O VIGARIO DAS DORES
O vigario da villa das Dôres do Rio-Verde, vulgarmente chamada villa das Aboboras, na provincia de Goyaz, era um padre respeitado e que gozava da estima e da consideração de todos os seus freguezes.
Passava por ser homem de muitas letras, e raramente era visto sem ter entre mãos um livro que ora lia com attenção, ora parecia provocar-lhe longas e sérias meditações.
N’essas occasiões, quasi sempre á tarde, passeava o padre Monte—assim se chamava elle—no adro da modesta igrejinha que serve de matriz á villa, e que se projecta no azul do céo, pois o sagrado edificio fica no alto de uma collina, a cuja fralda se estendem as casas da povoação.
—Ahi está o nosso vigario pensando em Deus, dizião as mulheres, seguindo com os olhos o clérigo em seu limitado passeio quanto lhes permittia o pallôr do crespusculo.
Elle chegára de pouco á villa e apezar da physionomia melancolica e quasi sombria havia logo colhido as affeições geraes pela doçura de trato e amenidade de palavra. Era homem alto, pallido de rosto, com olhar vivo e expressivo e testa larga abrindo em calva.
Teria quando muito trinta e tres annos, mas rugas prematuras havião lhe já impresso na fronte os sulcos da preoccupação e do soffrimento interno. Fôra educado em S. Paulo pela caridade de uns padres, por isso que, reduzido pela orphandade á mais completa miseria, nunca tivéra amparo de paes ou de parente algum.
Quando concluio o seu curso de latinidade e francez, abraçou, por gratidão áquelles que o havião socorrido e por não ter outra vida que seguir, a carreira ecclesiastica e sem commoção alguma achou-se de ordens tomadas.
Sentira gosto pelo estudo e, manuseando sempre os seus livros classicos ou theologicos e cumprindo regularmente com os deveres de sua profissão passou alguns annos sem dar motivo algum para que os seus protectores se arrependessem do diminuto apoio que lhe havião dispensado.
Coadjutor de uma das igrejas parochiaes de S. Paulo, ganhava bastante para cobrir os reduzidos gastos que comsigo fazia, recusando com modestia e naturalidade de seus proventos tudo quanto podesse sahir do bolsinho dos pobres.
Sempre prompto para acudir ás necessidades espirituaes de quem o procurasse, era o padre Monte um bello modelo de virtude christã. O seu espirito benevolo não admittia exagerações em materia religiosa, mas a pratica de uma vida sã desafiava a qualquer que tentasse apontal-o como desprezador dos mais insignificantes preceitos do ritual.
Entretanto, ao passo que todos lhe pagavão o maior tributo de veneração, havia alguem que conhecia uma falha profunda naquelle caracter honesto e amigo do dever.
Era elle mesmo.
O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que praticava o bem com satisfação e alegria; conhecia a nobreza natural de seus sentimentos; repellia o mal, como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa que elle suppunha necessaria para bem cumprir com a missão que as circumstancias, mais do que a vontade, lhe havião imposto.
Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da missa, não era obrigado a fazer um esforço sobre si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e retel-a, sobre os versiculos que os labios ião machinalmente recitando? Quantas vezes não sentio elle frôxos os braços, quando erguia a hostia divina ou o calix que ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza... Faltavão-lhes aquellas fibras que irradiadas do coração estremecem ao impulso gigante da fé.
O padre Monte procurava debalde conforto na oração, no estudo e na meditação dos textos sagrados.
O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito a duvida, tunica tremenda, cilicio de dôres que lhe constringião o peito a tirar-lhe o folego.
Então de seus olhos rompião lagrimas ardentes, e só no somno—o grande procrastinador do soffrimento—é que achava refugio.
Não houve uma unica d’essas occasiões, em que na sua mente se reproduzião os tormentos de Santo Antonio e S. Jeronymo no fundo da Thebaida, que lhe podesse lembrar uma victoria completa sobre si, e lhe proporcionasse d’essas alegrias immensas que cercão os triumphos completos.
Havia no imo do seu peito como que uma recordação vaga do mundo que elle não conhecia, como que um desgosto em vêr-se arredado de prazeres inebriantes e idéados, uma aspiração inquieta, uns fermentos de revolta.
Odiando a hypocrisia, fugindo da dissimulação, recebia o padre Monte as homenagens á sua virtude como outros tantos sarcasmos, castigo cruel para a sua alma indomada senão indomavel.
