquer marujo advinhava logo que elle ia forrar com a lona e os fios o pedaço da corda na altura do angulo do rochedo, de modo a preveni-lo de qualquer avaria.

Feita a provisão dos trapos, poz as grevas nas pernas, vestio a japona, prendeu ao pescoço a pelle de carneiro, e assim vestido, com essa panoplia completa, agarrou a corda, rubustamente presa ao flanco da grande Douvre, e subio por aquella sombria torre do mar.

Gilliatt, apezar de ter as mãos arranhadas, chegou rapidamente á plataforma.

Os ultimos clarões do poente iam-se apagando. Fazia noite no mar. O alto da Douvre conservava alguma claridade.

Gilliatt aproveitou o resto da claridade para forrar a corda. Applicou-lhe no cotovello que ella fazia no rochedo, uma ligadura de muitos pedaços de vela, fortemente atada em cada pedaço. Era pouco mais ou menos o forro que costumam a pôr nos joelhos aa actrizes para as agonias e supplicas do 5° acto.

Terminado o forro, Gilliatt levantou-se.

Desde alguns instantes, emquanto esteve forrando a corda, ouvia elle confusamente no ar um extrecimento singular.

Assemelhava-se, no silencio da noite, ao rumor que fizesse o bater das azas de um morcego.

Gilliatt levantou os olhos.

Um grande circulo negro volteava-lhe por cima da cabeça no céo profundo e alvo do crepusculo.

Costuma-se a vêr, nos velhos quadros, circulos iguaes sobre a cabeça dos santos. A differença é que são de ouro em fundo sombrio; este era tenebroso em fundo claro. Nada mais extranho. Dissera-se a aureola nocturna da grande Douvre.

O circulo abaixava-se e levantava-se; estreitava-se e alargava-se.

Eram gaivotas, goelanos, corvos, cotovias, uma nuvem de passaros do mar, espantados.

É provavel que a grande Douvre fosse a hospedaria delles, e que elles fossem buscar ahi o repouso. Gilliatt tinha-lhe tomado um quarto. Assustou-os o inesperado inquilino.

Nunca tinham visto esse homem alli.

Durou algum tempo aquelle voar assustado.

Os passaros pareciam esperar que Gilliatt se fosse embora.

Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os olhos.

O turbilhão volante acabou por tomar uma resolução, o circulo desfez-se em espiral, e a nuvem de passaros foi cahir do outro lado do escolho, no rochedo Homem.

Ahi pareceram consultar e deliberar. Gilliatt estendendo-se no seu buraco de granito, e pondo debaixo da cabeça uma pedra, como travesseiro, ouvio por muito tempo a conversa dos passaros, que guinchavam cada um por sua vez.

Depois calaram-se, e tudo dormio, os passaros em uma rocha e Gilliatt em outra.


[VIII]

IMPORTUNAQUE VOLUCRES

Gilliatt dormio bem. Mas sentio frio, e por isso acordou varias vezes. Tinha naturalmente os pés collocados no fundo do buraco, e a cabeça á borda. Não teve o cuidado de tirar daquelle leito uma porção de seixos agudos que não lhe davam melhor somno.

De quando em quando entreabria os olhos.

Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um ruido de canhão.

Tudo alli em roda apresentava o extraordinario da visão; Gilliatt tinha a chimera á roda de si. O meio espanto da noite contribuia para que elle se visse mergulhado no impossivel. Gilliatt dizia comsigo: Estou sonhando.

Depois tornava a dormir, e sonhando então, achava-se na casa delle, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar Deruchette; estava no real. Emquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.

Com effeito, era um sonho aquillo.

Lá pelo meio da noite, ouvio-se um vasto rumor no céo. Gilliatt teve confusamente consciencia disso atravez do somno. Era provavel que fosse o vento.

De uma vez que elle acordou, com um estremecimento de frio, abrio as palpebras mais do que ate então. Havia largas nuvens no zenith; a lua fugia e uma grande estrella ia atraz della.

Gilliatt tinha o espirito cheio da diffusão dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.

De madrugada estava gelado e dormia profundamente.

A aurora tirou-o daquelle somno talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol nascente. Gilliatt bocejou, espreguiçou-se, e levantou-se do buraco.

Dormiria tão bem que não comprehendeu nada.

A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e elle exclamou: Almocemos!

O tempo estava calmo, o céo estava frio e sereno, não havia nuvens, a vassoura da noite limpára o horisonte, o sol levanta-se bem. Era um segundo dia bonito que começava. Gilliatt sentio-se alegre.

Tirou a japona, envolveu-a na pelle de carneiro, atou tudo, e metteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.

Depois fez a cama, isto é, poz fóra os seixos agudos.

Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde puzera o cesto de provisões.

Não achou o cesto; como estava muito á beira, o vento da noite atirou-o ao mar.

Isto annunciava uma intenção de luta.

Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade e malicia para ir buscar o cesto.

Era um começo de hostilidades. Gilliatt comprehendeu isso.

É difficil, quando se vive em familiaridade com o mar não vêr no vento e nas rochas creaturas e personagens.

Só restava a Gilliatt, além do biscouto e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o naufrago morto de fome no rochedo Homem.

A pesca era impossivel. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha só servem para rasgar as redes.

Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com difficuldade escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo lunch ouvio um estranho tumulto no mar. Olhou.

Era o bando de goelanos e gaivotas que cahia sobre uma das rochas baixas, batendo as azas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquella horda de bicos e unhas saqueava alguma cousa.

Essa cousa era o cesto de Gilliatt.

O cesto lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os passaros correram logo. Levaram no bico toda a especie de pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfisch.

Era a vez de entrarem tambem em luta os passaros. Faziam represalias. Gilliatt tomara-lhes a casa; elles tomavam-lhe a comida.


[IX]

O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR DELLE

Passou-se uma semana.

Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.

Mas o que elle emprehendia estava acima da força humana, em apparencia ao menos. O successo era de tal modo inverosimil que a tentativa parecia louca.

As operações encaradas de perto mostram os seus impecilhos e perigos. Basta começar para ver como é difficil concluir. Todo começo resiste. O primeiro passo que se dá é um revelador inexoravel. A difficuldade que se toca fere como um espinho.

Gilliatt teve logo de contar com o obstaculo.

Para salvar a machina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquelle lugar e naquella estação, parecia que seria necessario uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e machinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martello; precisava ter uma boa officina e um bom telheiro, Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e viveres, Gilliatt não tinha pão.

Alguem que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia elle. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava occupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufragio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufragio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar ahi depuzera, pedaços de velame, pedaços do corda, pedaços de ferro, taboas rasgadas, vergas destruidas, aqui um barrete, alli uma corrente, além uma roldana.

Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidades do escolho. Nenhum delles era habitavel, com grande decepção de Gilliatt que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.

Duas dessas anfractuosidades eram assaz espaçosas posto que o chão de rocha natural fosse quasi geralmente obliquo e desigual, podia-se andar alli de pé. A chuva e o vento entravam alli a gosto, as altas marés não lhes chegavam. Eram visinhas da pequena Douvre, e faceis de trepar á qualquer hora. Gilliatt decidio que uma seria um deposito e a outra uma forja.

Com todos os cabos que pôde recolher, fez pacotes dos restos do naufragio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos. Apertou tudo cuidadosamente. Á proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliat arrastava-os atravez dos recifes até o deposito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.

Gilliatt era tenaz e admiravel nesse trabalho. Fazia quanto queria. Nada resiste a um encarniçamento de formiga.

No fim da semana, Gilliatt tinha nesse deposito de granito todo o arsenal de objectos destruidos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as adrissas; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papafigos, as machadinhas, os cabos, e mil outros objectos, occupavam, urna vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos differentes; tudo quanto era de carpintaria estava á parte; de cada vez que era possivel, as taboas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas ás outras; não havia confusão de rises com viradores, nem pateraces, com enxarcias, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado á tabuiga da Durande, que apoiava os ovens do cesto de gavea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufragio estava alli classificado e com o rotulo competente. Era uma cousa semelhante ao cahos armazenado.

Uma vela de estaes, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.

Por mais quebrada que estivesse a prôa da Durande, Gilliatt conseguio salvar os dous cêpos da ancora, com as tres rodas de polé.

Achou o gurupés, e teve muito trabalho em desvencilhal-o das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo secco. Gilliatt, porém, tirou-as, porque o maçame podia ser-lhe util.

Recolheu igualmente a pequena ancora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar encalhara.

Achou no que fôra camarote de Tangrouille um pedaço de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.

Uma celha de couro para incendio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.

O resto do carvão que havia na Durande foi levado para o armazem.

Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho estava limpo, e a Durande alliviada. No casco só restava a machina.

O pedaço da amurada que ainda adheria ao resto não fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentado embaixo por uma saliencia de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no armazem. Parecia uma jangada aquelle pedaço de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.

Gilliatt profundamente pensativo neste labor, procurou em vão a boneca da Durande. Era uma dessas cousas que a onda tinha levado para sempre, Gillatt para achal-a daria os seus dous braços, se não precisasse tanto delles.

Na entrada do armazem, e fóra, viam-se dous montes de rebutalho, um de ferro, para fundir, outro de páo, para queimar.

Gilliatt trabalhava desde madrugada. Fóra do tempo do somno, não descançava nunca.

Os corvos marinhos, voando aqui e alli, contemplavam-n'o a trabalhar.


[X]

A FORJA

Feito o deposito, Gilliatt fez a forja.

A segunda anfractuosidade escolhida por Gilliatt offerecia ura refugio, especie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve ao principio a idéa de dormir ahi, mas o vento, renovando-se constantemente, era tão continuo e teimoso nesse corredor que elle teve de renunciar á morada. O vento deu-lhe idéa de fazer forja. Se a caverna não podia ser quarto, podia ser officina. Utilisar o obstaculo é um grande passo para o triumpho. O vento era o inimigo do Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer delle o seu lacaio.

O que se diz de certos homens:—proprios para tudo, bons para nada,—póde-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que offerecem. Tal cava de rochedo é uma banheira, mas deixa escapar a agua; outra é um leito de musgo, porém molhado; outra é uma cadeira, mas de pedra.

