SCENA XI

MAGDALENA, JORGE, MIRANDA

*Miranda*, appressado. Senhora… minha senhora!

*Magdalena*, sobresaltada. Quem vos chamou, que quereis?—Ah! es tu,
Miranda. Como assim! ja chegaram?… Não póde ser.

*Miranda*. Não, minha senhora: ainda agora irão passando o pontal. Mas não é isso…

*Magdalena*. Então que é? Não vos disse eu que não viesseis d'alli antes de os ver chegar?

*Miranda*. Para lá torno já, minha senhora: ha tempo de sobejo.—Mas venho trazer-vos recado… um estranho recado, por minha fe.

*Magdalena*. Dizei ja, que me estaes a assustar.

*Miranda*. Para tanto não é; nem coisa séria, antes quasi para rir. É um pobre velho peregrino, um d'estes romeiros que aqui estão sempre a passar, que veem das bandas d'Hespanha…

*Magdalena*. Um captivo… um remido?

*Miranda*. Não, senhora, não trás a cruz, nem é: é um romeiro—algum d'estes que vão a Sant'Iago: mas diz elle que vem de Roma e dos Sanctos-Logares.

*Magdalena*. Pois, coitado! virá. Agasalhae-o; e deem-lhe o que precisar.

*Miranda*. É que elle diz que vem da Terra-Sancta, e…

*Magdalena*. E porque não virá?—Ide, ide, e fazei-o accommodar ja.—É velho?

*Miranda*. Muito velho e com umas barbas!… Nunca vi tam formosas barbas de velho, e tam alvas.—Mas, senhora, diz elle que vem da Palestina e que vos trás recado…

*Magdalena*. A mim!

*Miranda*. A vós; e que por fôrça vos hade ver e fallar.

*Magdalena*. Ide vê-lo, Frei Jorge. Ingano hade ser: mas ide ver o pobre do velho.

*Miranda*. É escusado, minha senhora: o recado que trás, diz que a outrem o não dará senão a vós, e que muito vos importa sabê-lo.

*Jorge*. Eu sei o que é: alguma reliquia dos Sanctos-Logares—se elle comeffeito de lá vem!—que o bom do velho vos quer dar… como taes coisas se dão a pessoas da vossa qualidade… a trôco de uma esmolla avultada. É o que elle hade querer; é o costume.

*Magdalena*. Pois venha embora o romeiro! E trazei-m'o aqui, trazei.