SCENA II
MAGDALENA, TELMO-PAES
*Telmo*, chegando aopé de Magdalena que o não sentiu entrar. A minha senhora está a ler?…
*Magdalena*, despertando. Ah! sois vós, Telmo… Não, ja não leio: ha pouca luz de dia ja; confundia-me a vista.—E é um bonito livro este! o teu valido, aquelle nosso livro, Telmo.
*Telmo*, deitando-lhe os olhos. Oh, oh! Livro para damas—e para cavalleiros… e para todos: um livro que serve para todos; como não ha outro, tirante o respeito devido ao da Palavra de Deus! Mas esse não tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como meu senhor… quero dizer, como o senhor Manuel de Sousa-Coutinho—que lá isso!… acabado escholar é elle. E assim foi seu pae antes d'elle, que muito bem o conheci: grande homem! Muitas lettras e de muito galante prática—e não somenos as outras partes de cavalleiro: uma gravidade!… Ja não ha d'aquella gente.—Mas, minha senhora, isto de a Palavra de Deus estar assim n'outra lingua, n'uma lingua que a gente… que toda a gente não intende!… confesso-vos que aquelle mercador inglez da rua-Nova, que aqui vem ás vezes, tem-me ditto suas cousas que me quadram… E Deus me perdoe! que eu creio que o homem é hereje d'esta seita nova d'Allemanha ou d'Inglaterra. Será?
*Magdalena*. Olhae, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis que desde o tempo que… que…
*Telmo*. Que ja lá vai, que era outro tempo.
*Magdalena*. Pois sim… (suspira) Eu era uma criança; pouco maior era que Maria.
*Telmo*. Não, a senhora D. Maria ja é mais alta.
*Magdalena*. É verdade, tem crescido de mais, e derepente n'estes dois mezes ultimos…
*Telmo*. Então! Tem treze annos feitos, é quasi uma senhora, está uma senhora… (áparte) Uma senhora aquella… pobre menina!
*Magdalena*, com as lagrymas nos olhos. Es muito amigo d'ella, Telmo?
*Telmo*. Se sou! Um anjo como aquelle… uma viveza, um espirito!… e então que coração!
*Magdalena*. Filha da minha alma! (pausa:—mudando de tom) Mas olha, meu Telmo, tórno a dizer-t'o: eu não sei como heide fazer para te dar conselhos. Conheci-te de tam criança, de quando casei a… a… a primeira vez—costumei-me a olhar para ti com tal respeito: ja então eras o que hoje es, o escudeiro valido, o familiar quasi parente, o amigo velho e provado de teus amos.
*Telmo*, internecido. Não digaes mais, senhora, não me lembreis de tudo o que eu era.
*Magdalena*, quasi offendida. Porquê? não es hoje o mesmo, ou mais ainda, se é possivel? Quitaram-te alguma coisa da confiança, do respeito—do amor e carinho a que estava costumado o aio fiel de meu senhor D. João de Portugal, que Deus tenha em glória?
*Telmo*, áparte. Terá…
*Magdalena*. O amigo e camarada antigo de seu pae?
*Telmo*. Não, minha senhora, não, por certo.
*Magdalena*. Então?…
*Telmo*. Nada. Continuae, dizei, minha senhora.
*Magdalena*. Pois está bem.—Digo que mal sei dar-vos conselhos, e não queria dar-vos ordens… Mas, meu amigo, tu tomáste—e com muito gôsto meu e de seu pae, um ascendente no espirito de Maria… tal que não ouve, não cre, não sabe senão o que lhe dizes. Quasi que es tu a sua donna, a sua aia de criação.—Parece-me… eu sei… não falles com ella d'esse modo, n'essas coisas…
*Telmo*. O quê? No que me disse o inglez, sôbre a sagrada Escriptura que elles lá teem em sua lingua, e que?…
*Magdalena*. Sim… n'isso decerto… e em tantas outras coisas tam altas, tam fóra de sua edade, e muitas do seu sexo tambem, que aquella criança está sempre a querer saber, a perguntar.—É a minha unica filha: não tenho… nunca tivemos outra… e, além de tudo o mais, bem ves que não é uma criança… muito… muito forte.