A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela natureza; mas domar esse esboço, até torna-lo appropriado, e transformar a caverna em laboratorio, nada mais áspero e difficil. Com tres ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera alli um vasto foles informe, muito melhor que os antigos foles de quatorze pés de comprimento, que davam por cada vez, noventa e oito mil polegadas de ar. Aquillo era outra cousa. As proporções de operação não se calculam.

O excesso de força era incommodo; era difficil regularisar aquelle sopro.

A caverna tinha dous inconvenientes; o ar e a agua atravessavam de um lado para o outro.

Não era a onda, era um pequeno esgoto perpetuo, mais semelhante a uma distillação que a uma torrente.

A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de cem pés no ar, acabara por encher de agua do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a excavação. A abundancia de agua nesse reservatorio fazia, um pouco atraz, no declive, uma pequena quéda d'agua, de cerca de uma polegada, cahindo de quatro a cinco toezas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos, uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquelle reservatorio inexgotavel, e sempre transbordando.

A agua era salobra, não potavel, mas limpida, embora salgada. A quéda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabelleira.

Gilliatt pensou em servir-se dessa agua para disciplinar o vento. Por meio de um funil de dous ou tres tubos de taboas, arranjados á pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatorio inferior, sem contrapeso, Gilliatt que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecanico, conseguio compor, para substituir o folle da forja, que não tinha, um apparelho menos perfeito do que aquelle que se chama hoje cagniardelle, porém menos rudimentario do que o que se chamava outrora nos Pyreneos uma trompa.

Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa. Com essa estopa e essa cola, e alguns pedacinhos de pão, tapou elle todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e que servira á pedra de signal. O bico ficava horisontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt poz a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.

Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no proprio rochedo, fez cahir a faisca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.

Experimentou o folle. Era admiravel.

Gilliatt sentio essa altivez de cyclope, senhor do ar, da agua e do fogo.

Senhor do ar, deu ao vento uma especie de pulmão, creou no granito um apparelho respiratorio, e fez um folle; senhor da agua, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flamma daquelle rochedo inundado.

Estando a escavação quasi toda aberta, o fumo sahia livremente, enegrecendo o rochedo. Aquelle rochedo que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.

Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor offerecendo a forma e as dimensões que se quizesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conoide, mas faltava a bigorna pyramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos Troglodytas. A superficie polida pela agua, tinha a rigidez do aço.

Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente collocada no porão da prôa. Ora, era exactamente a prôa que faltava.

As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram visinhas uma da outra. O deposito e a forja communicavam-se.

Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de biscouto molhado em agua, um ursosinho d'agua, ou algumas castanhas do mar, caça unica daquelle rochedo, e tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.

A especie de abstracção em que Gilliatt vivia, augmentava-se pela materialidade das suas occupações. A realidade era em alta doze. O trabalho corporal com os seus pormenores innumeraveis não diminuia a estupefacção que sentia de achar-se alli, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cançasso material é um fio que puxa para terra; mas a propria singularidade do trabalho emprehendido por Gilliatt, mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular. Parecia-lhe ás vezes estar dando martelladas nas nuvens. Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que elle repellia ou prevenia. Tecer maçame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar machinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precauções contra as aggressões intelligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéas, mas percebia as idéas. Sentia-se cada vez menos operario e cada vez mais pelejador.

Entrou alli como um domador. Comprehendia isso quasi. Estranha ampliação para o seu espirito.

Além disso, tinha á roda de si, a perder de vista, o immenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que vêr manobrar a diffusão das forças no insondavel e no illimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a agua infatigavel, as nuvens que parecem affadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz este perpetuo tremor? que construem estes ventos? que levantam estes abalos? Em que se occupam os choques, os soluços, os gritos? que faz todo esse tumulto? O flux e reflux dessas questões é eterno como a maré. Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação da extenção era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma fascinação inconsciente, e quasi feroz, Gilliatt pensativo ajuntava ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inutil do mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar alli á vista, o mysterio da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar, na proporção, da meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptivel do rochedo, o esfalfamento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpetuo, o oceano poço, as nuvens Danaydes, todo esse trabalho para cousa nenhuma!

Para cousa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!


[XI]

DESCOBERTA

Um escolho proximo da costa é algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar ahi? não é uma ilha. Não se pode contar com vitualhas, nem arvores com fruta, nem pastos, nem animaes, nem fontes de agua potavel. É uma nueza n'uma solidão. É uma rocha, com declives fóra d'agua, e pontas debaixo d'agua. Nada se encontra ahi a não ser o naufragio.

Essa especie de escolhos que a velha lingua marinha chama os Isolados, são, como dissemos, lugares estranhos. Só ha o mar. O mar faz alli o que lhe parece. Nenhuma apparição terrestre o perturba. O homem assusta o mar; o mar desconfia delle; esconde-lhe o que é e o que faz. No escolho, está seguro; lá não vai o homem. Não será perturbado o monologo da onda. A agua trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, aguça-lhe as pontas, eriça-o, concerta-o. Emprehende a abertura do rochedo, desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remeche, fura, esboraca, canalisa, põe os intestinos em communicação, enche o escolho de cellulas, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.

Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros, sanctuarios, palacios; tem uma vegetação hedionda e esplendida; compõe-se de hervas fluctuantes que mordem e monstros que se enraizam; mette na sombra da agua essa horrivel magnificencia. No escolho isolado, ninguem o espreita, nem o incommoda; o mar desenvolve ahi a gosto o seu lado mysteriosa inaccessivel ao homem. Depõe ahi as secreções vivas e horriveis. Acha-se alli todo o ignorado do mar.

Os promontorios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são verdadeiras construcções. A formação geologica é pouca cousa, comparada á formação oceanica. Os escolhos, casas da vaga, pyramides da espuma, pertencem á arte mysteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e tem uma especie de estylo enorme. Alli o fortuito parece intencional. Essas construcções são multiformes. Tem o embaraçado do polypo, a sublimidade da cathedral, a extravagancia do pagode, a amplidão da montanha, a delicadeza da joia, o horror do sepulchro. Tem velaolas como uma colmêa, latibulo como um páteo de bichos, tuneis como um combro de toupeiras, carceres como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tem portas, mas tapadas columnas, mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despedaçadas. Os seus compartimentos são inextrincaveis; isto é só para os passaros; aquillo é só para os peixes. Não se passa. A figura architectural transforma-se, desconcerta-se, affirma e nega a estatica, quebra-se, detem-se, começa em archivolta, acaba em architrave; seixo sobre seixo. Encelado é o pedreiro. Uma dynamica extraordinaria ostenta alli os seus problemas resolvidos. Terriveis abobadas pendentes ameaçam cahir, mas não cahem. Ninguem sabe como se seguram estes edificios vertiginosos. Declives, lacunas, suspensões insensatas; desconhece-se a lei desse babelismo. O Ignoto, immenso architecto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos, construidos confusamente, compõem um monumento monstro; nenhuma logica, um vasto equilibrio. É mais do que a solidez, é a eternidade. É a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um escolho é a tempestade petrificada. Nada mais impressivel para o espirito do que essa medonha architectura, sempre esboroante, sempre de pé. Tudo alli se ajuda e se contraria. É um combate de linhas donde resulta um edificio. Reconhece-se a collaboração dessas duas querellas, o oceano e o furacão.

Architectura que tem terriveis obras primas. O escolho Douvres era uma dellas.

Esse foi construido e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidavel. Lambia-o a agua rabugenta. Era hediondo, perfido, obscuro; cheio de cavas.

Tinha um systema de veias que eram fendas submarinas, ramificando-se em profundezas insondaveis. Muitos orificios desse rasgão inextrincavel ficavam a secco nas vasantes.

Podia-se entrar então, com risco.

Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma dellas deixava de ser temivel. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquelle aspecto de matadouro e açougue extranhamente imitado do centro das Douvres. Quem não vio as excavações desse genero, na parede do eterno granito, esses horriveis frescos da natureza, não póde fazer uma idéa do que é.

Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar-se nellas. A maré enchente invadia-as até o tecto.

Abundavam os mariscos e os fructos do mar.

Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de uma tonelada. Eram de todas as proporções e de todas as côres, a maior parte pareciam ensanguentados, alguns cobertos de filamentos pelludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no rochedo.

Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, arterias de uma circulação mysteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golphão. Essas fendas estreitavam-se constantemente de modo a não deixar passar um homem. Um brandão aceso deixava ver obscuridades gotejantes.

Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da maré prestava-se a isso. Era bello dia de calma e de sol. Não havia que temer nenhum accidente do mar que pudesse complicar o perigo.

Duas necessidades como dissemos, levavam Gilliatt a essas explorações: procurar os destroços uteis, e achar lagostas para comer. Já lhe faltavam conchas nas Douvres.

A fenda era estreita e a passagem quasi impossivel. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como pôde, e entrou até onde lhe foi possivel.

Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin atirára-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta. O rochedo, abrupto exteriormente, e inaccessivel, era vasio no interior. Tinha galerias, poços e quartos como o tumulo de um rei do Egypto. Aquelle dedalo era dos mais complicados, trabalho da agua, infatigavel solapa do mar. As divisões daquelle subterraneo submarinho, communicavam provavelmente com a agua immensa do exterior por mais de uma sahida, umas abertas ao nivel da agua, outras profundos funis invisiveis. Perto dalli, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin atirou-se ao mar.

Gilliatt, naquella fisga de crocodillos, onde na verdade não havia medo de achal-os, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o pé, encontrava o chão, avançava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, appareceu uma meia luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordinaria.


[XII]

O INTERIOR DE UM EDIFICIO DEBAIXO DO MAR

A luz vinha a proposito.

Um passo mais, e Gilliatt estaria em uma agua talvez sem fundo. As aguas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralysia tão subita, que lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.

Demais, não havia meio de subir e agarrar ás rochas entre as quaes ficaria preso.

Gilliatt parou.

Á grota, donde elle sahira, ia ter a mesma saliencia estreita e viscosa, especie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt encostou-se á muralha e olhou.

