CANTO PRIMEIRO
Doce mãe do universo, ó Natureza,
Alma origem do ser, germe da vida,
Tu, que matizas de verdor mimoso
Na estação do prazer o monte, o prado,
E á voz fagueira de celeste gôso
De multimodos entes reproduzes
A variada existencia, e lh’a prolongas;
Que, no fluido immenso legislando,
Libras sem conto ponderosos mundos,
Que na ellipse invariavel rotam fixos,
Ó alma do universo, ó Natureza,
Teus sacros penetraes em vôo ardido
Busco, rasgo-lhe o véo, prescruto, e vejo
Insondaveis mysterios: puro, e simples
Nunca ouvidas canções na lyra entôo.
Nua d’enfeites vãos a face amena
Tu volve ao mundo, que te ignora errado.
Qual és, qual foste, qual te apura os mimos
A arte engenhosa, tu lhe amostra e ensina.
Como é dado aos mortaes bellezas tuas
C’o divino pincel, co’as magas tintas
Estremar com primor, colher-lhe o bejo,
Sem donosas ficções meu canto ensine.
Ficções!... E aureas ficções desdenha o sabio?
A douta, a mestra antiguidade o diga.
Não; fabula gentil, volve a meus versos;
Orna-me a lyra c’os festões de rosas,
Que ás margens colhes da Castalia pura:
Flores, que outr’ora de Epicuro ao vate
C’o austero assumpto lhe entrançaste amenas,
Essas no canto me desparze agora.
Venus, Venus gentil! Mais doce, e meigo
Soa este nome, ó Natureza augusta.
Amores, graças, revoae-lhe emtorno,
Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos;
Que inflamma os corações, que as almas rende.
Vem, ó Cypria formosa, oh! vem do Olympo,
Vem c’um mago surrir, c’um terno bejo
Fazer-me vate, endeusar-me a lyra.
E quanto pódes c’um surriso, ó Venus!
Jove, que empunhe o temeroso raio;
Neptuno as ondas tempestuoso agite;
Torvo Sumano desenfreie as furias...
Se dos olhos gentis, dos labios meigos
Desprender um surriso a Idalia deusa,
Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olympo.
Mas quanto é bello, é grato o vencimento,
Se á dor suave do pungir fagueiro,
Da ferida se encontra amigo balsamo,
E nos olhos da linda vencedora
Do ardimento o perdão brando se accolhe!
Tu, Marte, o dize, o Cyprio moço, o Teucro;
E vós, que ousais na terra imitar numes,
Que do summo prazer rompendo arcanos,
N’um momento gosais da eternidade.
Emquanto nas lidadas officinas,
Forjando o raio vingador dos numes,
Vive o coxo marido sem receios,
Ja deslembrado da traidora rede;
Do Cynireo mancebo entre os abraços,
Jaz a espôsa gentil ennamorada.
Nas languidas pupillas lhe transluze
O prazer divinal, que a opprime, e anceia;
Nos inflammados bejos, nas caricias,
No palpitar do seio voluptuoso,
No lascivo apertar dos braços niveos,
Nos olhos, em que a luz quasi se extingue,
Na interrompida voz, que balbucia,
Nos derradeiros ais, que desfalecem...
Quem do prazer não reconhece a deusa
No excesso do prazer quasi espirando?
Surri-lhe ao lado o filho de travesso,
E d’entre o myrtho as candidas pombinhas
C’o estremecido arrulho a dona imitam.
Ah! se o gôsto supremo a um deus não peja,
Porquê mesquinhas leis nos vedam barbaras
Tam suave pecar, doce delicto,
Antes virtude, que natura ensina!
Dest’arte as breves horas decorriam
Aos alheados, férvidos amantes;
E vezes tres rotára o disco argenteo
Trivia gentil, semque no Olympo, ou Lemnos
A espôsa de Vulcano apparecesse.
Ja na etherea mansão vagos juizos
Maliciosos forma a inveja, a intriga;
E surriso maligno ás deusas todas,
Do marido infeliz excita o fado.
Em zelosa vingança affana e freme
O despeitoso Marte; corre, voa,
E em busca da infiel vagueia o mundo.
Coxeando o segue o malfadado espôso,
Dos antigos errores esquecido:
Tal é, paixão zelosa, o teu imperio!
Eis do somno d’amor espavoridos,
Os dous amantes c’o ruido accordam.