N’essa disposição de espirito, facil era vêr em tudo o peccado, odial-o em cada passo da vida e, abrindo lucta com elle, não sahir sempre vencedor.
D’ahi terrores sem fim, macerações, lagrimas: d’ahi incerteza do futuro e pavor.
O padre Monte quizéra ser o clerigo que a sua consciencia lhe retratava; era tão sómente aquelle que pautava o seu procedimento pelas restrictas regras que devêra seguir, e assim mesmo quanto já se distinguia d’entre os seus companheiros, quanto subira no conceito dos outros, da população e de seus superiores!...
Um dia elle suppôz-se perdido e durante algumas horas arrependeo-se profunda e amargamente de não haver consultado o coração e as forças antes de se alistar na milicia de Deos.
Foi com a vista de uma mulher.
Estava elle dizendo missa com a severidade habitual e até n’aquelle dia não fôra assaltado das criminosas distracções. Ao voltar-se, porém, no altar para abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido por dous olhos cravados n’elle, olhos tão grandes, languidos e cheios de fervor que a vista se lhe turvou. Desde aquelle momento não soube mais o que fazia.
Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração e tropego desceu os degráos do altar. Nem sequer se ajoelhou como despedida ao lugar em que havia sacrificado; nem sequer podia orar para affastar do espirito vacillante aquella fascinadora visão.
Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao adro da igreja.
Levantava-se então a possuidora daquelles olhos perigosos.
Era uma d’essas infelizes que desfolhão as corollas de sua belleza ao sopro gélido da prostituição.
O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror. Pedio logo confissão a um velho sacerdote e aos pés d’elle abrio o coração macerado.
Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou os padecimentos de sua alma timorata; as duvidas que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que travára com a vacillação; o desejo ardente de crença, de fé viva, de convicção, e desfeito em lagrimas revelou a sua ultima e grave macula, que parecia aos seus olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o, tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia fugir.
A querer dar consolo áquelle espirito malferido e podel-o fortificar, fôra necessario se identificar com elle para então de sangue frio arcar com cada um de seus terrores e em cada angustia levar com delicadeza o balsamo do bom conselho.
O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse tacto, a intuição do argumento amoroso que se insinua e não se impõe. A sua pratica foi dialectica e não convincente; demais elle pareceo não dar a devida importancia a todos aquelles factos intimos, e tratou-os senão como abusões, pelo menos como trerores de uma consciencia exageradamente meticulosa.
O padre Monte levantou-se do confessionario ainda mais afflicto. Passou uma noite horrivel, ora entregue aos remorsos cruentos que a sua imaginação alimentára, ora possuido do influxo demoniaco que lhe soprava ao ouvido o peccado com todos os seus gozos. Então via distinctamente a bella Samaritana cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião com poder sobrenatural.
O seu passado de pureza levantava-se todo para protestar contra essa tentação, mas não havia resistir: todos os musculos de seu corpo estremecião e a mente em fogo parecia um volcão.
Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a noute estava sombria.
O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo em febre.
No momento porém de pôr a mão sobre a chave e empurrar a porta, que para elle ia abrir-se no caminho do crime, sentio as pernas lhe faltarem e cahio desmaiado profundamente no chão da soleira.
Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu anjo da guarda, que já não podia vencer o espirito das trevas.
No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução heroica.
O bispo de Goyaz precisava de um vigario para a parochia das Dôres do Rio Verde, sertão pouco povoado e ao sul daquella provincia tão bem dotada pela natureza, quão mal aproveitada pelos homens.
Elle apresentou-se candidato á vigararia e sem difficuldade a conseguio.
—No deserto, pensava o padre, heide domar esses movimentos revoltos. Ficarei como a rocha que se não vive, pelo menos não sente.
Justamente estava a partir uma tropa carregada de sal com destino á capital de Goyaz. Monte sahio de S. Paulo por uma tarde amena e disse-lhe o adeos ultimo—ultimo tinha elle certeza!—do alto do outeiro de Nossa Senhora do Ó.
Essa capella, motivo das romarias dos devotos, fica a 2 leguas da cidade e assenta n’uma cumiada d’onde se descortinão vastos horisontes. Para o sul avistão-se as torres das igrejas e algum edificio mais elevado da antiga Piratininga; para o norte só se veêm campos accidentados, incultos e que parecem o portico do deserto.
O padre Monte olhou largo tempo para as bandas da cidade, e os seus olhos se arrazarão de lagrimas que ainda cahião como que inconscientes, quando elle ha muito caminhava pela estrada larga e barrenta que leva a Campinas.