Estava n'uma grande cava. Tinha acima de si alguma cousa semelhante ao interior de um craneo dissecado. E parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das strias do rochedo imitavam na abobada as fibras dentadas de uma bola. Por tecto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota, pareciam vastos ladrilhos fluctuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. À luz vinha debaixo atravez da agua. Era um resplendor tenebroso.

Gilliatt cujas pupillas se dilataram durante o trajecto obscuro do corredor, distinguia tudo naquelle crepusculo.

Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de Plenmont em Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques em Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que alli depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era comparavel ao quarto subterraneo e submarinho onde penetrára.

Gilliatt via diante delle, debaixo da vaga, uma especie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era brilhante entre as suas duas columnas profundas e negras. Era por aquelle portico submergido que entrava na caverna claridade do alto mar. Luz estranha que vinha por um buraco na agua.

Essa claridade esvasava-se debaixo da agua como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios rectilineos, cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma anfractuosidade a outra, immilavam interposicões de laminas de vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde clarão da pupilla de uma sphynge. A cava figura o interior de uma caverna enorme; a esplendida abobada era o craneo, e a arcada era a bocca; não havia buracos dos olhos. A boca engulindo e vomitando o flux e o reflux, aberta em pleno meio dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.

Certos entes, intelligentes e máos, assemelham-se a isto. O raio do sol, atravessando aquelle portico obstruido de uma espessura vidrenta da agua do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebaran. A agua, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fusão. Um reflexo de agua-marinha de incrivel delicadeza tingia brandamente toda a caverna.

A abobada com os seus lobulos quasi cerebraes e as suas ramificações semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de chrysopraso. O chamalote da onda, reverberado no tecto, decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com um movimento de dansa mysteriosa. Sahia dalli uma impressão espectral; o espirito podia perguntar que preza ou que espera era aquella que fazia tão alegremente aquelle magnifico filete de fogo vivo. Nos relevos da abobada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegetações banhando provavelmente as raizes atravez do granito em alguma toalha de agua superior, e desbagando, nas pontas, uma gota d'agua, uma perola. Essas perolas cahiarn no golphão com um pequeno rumor. Todo esse conjuuto era inexprimivel. Não se podia imaginar nada mais lindo nem mais lngubre.

Era alli o palacio da Morte, alegre.


[XIII]

O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ

Sombra que deslumbra, tal era aquelle sitio sorprehendente.

A palpitação do mar fazia-se sentir naquella cava. A oscillação externa inchava e depremia a toalha de agua interior com a regularidade de uma respiração. Cuidava-se vêr uma alma mysteriosa naquelle grande diaphragma verde elevando-se e abaixando-se em silencio.

A agua era magicamente limpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estações immersas, superficie de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondaveis.

Dos dous lados do portico sub-marinho, esboços de cimbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas lateraes, pontos inferiores da caverna central, accessiveis talvez na época das marés extremamente baixas.

Essas anfractuosidades tinham tectos em plano inclinado, em angulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas excavações do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliquidades.

Longas hervas expessas, de mais de uma toeza, ondulavam debaixo d'agua como um balancear de cabellos ao vento. Entreviam-se florestas de sargaço.

Fóra d'agua, e dentro d'agua, toda a muralha da cava, de alto abaixo, desde a abobada até ao desapparecimento no invisivel, era tapetada dessas prodigiosas florescencias do oceano, tão raramente viaveis ao olho humano, que os velhos navegadores hespanhóes, chamaram praderias del mar. Expesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava as exostosis de granito. De todos os declives rompiam os delgados lóros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem barometros. O halito obscuro da caverna agitava essas correas luzentes.

Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo, as mais raras joias do escrinio do oceano, os marfins, as mitras, os elmos, as purpuras, os buzios, os strultiolarios, as conchas univalvulas. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscopicas, adheriam ao rochedo e grupavam-se em aldèas, em cujas ruas rolavam as multivalvulas, esses escarabeos da vaga. Não podendo os seixos de marisco entrar facilmente nessa grota, ahi se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contacto do populacho das pedras. A fulgida reunião das conchas fazia debaixo d'agua, em certos lugares, ineffaveis irradiações atravez das quaes entrevia-se um grupo de azues e vermelhos, e todos os reflexos da agua.

Na parede da caverna, um pouco ácima da linha de flutuação da maré, uma planta magnifica e singular, prendia-se como um debrum á tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quasi negra, offerecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas côr de lapiz lazuli. Na agua parecia que essas flôres accendiam-se, e cuidava-se vêr brazas azues. Fóra da agua eram flôres, dentro da agua eram saphyras, de modo que a onda, subindo e innundando o esvazamenlo da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbunculos.

A cada enchimento da vaga tumida como um pulmão, essas flôres banhadas, resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancolica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração que é a morte.

Uma das maravilhas daquella caverna era a rocha. Essa tocha, ora muralha, ora cymbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturaes. Um não sei quê, aliás de espirito, misturava-se á estupidez massiça da pedra. Que artista não é o abysmo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro e cheio de altos e baixos, representando attitudes, figurava um vago baixo-relevo; ante essa esculptura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometteo esboçando para Miguel Angelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o genio poderia acabar o que o gigante começara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinham almofadas que pareciam bronze de Corintho, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra runica tinha signaes de unha obscuros e improvaveis. Plantas com ramos torcidos em forma do verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na filagranas. Era um antro e uma alhambra. Era o encontro da selvageria e da ourivesaria na augusta e disforme architectura do acaso.

O magnifico bolor do mar avelludava os angulos do granito. As pedras estavam adornadas de lianas grandi-flôres, tão destras que não cahiam, e pareciam intelligentes tão bem adornavam ellas.

Parietarias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tuffos a proposito e com gosto. Havia alli a casquilhice possivel numa caverna. A sorprehendente luz edenica que vinha debaixo d'agua, a um tempo penumbra marinha e radiação paradisiaca, esfumava todos os lineamentos em uma especie de diffusão visionaria. Cada vaga era um prisma. O contorno das cousas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o chrosmatismo das lentes d'optica demasiado convexas; spetros solares fluctuavam debaixo da agua.

Acreditar-se-hia ver torcer-se nessa diaphaneidade auroreal pedaços de arco-iris afogados. Em outros lugares havia nagua um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados alli para fazer um quê de cego e de nocturno. Nada mais impossivel e enigmatico do que aquelle fasto naquella cava. O que dominava alli era o encanto. A vegetação phantastica e a stratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de bello effeito aquelle consorcio de cousas medonhas. Penduravam-se as ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o affago da rocha selvagem e da flôr ruiva.

Pilares massiços tinham por capiteis e por ligaduras, frageis e tremulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo cocegas nas patas de um hypopotamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.

Resultava dessa difformidade mysteriosamente ajustada uma belleza soberana. As obras da natureza, não menos supremas que as obras do genio, contém o absoluto e impoem-se. O inesperado dellas faz-se obedecer imperiosamente pelo espirito; sente-se uma premeditação que fica fora do homem, e ellas não são mais sorprehendentes do que quando fazem subitamente sahir o delicado do terrivel.

Aquella grota estava por assim dizer, e se tal expressão é admissivel, sederalisada. Sentia-se alli o imprevisto do espanto. O que enchia aquella crypta, era luz do apocalypse. Não havia certeza de que aquillo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de impossivel. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difficil crer.

Era luz aquillo que jorrava daquella janella debaixo d'agua? Era agua aquillo que tremia naquella bacia obscura? Aquelles cimbrios e porticos não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquella que se pisava? Aquelle apoio não ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era aquella que se entrevia? Que distancia havia dalli á vida, á terra, aos homens? Que encanto era aquelle misturado áquellas trevas? Commoção inaudita, quasi sagrada, á qual misturava-se a doce inquietação das hervas no fundo d'agua.

Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma archivolta cyclopica singularmente correcta, em um buraco quasi indistinto, especie de antro no antro, especie de tabernaculo no sanctuario, atraz de uma toalha de luz verde, interposta como um véo de templo, descobria-se fora d'agua uma pedra de angulos cortados em quadro com uma parecença de altar. A agua circumdava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido d'alli. Era impossivel deixar de pensar, debaixo d'aquella crypta, em cima daquelle altar, em alguma nueza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era difficil conceber aquella celula augusta sem uma visão dentro della; a apparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um rorejar de casta luz sobre espaduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto olympico, uns mysteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparra em uma aurora, uns quadris ineffaveis modelados em luz pallida, no meio da sagrada bruma, umas fórmas de nympha, um olhar de virgem, uma Venus sahindo do mar, uma Eva sahindo do cahos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação. Era inverosimil que não estivesse antes um phantasma naquelle lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter occupado aquelle altar. Sobre aquelle pedestal, d'onde emanava um estasis inexprimivel, imaginava-se uma alvura, viva e de pé. O espirito creava, no meio da adoração muda daquella caverna, uma Amphitrite, uma Tethys, alguma Diana que podesse amar, estatua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ella quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquella claridade, especie de perfume—luz sahido daquelle corpo-estrella. A fascinação daquelle fantasma já não estava alli; já se não via a figura, feita para ser vista sómente pelo invisivel, mas sentia-se; recebia-se aquelle estremecimento que é uma volupia. A deosa estava ausente, mas a divindade estava presente.

A bellesa do antro parecia feita para aquella presença. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos nacares, dessa rainha das brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa delia, ao menos suppunha-se isto, que o subterraneo estava religiosamente murado, afim de que nada perturbasse nunca, em derredor daquelle divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o silencio que é uma magestade.

Gilliatt, que era uma especie de vidente da naturesa, scismava, confusamente commovido.

De subito, alguns palmos abaixo delle, na transparencia encantadora daquella agua, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt vio alguma cousa inexprimivel. Uma especie de longo andrajo movia-se na oscillação das vagas. Esse andrajo não fluctuava, vogava; tinha a fórma de um sceptro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossivel de molhar-se cobria aquelle todo. Era mais que horrivel, era nojento. Tinha um quê de chimerico; era um ente, a menos que não fosse uma apparencia. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se alli. As espessuras da agua tornaram-se sombrias sobre aquella cousa que resvalou e desappareceu, sinistra.