De pavor esmorece o joven timido;
Por elle anceia a carinhosa amante,
Descuidosa de si; geme, soluça.
E do amado na dor, sua dor recresce.
Que fará?... vacillante... Adonis... Marte...
O espôso... Ideias, que alma lhe confundem!
Com o amante ficar, morrer com elle?
Defender com seu peito o peito amado?
E salval-o é possivel d’esta sorte?
Deixa-lo?... Fera ideia!... Ir as suspeitas
Dos numes dissipar com sua presença?
Que! deixa-lo! o seu bem! Venus a Adonis!
Tanto não póde a mesma divindade.
Mas este só lhe resta unico meio:
É forçoso: comsigo ao carro o sobe;
Voa a Paphos, e ás Graças lisongeiras
O precioso pinhor saudosa entrega,
Que n’um basto rosal mimoso o guardem,
Velem sempre por elle, té que aos deuses
Se esvaeça o furor. Subito ao Olympo,
Composto o vulto, serenando os olhos,
N’um momento chegou: mago atractivo
Que lhe spira dos labios, das pupillas,
Do todo encantador, odios, suspeitas
Desfaz, esquece em animos divinos:
Tam pouco, ó bellas, persuadir-nos, custa!
Arde voltar ao suspirado asylo;
Mas teme a vejam desconfiados olhos;
E em tanto Adonis geme, e o seu tormento
Mais que o proprio penar lhe punge n’alma.
Disenhos volve... Alfim um lhe suscita
Novo a mente engenhosa: ei-lo abraçado.
Jaz muito alem do tormentorio cabo,
(Sempiterno brasão da Lusa gloria)
Em não sabido mar, jamais sulcado,
Ilha aprazivel, deliciosa, e breve.
A mão dos homens destruidora, e barbara,
Mimos da creação não lhe estragára.
A seu grado crescia o bosque, a selva;
Vecejava sem leis o prado ameno;
D’alvas pedrinhas pelo leito amigo
Se espreguiçava o crystalino arroio,
Sem temer que impia dextra ouse perversa,
No brando curso interromper-lhe as aguas.
Prêsas não gemem fugitivas Nayas,
Nem Dryades gentis feridas choram:
Sem arte a natureza era inda a mesma.
No mais escuro do copado bosque
Ternas suspiram maviosas rôlas;
E em mais alegres sons, prazer mais ledo,
A meiga ave d’amor no arrulho exprime.
Outro vivente algum a aura fagueira
Não ousa respirar. Silencio eterno
Impera na soidão, dobra-lhe encantos.
Tam suave mansão nem mesmo os numes
No ceo conhecem. Da ternura a deusa,
Só Venus sabe do recanto ameno.
Tu, do universo creador principio,
Venus! oh mãe d’amor, oh mãe de tudo!
Que amor é tudo, que só tu com elle,
Ambos creastes e regeis o mundo,
Que a natureza sois, ou ella é vossa:
Cypria, Cypria gentil, pódes acaso
Ignorar uma só das obras tuas?
«Mãe, (lhe diz, entre alegre e malicioso,
Mas compassivo, o filho), «nessa ignota
«Ilha do Indico mar...»—Um doce bejo
O concelho pagou.—Subito parte.
Lá chega; e nova se difunde a vida
Na solitaria estancia; em novos germes
O deleite, o prazer renascem, pulam.
Quam doces d’antemão gosou delicias
A mui fagueira deusa! O sitio ameno
Extasiada contempla. «Oh! quam ditosos
(Clamou) «seremos! Ignorado, occulto,
Ó doce amante, viverás sem medo.
Aqui, no seio da ventura e gôso,
Nos meus braços...» Parou suspensa, e geme:
Cruel lembrança lhe assomou na mente;
Agros deveres, perfidas suspeitas,
Quantas vezes do amante hão de aparta-la!
Suspira: as rosas do prazer se esvaem
Das lindas faces niveas. Pensativa,
Melancolica, e triste... (Eis fausto agouro!)
Estremecido arrulho alvas pombinhas
Deram á sestra mão. Ah! sim: é elle:
Amor, apoz a mãe, veio ajuda-la.