A viagem pelas provincias de S. Paulo, pelo canto occidental de Minas e por parte de Goyaz, servio-lhe de agradavel diversão e pouco e pouco foi incutindo em seu espirito uma tranquillidade que desde muitos annos já não conhecia.
As bonitas perspectivas multiplicão-se com uma variedade extraordinaria. Ora é o cerrote de Matto-Grosso d’onde a vista goza uma das mais lindas paisagens, ora são os encantos proprios de cada lugar de pousada. Aqui é o campo das Cruzes, logo ao sahir de Mogiguassú, como que destinado pela natureza para uma gigantesca cidade, tão plano e vasto é elle; alli são as aguas puras e borbulhantes dos ribeirões; mais diante fica a villa da Casa Branca, mimosa e faceira, cercada de grama miuda e sempre verde; durante leguas inteiras é a vista de cerrados ennegrecidos pelo fogo, ou então de campinas desabrigadas mas todas abundantes em corregos encachoeirados e crystallinos.
Como atalaia principal do norte de S. Paulo, alteia-se a cidade da Franca do Imperador, tão celebre outr’or pelos seus crimes e disturbios. O seu aspecto de longe é o mais agradavel possivel, pois corôa a chapada perfeitamente nivelada de uma elevada collina, cujas fraldas vem morrer em campo limpo. A sopé corre um ribeirão, e as casas parecem encravadas em densa matta de laranjaes e bananeiras.
Algumas leguas adiante está o limite de S. Paulo, riscado pelo rio Grande que já ahi vai tomando apparencia do imponente Paraná.
Depois entra-se em Minas-Geraes, no que chamavão sertão da Farinha Podre e que hoje constitue as comarcas do Prata e Paraná: um angulo agudo, cujos lados são os dous rios Grande e Paranahyba. Quasi na linha bissectriz fica a cidade de Uberaba, cheia de altos e baixos, regada, em todos os seus pontos, de agua nunca turvada, a qual brota de um chão ferreo e poroso. Quando as tropas de animaes entrão pela rua Direita, levantão-se então nuvens de pó amarello que se agarra a todos os objectos e dá uma côr nova á camisa já matizada e barrenta do tropeiro.
Depois de Uberaba, muda a apparencia dos campos: a vegetação é outra. Amiudão-se os grupos de magestosos boritys, essas bellas e melancolicas palmeiras que desde então acompanhão o viajante até o fundo de Matto Grosso e só o abandonão na fronteira do Paraguay, palmeiras que, uma vez vistas, não podem ser confundidas com alguma outra e que deixão, no espirito de quem se acostumou a admiral-as, uma verdadeira saudade.
A divisa de Minas Geraes é o rio Paranahyba, que justifica o seu nome indigena—largo e claro.—É largo e claro no estado normal; aguas espraiadas e limpidas; aqui translucidas, alli verdejantes ou azuladas: é immenso e revolto no tempo das enchentes e assoberba as margens que se erguem a muitas braças acima do nivel.
Penetra-se então em Goyaz que de si irradia duas arterias collossaes, o Araguaya e o Tocantins, como se fôra o coração do Brasil; mas coração pelo amor e affeição que dedica á patria commum, pela singeleza de aspirações, pela cordura e sinceridade, não pela força que não tem, nem póde dar ao corpo todo.
A provincia de Goyaz contém em si ouro em profusão, diamantes, pedras preciosas, capazes de offuscar os thesouros da Persia e da India; possue mineraes riquissimos que alimentarião industrias possantes, campos para toda a especie de actividade humana, e entretanto é pobre, é pauperrima, não como o avaro que morre de fome acocorado sobre os seus milhões, mas como essas intelligencias ricas que nada produzem porque para ellas nunca chegou a cultura.
Tudo parece lhe augurar um futuro risonho, mas é só no futuro, e ninguem poderá ainda dizer quando hade raiar o dia em que um começo de realidade possa vir dar mais alento á esperança.
Abençoados aquelles que não desanimão, abençoados porque os seus esforços, quando nada consigão, serão um legado precioso que, augmentado pelos annos, rasgará, por entre todas as difficuldades das distancias, da solidão, da má vontade, do torpor e da descrença, caminho á prosperidade daquellas opulentissimas e incultas zonas!
A provincia de Goyaz parece-se com aquella formosa princeza da fabula que devia dormir seculos inteiros até que do fatidico somno a viessem acordar os emissarios de um genio bondadoso e amigo.