[LIVRO SEGUNDO]

O trabalho


[I]

OS RECURSOS DAQUELLE QUE NÃO TEM RECURSOS

A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco commoda, a sahida foi ainda peior. Gilliatt entretanto safou-se, mas não voltou lá. Nada encontrou do que procurava, e não tinha tempo para ser curioso.

Poz immediatamente a forja em actividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.

Tinha por combustivel os destroços, a agua por motor, o vento por folles, uma pedra por bigorna, por arte o instincto, por força a vontade.

Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.

O tempo mostrava-se complacente. Continuava bello, e o menos equinoxial possivel. Chegára o mez de Março, mas tranquillamente. Os dias tornavam-se compridos. O azul do céo, a vasta doçura dos movimentos da extensão, a serenidade do meio dia, pareciam excluir qualquer intensão má. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um affago previo tempera as traições. A agoa marinha não é avara desses affagos. Com aquella mulher é preciso desconfiar do sorriso.

Havia pouco vento; a hydraulica soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.

Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra attacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas mãos do ferreiro, uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a pinça maneja; uma trabalha como a mão, a outra como o dedo. A ferramenta é um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construia as suas armaduras. Com um pedaço de ferro em folha fez uma anteparo na forja.

Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação das roldanas. Concertou as caixas e as rodas das polés. Cortou a exfoliação de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria, grande cópia de peças de madeira armazenadas, e apparelhadas, segundo as formas, as dimensões e as essencias, o carvalho de um lado, o pinheiro do outro, as peças curvas, como as porcas, separadas das peças direitas, como as que ligam as escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia precisar em um momento dado.

Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e polés mas não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as vellas rasgadas, e conseguio extrahir excellente fio com que compoz uma sarja, e cirzio o cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pôde fazer o massame sem ter alcatrão.

Concertou as cordas, concertou as correntes.

Pôde, graças á ponta lateral da bigorna, fazer aneis grosseiros, mas solidos; com esses aneis, prendeu uns aos outros os pedaços de corrente quebrados, e fez correntes compridas.

Forjar só, e sem auxilio, é mais do que incommodo. Comtudo Gilliatt conseguio fazêl-o. É certo que só teve de trabalhar na forja, peças de pequeno volume; podia meneal-as com uma mão, e martellar com a outra.

Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do commando; forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um lado uma ponta, do outro uma larga cabeça chata, e desse modo fez grandes prégos de palmo e meio. Esses prégos, muito usados em trabalhos maritimos, são uteis para fixar os páos nas pedras.

Porque motivo Gilliatt tomava todo este trabalho? Vêr-se-ha.

Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima triangular.

Servia-se tambem do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliat fez outra.

Com ajuda da pinça e da tenaz, e servindo-se da faca como de um virador emprehendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguio. É preciso não esquecer que isso era exequivel; essa era a particularidade da construcção das rodas. As caixas que as tinham coberto, serviram-lhes de capas; com as taboas das caixas, Gilliatt arranjou dous caixotes onde metteu peça por peça, as duas rodas cuidadosamente numeradas.

O pedaço de giz servio-lhe para essa numeração.

Arranjou os dous caixotes na parte mais solida do convez da Durande.

Terminados estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da difficuldade suprema. Surgio a questão da machina.

Desmontar as rodas foi possivel; desmontar a machina, não.

Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquelle mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconcerto irreparavel. Depois, mesmo para tentar desmontal-a peça por peça, se tivesse esta imprudencia, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que elle podia fazer n'uma caverna por officina, com o vento por folles, e uma pedra por bigorna. Tentando desmontar a machina arriscava-se a despedaçal-a.

Aqui podia-se crêr que estava diante do impraticavel.

Affigurou-se-lhe que estava ao pé deste muro: o impossivel.

Que fazer?


[II]

DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCONTRAR-SE COM ESCHYLO

Gilliatt tinha uma idéa.

Desde aquelle carpinteiro de Salbris que, no VI seculo, na infancia da sciencia, muito antes que Amoutons tivesse achado a primeira fricção, Labire a segunda, e Coulomb a terceira, sem conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho delle, com uma ferramenta informe, resolveu em massa, arreando o grande relogio da igreja de Charité-Sur-Loire, cinco ou seis problemas de statica e de dynamica, todos juntos, como as rodas de carros embaraçados; desde esse trabalhador extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de latão e sem desfazer um encaixe, arrear de uma só vez, por uma simplificação prodigiosa, do segundo andar da torre ao primeiro, aquella massiça gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma guarita, com o seu movimento, cylindros, tambores, ganchos, mostrador, pendula horisontal, ancoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos quaes um pesava quinhentas libras, tympano, carrilhão; desde esse homem que fez esse milagre, e cujo nome já se não sabe, jámais houve nada igual á empreza que Gilliatt commettia.

A operação de Gilliatt era talvez peior, isto é, mais bella ainda que a outra.

O peso, a delicadeza, o conjuncto das difficuldades, não eram menores na machina da Durande que no relogio de Charité-Sur-Loire.

O carpinteiro gothico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era só.

Havia uma população, vinda de Menug-Sur-Loire, de Nevers, e mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar o carpinteiro de Salbris, e animal-o com os seus rumores benevolos; Gilliatt só tinha á roda de si o rumor do vento e a multidão das ondas.

Nada se compara á timidez da ignorancia, a não ser a sua temeridade. Quando a ignorancia começa a ousar é que tem uma bussola comsigo. Essa bussola é a intuição da verdade, mais clara ás vezes num espirito simples que n'um espirito complicado.

Ignorar convida a tentar. A ignorancia é um devaneio, e o devaneio curioso é uma força. Saber, desconcerta ás vezes, e desaconselha muitas. Se Vasco da Gama soubesse recuára ante o Cabo das Tormentas. Se Christovão Colombo fosse bom cosmographo não teria descoberto a America.

O segundo que subio ao Monte Branco foi um sabio, Saussure; o primeiro foi um pastor, Balmat.

Taes casos, digamol-o de passagem, são a excepção, e tudo isto não tira nada á sciencia, que fica sendo a regra. O ignorante póde achar, só o sabio inventa.

A pança continuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o mar a deixava tranquilla. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo de modo a ficar em livre pratica com a barca. Foi alli e mediu-a em diversos pontos. Depois voltou á Durande e mediu o grande diametro da machina. O grande diametro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto dous pés que o espaço da pança. Portanto, a machina podia entrar na barca.

Mas como metel-a ahi?


[III]

A OBRA PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA PRIMA DE LETHIERRY

Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir perlustrar aquellas paragens, em semelhante estação, teria pago a sua ousadia com a visão de uma cousa singular entre as Douvres.

Veria isto o pescador: quatro roubustas pranchas com espaços iguaes entre si, indo de uma Douvre á outra, e como que forçadas entre os rochedos, o que é a melhor solidez deste mundo. Do lado da pequena Douvre as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas da rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido violentamente espetadas na columna com um martello por um robusto trabalhador trepado na propria prancha. Essas pranchas eram um pouco mais longas que o intervallo das Douvres; dahi, a segurança e o plano inclinado em que estavam, formando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre em angulo agudo e a pequena em angulo obtuso. Era suave o declive, mas desigual, o que se tornava defeito. A essas quatro pranchas prendiam-se quatro polés guarnecidas todas de corda e boça, e tendo esta singularidade e ousadia, que a polé de rodas estava em uma extremidade da prancha e a polé simples na extremidade opposta. Este desvio de arte, tamanho que era perigoso, era provavelmente exigido pela necessidade da operação. As polés compostas eram fortes e as siraplices eram solidas. A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por baixo desse aparelho aereo de guindastes e taboas, o massiço casco da Durande parecia suspenso a esses fios.

Ainda não estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das pranchas, oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a bombordo e quatro a estibordo da machina, e mais oito debaixo dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no convez, depois sahiam pela carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e da machina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e subindo, atravessando, o convez, voltavam a prender-se nos quatros guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um rolo de um cabo unico podendo ser dirigido por um só braço. Um gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o cabo unico completavam o apparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta combinação obrigava as quatro polés a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de forças pendentes, leme de dynamica na mão do piloto da operação, mantinha a manobra em equilibrio. O ajustamento engenhoso do guincho tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Werton de hoje, e do antigo polypastono de Vitruvio. Gilliatt descobrio isso, sem conhecer Vitruvio, que já não existe, nem Werton, que não existia ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o desigual declive das pranchas, e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram perigosas, o maçame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas as correntes não poderiam passar com facilidade nas polés.

Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um só homem, era sorprehendente.

De mais, abreviemos a explicação. Comprehender-se-ha que ommittimos muitos pormenores que tornariam a cousa clara para as pessoas do officio, e obscura para as outras.

O cimo do cano da machina passava por entre as duas pranchas do meio.

Gilliatt, sem dar por isso, plagiario inconsciente do desconhecido, refez, a tres seculos de distancia, o mechanismo do carpinteiro de Salbris, mechanismo rudimentario e incorrecto, assustador para quem ousasse manobral-o.

Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros não impedem que um mechanismo funccione. O obelisco da praça de S. Pedro de Roma foi levantado contra todas as regras da statica. O coche do czar Pedro era construido de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto andava. Quantas difformidades na machina de Marly. Tudo alli era mal feito. Nem por isso deixou de dar de beber a Luiz XIV.

Fosse como fosse, Gilliatt tinha confiança. Contava até com o successo ao ponto de fixar na borda da pança, no dia em que lá foi, dous pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos dous lados da barca, nos mesmos espaços que as quatro argolas da Durande ás quaes se prendiam as quatro correntes do cano.

Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e definitivo. Tendo contra si todas as probabilidades, queria pôr todas as precauções do seu lado.

Fazia cousas que pareciam inuteis, signal de uma premeditação attenta.

A sua maneira de proceder desviava um observador, e mesmo um conhecedor.

Uma pessoa que o visse, por exemplo, com exforços inauditos e em risco de quebrar o pescoço, pregar com um martello oito ou dez grandes pregos que elle forjou, no esvasamento das duas Douvres, na entrada da garganta do escolho, comprehenderia difficilmente o motivo desses pregos, e perguntaria provavelmente porque razão fazia todo aquelle trabalho.

