SCENA V

TELMO e o ROMEIRO

*Romeiro*. Que não oiça Deus o teu rôgo!

*Telmo*, sobresaltado. Que voz!—Ah! é o romeiro.—Que me não oiça
Deus! porquê?

*Romeiro*. Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo Filho que criáste?

*Telmo*, áparte. Já não sei pedir senão pela outra. (Alto) E que pedisse por elle, ou por outrem, porque me não hade ouvir Deus, se lhe peço a vida de um innocente?

*Romeiro*. E quem te disse que elle o era?

*Telmo*. Ésta voz… ésta voz!—Romeiro, quem es tu?

*Romeiro*, tirando o chapéu e alevantando o cabello dos olhos.
Ninguem, Telmo, ninguem, se nem ja tu me conheces.

*Telmo*, deitando-se-lhe ás mãos para lh'as beijar. Meu amo, meu senhor… sois vós?—sois, sois.—D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?

*Romeiro*. Teu filho ja não?

*Telmo*. Meu filho!… Oh! é o meu filho todo; a voz, o rosto… Só estas barbas, este cabello não… Mais branco ja que o meu, senhor!

*Romeiro*. São vinte annos de captiveiro e miseria, de saudades, de âncias que por aqui passaram. Para a cabeça bastou uma noite como a que veiu depois da batalha d'Alcacer; a barba, acabaram de a curar o sol da Palestina e as aguas do Jordão.

*Telmo*. Por tam longe andastes?

*Romeiro*. E por tam longe eu morrêra!—Mas não quiz Deus assim.

*Telmo*. Seja feita a sua vontade.

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Oh, senhor!

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Hade-me pezar da vossa vida? (Á parte) Meu Deus! Parece-me que menti…

*Romeiro*. E porque não, se ja me pêza a mim d'ella, se tanto me pêza ella a mim?—Amigo, ouve… Tu es meu amigo?

*Telmo*. Não sou?

*Romeiro*. Es: bem sei. E comtudo, vinte annos d'ausencia, e de conversação de novos amigos, fazem esquecer tanto os velhos!…—Mas tu es meu amigo. E se tu o não fôras, quem o sería?

*Telmo*. Senhor!

*Romeiro*. Eu não quiz acabar com isto, não quiz pôr em effeito a minha última resolução sem fallar comtigo, sem ouvir da tua bôcca…

*Telmo*. O que quereis que vos diga, senhor?—Eu…

*Romeiro*. Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quizeste ceder a nenhuma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas tambem não posso—Deus me ouve—não posso criminar ninguem porque o accreditásse: as provas eram de convencer todo o ânimo; so lhe podia resistir o coração. E aqui… coração que fosse meu… não havia outro.

*Telmo*. Sois injusto.

*Romeiro*. Bem sei o que queres dizer.—E é verdade isso? é verdade que por toda a parte me procuraram, que por toda a parte… ella mandou mensageiros, dinheiro?

*Telmo*. Como é certo estar Deus no ceu, como é verdade ser aquella a mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal.

*Romeiro*. Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desappareceu, que ninguem mais houve novas d'elle; que tudo isto foi vil e grosseiro imbuste dos inimigos de… dos inimigos d'esse homem-que ella ama… E que socegue, que seja feliz.—Telmo, adeus!

*Telmo*. E eu heide mentir, senhor, eu heide renegar de vós, como ruim villão que não sou?

*Romeiro*. Hasde, porque eu te mando.

*Telmo*, em grande anciedade. Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis… D. João, meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis…

*Romeiro*. O quê?

*Telmo*. Que ha aqui um anjo… uma outra filha minha, senhor, que eu também criei…

*Romeiro*. E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.

*Telmo*. Não m'o pergunteis.

*Romeiro*. Nem é preciso. Assim devia de ser. Tambem tu!—Tiraram-me tudo. (Pausa)—E teem um filho elles?…—Eu não…—E mais, imagino… Oh passaram hoje peior noite do que eu. Que lh'o leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei ja.—Telmo, vai fazer o que te mandei.

*Telmo*. Meu Deus, meu Deus! que heide eu fazer?

*Romeiro*. O que te ordena teu amo.—Telmo, dá-me um abraço. (Abraçam-se) Adeus, adeus até…

*Telmo*. Até quando, senhor?

*Romeiro*. Até ao dia de juizo…

*Teimo*. Pois vós?…

*Romeiro*. Eu…—Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê?—D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que elle morrêra. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que elle amava… oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! Sua mulher que elle ja não póde amar sem deshonra e vergonha!… Na hora em que ella accreditou na minha morte, n'essa hora morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não hade deshonrar a sua viuva. Não: vai; ditto por ti terá dobrada fôrça: dize-lhe que fallaste com o romeiro, que o examináste, que o convencêste de falso e de impostor… dize o que quizeres, mas salva-a a ella da vergonha, e ao meu nome da affronta. De mim ja não ha senão esse nome, ainda honrado; a memória d'elle que fique sem mancha.—Está em tuas mãos, Telmo, intrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?

*Telmo*. Não, meu senhor: a resolução é nobre e digna de vós. Mas póde ella approveitar ainda?

*Romeiro*. Porque não?

*Telmo*. Eu sei!—Talvez…