Esses emissarios serão o vapor e a electricidade. O sybilar da locomotiva e a letra telegraphica sacudirão a bella adormecida que poderá de prompto recompensar a quem a chamar á vida com riquezas inestimaveis.
Por emquanto Goyaz desfructa socego não perturbado.
As suas posses são pequenas; nem sequer tira de si com que cobrir as mais urgentes despezas, mas em compensação guarda no intimo esses thesouros de hospitalidade e lhaneza que até no proprio Brasil já vão se tornando raros.
Depois de viagem sempre agradavel mas demorada, o padre Monte chegou á capital da provincia e fez, um mez depois, a sua entrada na villa das Dôres do Rio Verde, tomando logo conta da vigararia.
Nos primeiros dias de installação, passou o tempo em inspecções e passeios. O processo de occupação era breve e limitados os pontos de recreio.
A villa, edificada na primeira dobra de um outeiro em cujo alto está a igreja, consta de uma rua unica e tortuosa, larga aqui, estreita adiante e com casinholas cobertas de sapé de um e de outro lado. Uma unica de telha tem á porta uma taboleta que parecêra gangenta se não cahisse de velha, annunciando ser ahi a camara municipal, mas está tão esburacada e suja que ninguem lhe daria outra denominação que não a de pardieiro.
Estrada para passeio só ha a geral; fita larga barreada ou areenta que vai se desdobrando por sobre campos quasi uniformes em seus accidentes.
Uma vez de posse da choupana que devia lhe servir desde então de morada, e acalmada aquella agitação que acompanha todo o estabelecimento novo, sentio-se o padre Monte tomado de uma immensa melancolia.
Não erão recordações de S. Paulo; elle as tinha pouco agradaveis. Não era a lembrança daquella mulher; os ventos do sertão havião desfolhado uma a uma as paginas do innocente segredo que não lhe sahíra do peito senão para cahir no ouvido do confessor.
Era o sentimento do vacuo, e mais do que isso o peso da vida, de uma vida que lhe parecia sem mira e por demais longa.
Os seus deveres, para assim dizer officiaes, erão os mais restrictos possivel: dizer missa aos domingos, baptisar raras vezes, casar ainda menos, tudo n’uma igrejinha, mais capella do que outra cousa, quasi em ruinas e para cuja reparação não havia dinheiro.
Os habitantes da villa e dos arredores distinguião-se pela amenidade de costumes e uniformidade de habitos; mas, uma vez ouvida a missa do domingo, não se occupavão mais de religião. O pae, o avô, o bisavô, havião ido á igreja no dia do descanso: elles tambem lá ião, tanto mais que era um ponto de reunião para trocarem algumas palavras uns com os outros e assim romper-se a monotonia das semanas.
Um outro sacerdote mais dominador do que o padre Monte, ou mais ambicioso, teria procurado reagir contra essa apathia espiritual, incutindo nos seus freguezes algum fervor, reconstruindo o templo como podesse, fiscalisando os casamentos, provocando-os no seio das familias, chamando promptamente as crianças ao baptismo, fazendo viagens em torno para prégar e avivar a fé, avigorando a vontade dos fracos, quebrando o torpôr moral de todos e impondo-se pela sua exigencia e energia. Se alguma cousa, porém, faltava ao novo vigario era justamente a energia.
Nisso é que está a força dos capuchinhos que percorrem o interior do Brasil: é pela violencia com que sacodem as naturezas apathicas do sertão e actuão sobre as imaginações.
Conscienciosamente o padre Monte tentou fazer alguma cousa naquelle piedoso sentido, mas desanimou logo. Era preciso travar lucta, e elle não tinha bastante firmeza para fallar com efficacia a um povo quasi indifferente á verdadeira doutrina, e entregue ás superstições que abafavão-lhe a religião como a má herva tira o alento e vida á planta benefica, mas descurada.
O vigario teve até medo de que as trevas que o rodeavão e que logo presentio lhe damnificassem o proprio espirito, já por si inerte.
Nas primeiras missas que celebrou procurou na linguagem a mais singela explicar o Evangelho, mas notou no seu auditorio, desacostumado ás praticas, certa sorpreza que com pouco se tornou em desatenção. Ninguem sahio de seu lugar: todos tinhão os olhos postos no pregador, mas não precisava ser observador fino para reconhecer que, se alli estavão corpos, as almas conservavão-se perfeitamente alheias ao que lhes era ensinado.