*Telmo*. É… delgadinha, é. Hade inrijar. É tê-la por aqui, fóra d'aquelles ares apestados de Lisboa; e deixae, que se hade pôr outra.
*Magdalena*. Filha do meu coração!
*Telmo*. E do meu.—Pois não se lembra, minha senhora, que ao principio, era uma criança que eu não podia…—é a verdade, não a podia ver: ja sabereis porquê… mas vê-la, era ver… Deus me perdoe!… nem eu sei…—E d'ahi começou-me a crescer, a olhar para mim com aquelles olhos… a fazer-me taes meiguices, e a fazer-se-me um anjo tal de formosura e de bondade, que—vêdes-me aqui agora que lhe quero mais do que seu pae.
*Magdalena*, surrindo. Isso agora!…
*Telmo*. Do que vós.
*Magdalena*, rindo. Ora, meu Telmo!
*Telmo*. Mais, muito mais. E veremos: tenho ca uma coisa que me diz que antes de muito se hade ver quem é que quer mais á nossa menina n'esta casa.
*Magdalena*, assustada. Está bom; não entremos com os teus agouros e prophecias do costume: são sempre de aterrar… Deixemo'-nos de futuros…
*Telmo*. Deixemos, que não são bons.
*Magdalena*. E de passados tambem…
*Telmo*. Tambem.
*Magdalena*. E vamos ao que importa agora.—Maria tem uma comprehensão…
*Telmo*. Comprehende tudo!
*Magdalena*. Mais do que convem.
*Telmo*. Ás vezes.
*Magdalena*. É preciso moderá-la.
*Telmo*. É o que eu faço.
*Magdalena*. Não lhe dizer…
*Telmo*. Não lhe digo nada que não possa, que não deva saber uma donzella honesta e digna de melhor… de melhor.
*Magdalena*. Melhor quê?
*Telmo*. De nascer em melhor estado.—Quizestes ouvi-lo… está ditto.
*Magdalena*. Oh Telmo! Deus te perdoe o mal que me fazes. (Desata a chorar.)
*Telmo*, ajoelhando e beijando-lhe a mão. Senhora… senhora D. Magdalena, minha ama, minha senhora… castigae-me… mandae-me ja castigar, mandae-me cortar ésta lingua pêrra que não toma insino.—Oh senhora, senhora!… é vossa filha, é a filha do senhor Manuel de Sousa-Coutinho, fidalgo de tanto primor, e de tam boa linhagem como os que se teem por melhores n'este reino, em toda Hespanha… A senhora D. Maria… a minha querida D. Maria é sangue de Vilhenas e de Sousas; não precisa mais nada, mais nada, minha senhora, para ser… para ser…
*Magdalena*. Calae-vos, calae-vos, pelas dores de Jesus Christo, homem.
*Telmo*, soluçando. Minha ricca senhora!…
*Magdalena*, inchuga os olhos, e toma uma attitude grave e firme. Levantae-vos, Telmo, e ouvi-me. (Telmo levânta-se) Ouvi-me com attenção. É a primeira e será a última vez que vos fallo d'este modo e em tal assumpto.—Vós fostes o aio e amigo de meu senhor… de meu primeiro marido, o senhor D. João de Portugal; tinheis sido o companheiro de trabalho e de glória de seu illustre pae, aquelle nobre conde de Vimioso, que eu de tamanhinha me acostumei a reverenciar como pae. Entrei depois n'essa familia de tanto respeito; achei-vos parte d'ella, e quasi que vos tomei a mesma amizade que aos outros… chegastes a alcançar um podêr no meu espirito, quasi maior…—decerto, maior—que nenhum d'elles. O que sabeis da vida e do mundo, o que tendes adquirido na conversação dos homens e dos livros—porêm, mais que tudo, o que de vosso coração fui vendo e admirando cada vez mais—me fizeram ter-vos n'uma conta, deixar-vos tomar, intregar-vos eu mesma tal auctoridade n'esta casa e sôbre minha pessoa… que outros poderão estranhar…
*Telmo*. Emendae-o, senhora.