Se visse Gilliatt medir o pedaço da amurada da prôa que ficára pendurada, depois prender uma forte corda na borda superior desta peça, cortar com um machado as madeiras deslocadas que a retinham, arrastal-as fora da garganta, com auxilio da maré que descia, e emfim prender laboriosamente com a corda essa pesada massa de taboas e vigas, mais larga que a entrada da garganta, aos prégos mettidos na base da pequena Douvre, o observador comprehenderia menos ainda, e diria que, se Gilliatt quizesse para facilidade da manobra, desempedir o intervallo das Douvres, bastava deixar cahir aquelle pedaço de taboas na maré que o levaria á flor d'agua.

Gilliatt provavelmente tinha lá as suas razões.

Gilliatt, para fixar os prégos na base das Douvres, tirava partido de todas as fendas do granito, alargava-as quando era preciso, e mettia ao principio tocos de páos, nos quaes introduzia depois os prégos. Emboçou a mesma preparação nas duas rochas que se levantavam n'outra extremidade do escolho, do lado de leste; guarneceu de cavilhas de páo todos os buracos, como se as quizesse ter promptas para receber ganchos; mas isso pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt não metteu prégos nessas fendas. Comprehende-se que, por prudencia na sua penuria, elle não podia gastar materiaes senão á proporção que tivesse necessidade, e no momento em que a necessidade se manifestasse. Era mais uma complicação no meio de tantas difficuldades.

Acabado um primeiro trabalho, surgia um segundo, Gilliatt passava sem hesitar de um a outro e dava resolutamente esse pulo de gigante.


[IV]

SUBRE

O homem que fazia estas cousas tornára-se medonho.

Gilliatt, naquelle trabalho multiplo, gastava todas as suas forças; difficilmente as refazia.

Privações de uma parte, cançasso de outra, Gilliatt tinha emmagrecido. Cresceram-lhe as barbas e cabellos. Excepto uma camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os pés nús, por que o vento levára-lhe um sapato, e o mar o outro. Pedaços da bigorna rudimentaria, e mui perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas mãos e nos braços pequenas chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que feridas, eram superficiaes, mas irritadas pelo ar vivo e pela agua salgada.

Tinha fome, tinha sede, tinha frio.

O pichel de agua doce estava vasio. A farinha de centeio fôra já comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de biscouto.

Não tendo agua para molhal-o, Gilliatt quebrava-o com os dentes.

Dia a dia iam-lhe escasseando as forças.

Aquelle temivel rochedo esgotava-lhe a vida.

Beber, era uma questão; comer, era uma questão; dormir, era uma questão.

Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho do mar; bebia quando via um passaro descer a alguma ponta da rocha. Trepava então e achava n'uma cava um pouco de agua doce. Bebia depois do passaro, ás vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas já estavam acostumadas a elle, e não fugiam quando elle se approximava. Gilliatt, mesmo na maior fome não lhes fazia mal. Sabemos que elle tinha a superstição dos passaros. Os passaros, como os cabellos de Gilliatt estivessem eriçados e horriveis, e a barba longa, já lhe não cobravam medo; a mudança do aspecto tranquillisava-os; já não viam naquillo um homem, acreditavam-n'o bicho.

Os passaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aquelles pobres ajudavam-se uns aos outros. Emquanto Gilliatt teve centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os passaros indicavam-lhe em que lugar havia agua.

Comia as conchas cruas; as conchas, em certa proporção, são refrigerantes. Quanto aos caranguejos cosia-os; não tendo vasilha propria, cosia-os entre duas pedras abrasadas ao fogo, como os selvagens das ilhas Feroe.

Declarou-se entretanto um pouco de equinoxio; veio a chuva; mas chuva hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas longos choviscos, finos, gelados, que, atravessavam-lhe a roupa até á pelle, e a pelle até os ossos. Era chuva que dava pouco de beber e molhava muito.

Avara de auxilio, prodiga de miseria, tal era aquella chuva, indigna do céo. Gilliatt apanhou-a toda, durante uma semana, de noite e de dia. Era uma má acção lá de cima.

De noite, no seu buraco do rochedo, só dormia por cançasso. Os grandes mosquitos do mar iam morde-lo. Acordava coberto de pustulas.

Tinha febre, que o sustentava; a febre é um amparo, que mata. Mastigava, por instincto, o musgo ou chupava as folhas de cochlearia selvagem, magras producções das fendas seccas do rochedo. Mas occupava-se bem pouco com o soffrimento. Não tinha tempo de distrahir-se do trabalho para cuidar de si. A machina da Durande estava de saude. Era o que bastava.

A cada momento, para as necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se ao mar, depois tomava pé. Entrava na agua e sahia, como se passa de um quarto a outro.

As roupas já lhe não seccavam. Estavam embebidas da agua da chuva que não parava, e da agua do mar que não secca nunca. Gilliatt vivia molhado.

Viver molhado é um habito que se adquire. Os pobres grupos irlandezes, velhos, mães, raparigas quasi nuas, crianças, que passara o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns contra os outros nos angulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem molhados.

Estar molhado e ter sede; Gilliatt supportava essa tortura extranha. De quando em quando mordia a manga da japona.

O fogo que elle accendia não o aquecia; o fogo no meio de um grande espaço arejado é um meio soccorro; secca-se de um lado, humedece-se de outro.

Gilliatt suava e tiritava.

Tudo lhe resistia em roda delle numa especie de silencio terrivel. Elle sentia o inimigo.

As cousas tem um sombrio Non possumus.

A inercia dellas é uma lugubre advertencia.

Immensa má, vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava-o a agua, a sêde causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a fome minava-lhe o estomago. Elle supportava a oppressão era um conjuncto fatigante. O obstaculo, tranquillo, vasto, tendo a irresponsabilidade apparente da fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre elle. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quasi uma entidade. Gilliatt tinha consciencia de um desprezo sombrio e de um odio que fazia esforço por diminui-lo. Dependia delle fugir, mas, pois que ficava, tinha de lutar com a hostilidade impenetravel. Não podendo po-lo fóra d'alli, punham-n'o debaixo dos pés. Quem? O Ignoto. Apertavam-n'o, comprimiam-n'o, tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invisivel. Cada dia, a mysteriosa verruma entrava um pedaço.

A situação de Gilliatt naquelle medonho lugar assemelhava-se a um duelo equivoco com um traidor.

Cercava-o a coalição das forças obscuras. Elle sentia uma resolução de alguem para expulsal-o dalli. É assim que a geleira expelle a massa erratica.

Quasi sem parecer que o tocava, essa coalição latente punha-o em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos, e por assim dizer, fóra de combate antes do combate. Nem por isso deixava elle de trabalhar, e sem cessar, mas á proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo o operario, Dissera-se que aquella feroz natureza, receiando a alma, resolvera-se a extenuar o homem. Gilliatt affrontava, e esperava. O abysmo começava por cançalo. Que faria depois o abysmo?

A dupla Douvres, dragão de granito e emboscado em pleno mar, admitira Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A admissão assemelhava-se á hospitalidade de um sorvedouro aberto.

O deserto, a extenção, o espaço onde ha para o homem tantos recursos, a inclemencia muda dos phenomenos seguindo o seu curso, a grande lei geral implacavel e passiva, o flux e o reflux, o escolho, pleiada negra onde cada ponto é uma estrella de turbilhões, centro de uma irradiação e correntes, a conspiração da indifferença das cousas contra a tenacidade de um ente, o inferno, as nuvens, o mar sitiante, cercavam Gilliatt, apertavam-n'o lentamente, fechavam-se sobre elle, e o separavam dos vivos, como um carcere que fosse subindo á roda de um homem. Tudo contra elle, nada a favor delle; estava isolado, abandonado, minado, esquecido.

Gilliatt tinha esgotado as provisões, as ferramentas já estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de noite, feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo suppurações, buracos nas roupas e na carne, mãos dilaceradas; pés sangrentos, membros magros, rosto livido, uma flamma nos olhos.

Flamma soberba essa, era a vontade visivel. O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por elle a virtude. A nossa pupilla diz que quantidade de homens ha dentro de nós. Affirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciencias piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não ha nada que brilhe debaixo da palpebra, é que nada ha que pense no cerebro, é que nada ha que ame no coração. Quem ama quer, e aquelle que quer relampeja e scintilla. A resolução enche os olhos de fogo; admiravel fogo que se compõe da combustão dos pensamentos timidos.

Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quasi todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra:—Perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpetua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céo o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no segundo caso, é Jesus. Insensata é a cruz; vem dahi a sua gloria. Não deixar discutir a consciencia, nem desarmar a vontade, é assim que se obtem o soffrimento e o triumpho. Na ordem dos factos moraes o cahir não exclue o pairar. Da queda sabe a ascenção. Os mediocres deixam-se perder pelo obstaculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza delles. Pódes dar a Estevão todas as boas razões para que elle não se faça apedrejar. O desdem das objecções razoaveis crêa a sublime victoria vencida que se chama o martyrio.

Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao impossivel, o exito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso é que o fazia magnanimo, isso é que o fazia pathetico.

Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas apalpadellas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa era a miseria do trabalho solitario. Fatalidade na causa, necessidade no effeito. Gilliatt fez mais do que aceitar essa miseria; quil-a. Temendo um concurrente, porque um concurrente poderia ser um rival, não procurou auxiliar. A esmagadora empreza, o risco, o perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolimento possivel do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo isso tomou elle para si só. Teve este egoismo.

Gilliatt estava debaixo de uma especie de machina pneumatica. A vitalidade ia-se retirando delle a pouco e pouco. E elle mal o sentia.

A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potencia; a primeira é querer; as montanhas proverbiaes que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O que Gilliatt perdia em vigor, rehavia em tenacidade. A diminuição do homem physico debaixo da acção repellente daquella natureza selvagem produzia o engrandecimento do homem moral.

Gilliatt não sentia a fadiga, ou para melhor dizer, não consentia nella. O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo é uma força immensa.

Gilliatt via os progressos do trabalho, e não via nada mais. Era miseravel sem sabel-o. O seu alvo, que elle tocava quasi, allucinava-o, soffria todos os soffrimentos sem ter outra idéa que não fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe á cabeça. Vontade embriagada. O homem póde embriagar-se com a propria alma. Essa embriaguez chama-se heroismo.