A palavra do vigario não echoava; não ameaçava; não suscitava remorsos; não penetrava no intimo das consciencias como o ferro do cirurgião na carne viva do paciente; não assoalhava miserias, escandalos e torpezas; não profligava; não mostrava o Creador como um Deos carrancudo e vingador; por isso ninguem o ouvia para estremecer e arrepender-se...
Ah! se fôra um capuchinho italiano que em linguagem virulenta e estropeada estivesse fallando!... Todos ficarião aterrados, cabisbaixos, possuidos de suas palavras e pensos á sua boca cheia de ameaças!...
Mas tambem esse andaria a par das intrigas do povoado, saberia de todos os mexericos para, armado do poder da bisbilhotice, rasgar, como se diz vulgarmente, o capote aos delinquentes ou pelo menos zurzir os peccadores com allusões tão directas a uma determinada pessoa que equivaleria á sua exposição em pelourinho.
Para isso não servia de certo o padre Monte. Além da natural altivez de sentimento que o arredava de intrometter-se no jogo calunioso de aldêa, não poderia nunca, do alto do pulpito, individualisar faltas, para assim grangear a attenção dos que o ouvião e dominar o seu rebanho por meio do terror.
Tambem as suas praticas não erão seguidas senão por consideração á cathegoria official de quem as fazia.
Esta certeza tinha elle.
D’ahi um desanimo immenso e, alguns domingos depois da sua chegada, a cessação completa de explicação do Evangelho no meio da missa. Para desencargo de consciencia elle a fazia antes de começar a celebrar, e notava que só algumas velhas devotas é que o vinhão ouvir, acocoradas em cantos e com ar de estupida contemplação. O resto dos freguezes calculára pouco mais ou menos o momento em que entrava a missa para então ir ter á igreja.
—Fôra preciso, dizia o padre Monte para desculpar-se aos seus proprios olhos, fazer milagres, tocar-se esta gente insensivel pelo sobrenatural e, traspassando a dura epiderme, penetrar com o auxilio do influxo divino até os seus corações.
Não; não era a força thaumamturgica que faltava ao desacoroçoado sacerdote; era a força de vontade, essa alavanca inquebrantavel que produz milagres espantosos.
Entretanto os mezes iam passando e nada perturbava nem podia perturbar a monotonia da vida que se vivia na villa das Aboboras.
O vigario cada vez mais se desapegára das suas ovelhas que, respeitando-o sinceramente, nunca o procuravão comtudo, nem mostravão ter grande necessidade de sua presença.
—O nosso padre é um santo homem, dizião na villa, mas é um exquisitão.
Já dissemos que a igreja domina a povoação e campos vastos em torno.
Quantas vezes ficava o padre Monte olhando vagamente para aquellas extensões, e sem presentir, era sorprehendido pela escuridão! Havia dias em que, á tarde, estudava as gradações de côres que, estendendo-se pela campina alongada, se esbatião umas nas outras até se fundirem todas na luz crepuscular.
E sempre a mesma cousa!
Quando a atmosphera estava nublada pela fumaça das queimadas, então subia de ponto a tristeza do painel. Não havia mais aquelles matizes: o ar incinerado uniformava todos os aspectos, até que de repente cahia a noite.
Com a alma retrahida por um pezar inexplicavel voltava o vigario para a modesta vivenda e á luz de uma vela de sebo lia o seu breviario.
Fóra os grilos chiava estridulos, e os sapos com um coachar sonóro formavam monotona orchestra.
—Estou preenchendo tempo, dizia o padre; a virtude não é a atonia. A virtude é a resistencia ao mal que solicita. Aqui nada me instiga, e não sei desempenhar o meu dever. Sou bom sem merecimento e inutilmente.
Ás vezes uma idéa fixa o atormentava. Se a igreja permitisse ao padre o casamento, não teria elle uma familia regular, em cujo seio se cultivasse o respeito á religião e que serviria de norma para as outras menos bem dotadas de intelligencia e sentimento?
Mas onde estaria então o sacrificio de vida? Justamente naquelles logares, em que o isolamento faz medrar com tanta força o egoismo, maior seria o abandono dos interesses de todos em prol da commodidade da familia. Elle não seria mais do que um funccionario publico que teria um subsidio mensal para cumprir um determinado exercicio.
Haveria talvez no sertão mais uma familia feliz, mas o padre desappareceria. O pastor teria que obedecer á imposição da natureza, olhando mais para umas ovelhas do que para todo o resto do rebanho.