«Filho (co’a voz lhe diz, que impera em Jove,
Que tam suave rege a natureza),
«Tu me feriste; não accuso o golpe:
Amo, adoro esse ferro, que me punge,
Que na chaga, que abriu, doçura entorna;
Só quero, só te peço (que não peja
De implorar-te soccorro a mãe ferida)
Derradeira mercê: oh! deixa um pouco
D’humanos corações facil conquista:
Cesse qualquer amor quando ama Venus.
A culta Europa rapido discorre,
E a progenie d’Apollo, almos, divinos,
Os pintores me traze aqui n’um ponto.
Pasmou c’o rôgo inesperado o numen:
A causa inquire. «Ah! não: (lhe torna a deusa)
Não cumpre ainda revelar-t’a, ó filho;
Cubra o véo do mysterio o doce intento.»
Mal disse: e o raio mais veloz não rue
Da rubra dextra do Tonante irado,
Do que a tuba dos candidos amores
Á voz da deusa fende os ares liquidos.
Quaes voam de Minerva ao sabio clima,
Hoje torpe, e servil c’o bruto imperio:
Quaes á augusta senhora do universo;
Senhora, emquanto Roma era inda Roma:
Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco:
Á formosa Bolonha, á gran Veneza;
Grande emquanto reinou sobre o Oceano:
Quaes á suberba Gallia, á Iberia, a Lysia;
Que de Lysia tambem, tam cara ás musas,
Da poesia a rival, a irman tem filhos.
De toda a parte a obedecer contentes
Correm ao mando de Cyprina bella,
Da natura em despeito, homens creadores,
Prometheus, que á materia informe e bruta
C’o divino pincel dão fórma, e vida;
Erguem da campa gerações extinctas;
Plantam copados, que enfloream, bosques;
Co’a viva historia os homens eternisam;
E, fitando no ceo audazes vistas,
Aos pasmados sentidos apresentam
Visivel, sem rebuço a divindade.
Da fertil em prodigios, d’alta Grecia
O pae d’arte divina, Apelles marcha,
Thimante, Zeuxis, e Parrhasio, e quantos
A culta Grecia, a deliciosa Roma
Famosos produziu em sec’los d’ouro.
Cimabúe famoso apoz caminha,
Que as esfriadas cinzas animando
Do engenho, do talento, o faxo vívido
Fez na Europa brilhar, e abriu de novo
O caminho gentil da natureza
Do barbaro furor fechado, ha muito.
Aos golpes crebros, incessantes, duros
Da ferrea mão do avaro despotismo,
Sem fôrças, sem vigor jazia, ha muito,
A misera Bysancio. Em surda guerra
Fallaz superstição d’infames bonzos,
Fanatismo cruel, bifronte, e iniquo,
Hypocrisia vil, perfida e dobre,
Ruina infausta lhe apressava, e morte.
Ávidos sorvos de Roman cubiça,
Da Latina ambição, riquezas, pompa
Roubado haviam insaciaveis, féros
De Constantino á côrte. Espessa nuvem
De negros vicios, de perversos crimes
Pousou medonha sobre os tristes netos
Degenerados, vis d’um povo illustre.
Crestadas, sêcas pelo sôpro ardente
Da tyrannia atroz definham, morrem
Apesinhadas as virtudes candidas;
Ao cûmulo chegou desdita, opprobrio
Dos fados teus, ó Grecia. Eis ante as portas
Da famosa cidade, audaz, suberbo
Musulmano feroz, Mahomet se ostenta.
Monstros, que o sangue do mesquinho povo
Impios bebestes, ah! tremei, que é elle:
Austero açoite das celestes iras
Sobre vós descarrega a mão divina.
Bonzos, no centro aos claustros profanados
Embalde a frente d’horridas maldades
Carregada escondeis: lá vai, lá chega;
Sobre as aras d’um deus, a um deus, que ousastes,
Incençando-o, offender, lá vos immola.
Artes, sciencias, a guarida extrema,
Perdeste’-a em fim: voltai, fugí; que Hesperia
Os carinhosos braços vos estende.
Ei-las: oh! folga, venturosa Europa.
Lá cai a pouco e pouco em terra o throno
Da barbara ignorancia: as trevas do êrro
Vai accossando da verdade o faxo.
Arte divina, magica pintura,
Foragida tambem, thesouros, mimos
Vens espalhar na mui ditosa Italia.
Italia! oh! folga: Raphaeis ja pulam.
FIM DO CANTO PRIMEIRO