Gilliatt era uma especie de Job do Oceano.

Mas um Job que lutava, um Job que combatia e affrontava os flagellos, um Job que conquistava, e se taes palavras não são demasiado grandes para um pobre marinheiro pescador de carangueijos A de lagostas, um Job Prometheu.


[V]

SUB UMBRA

Ás vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a sombra.

Sentia-se extremamente commovido.

Olhar aberto sobre trevas. Situação lugubre: anciedade.

Existe a pressão da sombra.

Inexprimivel tecto de tenebras; alta obscuridade sem mergulhador possivel; luz mesclada á obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? é cinza? milhões de fachos, claridade nulla; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma diffusão de fogo em poeira que parece um bando de faiscas paradas, a desordem do turbilhão e a immobilidade do sepulchro, o problema offerecendo uma abertura de precipicio, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição.

Esse amalgama de todos os mysterios a um tempo, do mysterio cosmico e do mysterio fatal, abate a cabeça humana.

A pressão da sombra actúa em sentido inverso nas differentes especies de almas. O homem diante da noite reconhece-se incompleto. Vê a obscuridade e sente a enfermidade. O céo negro é o homem cégo. Entretanto com a noite, o homem abate-se, ajoelha-se, prostorna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura azas. Quasi sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido. Pergunta o que é; treme, curva-se, ignora; ás vezes quer ir lá.

Aonde?

Lá.

Lá? O que é? Que ha lá?

Essa curiosidade é evidentemente a das cousas defezas, porque para aquelle lado todas as pontes á roda do homem estão cortadas. Mas o desejo attrahe, porque é golphão. Onde não vae o pé, vae o olhar, onde o olhar pára, póde continuar o espirito. Não ha homem qne não tente, por mais fraco e insufficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns é um rechaçamento, para outros é uma dilatação. O espectaculo é sombrio. Mescla-se a elle o indefinivel.

Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É um fundo de fumaça. O illimitado recusa-se e offerece-se ao mesmo tempo, fechado à experiencia, aberto á conjectura. Infinitas picadas de luz tornam mais negra a obscuridade sem fundo. Carbunculos, scintillações, astros. Presenças verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses clarões. São estacas da creação no absoluto; são marcos de distancia lá onde já não ha distancia; é uma especie de numeração impossivel, e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto microscopico que fulge, depois outro, mais outro, mais outro; é o imperceptivel, é o enorme. Essa luz é um fóco, esse fóco é uma estrella, essa estrella é um sol, esse sol é um universo, esse universo é nada. Todo o numero é zero diante do infinito.

Esses universos, que nada são, existem. Verificando-os, sente-se a diferença que vai entre ser nada, e não ser.

O inaccessivel ligado ao inexplicavel, eis o céo.

Dessa contemplação solta-se um phenomeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro. O medo sagrado é proprio do homem; a besta ignora esse medo. A intelligencia acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua prova.

A sombra é una: vem dahi o seu horror, É ao mesmo tempo complexa: vem dahi o terror. A sua unidade pesa no nosso espirito e sacca-lhe a vontade de resistir.

A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem receiar assaltos subitos. O homem rende-se, e defende-se, Fica em presença de Tudo, dahi vem a submissão, e de Muitos, dahi vem a desconfiança. A unidade da sombra contém um multiplo. Multiplo mysterioso, visivel na materia, sensivel no pensamento. Faz silencio, razão de mais para espreitar.

A noite,—já o disse algures quem escreve estas linhas,—é o estado proprio, normal da creação especial de que fazemos parte. O dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrella.

O prodigio nocturno universal não se realiza sem attritos, e os attritos de uma tal machina são as contusões da vida. Os attritos da machina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasphemia implicita do facto rebelde ao ideal. O mal accrescenta uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cosmico. O mal está presente em tudo para protestar. É furacão, e atormenta a marcha de um navio, é cahos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiquidade. O mal desconcerta a vida, que é uma logica. Faz devorar a mosca pelo passaro, e o planeta pelo cometa. O mal é um borrão na natureza.

A obscuridade nocturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-se e debate-se. Não ha fadiga comparavel a esse exame de trevas. É o estudo de um apagamento.

Não ha lugar definitivo para pousar o espirito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das soluções contradictorias, todos os ramos da duvida a um tempo, a ramificação dos phenomenos esfoliando-se sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insondavel que faz com que a mineralisação vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie, e a gravitação ame; a immensa fronte de ataque de todas as questões desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a simultaneidade cosmica em plena apparição, não para o olhar, mas para a intelligencia, no espaço indistincto; o invisivel tornado visão. É a Sombra. O homem está embaixo. Não conhece os pormenores, mas supporta, em qualidade proporcionada ao seu espirito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os pastores chaldeus á astronomia. Sahem dos poros da creação revelações involuntarias; faz-se por si mesma uma transudação de sciencia e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnação mysteriosa torna-se o solitario, muitas vezes sem ter consciencia, um philosopho natural.

A obscuridade é indivisivel. É habitada. Habitada sem deslocação pelo absoluto; habitada tambem com deslocação. Move-se alli dentro alguma cousa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve alli as suas phazes. Premeditações, potencias, destinos intencionaes, laboram ahi em commum uma obra desmedida. Vida terrivel e horrivel é o que existe alli dentro. Ha vastas evoluções de astros, a familia stellaria, a familia platenaria, o pollen Zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos effluvios, das polarisações e das alterações; ha o amplexo e o antagonismo, um magnifico flux e reflux da antithese universal, o imponderavel em liberdade no meio dos centros; ha a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o atomo errante, o germen esparso, curvas de fecundação, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas, distancias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos de mundos no incalculavel, prodigios perseguindo-se nas trevas, um machinismo definitivo, sopro de espheras em fuga, rodas que se sente andarem; existe e esconde-se; é inexpugnavel, fora de alcance. Fica-se convencido até á oppressão. Tem-se em si uma evidencia negra. Nada se póde agarrar. Esmaga-nos o impalpavel.

Por toda a parte o incomprehensivel: em parte alguma o intelligivel.

E a tudo isto accrescentai a terrivel questão: esta Immanencia é um Ser?

Está-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se.

Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flôres tem consciencia desse movimento enorme; a silena abre-se ás onze horas da noite e a emerocala ás cinco horas da manhã. Impressivel regularidade.

Em outros profundidades a gotta d'agua faz-se mundo, o infusorio pulula, a fecundidade gigante sahe do animaculo, o imperceptivel ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da immensidade manifesta-se; uma diatoméa produz em uma hora um milhar e trezentos milhões de diatoméas.

Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo!

Está ahi o irreductivel.

Constrange-se-nos á fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar tranquillo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de forma. Dahi vem as religiões. Nada é tão oppressivo como uma crença sem delineamento.

Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resistencia interior, olhar a sombra, não é olhar, é contemplar.

Que fazer desses phenomenos? Como mover-se debaixo de sua convergencia? É impossivel decompôr esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes mysteriosos? Quantas revelações abstrusas, simultaneas, obscurecendo-se em sua propria multidão, especie de balbuciar do verbo! A sombra é um silencio: mas esse silencio diz tudo. Surge magestosamente um resultado: Deos. Deos é a noção incomprehensivel. Essa noção está no homem. Os syllogismos, as querellas, as negações, os systemas, as religiões, passam por cima sem diminuil-a. A sombra inteira affirma aquella noção. Mas turva-se tudo o mais. Immanencia formidavel. A inexprimivel harmonia das forças manifesta-se pelo equilibrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem accidente e sem fractura. O homem participa deste movimento de translação e á quantidade de oscilação que supporta, chama elle destino. Onde começa o destino? Onde acaba a natureza? Que differença ha entre um acontecimento e uma estação, entre um pezar e uma chuva, entre uma virtude e uma estrella? Uma hora não é uma onda? Continúa o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impassivel. O céo estrellado é uma visão de rodas, de pendulas e de contra pesos. É a contemplação suprema, forrada da suprema meditação. É toda a realidade e mais a abstracção. Nada além dahi. O homem sente-se preso. Fica á discrição da sombra. Não ha evasão possivel. Vê-se elle naquelle composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que está fora delle. Isto é o annuncio sublime da morte. Que angustia e ao mesmo tempo que fascinação! Adherir ao infinito, e por essa adherencia attribuir-se uma immortalidade necessaria, quem sabe? uma eternidade possivel, sentir na prodigiosa vaga desse silencio universal a obstinação insubmersivel do eu! contemplar os astros, e dizer: Sou uma alma como vós! contemplar a obscuridade e dizer: sou um abysmo com tú.

Essas enormidades são a noite.

Tudo isso augmentado, pela solidão, pesava em Gilliatt.

Comprehendia-o elle? Não. Sentia-o? Sim.

Gilliatt era um grande espirito turvado e um grande coração selvagem.


[VI]

GILLIATT COLLOCA A PANÇA EM POSIÇÃO

O salvamento da machina, meditado por Gilliatt, era, como dissemos, uma verdadeira evasão, e são conhecidas as paciencias da evasão. Tambem se conhecem as suas industrias. A industria chega ao milagre; a paciencia attinge á agonia. Tal prisioneiro, Thomas, por exemplo, no monte S. Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou o chumbo na plataforma de passeio da prisão, não se sabe com que faca, fundio-o não se sabe com que fogo, vasou-o numa fôrma feita de migalhas de pão; com esse chumbo e essa fôrma fez uma chave e com essa chave abrio uma fechadura que elle apenas conhecia por ter-lhe visto o buraco. Gilliatt tinha estas habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer o penedio Boisrosé. Era o Trenck de um destroço e o Latude de uma machina.

O mar, que era o carcereiro, vigiava-o.

Demais, por ingrata e má que fosse a chuva, Gilliatt aproveitou-a. Refez com ella a sua provisão de agua doce; mas a sede era inextinguivel e Gilliatt esvasiava o pichel quasi tão rapidamente como o enchia.

Um dia, o ultimo de Abril creio, ou o 1.° de Maio, tudo estava prompto. O assoalho da machina estava como que mettido entre os oito cabos das polés, quatro de um lado, quatro de outro. As dezeseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e á carena. A madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a faca e, o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a machina, foi cortada em quadro e estava prompta para resvalar com a machina sustentando-a. Todo esse grupo assustador só estava preso por uma corrente, a qual dependia só de um golpe de lima. Tão perto do remate, a pressa era prudencia.