Muito não fazia elle, mas pelo menos essa mesma agitação, esse desgosto intimo servião-lhe de castigo moral pelo pouco que conseguia.
Se isso, com effeito, podia desculpar as falhas de caracter do padre Monte, muito livre de culpa andava elle.
O deserto como que lhe pesava nos hombros, e, sem molestia physica, podia-se o considerar gravemente doente.
Uma nostalgia sui generis o ralava noite e dia.
Os livros que tinha—um Horacio e um Virgilio truncados—os sabia de cór e salteado e nos sermões do padre Antonio Vieira, alguns volumes desirmanados, contára até as letras de cada lauda, o que anotára cuidadosamente no alto das paginas.
Um dia—já fazia anno e meio que chegára ao Rio Verde—teve a velleidade de tratar da sua remoção para outra parochia.
Esta intenção o animou por algumas horas, mas logo depois veio a reacção.
Para que?
Não havia elle já quasi revestido aquella couraça de torpôr que impedira o choque da duvida, obstára á invasão talvez da descrença? Não havia conseguido o arrefecimento daquella ebulição de espirito, que tanto o assustára outr’ora?
Em lugar de pedir transferencia, escreveu para Goyaz, remettendo a relação de uns livros que o seu correspondente deveria mandar comprar no Rio de Janeiro.
Nunca lh’os enviarão; entretanto esperar por elles tornou-se para o bom do vigario uma causa de distracção.
Cada carta que recebia—e raras erão as cartas—parecia dever-lhe trazer a noticia da proxima chegada de sua encommenda, mas se é difficil levar livros á Goyaz, quanto mais á villa das Dôres do Rio Verde!
O acaso proporcionou-lhe, o mais inopinadamente possivel, a satisfação de seu innocente desejo.
Um tropeiro, vindo de Cuyabá, foi procura-lo.
—Senhor vigario, disse-lhe o homem tirando a meio o chapéo e coçando a gaforina, saberá Vossa Senhoria que tenho na minha carga uns dous pacótes que deviam ter ficado na mão de um sujeito de Cuyabá. Não achei na cidade o cujo e não tendo onde deixa-los, vim os trazendo até acá. Mas o trem peza e fiz tenção de pincha-los na beiradinha da estrada, se alguem não quizer ficar com eles...
—Mas, filho, retorquiu o padre, que fim levou o senhor que devia receber essa carga?
—Uns me contaram que voltou para a côrte do Rio de Janeiro, nhor-sim, outros que morreu.
—E o que contem as taes caixas?
—Parece que são livros da gente ler... eu cá não sei com segurança.
O vigário corou de emoção e com alguma pressa disse:
—Pois bem, pois bem, traga... eu os guardarei... E depois, como que fazendo um esforço penoso:
—Mas não será melhor que você faça a entrega a quem enviou a encommenda?
—Nhôr-não. Em Sant’Ana do Paranahyba recebi a carga que vinha de Uberaba trazida por um tropeiro; ansim ninguem poderá acertar d’onde sahiu da primeira vez.
—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio, eu acommodarei aqueles caixotes e escreverei para Goyaz, afim que se annuncie no Correio Official o que acontece.
—Isto fica a seu cuidado.
Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que faziam a carga de um animal. Por cima delles estava escripto a palavra livros, com endereço a um senhor Estulano da Silva, em Cuyabá.
—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes no chão, que Vossa Senhoria mande abrir este trem. O cupim póde ter dado nelle: dizem que é muito caroavel do papel escrevinhado na machina. Eu não entendo disso.
O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto. Praticando assim, suppunha mais desculpaveis os projectos que intimamente affagava.
Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto a contemplar aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem poderia pensar. Abri-los ou não, tal era o problema que se agitava em sua mente, ponto controverso discutido no fôro da consciencia com mais minucia e argumentos pró e contra, do que qualquer questão theologica nas luctas da escolástica.
Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos caixotes enigmaticos com o queixo apoiado em uma das mãos, quando viu de dentro de um delles sahir... um cupim!
Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um tèrmes causou tanto abalo.
O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação que pouco e pouco foi se transmudando em quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o argumento Achilles, uma razão irrespondivel para quanto antes levantar os sellos que guardavam o deposito e salval-o de perda infallivel.
No momento do vigario dar a primeira martellada para despregar o tampo do caixote, um pensamento sombrio turvou-lhe as vistas. E se os cupins houvessem já tudo devorado!
