SCENA III

MANUEL DE SOUSA e MARIA

*Manuel*. Ora ouve ca, filha. Tu tens uma grande propensão para achar maravilhas e mysterios nas coisas mais naturaes e singellas. E Deus intregou tudo á nossa razão, menos os segredos de sua natureza ineffavel, os de seu amor, e de sua justiça e misericordia para comnosco. Esses são os pontos sublimes e incomprehensiveis da nossa fe! Esses creem-se: tudo o mais examína-se.—Mas vamos: (surrindo) não dirão que sou da Ordem dos Prégadores? Hade ser d'estas paredes, é uncção da casa: que isto é quasi um convento aqui, Maria… Para frades de San'Domingos não nos falta senão o hábito…

*Maria*. Que não faz o monge…

*Manuel*. Assim é, querida filha! Sem hábito, sem escapulario nem corrêa, por baixo do setim e do velludo, o cilicio póde andar tam appertado sôbre as carnes, o coração tam contricto no peito… a morte—e a vida que vem depois d'ella—tam deante dos olhos sempre, como na cella mais estreita e com o burel mais grosseiro cingido. Mas emfim, chega-te aos bons… sempre é meio caminho andado. Eu estou contentissimo de virmos para ésta casa—quasi que nem ja me pêza da outra. Tenho aqui meu irmão Jorge e todos estes bons padres de San'Domingos como de portas a dentro.—Ainda não viste d'aqui a egreja? (Levanta o reposteiro do fundo, e chegam ambos á tribuna) É uma devota capella ésta. E todo o templo tam grave! dá consolação vê-lo. Deus nos deixe gosar em paz de tam boa visinhança. (Tornam para o meio da casa.)

*Maria*, que parou deante do retratto de D. João de Portugal, vólta-se derepente para o pae. Meu pae, este retratto é parecido?

*Manuel*. Muito; é raro ver tam perfeita similhança: o ar, os ademanes, tudo. O pintor copiou fielmente quanto viu. Mas não podia ver, nem lhe cabiam na télla, as nobres qualidades d'alma, a grandeza e valentia de coração,—e a fortaleza d'aquella vontade serena mais indomavel, que nunca foi vista mudar. Tua mãe ainda hoje estremece so de o ouvir nomear; era um respeito… era quasi um temor sancto que lhe tinha.

*Maria*. E lá ficou n'aquella fatal batalha!…

*Manuel*. Ficou.—Tens muita pena, Maria?

*Maria*. Tenho.

*Manuel*. Mas se elle vivêsse… não existias tu agora, não te tinha eu aqui nos meus braços.

*Maria*, escondendo a cabeça no seio de seu pae. Ai meu pae!