A maré estava baixa, o momento era bom.

Gilliatt, tinha conseguido desmontar a arvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obstaculo e impedir, aquelle levantar de ancora. Tinha conseguido amarrar vertical mente a pesada peça na propria machina.

Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava cançado porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se impossivel a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se quebrado. O folles começava a trabalhar mal. Como a pequena queda hydraulica era de agua marinha, formaram-se depositos salinos nas junturas do apparelho e impediam-lhe o jogo.

Gilliatt foi á angra do Homem, passou revista á pança assegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e a estibordo, levantou a ancora e remando voltou com a pança ás duas Douvres.

O intervallo das Douvres podia admittir a pança. Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que podia-se levar a pança até debaixo da Durande.

A manobra era comtudo excessiva, exigia uma precisão de joalheiro e esta inserção do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necessario entrar pela pôpa com o leme na prôa. Era necessario que o mastro e os apparelhos da pança ficassem áquem do casco do vapor, do lado da entrada.

Este aggravo na manobra, tornou a operação difficil ao proprio Gilliatt. Já não era, como na angra do Homem, uma questão de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puchar, remar e sondar. Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguio.

Em quinze ou vinte minutos a pança ficou collocada debaixo da Durande. Ficou quasi atravessada. Gilliatt por meio de duas ancoras, segurou a pança. A maior ficou collocada de modo a trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois por meio de uma alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para a pança as duas caixas contendo as rodas desmontadas cujos cabos de guindar estavam promptos. As duas caixas fizeram lastro.

Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.

Para a obra de Gilliatt os defeitos da pança tornavam-se qualidades; não tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no porão. Era mastreada na prôa, muito na prôa talvez, o carregamento achava mais facilidade e o mastro ficava fóra da machina, de modo que nada impedia a sahida; era uma especie de concha, e nada mais estavel e solido no mar como uma concha.

De repente Gilliatt vio que a maré enchia. Tratou de ver donde soprava o vento.


[VII]

SURGE UM PERIGO

Havia pouca brisa, mais vinha do oeste. É um máo costume de vento no equinoxio.

A maré enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquelle corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a agua é boa e molle, se entra por oeste é furiosa. A razão disto é que o vento de leste, vindo de terra tem pouco alento, emquanto que o vento de oeste, que atravessa o Atlantico, traz comsigo todo o sopro da immensidade. Mesmo quando a brisa é fraca assusta quando vem do oeste. Róla largas ondas da extençáo illimitada e cospe grossas vagas no estreito.

A agua que se engolpha é sempre terrivel. A agua é como a multidão; uma multidão é um liquido; quando a quantidade que póde entrar é menor que a quantidade que deseja entrar, a multidão machuca-se e a agua convulsiona-se. Emquanto sopra o vento do poente, ainda a mais fraca brisa, ha nas Douvres este assalto, duas vezes por dia. A maré levanta-se, a rocha resiste, a abertura é pequena, a onda entrando á força salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viéla. De modo que as Douvres ao menor vento do oeste, offerecem este espectaculo singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e circumscripto, não é uma tormenta; é apenas uma revolta de vagas, mas terrivel. Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada por leste, é preciso lembra-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura temivel do oeste fica na extremidade opposta exactamente entre as duas Douvres.

Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande naufragada e a pança ancorada.

Parecia inevitavel uma catastrophe, esta catastrophe imminente, tinha, embora pouco, o vento de que precisava.

Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta no estreito das Douvres. As primeiras vagas já começavam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o Atlantico que teria atraz de si a totalidade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma cólera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma força de impulsão que, partindo da America para chegar á Europa, tinha duas mil leguas de jacto. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiate do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito, inchada pela maré, inchada pelo obstaculo, repellida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria violencia ao escolho, penetraria, com todos os torções do obstaculo encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas, encontraria a pança e a Durande, e as estrangularia.

Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt tinha-o.

Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, previnir a compressão da onda na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrupção pela introducção, conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquella furia a ser tranquilla. Era preciso substituir ao obstaculo que irrita, o obstaculo que applaca.

Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força, executando uma manobra de camello na montanha ou de macaco na floresta, utilisando com saltos oscilantes e vertiginosos a menor saliencia de pedra, pulando na agua, nadando nos rodomoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martello na mão, desatou o cabo que prendia á pequena Douvre o pedaço da amurada de prôa da Durande, fez com as pontas da maroma uma especie de gonzos prendendo aquelle pedaço de madeira aos grandes pregos mettidos no granito, fez voltar naquelles gonzos aquella armadura de taboas semelhante ao alçapão de um dique, expôl-o em flanco, como se faz com um leme, á onda que impellia, e applicou essa extremidade á grande Douvre, emquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande Douvre, por meio de prégos, postos do antemão, a mesma fixação que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte n'uma couraça, e em menos de uma hora, levantou-se o obstaculo contra a maré, e a viella do escolho ficou fechada como por uma porta.

Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de pé era uma parede, foi, com auxilio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quasi que a cousa foi feita antes que o mar se apercebesse disso.

Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que elle dirigia á vaga do mar, cada vez que esquivava um naufragio: Apanhei-te, inglez! Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o oceano chamava-o inglez.

Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da pança. Dividio o cabo nas duas ancoras para que ella podesse subir com a maré. Operação analoga a que os antigos maritimos chamavam: mouiller avec des embossures.

Em tudo isto Gilliatt não foi sorprehendido, o caso estava previsto; um homem do officio reconhecel-o-hia vendo as duas roldanas de guindar mettidas por traz da pança, nas quaes passavam dous pequenos cabos cujas pontas estavam presas ás argolas das duas ancoras.

Entretanto crescia a maré; já subira metade; é nesse momento que os choques das ondas, mesmo placidos, podem ser rudes. O que Gilliatt combinára realisou-se. A onda rolava violentamente para a porta, encontrava-a, inchava epassava por cima. Fóra era o marulho. Dentro a infiltração. Gilliatt imaginou alguma cousa semelhante ás forcas caudinas do mar. A maré estava vencida.


[VIII]

MAIS PERIPECIA QUE DESENLACE

Chegára o tremendo instante.

Tratava-se agora de pôr a machina na pança.

Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovello do braço esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda.

Depois subio á Durande cuja metade, que era a machina, devia sahir e cujo casco devia ficar.

Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda bastou-lhe a faca.

As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.

Do navio subio elle ao apparelho que construira, bateu com o pé em todas as pranchas, examinou as roldanas, vio as polés, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame não estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das peças sobre o tombadilho, tomou posição, ao pé do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.

Grave, sentindo sómente a commoção util, lançou um ultimo olhar ao apparelho, depois tomou uma lima e pôz-se a cortar a corrente que sustentava tudo.

Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmurio do mar.

A corrente do cabrestante presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da mão de Gilliatt.

De repente houve um estalo. A argola que a lima cortava, já limada por metade, tinha-se quebrado; todo o apparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.

A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retezaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abrio-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da machina, pesando sobre os cabos, appareceu debaixo da quilha.

Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua mão terrivel estava lá; foi apenas uma descida.

Quando o irmão de Jean Bart, Pieter Bart, aquelle bebado possante e sagaz, aquelle pobre pescador de Dunkerque que tratava o grande almirante por tu, salvou a galera Langeron perdida na bahia de Ambleteuse, quando para tirar aquella pesada massa fluctuante dos cachopos da bahia furiosa amarrou a vella grande com juncos marinhos, quando elle quiz que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vella ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fractura da corrente, e foi a mesma estranha audacia coroada pela mesma victoria surprehendente.

A corda motora segura por Gilliatt operou admiravelmente. Devem lembrar-se que essa corda tinha por fim diminuir as forças convertidas em uma só e reduzidas a um movimento de conjuncto. Aquella corda tinha alguma relação com uma bolina; sómente em vez de onentar uma vela, equilibrava um machinismo.

Gilliatt de pé, e com a mão no cabrestante, tinha por assim dizer a mão no pulso do aparelho.

Aqui a invenção de Gilliatt, manifestou-se toda.

Produzio-se uma notavel coincidencia de forças.

Emquanto a machina da Durande, separada em massa, descia para a pança, a pança subia para a machina. O navio naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se. Poupavam-se deste modo metade do trabalho.

A maré enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarcação e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do machinismo.

A vaga subindo, levantava a pança sem choque, brandamente, quasi com precaução e como se ella fosse de porcellana.

Gilliatt, combinava e proporcionava os dous trabalhos, o da agua e o do apparelho, e, immovel no cabrestante, especie de estatua temivel obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentidão da descida pela lentidão da subida.

Nenhum abalo na agua, nenhum balanço nas pranchas. Era uma estranha collaboração de todas as forças naturaes dominadas. De um lado a gravitação levava a machina; do outro a maré trazia o barco. A attracção dos astros, que é o flux, e a attracção do globo, que é a gravidade, pareciam harmonisar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinação, não tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão de uma alma, aquellas duas potencias passivas, tornavam-se activos auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervallo entre a pança e a Duraude diminuia insensivelmente. Fazia-se a aproximação em silencio e com uma especie de terror pelo homem que estava alli. O elemento recebia uma ordem e executava-a.

Quasi no momento em que a maré cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem commoção; as roldanas pararam. A machina, como se fosse collocada á mão assentou-se no fundo da pança. Estava direita, de pé, immovel, solida. A placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro angulos e aprumo no porão.

Estava prompto.

Gilliatt olhou attonito.

A pobre creatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentio o alquebramento de uma immensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triumpho, elle que não se perturbara até então, começou a tremer.

Contemplou a pança debaixo do navio e a machina dentro da pança. Parecia não acreditar. Dissera-se que elle não contava com aquillo. Sahira-lhe um prodigio das mãos, e elle contemplava-o com espanto.

Mas esse espanto durou pouco.

Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da pança apenas uns dez pés, deu um salto, cahio dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão, e prendeu por ambos os lados da pança, as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na amurada da Durande.