Em fim saltáram os prégos e patenteou-se aos olhos maravilhados do padre uma boa porção de livros, uns grossos, outros finos, uns encadernados, outros em brochura.
Sem querer ainda ver os titulos, foi os tirando amorosamente e, com verdadeiros affagos, levando-os para cima de uma mesa, onde os collocou verticalmente.
Estavão intactos do bicho. Aquelle cupim viéra, sem duvida alguma, proceder a um simples reconhecimento e providencialmente servira para acabar com as dolorosas vacillações do vigario.
Foi só á tarde, depois de ter jantado com mais appetite do que nunca, que o padre Monte passou revista ás obras. Havia dous volumes grossos: D. Quixote de la Mancha, em francez; os Tres Mosqueteiros de Alexandre Dumas em portuguez; varios folhetos, uma historia das Missões na India e China, e Os Novissimos do homem de S. Francisco de Salles.
Apezar de alguma difficuldade em comprehender a principio correntemente o francez, naquella mesma noite ficou encetada a obra prima de Cervantes.
O padre Monte nunca havia lido romances; por isso semelhante livro lhe pareceu extraordinario. Aquelles episodios multiplos e tão variados quão curiosos, aquelle estylo simples mas valente, aquelles typos de D. Quixote e de Sancho, tão ridiculos na apparencia mas tão philosophicos e profundos na essencia, tudo o encantava, tudo o sorprehendia, o enlevava de um modo desconhecido.
Se lhe houvessem dado a lampada de Aladino, nunca mais bellos thesouros lhe terião deslumbrado as vistas.
E a alegria franca que elle sentia, as gargalhadas sonoras que echoavão no seu quarto, deshabituado de semelhantes expansões!
O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava o conceito de Philippe IV.
Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre! Pela magia de sua penna, quantos ainda poderão sorrir, quantos por momentos esquecérão as preocupações e os desgostos que os assaltavão!
O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra por letra, para assim dizer. Fez como o gastronomo que beberrica um saboroso liquor e na lentidão com que o sorve, maior aroma e vigor n’elle descobre.
D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro inseparavel durante os passeios; o consolador daquellas afflicções d’outr’ora quando por acaso querião voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia da solidão.
Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do destemido Mosqueteiro.
Esse livro, o padre Monte leu n’um apice, arrastado pela imaginação cambiante de Dumas e devorou paginas com tanta precipitação que era ás vezes obrigado a tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa.
Um acontecimento imprevisto veiu interromper aquellas leituras.
O vigario cahiu gravemente doente.
Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa. Voltou com a cabeça em fogo e, durante a noite inteira ardeu em febre intensa. Esmagado no leito por um quebrantamento geral e abrazado em sede, não teve nem sequer forças para se arrastar a buscar a bilha d’agua, de modo que supportou o tormento feroz de Tantalo, até que pela manhã, penetrando o seu sacristão no quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados.
Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado e tão nullo que o seu auxilio de nada valia para o enfermo.
O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns dias.
Apezar de visitado por todos os moradores da villa, pode se dizer que estava em abandono. Á noite quando não delirava, tinha uma obsessão atroz.
Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito, contemplava-o cara a cara: e um silencio lugubre reinava por toda a parte, ao passo que a véla de cebo consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada no azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada.
N’essas occasiões o vigario sentia frio no coração.
De que modo iria elle comparecer perante o Eterno Julgador? Que acto de sua vida apresentaria para contrapôr a todas as suas vacillações, a todas as falhas de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios havião tumultuado em seu espirito?
Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento completo! Então a sua vida inutil e mal preenchida, se apagaria como a d’esses animaculos ephemeros, que nascem e morrem sem se saber para o que.
Mas não!
A morte se lhe afigurava como um genio alado, de gesto severo e figura sombria, que só esperava pelo desprendimento da alma para voar adiante d’ella e guial-a pelos espaços do infinito.
Ao longe, muito ao longe, quem sabe onde, via-se um clarão, cuja luz apezar da distancia incommensuravel, não podia ser fitada.
Alli ficava o throno do Senhor e no ether illimitado, indefinido, échoava uma musica suave, mas que abalava a coragem a mais indomita e quebrava-lhe toda a força.
—Que clarão é aquelle? perguntava o vigario á morte.
O silencio é que respondia.
—D’onde partem essas melodias estranhas? indagava elle ainda.
E sempre o silencio.