*Magdalena*. Não, Telmo, não preciso nem quero emendá-lo.—Mas agora deixae-me fallar.—Depois que fiquei so, depois d'aquella funesta jornada de Africa que me deixou viuva, orphan e sem ninguem… sem ninguem, e n'uma edade… com dezasette annos!—em vós, Telmo, em vós so, achei o carinho e protecção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me em logar de pae: e eu… salvo n'uma coisa!—tenho sido para vós, tenho-vos obedecido como filha.
*Telmo*. Oh minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos apartastes dos meus conselhos…
*Magdalena*. Para essa houve podêr maior que as minhas fôrças… D. João ficou n'aquella batalha com seu pae, com a flor da nossa gente. (Signal de impaciencia em Telmo) Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memoria, como durante sette annos, incredula a tantas provas e testimunhos de sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia, por todas as sejanas de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de Alarves ahi houve… Cabedaes e valimentos, tudo se impregou; gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castella tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da Redempção, a quanto religioso ou mercador podia penetrar n'aquellas terras, a todos se incommendava o seguir a pista do mais leve indício que podésse desmentir, pôr em dúvida ao menos, aquella notícia que logo viera com as primeiras novas da batalha de Alcacer. Tudo foi inutil; e a ninguem mais ficou resto de dúvida…
*Telmo*. Senão a mim.
*Magdalena*. Dúvida de fiel servidor, esperança de leal amigo, meu bom Telmo! que diz com vosso coração, mas que tem atormentado o meu…—E então sem nenhum fundamento, sem o mais leve indício… Pois dizei-me em consciencia, dizei-m'o de uma vez, claro e desinganado: a que se apéga ésta vossa credulidade de sette… e hoje mais quatorze… vinte e um annos?
*Telmo*, gravemente. Ás palavras, ás formaes palavras d'aquella carta escripta na propria madrugada do dia da batalha, e entregue a Frei Jorge que vo-la trouxe.—«Vivo ou morto»—resava ella—vivo ou morto… Não me esqueceu uma lettra d'aquellas palavras; e eu sei que homem era meu amo para as escrever em vão:—«Vivo ou morto, Magdalena, heide ver-vos pelo menos ainda uma vez n'este mundo.»—Não era assim que dizia?
*Magdalena*, aterrada. Era.
*Telmo*. Vivo não veiu… inda mal!—E morto… a sua alma, a sua figura…
*Magdalena*, possuida de grande terror. Jesus, homem!
*Telmo*. Não vos appareceu, decerto.
*Magdalena*. Não: credo!
*Telmo*, mysterioso. Bem sei que não. Queria-vos muito; e a sua primeira visita, como de razão, seria para minha senhora. Mas não se ia sem apparecer tambem ao seu aio velho.
*Magdalena*. Valha-me Deus, Telmo! Conheço que desarrazoaes, e comtudo as vossas palavras mettem-me um medo… Não me façaes mais desgraçada.
*Telmo*. Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre todos?—Que o pobre de meu amo… respeito, devoção, lealdade, tudo lhe tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois… mas amor!
*Magdalena*. Não está em nós da-lo, nem quitá-lo, amigo.