Amarrado o cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da machina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda alli estava preso. Gilliatt, despregou-o e limpou a pança daquella porção de taboas e vergas que atirou sobre os rochedos. Util allivio.

Demais, como é de prever a pança sustentou com firmeza a carga da machina. Mergulhou muito pouca cousa. A machina da Durande, embora massiça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazidos outrora de Herm pela pança.

Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.


[IX]

INTERROMPE-SE O EXITO

Nem tudo estava acabado.

Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da amurada da Durande, e levar immediatamente a pança para fóra do escolho, nada mais claro do que isto.

No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bella tarde promettia uma bella noite. O mar era de rosas, mas o reflux começava; excellente momento para partir. Gilliatt teria a vasanto para sahir das Douvres, e a enchente para entrar era Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.

Mas apresentou-se um obstaculo inesperado, Houve uma lacuna na providencia de Gilliatt.

A machina estava livre, o cano estava preso.

A maré approximando a pança da Durande, tinha diminuido os perigos da descida; mas essa diminuição de intervallo deixou a parte superior do cano mettida na especie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.

O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação. Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.

É verdade que aquillo que a enchente fizera, ia desfazel-o a vasante.

O cano, tendo mais de tres toezas de altura, tinha uns oito pés mettidos na Durande; o nivel d'agua abi baixaria doze pés; o cano descendo com a pança, teria quatro pés de espaço acima de si, e poderia sahir.

Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.

D'ahi a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sahir áquella hora, que canal tomaria atravez daquelles cachopos, já tão inextrincaveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?

Era força esperar até o dia seguinte. Aquellas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.

Era mesmo necessario não adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso até a maré proxima.

Gilliatt devia repousar.

Cruzar os braços, era a unica cousa que elle não tinha feito desde que estava no escolho Douvres.

Irritou-o, indignou-o quasi, como se fosse culpa delle, aquelle descanso. Disse comsigo: Que pensaria de mim Deruchette se me visse aqui sem fazer nada?

Comtudo não lhe era inutil refazer as forças.

Estando a pança á sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite á bordo.

Foi buscar a pelle de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou tres castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os ultimos goles da agua doce do pichel quasi vasio, embrulhou-se na pelle cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da machina, abaixou o chapéo sobre os olhos e adormeceu.

Dormio profundamente. Tem-se daquelles somnos depois das obras acabadas.


[X]

AS ADVERTENCIAS DO MAR

No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.

Abrio os olhos.

As Douvres, acima da cabeça delle, estavam illuminadas como pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.

D'onde vinha o fogo?

Da agua.

O mar estava extraordinario.

Parecia que a agua incendiava-se. Aonde os olhos alcançavam, no escolho e fora do escolho, flammejava o oceano. Não era uma flamma vermelha; não se parecia com a grande flamma viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruido. Rastilhos azulados imitavam n'agua as dobras de uma mortalha. Um grande clarão livido, estremecia n'agua. Não era incendio; era o espectro delle.

Era uma cousa semelhante ao abrazamento livido do interior de um sepulchro por uma chamma ideal.

Imaginai trevas accesas.

A noite, a vasta noite turva e diffusa, parecia ser um combustivel daquelle fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquella luz phantasma.

Os marinheiros da Mancha, conhecem todas essas indescriptiveis phosphorescencias, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais surprehendentes, do que no Grande V, perto de Isigny.

Diante desta luz as cousas perdem a realidade. Uma penetração phantastica toma-as como que transparentes. Os rochedos são apenas lineamentos. Os cabos das ancoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo d'agua. Metade do remo é de ebano, a outra metade debaixo d'agua é de prata. Os pingos d'agua que cahem dos remos fazem estrellas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sahe calçada de chamma: é uma chamma morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vê-se as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas. A espuma scintilla. Os peixes são linguas de fogo, e uns pedaços de relampago serpenteam n'aquella pallida profundidade.

Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as palpebras fechadas.

Acordou a tempo.

A maré tinha descido; começava a encher de novo.

O cano da machina, solto durante o somno de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.

Subia lentamente.

Mais palmo e meio e o cano estaria dentro da Durande.

Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt se quizesse aproveitar a occasião tinha essa meia hora diante de si.

Levantou-se sobresaltado.

Por mais urgente que fosse a situação, elle não pôde deixar de ficar alguns instantes de pé, contemplando a phosphorescencia e meditando.

Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por elle, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt. Aquelle ente mysterioso que se chama oceano, não podia ter nenhuma idéa que Gilliatt não a adevinhasse. Gilliatt, á força de observação, de scisma e de solidão, tornára-se um vidente do tempo, aquillo que se chama em inglez um wheater wise.

Gilliatt correu ás amarras e guindou-as; depois já não estando retido pelas ancoras, travou do croque da pança, e apoiando-se nas rochas affastou-a para fóra algumas braças distante da Durande perto do tapamento de taboas. Havia rang, como dizem os maritimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a pança estava fóra do casco. Já não havia receio de que o cano podesse ficar preso.

Entretanto Gilliatt, não se mostrava disposto a partir.

Contemplou ainda a phosphorescencia e levantou as ancoras; mas não era para navegar, era para ancorar de novo a pança, e muito solidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.

Até então só tinha usado das duas ancoras da pança, e não tinha ainda empregado a pequena ancora da Durande, achada como se sabe nos cachopos. Essa collocou-a elle, prompta para as urgencias, num canto da pança entre maromas e polés, e juntamente o cabo guarnecido de boças. Gilliatt deitou ao mar essa terceira ancora tendo cuidado de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da ancora ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a pança com tres ancoras o que era mui forte. Indicava isto uma viva preoccupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria nessa operação, alguma cousa semelhante a um deitar ferros obrigado, quando ha a receiar uma corrente que possa fazer garrar o navio.

A phosphorescencia sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos, ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo servia-o. Se não fosse ella, Gilliatt era prisioneiro do somno e victima da morte. Ella não só o dispertou, senão que o alumiava tambem.

Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe util porque tornou-lhe o perigo visivel e a manobra possivel.

Agora quando Gilliatt quizesse abrir vella, a pança, carregando a machina, estava livre.

Sómente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a pança, foi elle buscar a mais forte corrente que tinha no deposito e prendeu-a nos pregos mettidos nas duas Douvres, fortificou com ella o baluarte de vergas e barrotes já protegido pela lado de fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.

A phosphorescencia ainda illuminava, mais ia diminuindo. É verdade que o dia começava a romper.

De repente Gilliatt prestou ouvidos.


[XI]

PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA

Pareceu-lhe ouvir, immensamente longe, um quê fraco e indistincto.

As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.

Gilliatt attentou pela segunda vez. O rumor longiquo recomeçou. Gilliatt sacudio a cabeia como quem sabia o que era.

Momentos depois, estava elle na outra extremidade da viella do escolho, na entrada de leste, livre até alli, e com grandes martelladas, metteu grossos prégos no granito dos portaes daquella abertura visinha do rochedo Homem.

Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quasi tudo carvalho. O escolho desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pôde metter ahi mais pregos ainda que no esvasamento das Douvres.

N'um momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a phosphorescencia apagou-se; o crepusculo, cada vez mais luminoso, substituia-a.

Mettidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrahir um momento, começou a construir na abertura do Homem, com taboas fixadas horisontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de claraboia, que a sciencia já adoptou, e qualifica de quebra-mar.

Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Boury-d'eau em França, o effeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo, comprehendem a força desses trabalhos simplices. O quebra-mar é a combinação daquillo que em França se chama epi, e daquillo que na Inglaterra se chama dick. O quebra-mar são os cavallos de frisa das fortificações contra as tempestades. Não se póde lutar contra o mar senão aproveitando a divisibilidade dessa força.

Entretanto levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.

Gilliatt apressava o trabalho. Tambem elle estava calmo, mas na sua pressa havia anciedade.

Passava, em grandes pulos de rocha em rocha, do tapamento ao deposito e do deposito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se então a necessidade daquelle deposito de destroços. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade prevista.

Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.

O trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um crescimento que uma construcção. Quem não vio trabalhar um postageiro militar não póde fazer idéa daquella rapidez.

A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha apenas cinco ou seis pés de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e fechar, a armadura seria mais solida e podia ser mais simples. Bastavam pois vigas horisontaes; as peças verticaes eram inuteis.

Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.

O rugido tornava-se expressivo.

Gilliatt continuou a construcção. Accrescentou-lhe dous cepos da Durande ligados ás pontas das vigas com adrissas passadas nas tres rodas das polés. Ligou tudo com correntes.

Essa construcção era nada menos que uma especie de grade collossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.

Parecia entrançado como parecia construido.

Gilliatt multiplicou os laços e pôz mais prégos onde era preciso.

Tendo muito ferro redondo na Durande, pôde fazer uma grande provisão desses pregos.

Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando biscouto. Tinha sede, mas não podia beber, por já não ter agua doce. Esgotára o pichel na noite anterior.

Accrescentou ainda quatro ou cinco taboas, depois trepou em cima de tudo. Escutou.

Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.

O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigaes que lhe dirigem os burguezes quando estão contentes com elle,—um espelho,—um mar de rosas,—um tanque,—um mar de leite.—O azul profundo do céo correspondia ao verde profundo do oceano. Aquella saphira e aquella esmeralda podiam admirar-se ambas. Não tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma em baixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o sol de Abril. Era impossivel ver mais bello dia.

No extremo horisonte uma fila negra de aves de arribação atravessava o céo. Iam depressa. Dirigiam-se para a terra. Parecia uma fuga.

Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.

Levantou-o o mais que pôde, tão alto como lhe permittio a curvatura dos rochedos.

Ao meio-dia o sol pareceu-lhe mais quente do que devia estar. Meio-dia é a hora critica do dia. Gilliatt, de pé na robusta clara-boia que acabava de construir, entrou a contemplar a extensão.

O mar estava mais que tranquillo, estava estagnado. Não se via uma vela. O céo estava limpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horisonte, a oeste, havia uma manchasinha de apparencia ruim. Essa mancha estava immovel, mas crescia. Junto dos cachopos o mar palpitava brandamente.

Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.

Approximava-se uma tempestade.

O abysmo resolvera dar batalha.

FIM DO 2° VOLUME.