Voavão, comtudo, sem cessar, á direita e á esquerda, acima, abaixo, por todos os lados, almas e mais almas que subião, subião, umas rapidas e velozes, como anciosas de chegarem e desferindo faiscas de luz, outras pesada e penosamente, deixando após si um sulco escuro, quasi negro.
No fim de muitos dias, o vigario das Dôres como que acordou de um sonno profundo.
Estava salvo!
Uma devota attribuio as melhores a uma mésinha que ella compuzéra com hervas do campo e diariamente fazia quasi á força o doente tomar, mas é de crêr que a natureza, só e unicamente, podia chamar a si a gloria d’aquella resurreição.
Em todo o caso começou uma longa convalescença, durante a qual o padre Monte—quem o disséra!—sentio o prazer ineffavel de voltar á vida.
Esse prazer é predicado da alma, cujas aspirações são sempre para elevar-se. Assim, pois, quando vai-se despenhando o corpo pelo abysmo do aniquilamento e arrastrando-a comsigo, á ella deve de certo ser doce parar de repente e subir tudo quanto acabára de rolar, bem que aggravada do peso do seu envoltorio terrestre.
O dia em que o vigario, com as pernas ainda fracas e as mãos tremulas, poude dizer missa, elle experimentou uma uncção nova, indizivel e como sempre desejára ter sentido.
N’essa disposição foi que começou a lêr as Missões da China e India e os Novissimos do homem de S. Francisco de Salles, livros, cuja leitura fôra adiada para depois de esgotados os romances.
Oh! como elle se retemperou n’aquella singela exposição de sacrificios immensos, modestos, perdidos no meio das selvas e montanhas de paizes desconhecidos! Alli sim, alli havia fé! Erão phalanges de pregadores que deixavão todas as regalias de cidadãos, de homens, davão de mão a toda a possibilidade de gozo, de commodidade, de riquezas e glorias mundanas e uns depois dos outros trabalhavão na obra do Senhor, cheios de ardor e esperanças no resultado que todos os esforços reunidos havião de produzir a final!...
O padre Monte foi se penetrando de uma idéa.
Já que era frôxo e incapaz em bem dirigir o espirito de populações indifferentes, já que não podia avivar n’ellas a fé que havião recebido dos antepassados, e ensinar-lhes a verdadeira doutrina de Christo libertada de todas as superstições e quasi gentillismos com que no sertão a cercão a ignorancia e as tradições oraes, ao menos devia procurar a gente indigena, os filhos das selvas e fallando-lhes em Deus Salvador, abrir os seus corações ao influxo da religião.
Faria como o professor de primeiras letras. Desbastaria a massa bruta. A outros mais valentes na palavra, mais felizes, mais inspirados, mais energicos e bem dotados, competia reanimar o fogo sagrado que as cinzas frias da indifferença havião quasi abafado.
Elle, iria acender esse fogo, sendo a um tempo util á sua consciencia e á patria.
Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para Goyaz pedindo ser encarregado de uma missão entre os indios bravios da provincia.
A resposta foi prompta, e a villa soube que em breve partiria o seu vigario com destino ás margens do Tocantins a cathequisar os selvaticos e indomaveis Canoeiros.
Alguns sentirão devéras a retirada d’aquelle parocho, severo em seus costumes, sério e affavel, mas, força é confessar, em geral houve indifferentismo.
Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que o padre Monte fizéra, mas umas velhas lembráram que elle nunca fôra muito amigo de procissões, que consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não quizéra permittir na casa de um caróla umas festas religiosas e reprehendera severamente o sachristão por haver vendido uns bentinhos de seu louvor.
No dia da partida, pois, quando o padre Monte se despedia de seus freguezes, houve uma só pessoa sinceramente sensibilisada: era elle.
Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo entrega dos livros a um conhecido seu a quem recommendou procurar dar-lhes direcção para o dono, guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros do homem. Mas antes calculára mais ou menos o preço que poderião ter custado e poz no correio uma carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando dentro umas notas do Thesouro.
O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco, o melhor para viajar e chegou com saude ao Vão do Paraná: depois, sem acompanhamento algum, frechou com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam atravessar.
Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de annos, não ha noticia do fim que levou: entretanto não se deve desesperar ver ainda voltar o intrepido missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem vagarião pelas mattas como féras indomadas, fugindo do contacto d’aquelles que hoje são os seus compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como elles, brasileiros.
FIM DO VIGARIO DAS DÔRES