*Telmo*. Assim é. Mas os ciumes que meu amo não teve nunca—bem sabeis que têmpera d'alma era aquella—tenho-os eu… aqui está a verdade nua e crua… tenho-os eu por elle: não posso, não posso ver… e desejo, quero, forcejo por me acostumar… mas não posso. Manuel de Sousa… o senhor Manuel de Sousa-Coutinho é guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom portuguez… mas—mas não é, nunca hade ser, aquelle espelho de cavallaria e gentilleza, aquella flor dos bons… Ah meu nobre amo, meu sancto amo!
*Magdalena*. Pois sim, tereis razão… tendes razão, será tudo como dizeis. Mas reflecti, que haveis cabedal de intelligencia para muito:—eu resolvi-me por fim a casar com Manuel de Sousa; foi do apprazimento geral de nossas familias, da propria familia de meu primeiro marido, que bem sabeis quanto me estima; vivemos (com affectação) seguros, em paz e felizes… ha quatorze annos. Temos ésta filha, ésta querida Maria que é todo o gôsto e ância da nossa vida. Abençoou-nos Deus na formosura, no ingenho, nos dotes admiraveis d'aquelle anjo… E tu, tu, meu Telmo, que es tam seu, que chegas a pretender ter-lhe mais amor que nós mesmos…
*Telmo*. Não, não tenho!
*Magdalena*. Pois tens: melhor.—E es tu que andas, continuamente e quasi por accinte, a sustentar essa chymera, a levantar esse phantasma, cuja sombra, a mais remota, bastaria para innodoar a pureza d'aquella innocente, para condemnar a eterna deshonra a mãe e a filha… (Telmo dá signaes de grande agitação) Ora dize: ja pensastes bem no mal que estás fazendo?—Eu bem sei que a ninguem n'este mundo, senão a mim, fallas em taes coisas… fallas assim como hoje temos fallado… mas as tuas palavras mysteriosas, as tuas allusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quiz acreditar que morrêsse, por quem ainda espera em sua leal incredulidade!—esses continuos agouros em que andas sempre de uma desgraça que está imminente sôbre a nossa familia… não ves que estás excitando com tudo isso a curiosidade d'aquella criança, aguçando-lhe o espirito—ja tam perspicaz!—a imaginar, a descobrir… quem sabe se a accreditar n'essa prodigiosa desgraça em que tu mesmo… tu mesmo… sim, não cres devéras? Não cres, mas achas não sei que doloroso prazer em ter sempre viva e suspensa essa dúvida fatal. E então considera, ve: se um terror similhante chega a entrar n'aquella alma, quem lh'o hade tirar nunca mais?… O que hade ser d'ella e de nós?—Não a perdes, não a mattas… não me mattas a minha filha?
*Telmo*, em grande agitação durante a falla precedente, fica pensativo e aterrado: falla depois como para si. É verdade que sim! A morte era certa.—E não hade morrer: não, não, não, tres vezes não. (Para Magdalena) Á fe de escudeiro honrado, senhora D. Magdalena, a minha bôcca não se abre mais; e o meu espirito hade… hade fechar-se tambem… (Á parte) Não é possivel, mas eu heide salvar o meu anjo do ceu! (Alto para Magdalena) Está ditto, minha senhora.
*Magdalena*. Ora Deus t'o pague,—Hoje é o último dia de nossa vida que se falla em tal.
*Telmo*. O último.
*Magdalena*. Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (levantando-se) que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (Telmo vae a sahir) E olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis…
*Telmo*. Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!… quatro passadas.
*Magdalena*. E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge-Coutinho, que me está dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou contente com a tardança. (Chega á varanda, e olha para o rio) O ar está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!… quasi que não ha vento, é uma viração que affaga… Oh e quantas faluas navegando tam garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas—n'aquella tam bonita—venha Manuel de Sousa.—Mas n'este tempo não ha que fiar no Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada… e então aqui o pontal de Cacilhas!—Que elle é tam bom mareante… Ora, um cavalleiro de Malta! (olha para o retratto com amor) Não é isso o que me dá maior cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares… E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas, d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.—Vai, vai a Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.